terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sherlocks de carne e osso


O mais famoso detetive foi criado na Inglaterra do século 19 não por acaso. Nascia ali a polícia profissional. As façanhas de seus investigadores reais não perdem nada para as da ficção


por Tiago Cordeiro




O padre ferido durante um assalto é levado para a casa mais próxima, onde a locatária aponta um divã para que repouse. Pouco depois, ele começa a tossir. Uma das pessoas que o socorreu grita: "Fogo!" A primeira reação da senhora, em pânico, é buscar um papel na gaveta de uma cômoda. Imediatamente, o padre acalma a todos e diz que se trata de um engano. O homem que dera o alarme falso sai sorrateiramente. O sacerdote também vai embora. Na rua, eles se encontram, satisfeitos: Sherlock Holmes e John Watson já podem abandonar as fantasias e voltar para o escritório na Baker Street, 211B. Descobriram onde Irene Adler esconde a fotografia que buscam, uma ameaça para o reino da Bavária. Mestre na dedução e nos disfarces, Holmes domina técnicas de luta e armas, conhece anatomia, botânica e química. Quando envolvido em um caso, quase não come e injeta-se cocaína diluída para ficar acordado. Na Inglaterra do fim do século 19, é o único que soluciona os crimes mais complicados. Isso tudo, claro, nos quatro romances e 56 contos de Arthur Conan Doyle.


Sherlock Holmes e Dr. Watson


Holmes incorporou a imagem do detetive perfeito. Com sua capa, lupa, chapéu e cachimbo, está em praças por toda a Grã-Bretanha. Protagonizou 200 filmes, com 70 diferentes atores no papel (o mais recente é Robert Downey Jr., na versão do diretor Guy Ritchie). É o personagem mais recorrente da história do cinema - aliás, foi nas telas que apareceu a famosa frase "Elementar, meu caro Watson!", nunca dita nos livros. Mas Sherlock não surgiu por acaso. Enquanto escrevia suas histórias, o médico escocês Conan Doyle vivia na terra da melhor polícia do mundo. Ao mesmo tempo que seu personagem caçava bandidos sanguinários e falsárias astutas, os ingleses inventavam uma força policial de organização e técnicas que seriam imitadas em todo planeta.


Escravos e milícias


O combate à criminalidade existe desde as origens da civilização, mas as formas de fazê-lo variaram bastante. Na China antiga, os delitos eram investigados pelos prefeitos. Na Grécia, o policiamento de rua ficava por conta de escravos. Em Roma, a função era do Exército; na Espanha medieval, de milícias armadas organizadas, as Hermandades, que existiram até 1835. Em 1667, o rei Luís XIV da França criou a primeira versão de uma polícia formal - o significado atual da palavra "polícia" apareceu entre os franceses. Pouco antes, em 1626, Nova York já tinha seu próprio xerife.


Até meados do século 19, porém, não havia uma força organizada, com salários fixos, treinamento específico e, principalmente, dedicada a prevenir os crimes. Essa nova entidade surgiu na Inglaterra, que até 1820 era um dos países mais atrasados da Europa nesse quesito - a segurança ainda era responsabilidade de guardas noturnos recompensados quando encontravam ladrões. "Não existia o conceito de polícia para todos. Agentes só se mobilizavam nos casos que envolvessem a nobreza ou as recompensas fossem muito altas", diz o sociólogo britânico Barry S. Godfrey, diretor do Instituto de Pesquisa da Lei, da Política e da Justiça da Universidade Keele.



Scotland Yard


Isso mudou quando o secretário de Estado Robert Peel propôs um novo modelo, que em 1829 se tornou a Polícia Metropolitana de Londres. Scotland Yard é o nome da sede. Começava então um período de testes e experimentações que durou até 1856. "O policial caminhando pelas ruas, protegendo os pobres e ricos da mesma forma, sem nenhuma arma a não ser um pequeno cassetete de madeira, tornou-se um símbolo da sociedade britânica", afirma Godfrey. Entre 1890 e 1950, a polícia britânica seria, de longe, a mais igualitária e eficiente do mundo. Na época, o código penal listava um número pequeno de delitos: agressões, assassinatos, assaltos, conspiração contra autoridades e exploração de menores, entre outros. As ocorrências não passavam de 2 mil por ano, para uma cidade que tinha 3 milhões de habitantes. Hoje são 7,5 milhões de moradores e 1 milhão de delitos anuais.


Os policiais franceses também tinham uma hierarquia clara, normas de conduta e uniformes desde 1829 (boatos do fim do século 19 sugerem que os detetives do país eram orientados a ler as histórias de Sherlock em busca de inspiração e de técnicas de investigação). Mas a revolução protagonizada pelos ingleses consistiu em duas novidades: o treinamento para a prevenção de crimes e o uso de novas tecnologias para a investigação. Os britânicos analisavam pegadas, marcas de rodas, cinzas de cigarro, textos escritos a mão, manchas de sangue, resíduos de pólvora, fotografias e até mesmo impressões digitais - todos elementos encontrados nas histórias de Sherlock Holmes.


Fotos e digitais

Os investigadores ingleses passavam muito tempo nas ruas, entre seus informantes e nos locais de maior concentração de crime - outra prática inédita para um mundo onde a regra era ver mais policiais nas áreas mais ricas, exatamente onde menos crimes aconteciam. Eram homens muito experientes. Ao fim do século 19, a maioria já tinha treinamento para não comprometer uma cena de crime, usar as tecnologias disponíveis e abordar criminosos de forma a não colocar em risco as vítimas. "Londres foi a primeira cidade a dispor de um banco de dados com fotos e impressões digitais de todos os acusados", diz o historiador David Taylor, professor da Universidade de Huddersfield.




Nos interrogatórios, o suspeito que não confessasse estava sujeito a afogamento controlado, pancadas e celas escuras sem banheiro ou alimentação. "A grande diferença em Londres é que os agentes só passaram a recorrer a esses métodos mais violentos quando tinham indícios muito fortes contra o suspeito. Em outros lugares, a tortura dentro das delegacias era indiscriminada", afirma Godfrey. Foi só ao longo do século 20 que todo suspeito ganhou o direito a ser acompanhado por um advogado.


Alguns investigadores do período ficaram famosos pela capacidade dedutiva e pela eficiência com que resolviam os crimes mais complexos (veja quadro à esq.). Eles foram capazes de identificar e prender serial killers que haviam escapado ilesos em outros países, como Canadá (veja à dir.). Mas nenhum caso de sucesso foi tão retumbante quanto o fracasso em localizar o famoso Jack, o Estripador, que aterrorizou Londres a partir de 1888. Os melhores policiais do mundo na época não conseguiram nem identificar o assassino. Seria um prato cheio para Sherlock Holmes...

Em tempo: o epidódio que abre esta reportagem faz parte do conto "Um Escândalo na Boêmia" e não termina bem para nosso herói. A bela Irene Adler percebe que havia sido enganada e foge durante a madrugada, antes que Holmes pudesse voltar e resgatar a fotografia em que ela aparecia com o príncipe da Bavária. Prestes a se tornar rei, o nobre queria evitar um escândalo. "A mulher", como passou a chamá-la Sherlock, foi uma das poucas pessoas que conseguiram enganar o maior detetive da literatura.


Baseado em fatos


Médico escocês inspirou Doyle


Dr.Joseph Bell


Lei e ordem

Os melhores investigadores ingleses da época de Sherlock

 Jonathan "Jack" Whicher

"Jack" Whicher

Detetive da polícia de Londres desde 1837, ajudou a fundar a Scotland Yard. Solucionou dezenas de crimes, mas o assassinato do menino Saville Kent arranhou-lhe a reputação. Ele apresentou como suspeita a adolescente Constance, inocentada por falta de provas. Ela confessou anos depois, mas Whicher já estava morto.

Charles Frederick Field

 

Charles Field

Perito em se infiltrar disfarçado em cenas suspeitas, foi um dos melhores investigadores da Scotland Yard. Depois virou detetive particular: desvendou vários casos de roubo antes da polícia e um de envenenamento de três pessoas. Serviu de inspiração para o inspetor Bucket, de Charles Dickens.

Edwin Coathupe

Considerado um dos melhores detetives da história, estudou medicina e chegou a trabalhar em dois hospitais até se tornar policial. Antes de assumir cargos de chefia, passava boa parte do dia na rua, entre suas fontes de informação, investigando casos e fazendo policiamento preventivo.

 Melville Macnaghten

Melville

Comissário da polícia de Londres entre 1903 e 1913, era mestre em orientar detetives e organizar informações. Em 1894, foi responsável pelo melhor relatório feito sobre Jack, o Estripador. Seu texto, só revelado ao público em 1954, ainda é a fonte mais confiável sobre o episódio.

 Procurados

Os assassinos que aterrorizaram a Grã-Bretanha do século 19

 Thomas Neil Cream

 
Thomas Neil

Escocês educado no Canadá, foi forçado a se casar com uma jovem a quem engravidou. Ela, como outras de suas amantes, morreram envenenadas com clorofórmio e estricnina. Fez ao menos cinco vítimas no Canadá, Estados Unidos e Inglaterra, até ser preso pela polícia inglesa e enforcado em 1892.


Catherine Wilson
Enfermeira inglesa sedutora, servia taças com ácido sulfúrico para suas vítimas, geralmente doentes idosos convencidos a incluí-la em seus testamentos. Foi julgada e condenada à forca pelo envenenamento de Maria Soames, mas possivelmente matou outras seis pessoas. Foi executada em 1862.

 William Burke e William Hare

 

Os maiores ladrões de túmulos da Escócia vendiam os corpos para um professor particular que atendia alunos de anatomia da Escola Médica de Edimburgo. Também mataram 17 pessoas com igual objetivo. Hare entregou o parceiro, enforcado em 1829, e nunca mais foi visto.

Jack, o Estripador



Jack Estripador

Em 1888, mutilou e matou pelo menos cinco prostitutas do bairro londrino de Whitechapel. Os crimes levaram outros assassinos a imitar seu método: as vítimas eram estranguladas, tinham a garganta cortada e alguns órgãos removidos. Nunca foi identificado.


Saiba mais

 LIVROS

 - The New Police in Nineteenth-century England, David Taylor, Manchester University Press, 1997
Relata o processo de profissionalização da polícia britânica.


- The Suspicious of Mr Whicher, Kate Summerscale, Bloomsbury, 2008
A atuação do investigador Jack Whicher no caso do assassinato de Saville Kent.


- Um Escândalo na Boêmia, Arthur Conan Doyle, Ediouro, 2003
Traz o conto que abre esta reportagem, publicado pela primeira vez em 1891, além de outras cinco histórias e uma introdução de Paulo Mendes Campos.

Fonte: Aventuras na História
Imagens: Internet

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Roma: nasce um império

No começo das guerras contra Cartago, Roma não era nada. Cem anos depois, estava controlando o mundo

por Patrícia Pereira


Foi o reino de Cartago quem transformou Roma em uma grande potência. Quando as duas cidades entraram em guerra pela primeira vez, Roma era um vilarejo metido a besta, que tinha acabado de dominar o resto da Itália e ainda estava formando um exército. Cartago era o centro do mundo. Seus navios controlavam o Mar Mediterrâneo, que era o único pedaço de oceano que realmente importava na época. Cem anos depois, quando o terceiro conflito acabou, Cartago tinha sido destruída, enquanto Roma estava pronta para conquistar o planeta.


Para entender essa história, precisamos voltar ao ano 264 a.C.. Fundada por fenícios na atual Tunísia, no norte da África, Cartago ia muito bem até Roma começar a crescer. O primeiro choque entre as duas cidades aconteceu numa disputa pelo controle da Sicília, que deu início à Primeira Guerra Púnica (o nome esquisito vem de punici, ou “fenícios”, como os romanos se referiam aos cartagineses). As primeiras lutas foram em terra, com a vitória de Roma. Os romanos passaram a dominar quase toda a Sicília, mas Cartago ainda controlava o mar. Vieram então as batalhas marítimas, vencidas novamente pelos romanos.




Disposta a acabar de vez com a guerra, Roma enviou um forte exército direto para a África em 256 a.C. Quase venceu, mas no final Régulo acabou tendo que recuar. Em 247 a.C., Amílcar Barca assumiu o comando das forças de Cartago e atacou cidades ao sul da Itália. Roma reagiu e conseguiu recuperar quase todas as posições na Sicília e assumir a supremacia do Mediterrâneo. Cartago só teve uma alternativa: assinar um tratado de paz. Mas o filho de Amílcar não esqueceria essa humilhação.


Hierarquia romana


Efeito surpresa


Cartago

Depois da derrota, Cartago ocupou Espanha e Portugal disposta a se recuperar para voltar para a briga. A missão na Espanha foi confiada a Amílcar e, no ano 221 a.C., transferida a seu filho, Aníbal Barca. Aníbal começou logo a preparar uma nova guerra. Para penetrar na Itália, o novo líder apelou para o efeito-surpresa: em vez de viajar pelo mar, como qualquer um faria, resolveu invadir a Itália por terra. Acontece que existem os Alpes, uma cordilheira que protege o norte do país. Passar por ali era uma loucura sem tamanho, mas deu certo. Jogando em casa, os romanos só apanharam. Na batalha do lago Trasimeno, Aníbal criou uma armadilha espetacular: escondeu sua tropa em depressões cobertas pela névoa e atacou de surpresa.
Cartagineses


Os romanos refugiaram-se nas montanhas, de onde passaram a fazer uma guerra de desgaste, com ataques a batalhões isolados e a grupos responsáveis pelo suprimento de armas e alimento. Os cartagineses dominavam a região, mas decidiram não avançar até Roma. Esse foi o maior erro de Aníbal: não destruir o império enquanto podia. O problema é que o general de Cartago era um cavalheiro. Naquela época, o reino que perdesse grandes batalhas tinha a obrigação de aceitar a derrota definitiva. Só que Roma era teimosa.
Teimosa mesmo. Além de não pedir trégua, ainda tentou reagir de novo, desta vez na região de Canas. Foi mais uma humilhação: Aníbal organizou as tropas para que o sol que nascia atrás de seus homens atrapalhasse a visão dos inimigos. Fez mais. Agrupou a infantaria mais fraca no meio, com uma poderosa cavalaria ao redor. No começo, os romanos pareciam ganhar fácil. Foi aí que caíram na armadilha de Aníbal: o centro cartaginês recuou, enquanto a cavalaria começou a atacar. Prensados uns contra os outros, os romanos mal conseguiam sacar as espadas. Foi um massacre.

Aníbal
E quem disse que os romanos desistiram? Com muita paciência e força de vontade, eles aproveitaram o cansaço das tropas adversárias para retomar a Sicília e o resto da Itália. Foi aí que entrou em cena o general romano Cipião. Primeiro ele atacou de surpresa a Espanha, onde estavam as bases do inimigo. Depois foi direto para Cartago. Aníbal teve de abandonar a Itália para defender sua terra. Esse lance final da guerra começou em 204 a.C. e terminou dois anos depois, com a batalha de Zamma, a primeira derrota de Aníbal. Então, Roma obrigou Cartago a destruir todos os seus navios de guerra.

Golpe de misericórdia

Mesmo sem marinha nem controle do Mediterrâneo, Cartago começou a se recuperar lentamente. Mas Roma estava de olho. Sem esperar que os africanos pisassem na bola e dessem pretexto para outra guerra, os romanos começaram a Terceira Guerra Púnica. Cartago fechou suas muralhas, construiu armas e resistiu heroicamente durante quatro anos. Depois de lutar casa a casa, sua população percebeu que seria vencida e decidiu atear fogo à cidade. Os romanos tomaram a fortaleza e jogaram sal no chão, para que nada mais fosse cultivado. Os sobreviventes foram vendidos como escravos, e Cartago virou uma pequena província, menor ainda do que Roma era no começo desta história.

Coisas de filme - Roma e Cartago usaram estratégias bem esquisitas


Navios com pranchas

Os barcos dos romanos tinham ganchos que se prendiam nas embarcações inimigas e pranchas de madeira que facilitavam a invasão.

Artilharia pesada

Os cartagineses levavam homens armados nas costas de elefantes, que funcionavam como tanques de guerra. Para o inimigo, era assustador.


Batalha dos cartagineses
Mulheres carecas

Durante a terceira guerra, todas as damas de Cartago rasparam a cabeça e doaram os cabelos, que foram usados como cordas em armas de arremesso.

Para saber mais

• História de Roma, M. Rostovtzeff, Zahar Editores, 1977. Conta a história completa do império romano. Tem 11 páginas dedicadas às Guerras Púnicas



Festa em Roma: os banquetes e as orgias

Banquete costumava acabar em orgia

por Fabiano Onça


Banquetes e orgias (Saturnália)


Quanto maior o império, maiores as festas que a nobreza e os aristocratas ofereciam. O que dizer sobre o Império Romano, um dos maiores de todos os tempos? Tamanho era o gosto deles por jantares luxuosos e festas, que costumavam evoluir para orgias, que alguns políticos resolveram a baixar leis para moderar a farra. Uma delas, a Antia Lex, do século 1, limitava os gastos com essas comemorações e instituía que os magistrados só poderiam jantar fora se fosse na casa de determinadas pessoas. Claro, ninguém obedeceu. Acabou sobrando para o autor, Antius Resto. Segundo o filósofo Macrobius, como todos continuavam com suas orgias, para não contrariar a própria lei ele nunca mais foi visto jantando fora.

Outro bom exemplo da paixão romana pelos banquetes é personificado por Marcus Gavius Apicius. Amante da boa vida, gastava verdadeiras fortunas em seus jantares. Entre suas extravagâncias, adorava língua de flamingo e nunca servia couve – chegou a dizer ao filho do imperador Tibério que era “comida de pobre”.

A melhor forma de demonstrar poder era oferecer jantares - Vai rolar a festa

Culinária romana

Um aristocrata podia medir seu prestígio com o número de jantares e festas ao qual era convidado. Ser convidado para os jantares certos, como os organizados pelo general Lucius Lucullus (110-56 a.C.), também era uma honra. Melhor que isso, só mesmo oferecer o jantar.

Traje a rigor

Trajes romanos

Vestir a toga era um privilégio masculino que escravos ou mulheres não usufruíam. Elas vestiam a stola, vestido de linho recoberto com a palla, um manto. Outras maneiras de elas ostentarem: penteados inusitados e jóias, muitas jóias.

Paladar exótico

Um bom festim chegava a ter sete pratos. Na abertura, peixes, ostras marinadas e pratos exóticos, como línguas de passarinho (uma porção tinha cerca de mil). O prato principal era uma carne. E as sobremesas eram frutas ou tortas feitas à base de geléia e mel.

Sem indigestão

O mais marcante no salão eram os tricliniuns, leitos com encosto para comer e beber – só pobres e escravos comiam sentados. Quem queria realmente esbanjar utilizava pratos de porcelana vindos da China.

Dança erótica

Além da lira, a música era tocada com chitara e tambores vindos do Egito ou castanholas da Espanha. Com ela, a orgia também começava. O cordax, por exemplo, era uma dança grega, altamente erótica, que despertava as paixões.

Prato principal: escravos

Quanto mais escravos, melhor. Eles serviam para trocar os potes de água quente para os convidados limparem as mãos, espantar moscas ou como objeto sexual. Luxo era designar que alguns com uma tocha levassem os convidados para casa.
Cardapius tipicus - Iguarias exóticas constavam do menu de uma típica festa romana






Entradas

• Mariscos e ovos
• Mamas de porco recheadas com ouriços-do-mar salgados
• Pasta de miolos com leite e ovos
• Cogumelos cozidos com molho de peixe gordo apimentado

Pratos principais

• Gamo selvagem assado com molho de cebola, arruda, tâmara de Jericó, uva passa, azeite e mel
• Outras cozidas com molho doce
• Flamingo cozido com tâmaras

Sobremesas

• Fricassê de rosas em pastel
• Tâmaras secas recheadas com nozes e pinhões, cozidas em mel
• Bolos quentes africanos de vinho doce com mel
• Frutas

A infância em Roma, não tão distante de nós

por Pedro Paulo Funari*




Será que os romanos, quando crianças, tinham brinquedos? Só a pergunta já mostra como nossas idéias sobre os romanos costumam ser um tanto exageradas, como se eles quase nem fossem seres humanos. Parece, às vezes, que já nasciam adultos e que todos eram sanguinolentos e brutais. Não é nada disso, naturalmente. Mas é verdade que cada sociedade possui regras de convivência próprias e que podem nos parecer estranhas, embora tenham sua explicação. Como viviam as crianças romanas? Não é fácil responder a essa pergunta, menos ainda no que se refere às classes baixas, cujos vestígios são menos numerosos.

Por isso, vamos ver como era a vida infantil na elite, ou antes mesmo disso, como os romanos programavam a gravidez. Era possível “programar”? Em termos, sim. As mulheres da elite que amamentavam seus filhos o faziam por até três anos, o que retarda a retomada da ovulação. Mas havia métodos mais drásticos, que visavam permitir que a criança já nascida não sofresse a concorrência de um irmão, o que aumentava a chance de sobrevivência. Era permitido o infanticídio e a chamada “exposição da criança”, que nada mais era do que dá-la a alguém ou mesmo criá-la como escrava. Havia dois motivos principais que justificavam essas práticas: que a criança fosse defeituosa ou que o pai não a reconhecesse como seu filho. Os romanos diziam que “a mãe é certa, o pai incerto” e, por isso, cabia ao pai reconhecer o filho como seu. Mas havia meios mais prosaicos de controlar a gravidez, como o bom e velho “coito interrompido”. Segundo fontes antigas, eram as mulheres que controlavam a interrupção (o que mostra que as romanas não eram tão passivas como se pensa).

Casamento romano


O objetivo do casamento era ter filhos e filhos que sobrevivessem, daí, em grande parte, a preocupação com que o intervalo entre eles fosse muito pequeno. A mortalidade infantil era muito alta, como em todas as sociedades até tempos muito recentes, pois apenas a medicina moderna permitiu que morressem menos bebês e mães. Era também muito comum que as crianças perdessem a mãe ou o pai muito cedo, já que a perspectiva de vida dos adultos não era também lá muito alta. Isso significa que as crianças dependiam também de outras pessoas, o que contribuía para que o conceito de “família” fosse diferente do nosso. A família romana não estava restrita a pais e filhos, mas envolvia outros parentes e até escravos libertos. Quando o pai morria, era sua família que se encarregava de cuidar do menino até os 14 anos e da menina até 12 anos.

Nas classes altas, havia tutores que ensinavam as crianças em grego e latim, de modo que eram, desde pequenas, bilíngües. Alguns dizem que, como as amas da elite eram gregas, os romanos expressavam seus sentimentos em grego, na linguagem que haviam aprendido com as amas. Mesmo entre pobres, era essencial aprender os rudimentos da escrita.

Rômulo e Remo - fundadores míticos de Roma



Como era o dia-a-dia de uma criança romana? Bem, tudo depende da classe social. No geral, a educação primária começava aos 6 ou 7 anos de idade. Se fosse rica, teria um tutor. Se pobre, iria a uma escola, na qual havia um só professor, em geral em um aposento no centro da cidade, perto de lojas. Na escola, usavam tabuinhas de cera e canetas (chamadas stylus) para aprender a calcular (com a dificuldade de fazer isso com os algarismos romanos) e decorar poesias. Ao meio-dia, saíam para almoçar e voltavam à tarde. Entre as brincadeiras, a mais comum era o par-ou-ímpar (chamada “par ímpar!”), jogada com nozes ou pedrinhas. Havia também brinquedos como carrinhos puxados a cavalo, bonecos de animais ou bonecas feitas de osso ou pano.

Era uma outra infância, mas as crianças tinham também suas atividades e brincadeiras. Nas paredes da cidade de Pompéia, soterrada e preservada pela erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79, ainda encontramos grafites escritos pelos alunos. Um deles nos diz que “se para você dói decorar Cícero, tomará uma pancada do professor”. Outra infância, mas não tão distante de nós.

*Professor de História Antiga da UNICAMP e autor de a vida quotidiana na roma antiga (annablume)

Fonte: Aventuras na História
Imagens: Internet

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

BEL- AMI

* Luíz Horácio Rodrigues

Guy de Maupassant


Uma trama sem heróis, sem vilões, uma história sobre a capacidade humana de lograr seus intentos, custe o que custar. O juízo moral é mero coadjuvante nessa história de sedução e pessimismo, um quadro em cores cruas retratando a Paris da belle époque pintado por Guy de Maupassant.É o que se pode chamar de grande literatura naturalista, onde a sensualidade tem papel importantíssimo e percebe-se o indivíduo determinado pelo meio.



Texto seco,objetivo, como de resto as personagens da trama. Os escrúpulos estão ausentes, os fins justificam os meios e o meio que predomina é o leito. Protagonista; Georges Duroy é o talentoso conquistador, belo, frio e calculista, O Bel-Ami, que sabe fazer uso de suas principais habilidade, a sedução e a ausência de escrúpulos, e as coloca a serviço de seus propósitos de alpinista social. Coadjuvantes, mulheres nada inocentes,tão ambiciosas quanto Duroy, Madeleine, inclusive utiliza as mesmas armas em sua meta de também chegar ao cume da sociedade parisiense..


Balzac


Mas quem é Georges Duroy? Apresenta semelhanças com Lucien de Rubempré, de Ilusões perdidas-Balzac, ambos chegados do interior elegem o jornalismo como meio de ascensão social. Antes de continuar com Duroy um parêntese, tanto na obra de Balzac como na de Maupassant a imprensa é apresentada de forma um tanto pejorativa, cenário ou instrumento de promoção a qualquer custo. O jogo de interesses sempre em primeiro plano, em Ilusões perdidas um jornalista aconselha o jovem Lucien a escrever três criticas, uma negativa, uma positiva e uma neutra. Qual chegaria às paginas? Os interesses decidiriam.Como diz um trecho do livro, " …nós somos negociantes de frases e vivemos de nosso comércio." Em Bel-Ami… O La Vie Française era, antes de tudo, um jornal forte financeiramente, pois o patrão era um homem de recursos, a quem a imprensa e o cargo de deputado tinham servido como trampolins.


Lucien alcança seu objetivo, mas cai, Georges se mantém firme e projeta voos mais longos. Pessimistas, Balzac e Guy de Maupassant, conferem ao jornalismo os vícios de uma sociedade onde o tráfico de influências determina destinos.

Mas permita-lhe apresentar, de forma bastante simplificada, o enredo de Bel-Ami.

Georges Duroy, um suboficial, retoma sua vida civil, ganha seu pão trabalhando na estrada de ferro, mas ambiciona mais, muito mais. Certa ocasião encontra um antigo colega de exército que o recomenda ao jornal La Vie Française, onde trabalha. George acaba contratado. Logo conhece a sociedade parisiense, seu sonho de ascensão ganha cores intensas. Inescrupuloso envolve-se com mulheres capazes de colaboração com seu plano. Certo dia, sentindo-se ofendido pelo colega que o recomendara ao jornal não se constrange em urdir um plano para seduzir a esposa deste como forma de vingança. Ela, Madame Forrestier, era quem o ajudava a escrever seus artigos. Demora um pouco, mas o sedutor acaba alcançando seu objetivo. Com a morte do marido, George casa com Madeleine Forrestier. Sua lista de seduzidas é vasta, inclui a esposa do diretor do jornal.

E George chega ao topo, mesmo que para isso precise ludibriar a própria esposa, fato que o torna milionário. Consegue um título de nobreza, Barão, a carreira política será o próximo degrau.

Mas o que faz de Bel-Ami uma preciosidade literária? Vários aspectos, dentre eles a fidelidade com que o potencial maléfico do ser humano é apresentado, não há heróis, não se percebe um traço de inocência ou das melhores intenções nos personagens. Sobra-lhes maniqueísmos, os escrúpulos estão distantes daqueles que podem ascender, numa cena da trama, fica nítida que a honra era um tema defasado naquela sociedade. O importante era tirar proveito de toda e qualquer situação. Constrangedora ou não, pouco importava. Foi o que se deu quando Georges escreveu um artigo em La Vie Française e outro jornalista de um pequeno jornal, por sentir-se ofendido respondeu na mesma moeda. Instado pelo dono do jornal onde trabalhava, Georges, contra vontade, o desafia a um duelo. Atiram um contra o outro, erram, mas a repercussão é capitalizada por ambos.

A atmosfera ao longo das 368 páginas de Bel-Ami é desalentadora, "A quem se apegar? Para quem endereçar gritos de desespero? Em que podemos acreditar?"

Não, não desanime, inocente leitor, afinal de contas como diz o velho poeta Norbert de Varenne a Duroy, página 136: "Ouça, chega um dia e ele chega cedo para muitos, em que não é mais tempo de rir, como costumam dizer, porque atrás de tudo o que olhamos avistamos a morte."

*Luíz Horácio Pinto Rodrigues - Natural de Quaraí, pequeno município gaúcho na fronteira com o Uruguai, é formado em Letras e faz mestrado na mesma área. Viveu sua juventude na terra natal e em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras e passou cerca de vinte anos ali, escrevendo e colaborando com páginas literárias de várias publicações. Sua principal obra é a denominada Trilogia Alada, inaugurada com Perciliana e o pássaro com alma de cão, seguida de Nenhum pássaro no céu, e encerrada agora com Pássaros grandes não cantam.
Imagens: Internet

quarta-feira, 4 de agosto de 2010



O cavaleiro de triste figura

Livro mais traduzido e publicado no mundo depois da Bíblia, quatro séculos depois de escrito, Dom Quixote de la Mancha ainda provoca gargalhadas e foi considerado a melhor ficção de todos os tempos.

por Julia Priolli




Que ninguém se ofenda logo nas primeiras páginas de O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, quando o autor, Miguel de Cervantes, se direcionar a quem lê com este simpático aposto: "Desocupado leitor". Tendo em vista que a obra tem 1. 500 páginas - escritas em duas partes com um intervalo de dez anos entre elas -, o leitor desejaria de fato que desocupado fosse um adjetivo que o qualificasse com precisão. Mas, considerando que na atualidade ninguém dispõe de tanto tempo para leituras de entretenimento, vale a pena entender por que, quatro séculos depois, Dom Quixote foi considerado por um número respeitável de escritores, o melhor livro do mundo. E não se trata apenas do julgamento complicado da crítica especializada. Foi também o livro mais publicado e traduzido no mundo depois da Bíblia. A edição comemorativa de 2005, celebrando seus 400 anos, foi best-seller nos países de língua espanhola.



Miguel de Cervantes Saavedra

No Brasil, Dom Quixote é o tipo de livro que ninguém lê mas todo mundo sabe do que se trata. No mundo hispânico a coisa é bem diferente. Ninguém pode dizer o famoso "Não li e não gostei", nem fingir que leu e sair por aí contando a história, simplesmente porque o livro é leitura obrigatória no currículo escolar. Haja trauma! Assim como Camões não é muito popular por aqui, os estudantes hispânicos, salvo raras exceções, não são exatamente fãs de Miguel de Cervantes. Afinal, tudo tem seu tempo para ser admirado e 1 500 páginas para quem não tem maturidade de leitura não são brincadeira. Mas o brasileiro tem o privilégio de ler se quiser. E aquele que se aventurar nas jornadas quixotescas verá que existe muito mais humor do que supõe nossa vã filosofia.



O Gordo e o Magro



D. Quixote e Sancho Pança


D. Quixote

O primeiro engano sobre Dom Quixote é achar que o livro trata somente das aventuras do cavaleiro andante. A verdade é que sem o Sancho Pança ele não seria ninguém. A dupla, cavaleiro e escudeiro, com seus respectivos pangaré e mula, são os protagonistas da saga. Um é magro, alto, com a cabeça nas nuvens. O outro é gordo, baixo, com os pés bem fincados no chão. Quixote é um desvairado e Pança, pragmático, enlouquece por ignorância, numa trama que começou assim:





 Alonso Quijano era um fidalgo inexpressivo e malsucedido da região da Mancha, na Espanha. Sua única preocupação e ocupação eram as novelas de cavalaria. Abandonou sua propriedade, deixou os bichos e as hortas morrerem e se enfurnou na biblioteca da casa para ler todos os livros que ali havia. E leu tanto que seus miolos secaram. Um dia, vestindo uma armadura ancestral da família, batizou um cavalo esquálido e sem raça de Rocinante, autoproclamou-se dom Quixote e saiu pelo mundo, em busca de aventuras. Chegou a uma estalagem que acreditou ser um castelo, viu prostitutas que tomou por princesas e, em meio àquele delírio medieval, convenceu o dono da estalagem, que achou melhor não contrariar, a batizá-lo de Cavaleiro Andante. Voltou para casa dias depois, totalmente estropiado porque apanhou muito no caminho, para buscar camisas e dinheiro. Enquanto se recuperava, seus amigos mais próximos queimaram sua biblioteca, em uma pequena inquisição, a fim de que ele recuperasse o juízo. Mas, nem bem acordou, dom Quixote saiu para o mundo outra vez, levando consigo Sancho Pança, seu vizinho e futuro fiel escudeiro, a quem prometeu, além de um salário, uma ilha que pudesse governar.



Novelas de cavalaria




Quixote queria mudar o mundo baseado nos princípios nobilíssimos dos cavaleiros, e seguia à risca tudo o que lera nos livros. Quase não comia, porque os cavaleiros deviam estar preparados para todas as privações. O analfabeto Sancho Pança, que não era cavaleiro e tampouco lera novelas do tema, comia - e comia bem -, já que nunca sabia o que viria pela frente. E adiante sempre vinha muita confusão. Dom Quixote atacou um cortejo fúnebre achando que vingava o defunto, libertou meliantes acorrentados acreditando fazer justiça, tentou libertar a santa de uma procissão enxergando uma donzela raptada, lutou contra um rebanho de ovelhas, vendo ali um exército inimigo, entre muitas outras façanhas. O livro tem 659 personagens, 200 deles atuantes. Só aí dá para ter uma ideia de quantas confusões aconteceram, e de todas elas dom Quixote saiu machucado, apedrejado, foragido, à beira da morte. Mas ele jamais ficaria desmoralizado.





Essa é uma das diferenças mais gritantes com as novelas de cavalaria, que Cervantes parodiava. "Os cavaleiros da literatura sempre tinham um narrador que os amparava, que os salvava. Mas dom Quixote vai à desgraça. Se ele mesmo não se justificar, explicando para Sancho que um encantador enganou seus olhos, e por isso ele confundira um moinho de vento com um gigante, o narrador não fará isso por ele", diz Maria Augusta Vieira, professora de literatura Espanhola da USP. Certa ocasião, Quixote saiu tão machucado que Sancho o apelidou de Cavaleiro de Triste Figura, alcunha que o amo adorou, achou digníssimo de sua condição e fez com que se adotasse.


Moinhos de vento



Moinhos de vento


Dom Quixote delirava, seu mundo real era o universo literário da cavalaria, que também nunca existiu além dos livros, mas nem tudo era tão absurdo assim. Claro que lutar contra moinhos de vento achando que fossem gigantes era absurdo, mas ali naquela época tudo aquilo era novidade. "A Espanha, em sua política expansionista, vinha anexando territórios, inclusive os Países Baixos. A tecnologia dos moinhos de vento era holandesa, coisa recente no cenário espanhol", afirma Maria Augusta. Portanto, apesar de o livro parecer um completo elogio à loucura, existem rompantes de realidade histórica ao longo da obra.


Dulcineia

A confusão entre fato e fantasia não está só na cabeça do cavaleiro andante. Ela figura na cabeça do leitor também, e tudo por causa dos artifícios de Cervantes para dar à obra ares de registro histórico. Ele afirma, naquele mesmo prólogo em que nos chama de desocupados e onde se diz padrasto e não pai de dom Quixote, que tudo o que será lido está registrado nos anais da Mancha. E faz uma verdadeira mistura de narradores. Quem teria contado essa história seria um mouro chamado Cide Hamete Benengeli, que escreveu em árabe uns manuscritos que foram transcritos por um espanhol a pedido de um narrador onisciente.


D. Quixote e Rocinante

Em 1615, Cervantes publica a segunda parte do livro, como continuação da saga e resposta imediata a uma farsa. É que no ano anterior, sob o pseudônimo de Alonso Fernandez de Avellaneda, alguém - até hoje não se sabe quem - escreveu e publicou a segunda parte da história. Cervantes resolveu não entrar em disputas autorais e nem mesmo revelar a identidade do farsante, talvez com medo de eternizar seu nome, e aproveitou o fato histórico de correr por aí uma versão falsa dos desatinos de dom Quixote, fazendo com que o próprio, na sua segunda e verdadeira narrativa, desmentisse as aventuras alardeando que o único Cavaleiro de Triste Figura que existia era ele! Sancho ganha sua terra prometida, que governa com muito bom senso, mas por poucos dias, pois continua a seguir o amo. O escudeiro já fala rebuscado e parece enlouquecer mais que o patrão. Enquanto, num movimento inverso, o cavaleiro vai recobrando a razão e morre em casa, de excesso de juízo, amaldiçoando as novelas de cavalaria.



Doce Dulcineia- O grande amor que dom Quixote mal conhecia


D. Quixote e Dulcineia



Dulcineia, diziam as más línguas, tinha a melhor mão para salgar porcos de toda a região do Toboso. Embora a tivesse visto não mais de cinco vezes, dom Quixote dedicou a ela todas as suas loucuras. Sempre que acreditava ter salvo alguém, pedia que esse alguém fosse até Toboso contar a Dulcineia da valentia feita em seu nome. De tanto amar, o cavaleiro decidiu alucinar de propósito, pelado da cintura para baixo, fazendo piruetas e compondo sonetos, tal qual faziam seus heróis, quando estavam desesperados de amor, conforme ele lera nas novelas de cavalaria. Quando Sancho revelou a Quixote que ouvira notícias de que Dulcineia andava em trajes de pastora, trabalhando sob o sol inclemente, o Cavaleiro de Triste Figura ficou ainda mais taciturno, convencido de que sua amada fora encantada por inimigos seus.



Saiba mais

A OBRA


O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha, livros 1 e 2, Editora 34, 2002, R$ 74 e R$ 84*

Fonte: Revista História
Imagens: Internet