quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Émile Zola- entre a genialidade e a justiça

A fama do escritor francês veio não só de suas obras como também de seu empenho em defender a absolvição de um condenado, desafiando a justiça e a política de sua época.





por Henri Mitterand

Junho de 1908. Os restos mortais de Émile Zola são levados ao Panthéon. Um fanático nacionalista e anti-semita, Gregori, dispara contra o comandante Alfred Dreyfus e o fere no braço. As brasas do caso Dreyfus não estão extintas, os velhos rancores permanecem vivos. Em 29 de setembro de 1902, a morte de Zola, por asfixia em seu apartamento da rue de Bruxelles, fora talvez a conseqüência de um atentado. Três teses se contrapuseram a esse respeito: a da investigação oficial, que concluiu por um acidente, a de uma investigação particular feita em 1952, que apoiou em testemunhos indiretos a hipótese de um ato criminoso, e uma outra, recente, do comissário Marcel Leclère, que se inclinou pela hipótese de uma morte involuntária, resultante de erro. Em 30 de setembro de 1902, La Libre Parole, jornal do líder anti-semita Drumont, dizia na manchete de primeira página que Zola havia sido asfixiado. Alguns choraram, outros aplaudiram. Zola era então, e desde muito tempo, objeto de admirações incondicionais e de ódios irreconciliáveis; literários, morais, políticos. Ele jamais detestou isso.

Émile Zola nasceu em 10 de abril de 1840, no coração de Paris, filho de um engenheiro de origem veneziana, Francesco Zola, e de Emilie Aubert, natural da região da Beauce, 24 anos mais jovem que o marido. François Zola construiu em Aix-en-Provence a barragem e o canal Zola. Morreu em 1847 das seqüelas de um resfriado. Seu filho, órfão aos sete anos, viveu em Aix até perto dos 17, enfrentando dificuldades cada vez maiores, pois a família foi enganada pelos homens que se apoderaram da empresa do canal Zola. É assim que se formam os revoltados. No colégio Bourbon de Aix-en-Provence, ele teve como companheiro mais próximo Paul Cézanne, filho de um banqueiro, que sonhava em pintar com o mesmo ardor com que ele sonhava em escrever. Encontro extraordinário de dois garotos que lançariam por terra todas as convenções da arte. Quando Zola "subiu" para Paris, em fevereiro de 1858, foi um rude golpe em uma amizade que ainda se prolongaria por quase 30 anos.

Aluno do liceu Saint-Louis, ele fracassou no exame de conclusão do ensino médio em 1859. Estava mais interessado no espetáculo da cidade, revirada e reconstruída pelos pedreiros de Haussmann, do que nas aulas. Ele não insistiu. Seguiram-se três anos de vida boêmia nos alojamentos a preço módico da colina Sainte-Geneviève. Zola perambulava, vagava pelos ateliês de pintura na companhia de Cézanne, leu todos os clássicos e todos os românticos e compôs milhares de versos, pois se imaginava poeta. No decorrer do inverno de 1860-1861, teve um relacionamento com uma mulher tão pobre quanto ele. Chamava-se Berthe, é tudo que se sabe a seu respeito. Ela passava de amante em amante, levando ao desespero seu poeta famélico. Eles se separaram. Talvez ela tenha libertado o verdadeiro gênio de Zola, que voltou as costas à elegia romântica e se inscreveu na rude escola do real. Seu primeiro romance, La confession de Claude, em 1865, fez a transposição de sua aventura.


Fim do período boêmio. Em março de 1862, uma recomendação o fez ingressar na Librairie Hachette, famosa editora francesa. Zola agarrou com as duas mãos a chance que passava. Encarregado da publicidade e da distribuição dos livros à imprensa, atendia ao mesmo tempo editores, escritores e jornalistas, o que lhe permitiu organizar rapidamente uma valiosa agenda de endereços. Lendo os autores da Hachette e das outras editoras, educou-se como livre-pensador. Aos 25 anos, crítico literário, cronista e logo crítico de arte, afirmava bem alto sua admiração pelos escritores e artistas que desafiavam o conformismo: os Goncourt, Flaubert, Courbet, Manet. Enquanto todos os críticos oficiais cobriam de injúrias o pintor de Déjeuner sur l'herbe e de Olympia, ele bradou em L' Evénement: "O lugar do sr. Manet é no Louvre!"



Retrato de Zola (Manet)


Seguiram-se alguns anos difíceis. Zola deixou a Hachette, no início de 1866, para viver exclusivamente de sua pena, de um pequeno jornal a outro, produzindo na base de um romance por ano. Ora, o pagamento dos textos era irregular e os romances não davam retorno. Ele tinha a seu encargo a mãe e a mulher, Alexandrine. Felizes os escritores que tinham boas rendas, como Flaubert e os Goncourt. Zola estava o tempo todo contra a parede.

Paradoxalmente, foi o Império que o livrou das dificuldades. Em maio de 1868, Napoleão III liberalizou o regime da imprensa. Os jornais oposicionistas surgiram como cogumelos depois da chuva. Zola ingressou em La Tribune, onde atuou durante dois anos. Por meio de amigos de Victor Hugo, teve abertas as colunas do Rappel, mais ferozmente republicano que La Tribune. A abdicação de Napoleão III o preservou no último instante de uma condenação por estímulo ao menosprezo pelo governo. A propaganda democrática o alimentava, e ele não pedia mais do que isso. Mas o que fazer em uma Paris atacada pelo exército prussiano, durante a Guerra Franco-prussiana (1870-1871)? Em 7 de setembro de 1870, os Zola conseguiram embarcar em um dos últimos trens que deixaram a estação de Lyon. Passariam o fim da guerra em Marselha, onde Zola fundou um jornal hoje desaparecido, La Marseillaise, e depois em Bordeaux, onde ele se fez contratar como cronista parlamentar de La Cloche. Cada vez que, no decorrer desses cinco anos, o solo ameaçava afundar sob ele, Zola retomava pé com uma rara habilidade tática e com um desprezo crescente pelo pessoal político.

Uma ferida na honra francesa


por Raphaella de Campos Mello

Em 1894, o judeu Alfred Dreyfus, oficial do exército francês, foi acusado de ser um suposto informante a serviço do governo alemão. O crime foi enquadrado como alta traição e o acusado sofreu um processo fraudulento conduzido a portas fechadas. A farsa foi acobertada por uma feroz onda de nacionalismo e xenofobia que invadiu a Europa no final do século XIX. Dias soturnos já avistados em 1886, com o lançamento do panfleto anti-semita de Édouard Drumont intitulado A França judia.





A perseguição ao oficial começou quando Madame Bastian, encarregada da limpeza na embaixada alemã em Paris, descobriu uma carta no cesto do lixo do adido militar alemão, o tenente-coronel Schwarzkoppen. O achado caiu nas mãos do serviço secreto francês, que concluiu ser o escrito a prova da existência de um traidor entre o corpo militar. Um bode expiatório fez-se necessário. Seu nome: Alfred Dreyfus, condenado à prisão perpétua na ilha do Diabo, na costa da Guiana Francesa.




Em 1898, evidências de sua inocência possibilitaram um segundo julgamento. Mais uma encenação. A permanência da sentença anterior provocou a indignação de Émile Zola, peça-chave da campanha pelo indulto do militar injustiçado. Zola fez excelente uso do único meio de mobilização da opinião pública na época: a imprensa escrita. Seu golpe de mestre veio em 1898, com a publicação de J'Accuse, a célebre carta aberta ao presidente da República Félix Faure, publicada pelo jornal L'Aurore.

Indignado, o escritor endereça uma reprimenda à França: "Como poderias querer a verdade e a justiça, quando enxovalham a tal ponto todas as tuas virtudes lendárias?". A polêmica agrupou os franceses em duas frentes de batalha: os dreyfusards e os anti-dreyfusards. Provocador da balbúrdia, Zola foi condenado a um ano de prisão por difamação. Resolvido com o exílio de um ano na Inglaterra.

Charles-Ferdinand Walsin Esterhazy, major do exército francês, foi o verdadeiro autor da carta, desmascarado, em grande parte, graças aos esforços de Zola. Infelizmente, Zola, não assistiu à revisão do processo, que promoveu a reabilitação do oficial em 1906.



Morte de Zola


Túmulo de Zola



Émile Zola morreu vítima de intoxicação de monóxido de carbono proveniente de um fogão de lenha, a 28 de Setembro de 1902.


Resumo de Germinal (Considerado sua obra-prima)


Amplamente considerada a obra máxima de Émile Zola, Germinal (1885) elevou a estética e a descrição naturalistas a um novo patamar de realismo e crueza. O romance é minucioso ao descrever as condições de vida subumanas de uma comunidade de trabalhadores de uma mina de carvão na França. Após ter contato com idéias socialistas que circulavam pela classe operária européia, os mineradores retratados na obra revoltam-se contra a opressão e organizam uma greve geral, exigindo condições de vida e trabalho mais favoráveis. A manifestação é reprimida e neutralizada, entretanto permanece viva a esperança de luta e conquista.

Para compor Germinal, o autor passou dois meses trabalhando como mineiro na extração de carvão. Viveu com os mineiros, comeu e bebeu nas mesmas tavernas para se familiarizar com o meio. Sentiu na carne o trabalho sacrificado, a dificuldade em empurrar um vagonete cheio de carvão, o problema do calor e a umidade dentro da mina, o trabalho insano que era necessário para escavar o carvão, a promiscuidade das moradias, o baixo salário e a fome. Além do mais, acompanhou de perto a greve dos mineiros.

Bibliografia

Poesia
·
Messidor (1898)
L'ouragan (1901)

Romances e Novelas
·
Contes à Ninon (1864)
La confession de Claude (1865)
Madeleine Férat (1868)
Le vœu d'une morte(1866)
Les mystères de Marseille (1867)
Thérèse Raquin (1867)
Nouveaux contes à Ninon (1874)
Les soirées de Médan (1880), em colaboração com Maupassant, Huysmans, Léon Hennique, Henri Céard e Paul Alexis.
Madame Sourdis (1880)
Le capitaine Burle (1882)
Naïs Micoulin (1884)
A saga dos Rougon-Macquart
A fortuna dos Rougon - La fortune des Rougon(1870)
O regabofe - La Curée (1871)
O ventre de Paris - Le ventre de Paris (1873)
A conquista de Plassans - La conquête de Plassans (1874)
O crime do padre Mouret - La faute de l'abbé Mouret (1875)
O senhor ministro - Son excellence Eugène Rougon (1876)
A taberna - L'assommoir (1876)
Uma página de amor - Une page d'amour (1878)
Nana (1879)
A roupa suja - Pot-Bouille (1882)
O paraíso das damas - Au bonheur des dames (1883)
A alegria de viver - La joie de vivre (1884)
Germinal (1885)
A obra - L'ouvre (1886)
A Terra - La Terre (1887)
O sonho - Le rêve (1888)
A besta humana - La bête humaine (1890)
O dinheiro - L'argent (1891)
A derrocada - La débâcle (1892)
O doutor Pascal - Le docteur Pascal (1893)

A série das Três cidades
·
Lourdes (1894)
Rome (1896)
Paris (1898)

A série dos Quatre Evangelhos
·
Fécondité (1899)
Travail (1901)
Vérité (publié en 1903, após a morte do autor)

Peças de teatro
·
Thérèse Raquin (
1873)
Les héritiers Rabourdin (1874)
Le bouton de rose (1878)
Poèmes lyriques
Obras críticas
Mes haines (1866)
Le roman expérimental (1880)
Une campagne (1880-1881) (1882)
Nos auteurs dramatiques (1881)
Les romanciers naturalistes (1881)
Le naturalisme au théâtre (1881)
Documents littéraires (1881)
Nouvelle campagne (1896)
La vérité en marche (1901)

Fontes:

Henri Mitterand é professor emérito na Sorbonne Nouvelle. Publicou numerosos textos sobre a obra de Zola e sobre os romancistas dos séculos XIX e XX.

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/emile_zola-_entre_a_
genialidade_e_a_justica.html

http://www.netsaber.com.br/resumos/list_autores_l_e.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Zola


Imagens: Internet

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