terça-feira, 13 de julho de 2010

A ATUALIDADE DE WALTER BENJAMIN E DE THEODOR W. ADORNO

* Luíz Horácio




A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno, de Márcio Seligmann-Silva é cem por cento fiel à idéia de atualidade que Benjamin e Adorno acreditavam. Na capacidade que as idéias tinham de ir ao encontro do seu presente e daí a operar mudanças.


Walter Benjamin

Atualizar, um relâmpago a iluminar, a energizar o ontem e o agora.Tarefa nada simples que raros conseguem cumprir com tanta eficiência e singularidade como esses dois filósofos.

Seligman evita comparações, cabe ao leitor fazê-las. Uma delas diz respeito a divisão do livro, em duas partes desiguais. Ao destinar longo espaço às questões biográficas de Benjamin, deixa de examinar com maior profundidade as obras desse autor, já com Adorno, em número de páginas bem inferior, Seligman dá pouca atenção à biografia e ao citar as obras prioriza a Dialética do Esclarecimento. Vale ressaltar que tanto a vida de um como de outro está intensamente imbricada com a carreira intelectual, impossível separar vida e obra. No entanto a academia consegue. E com que eficácia conseguem separar os autores de suas obras!
Benjamin numa palestra intitulada O Autor como produtor prega uma maneira de apresentar a catástrofe, não como mero efeito estético. Se você, mestre, doutor ou curioso leitor; lembrou de alguma aula do seu curso, você não está delirando, a academia ainda é assim.

Ao alcançar as páginas finais de A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno dobre sua atenção ao ler Novas abordagens para a arte da apresentação da dor, texto primoroso do professor Seligman.

Mas essa questão de destinar mais espaço à vida e obra de Benjamin do que a Adorno, não leve tão a sério, paciente leitor, são picuinhas de resenhista/ensaísta admirador desses autores, o trabalho do professor Márcio Seligmann-Silva, se não apresenta novidades, é de leitura indispensável àqueles que pensam acerca dos valores e dos significados da arte, da cultura, do conhecimento.

Ao apresentar dados biográficos de Walter Benjamin, Seligman destaca o judaísmo peculiar desse filósofo- “Quando eu nasci, meus pais tiveram a idéia que eu pudesse me tornar um escritor. Então seria bom que ninguém notasse imediatamente que eu era um judeu” - sua permanente melancolia, seu suicido na fronteira entre a Espanha e a França, em conseqüência do pavor que a Segunda Guerra Mundial lhe provocava.

A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno proporciona o contato do leitor com alguns conceitos, os que são sempre abordados, da teoria de Walter Benjamin: a teoria da linguagem -“ Palavras são ainda como cavernas entre as quais elas [as crianças] conhecem caminhos com conexões singulares” - a aproximação entre filosofia e literatura, suas idéias acerca do romantismo, sua teoria da história como catástrofe, A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica.


O leitor ficará sabendo das razões de Adorno para dar preferência ao ensaio como forma de expressão de suas idéias. “o modo de o ensaio se apropriar dos conceitos seria comparável ao comportamento de uma pessoa que, encontrando-se num país estrangeiro, se vê obrigada a falar a língua deste, em vez de compô-la escolarmente a partir de certos elementos. Essa pessoa, digamos, vai ler sem dicionário.”

As impressões de Adorno e Benjamin sobre a arte, a tese de Benjamin sobre o cinema - o inconsciente óptico - e suas relações com o conceito freudiano de inconsciente. Adorno teorizou sobre a arte de um modo geral - “como escritura histórica” na medida em que ela é para ele “memória do sofrimento acumulado”. “Mas que seria a arte enquanto historiografia se ela se desembaraçasse da memória do sofrimento acumulado?”

A questionável teoria do sublime merece abordagem primorosa neste A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno. Um dos pontos de sua teoria estética trata de uma obra de arte onde o indivíduo se apresente totalmente abandonado ao sofrimento e à dor.

Em Dialética do esclarecimento Adorno e Horkheimer (coautor) dizem do fim da possibilidade do trágico na era da indústria cultural.No entender de ambos o “indivíduo trágico”, aquele capaz de resistir,deixou de existir. A indústria cultural, por sua vez,se apodera do trágico, o pasteuriza e o reduz aos seus fins: “O destino trágico converte-se na punição justa, na qual a estética burguesa sempre aspirou transformá-lo.”

Seligman faz excepcional introdução à Dialética do esclarecimento, apresenta as idéias do filósofo acerca da indústria cultural -critico ferrenho- seus estudos e vasto conhecimento sobre música, a teoria do sublime, um diálogo harmônico com Benjamin, o inumano, o texto anteriormente citado Novas abordagens para a arte da apresentação da dor.

Adorno e Benjamin são filósofos tão originais e viscerais que alguns de seus textos, num primeiro momento, nos remetem a uma conclusão inevitável: ingenuidade.Isso costuma ocorrer quando nos deparamos com alguém, em qualquer setor de nossas vidas, que acredita em seus conceitos, ama o que faz. Geralmente o reconhecimento da profundidade, da sua relevância, fica para um futuro. Às vezes distante, raras vezes interminável como no caso de Adorno e Benjamin.

Convém ler e refletir mais algumas vezes antes de assinar tal conclusão, a da ingenuidade. Não é necessário longa pesquisa para encontramos “críticos” que fazem do misticismo de Benjamin motivo de chacota. Não é pequeno o número de opositores às idéias de Adorno, principalmente as que dizem respeito ao sentido e ao valor da arte. Mas vale lembrar

George Steiner, professor de Literatura Comparada e crítico de cultura, em No castelo do Barba Azul (1991), numa interlocução com Notes towards the definition of culture (1948), de T. S. Eliot, salientar algumas notas para a redefinição de cultura, diz que isso tem um quê de utopia e demonstra um tom de desencanto metafísico quanto à trajetória cultural do Ocidente, visão essa legitimada por uma decadência espiritual do homem, algo que remontaria ao mito da Queda.

 

Representantes da Escola de Frankfurt, Benjamin e Adorno me obrigam ao socorro de Steiner que aponta como fator importante no que diz respeito a desumanização do homem teria sido, na primeira metade do século XIX, o desenvolvimento da produção em massa, o sistema da linha de montagem das fábricas, onde as energias dos operários eram desviadas da ação revolucionária e da guerra e encontravam aprovação social, sendo por um tempo arrefecidas, ou talvez acumuladas para extremos de violência posteriores, algo que seria o preço que a civilização precisou pagar pelo abafamento imposto aos instintos humanos centrais e não realizados, e fomentadores, no fim de contas, do que Freud chamou, em O mal-estar na civilização, de desejo de morte.

A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno serve de sofisticado guia para quem quiser investigar, estudar vida e obra desses impressionantes filósofos.

Embora canônicos parecem, infelizmente, rumar ao papel de coadjuvantes, ou melhor, de figurantes no teatro da cultura.

Permita, tolerante leitor, um momento de entusiasmo deste humilde aprendiz: diz respeito a um momento magistral deste trabalho de Márcio Seligmann-Silva, o texto onde ele aborda o livro Passagens, de Walter Benjamin. Esse titulo me fascina, encerra quase toda a teoria benjaminiana, estética, lingüística,histórica,literária, e.... inacabada.


Sepultura de Walter Benjamin


Recomenda-se cautela na leitura tanto de Benjamin como de Adorno, visto que certos radicalismos podem causar sérias dependências. Manter o senso critico sempre alerta é medida extremamente salutar. Refletir não é prerrogativa dos filósofos tão somente, e você sabe disso, questionador leitor.








*Luíz Horácio - Escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, Nenhum pássaro no céu, Luísa e a barriga da mamãe-infantil, jornalista, professor de Literatura, mestrando em Letras.


Imagens: Internet

domingo, 27 de junho de 2010

O assassinato de Júlio César




Imperador Júlio César

Ele foi o homem mais poderoso do mundo romano e adotou medidas populistas que desagradaram a aristocracia. Para proteger a república, os senadores o mataram, sem saber que aniquilariam sua classe política

por Reinaldo José Lopes



Coliseu romano


Três escravos se esgueiraram para dentro do Senado vazio e correram em direção ao corpo ensanguentado, caído perto da estátua de Pompeu. Mais tarde, os ferimentos seriam contados: 23 golpes de adaga. Os assassinos de Caio Júlio César não estavam mais ali. Planejaram transformar a morte num grande ato de propaganda política, mas não contavam com o medo e a revolta do povo comum de Roma, quase todo formado por adeptos do ditador. Os responsáveis pelo atentado, portanto, tiveram de se esconder, entrincheirados na colina do Capitólio. Matar César tinha sido ridiculamente fácil; assassinar o que ele significava para Roma era bem mais complicado. A morte do homem mais poderoso do Império Romano teve pouco a ver com as cenas criadas por poetas como William Shakespeare, mas tem todos os elementos de uma grande tragédia, com cenas de intriga, maquiavelismo, traição e, a julgar pelo que dizem os escritores da Antiguidade, até avisos proféticos que foram ignorados. O famigerado Bruto pode não ter sido filho de César, como reza a lenda, mas ele e seus comparsas tinham em comum a decisão de eliminar o homem que tinha sido seu benfeitor. E os efeitos colaterais do plano foram ainda piores: anos de guerra civil, um império que quase se esfacelou e o fim das ambições políticas para a classe representada pelos assassinos. Se a personalidade e os instintos políticos de César fossem ligeiramente diferentes, ele jamais teria tombado no Senado. Afinal, a tradição das longas guerras civis que tinham assolado Roma ao longo dos séculos 2 a.C. e 1 a.C. era clara: se quiser governar tranquilo, não deixe seus inimigos vivos. Essa foi a regra durante as décadas de conflito entre Optimates, a facção que defendia a supremacia dos aristocratas romanos, e Populares, os quais, como o nome diz, queriam fazer concessões ao povo romano (embora seus líderes fossem homens da nobreza). César era um expoente dos Populares, o que levou o aristocrático Senado a tentar eliminá-lo logo depois que ele retornou da Gália (atual França), depois de oito anos de batalhas, como general vitorioso no ano 49 a.C. Não deu muito certo, para dizer o mínimo. As forças senatoriais, lideradas por Pompeu Magno, ex-aliado de César, foram esmagadas em batalhas na Espanha e na Grécia. Com as legiões de todo o Império sob seu comando, César podia fazer o que quisesse, mas preferiu deixar de lado as guerras civis e perdoar a todos que se rendessem sem luta. "A chamada clementia [ancestral de ‘clemência’ em português] se tornou a marca política de César, e uma grande arma de propaganda", afirma o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Em muitos casos, a clementia de César envolvia até a promoção de antigos inimigos. Dois dos mais mimados pelo novo senhor de Roma foram os líderes da conspiração que acabaria por matá-lo: Caio Cássio Longino e Marcos Júnio Bruto, sendo que ambos haviam recebido cargos e honrarias.


Exército romano


Oficialmente, Roma era uma república, mas na prática o poder absoluto estava nas mãos de César. Em épocas de crise, Roma tinha sido governada pelos chamados ditadores, que ganhavam poderes amplos durante um período de no máximo seis meses; em 45 a.C., o Senado deu ao general o título de senador vitalício, um ano depois de conferir o cargo a ele por dez anos - dois fenômenos sem precedentes na história republicana. Com essas manobras, sem falar de outras honras dadas a ele pelo Senado, como o título de Pater Patriae (Pai da Pátria), parecia que César tinha amansado de vez os Optimates e trazido os antigos inimigos para o seu lado. Mas a situação real era bem mais complicada.



O ovo da serpente


Brutus e o fantasma de Júlio César



Caio Cassio Longino



Caio Longino



Marco Junio


A propaganda política dos conspiradores tentou pintar o atentado contra César não como homicídio, mas como tiranicídio - um ato destinado a restaurar as "antigas liberdades" da Roma republicana destronando um déspota. Outros historiadores, como o americano Michael Parenti, em seu livro O Assassinato de Júlio César, argumentam que a decisão de eliminar o general foi só mais um round na velha briga entre Optimates e Populares. Afinal, César tomou medidas que desagradaram a antiga aristocracia, como a distribuição de terras para veteranos de guerra e a concessão de cidadania romana a povos das províncias do Império. Ele ainda aumentou o número de membros do Senado de 600 para 900, incluindo até alguns moradores da Gália na conta, o que certamente ameaçava a supremacia dos nobres romanos. No entanto, para Isabelle Pafford, doutora em História Antiga e Arqueologia do Mediterrâneo pela Universidade da Califórnia em Berkeley, a motivação dos conspirados pode ter sido bem mais simples. "Creio que as razões da conspiração eram mais pessoais que políticas, porque os responsáveis nem chegaram a ter um plano sobre o que fazer depois. Eles estavam pensando na sua própria carreira, não na ‘república’ ou na estabilidade política dela", diz Isabelle. Trocando em miúdos: Bruto, Cássio e companhia perceberam que estavam destinados a ser, no máximo, joguetes bem pagos de César - e não gostaram nem um pouco da ideia.
Segundo o historiador italiano Luciano Canfora, pesquisador da Universidade de Bari e autor de Júlio César - O Ditador Democrático, a ideia de eliminar o ditador já estava circulando desde 45 a.C. - no início entre antigos oficiais do próprio César, descontentes com o fato de não terem sido promovidos como desejavam. Membro do círculo de César havia tempo, apesar do seu passado entre os Optimates, Cássio conseguiu se aproximar dessa facção descontente e começou a articular um plano que, no fim das contas, agregaria cerca de 60 senadores, todos membros da velha elite. "Uma estratégia que examinaram foi aguardar as eleições consulares, durante as quais César ficaria em pé na ponte de madeira usada pelos eleitores a caminho da votação", escreve Michael Parenti. "Alguns conspiradores o empurrariam sobre o parapeito, enquanto outros estariam esperando embaixo, com as adagas desembainhadas." O plano não foi adiante por ser considerado muito arriscado, e os conspiradores decidiram que o melhor caminho era atacar durante uma cerimônia mais reservada. Antes disso, porém, Cássio queria conseguir o apoio de uma figura considerada chave: seu cunhado, Marcos Bruto. Eles andavam brigados - numa crise de ciumeira, o primeiro tentou impedir que o segundo assumisse um cargo cobiçado pouco tempo antes -, "mas Cássio sabia exatamente como convencer Bruto a agir", diz Luciano Canfora. Acontece que um dos ancestrais do senador, Lúcio Júnio Bruto, era famoso nas lendas romanas por ter expulsado da cidade seu último rei, Tarquínio, em 509 a.C.

O significado simbólico era óbvio: o descendente do homem que acabou com a monarquia em Roma estava "destinado" a eliminar o "tirano" e "rei ilegítimo" Júlio César. Em segredo, Cássio espalhou grafites e panfletos pela cidade, com frases como "Bruto, estás dormindo?" ou "Tu não és realmente Bruto", na tentativa de mexer com os brios do cunhado e envolvê-lo nessa mística. "Dos outros pretores [cargo ocupado por Bruto] esperam-se privilégios, espetáculos, mas de ti a abolição da tirania", disse Cássio, segundo o historiador grego Plutarco. E Bruto mordeu a isca.



Túmulo de Sevília - amante de César, mãe de Brutus

Embora tivesse lutado ao lado de Pompeu e contra César, Bruto foi perdoado e recebeu do vencedor o governo da Gália Cisalpina (atual norte da Itália) e uma importante posição entre os sacerdotes de Roma. A generosidade exuberante do ditador talvez se deva a uma mãozinha de Servília, mãe de Bruto, amante de César e, segundo alguns escritores antigos, grande amor da vida do general. Mas daí a propor que Bruto era, na verdade, o filho bastardo de César vai uma distância considerável. "Isso é improvável, de acordo com a maioria dos especialistas, por causa da data de nascimento de Bruto", diz Isabelle. Quando seu futuro assassino veio ao mundo, César tinha apenas 15 anos. "A relação entre os dois era próxima, mas nada anormal dentro da sociedade romana", afirma ela.

Sinais e sangue



Morte de César

A data marcada para o ataque dos conspiradores era a dos Idos de Março de 44 a.C. (título dado ao dia 15 desse mês). O combinado era aproveitar a presença de César no Senado para a cartada decisiva. Segundo os autores que abordaram o caso na Antiguidade, não faltaram avisos e sinais dos deuses para o ditador. Primeiro foi um jantar na casa de um amigo na noite anterior ao atentado. Após a comida, a conversa acabou se voltando para qual seria a melhor maneira de morrer ("inesperada e rápida", teria dito César). Depois foi o pesadelo de Calpúrnia, mulher do general, que sonhou que o marido era assassinado em seus braços e implorou para que ele não fosse ao Senado. César também sonhou que voava e apertava a mão do deus Júpiter. César quase cedeu a Calpúrnia, mas um dos traidores, Décimo Bruto (parente distante do outro Bruto), conseguiu convencer o ditador a ir até o Senado mesmo assim. De acordo com Plutarco, o erudito grego Artemidoro de Cnido, que frequentava a casa de Bruto, teria tentado alertar César da conspiração por meio de um bilhete, já bem perto do Senado, mas César deixou para ler a mensagem depois da audiência. Os historiadores antigos concordam a respeito dos detalhes essenciais do ataque. Os assassinos esperaram que César se aproximasse de sua cadeira e o rodearam, supostamente para apoiar uma petição feita por Tílio Cimbro, que queria trazer seu irmão de volta do exílio. César pediu que ele esperasse um pouco e Cimbro puxou a barra da toga do ditador - o sinal para o ataque. César teria dito "Ora, isso é uma violência", enquanto outro senador, Casca, dava o primeiro golpe de adaga. César reagiu pela primeira e única vez, gritando "Casca, seu canalha, o que está fazendo?" e acertando o atacante com um pedaço de metal pontudo, usado para escrever. A essa altura os golpes se multiplicavam. De acordo com o historiador romano Suetônio, "quando, porém, percebeu que de todos os lados lhe vinham em cima com punhais em riste, envolveu a cabeça com a toga e com a mão esquerda puxou a extremidade dela até os pés para tombar decorosamente [sem mostrar os genitais]".

Até tu, Brutus?



Senado romano

Resta ainda um enigma, que deixava até alguns historiadores antigos céticos: a suposta frase "Tu também, meu filho?", dita quando César viu Bruto entre os assassinos. Primeiro, ela teria sido pronunciada em grego, língua na qual ela é ambígua. Kai su, têknon também pode querer dizer "você também, menino/moleque". "Minha impressão é que, ao colocar a frase em grego, os escritores antigos querem dar a impressão de que César está citando alguma tragédia. Ou seja, estão colocando palavras na boca dele, num contexto literário. Ia ser muito difícil ouvi-lo no meio daquela confusão toda", afirma Isabella, que se diz cética a respeito de todos os detalhes do episódio. Reza a lenda que, depois da morte do ditador, Bruto tentou fazer um discurso para os Liberatores (como os assassinos se denominavam), mas eles e os demais senadores acabaram fugindo da cena do crime. Com a fria reação popular ao fim de César, os Liberatores se viram num dilema e acabaram se sentando à mesa de negociação com Antônio. Afinal, se César tinha mesmo sido um tirano, nenhuma de suas decisões era válida - inclusive as nomeações de vários dos assassinos para cargos importantes e rentáveis. As conversas acabaram terminando no que parecia uma monumental pizza: César não seria oficialmente declarado tirano, e portanto poderia receber funerais dignos, e os Liberatores não seriam declarados assassinos, mantendo assim o cargo e a posição social. Plano digno de outro Senado que todos conhecemos, sem dúvida, se não fosse pela malandragem e pelo poder oratório de Antônio. Nos funerais, ele exibiu uma imagem de cera, em que se viam os ferimentos sofridos por César, e fez um elogio fúnebre com tamanha paixão que o povo de Roma, revoltado, jurou vingança contra os Liberatores. Mesmo anistiados, Cássio e Bruto decidiram fugir para as províncias romanas do Oriente. Lá, a dupla de conspiradores reuniu soldados para tentar conquistar todo o Império Romano, mas era mais fácil matar César que imitá-lo. Uma aliança entre Marco Antônio, Marco Emílio Lépido (outro general de César) e o herdeiro e sobrinho-neto do ditador, Otaviano, esmagou as forças de Bruto e Cássio em Filipos, na Macedônia. A dupla cometeu suicídio (ou, para ser mais exato, Bruto se matou e Cássio mandou que um de seus ex-escravos o matasse). Ainda não era o fim das grandes guerras civis romanas - nas décadas seguintes, Otaviano derrotaria Antônio e viraria Augusto, o primeiro imperador. Mas, sem dúvida alguma, era o fim das chances de poder para sujeitos como Cássio, Bruto, Casca e os demais senadores, que se diziam Liberatores


E se César tivesse escapado?

O tirano teria se tornado imperador ou morrido em batalhas


Marco Antonio


Imagine uma realidade alternativa na qual César, um pouquinho mais preocupado com a própria segurança, só faz suas poucas e imponentes aparições públicas rodeado por uma guarda de gauleses brutamontes, muito bem pagos e leais apenas ao ditador. À primeira vista, o resultado dessa política mais cautelosa parece óbvio: Roma teria seu primeiro imperador uns 20 anos antes do que realmente acabou acontecendo (com a subida ao poder de Augusto, sobrinho-neto e herdeiro de César). De resto, tudo teria caminhado mais ou menos do mesmo jeito que no nosso mundo. Ou não? "A ascensão do Principado [o governo absoluto de Augusto] certamente parece inevitável a partir da nossa perspectiva, mas deveríamos ser mais humildes ao tentar prever o que aconteceria. Para começar, se a tentativa de assassinato não tivesse acontecido, César teria partido para outra campanha militar", diz Isabelle Pafford, referindo-se ao plano do ditador de atacar o Império da Pártia, que então dominava vastas regiões na Mesopotâmia e na Pérsia. Acontece que as legiões romanas já tinham levado sovas consideráveis na Pártia, o que significa que César podia muito bem acabar morrendo em batalha. "Nesse caso, o Império Romano teria se fraturado, com a própria Roma entrando em declínio", diz ela. "Com Júlio César vivo, os rumos do Império aparentemente seriam muito diversos do que foram. Ele teria tudo para antecipar as tendências centralizadoras e para implantar um culto imperial [no qual o governante era adorado como deus] ainda mais robusto. O Senado teria menos poder simbólico do que teve com Augusto", afirma Pedro Paulo Funari. Pode até ser que Marco Antônio fosse nomeado como sucessor. Assim, diz o historiador, Roma ficaria cada vez mais voltada para o Oriente, onde esses modelos de governo eram mais conhecidos e bem aceitos. "Haveria movimentos messiânicos na Palestina, como o de Jesus? Haveria a destruição de Jerusalém em 70 d.C.? Não se sabe", diz Funari, levando em conta que a relação de César com a população judaica da Palestina e do resto do Império era bastante pacífica.

Política na faca

Assassinatos políticos já eram praxe séculos antes de César tombar no Senado

Israel, 840 a.C.

Jeú, general do exército, conspirou contra o rei Jorão, matou-o com uma flechada no coração e aproveitou para liquidar a rainha-mãe Jezebel, junto com outros 70 membros da família real. Jeú tornou-se rei.

Grécia, século 6 a.C.

Dois jovens amantes atenienses, Harmôdio e Aristogeiton, tentaram despachar os irmãos Hípias e Hiparco, que mandavam em Atenas, ocupando a posição de tiranos. Hiparco morreu, Hípias escapou e os conspiradores foram mortos.

Pérsia, século 6 a.C.

Parente distante dos reis da Pérsia e oficial do exército, Dario alegou que o soberano do momento na verdade era um impostor e, com ajuda de outros nobres do império, invadiu o palácio real e o matou com suas próprias mãos, tornando-se imperador.

Macedônia, 336 a.C.

Alexandre, o Grande, ganhou o trono graças à morte violenta de seu pai, Filipe II, atacado por um membro de sua guarda pessoal (e seu ex-amante). Acredita-se que o assassinato tenha sido orquestrado pela mãe de Alexandre.


Os suspeitos

Caio Cássio Longino

General com experiência nas guerras romanas no Oriente, estudou filosofia na Grécia e se aliou a Pompeu, líder da facção aristocrática inimiga de César, quando estourou o conflito civil em Roma. Quando Pompeu foi derrotado, Cássio recebeu o perdão oficial de César e o cargo de pretor, mas não ficou nem um pouco satisfeito.

Marcos Júnio Bruto

Descendia de um ancestral famoso e semilendário que, segundo a tradição, fora responsável por expulsar Tarquínio,o último rei de Roma. Sua mãe, Servília, era amante de César. Como Cássio, seu cunhado, ele acabou se aliando a Pompeu durante a guerra civil, sendo perdoado assim que se rendeu.

Décimo Júnio Bruto Albino

Parente distante do outro Bruto e do próprio César, era um almirante de mão cheia, que ajudou o ditador a vencer batalhas navais durante a conquista da Gália e na guerra civil. Com reputação acima de qualquer suspeita, os conspiradores trataram de recrutá-lo, junto com outros membros do círculo de César que andavam descontentes.

Públio Servílio Casca

Casca e seu irmão, Caio, eram senadores membros de uma família leal a César, mas tudo indica que a falta de perspectivas políticas para o Senado com o poder cada vez mais absoluto do ditador os levou a se juntar aos conspiradores. Públio Casca, segundo os autores antigos, foi o primeiro senador a ferir César com sua adaga.

Marco Túlio Cícero

Excelente orador, escritor e filósofo, foi o grande articulador do partido aristocrático, os Optimates, pouco antes da guerra civil e durante o conflito. Aceitou o domínio de César e fez os senadores jurarem defender a vida do ditador. Mas não deixava de queimar o filme de César. Não participou diretamente do atentado.


Saiba mais

LIVROS

Júlio César - O Ditador Democrático, Luciano Canfora, Estação Liberdade, 2002

Provavelmente a obra mais completa e erudita sobre a vida e morte de César em português, com uma análise minuciosa das fontes antigas sobre o ditador.

O Assassinato de Júlio César, Michael Parenti, Record, 2005

Parenti tenta entender o assassinato de César como um dos últimos rounds da luta entre políticos reformistas e conservadores na república romana. O livro é repleto de descrições e teorias sobre o que poderia ter sido diferente no destino do tirano mais famoso de Roma.
Rubicão, Tom Holland, Record, 2006

Introdução leve e clara à crise da república, da geração anterior a César à morte de Augusto, o sobrinho-neto herdeiro de Roma, que instaurou o império.

Fonte: Revista História
Autor: Reinaldo José Lopes
Imagens: Internet

terça-feira, 25 de maio de 2010

A FALIBILIDADE DA JUSTIÇA NO JULGAMENTO DE JESUS

Antônio Campos (Escritor e Advogado)



No ano 17 do reinado do imperador romano Tibério César e 30 da nossa era, em Jerusalém, numa sexta-feira, o Procurador Romano da Judeia, Pôncio Pilatos, condenou Jesus Cristo a morrer crucificado entre dois ladrões, um à esquerda e outro à direita.





PÔNCIO PILATOS

JESUS ENTRE LADRÕES

Nos dois processos a que Jesus foi submetido, o religioso, perante o Sinédrio (Tribunal supremo dos judeus, que aplicava as leis mosaicas, integrado pelos sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da Lei), e o civil, segundo a lei romana, perante Pilatos, ambos iniciados e concluídos em menos de 24 horas, foram cometidas diversas irregularidades e arbitrariedades.

Pilatos violou várias regras elementares do Direito Romano: não designou os acusadores, não concedeu ao acusado o direito de ter um defensor, não proferiu a sentença em termos regulares.

FORUM ROMANO


O procedimento a que Jesus foi submetido violou relevante norma legal da época:

"nas causas pecuniárias pode-se terminar o processo no mesmo dia em que se começou; nas causas capitais, pode-se pronunciar a absolvição no mesmo dia, mas a condenação deve, ao invés, deferir-se ao dia seguinte, na esperança que se encontre um argumento a favor do acusado".

Jesus não convocou advogado para assisti-lo. Na realidade, ele é quem estava patrocinando a causa da Humanidade, em cuja defesa sacrificou a própria vida.

O imperador Tibério César queria dominar o Mundo com espadas e máquinas de guerra. Jesus queria transformá-lo com uma história de amor e terminou crucificado. Se os insignes criminalistas de nossa era requeressem a revisão criminal de Jesus - para efeito de estudo - facilmente demonstrariam diversas ilegalidades praticadas pelo Sinédrio quanto à própria lei mosaica e diversas ofensas praticadas contra a Lex Romana por Pilatos. Para se corrigir um erro judiciário pode-se alegar um fato novo a qualquer tempo. Não há preclusão para a injustiça. Aliás, a justiça é a fonte psicológica do Direito.

Quanto ao tema, o inigualável Rui Barbosa em página pouco conhecida e bastante atual assim pontifica:


ANÁS

HERODES


"De Anás a Herodes o julgamento de Cristo é o espelho de todas as deserções da Justiça, corrompida pelas facções, pelos demagogos e pelos governos. A sua fraqueza, a sua inocência, a sua perversão moral crucificaram o Salvador, e continuam a crucificá-lo, ainda hoje, nos impérios e nas repúblicas, de cada vez que um tribunal sofisma, tergiversa, recua, abdica. Foi como agitador do povo e subversor das instituições que se imolou Jesus. E, de cada vez que há precisão de sacrificar um amigo do Direito, um advogado da verdade, um protetor dos indefesos, um apóstolo de ideias generosas, um confessor da lei, educador do povo, é esse, a ordem pública, o pretexto, que renasce, para exculpar as transações dos juízes tíbios com os interesses do poder. Todos esses acreditam, como Pôncio, salvar-se, lavando as mãos do sangue, que vão derramar, do atentado, que vão cometer. Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde." (in Obras Seletas, vol. 7, Casa de Rui Barbosa, Rio, 1957).



O julgamento de Jesus Cristo demonstrou a falibilidade da Justiça humana e constitui o maior erro judiciário da história.

ANTÔNIO CAMPOS - Filho do escritor Maximiano Campos, da Geração 65 de autores pernambucanos, Antônio Campos nasceu em 25 de julho de 1968, no Recife, onde se bacharelou em Direito em 1990. É advogado especializado em Direito Empresarial e Direito do Entretenimento.

Imagens: Internet

terça-feira, 27 de abril de 2010

A MULHER QUE CHORA

*Luíz Horácio





Tanto a lenda quanto a parábola costumam ser subestimadas, relegadas ao universo infantil na maioria das vezes, sem compromisso com a realidade. Operam no terreno da fantasia, do absurdo, nada além. Infelizmente vigora essa idéia. No entanto um autor chinês, Su Tong, ao reescrever uma lenda cria uma parábola que permite reflexões acerca do amor, do poder,do individualismo, da resistência...





Su Tong em A mulher que chora recria a milenar lenda de Binu. Na história original as lágrimas de uma mulher fazem desmoronar a Grande Muralha, o otimismo vence a tristeza. O mesmo não acontece em A mulher que chora , tristeza, dor, humilhação e uma pitada do absurdo de Kafka, dão o tom a narrativa de Su Tong. Binu, a protagonista da história, vive na Aldeia do Pêssego, lugar onde as mulheres são proibidas de chorar. Até hoje, os aldeões do sopé da montanha do Norte não se atrevem a derramar uma lágrima por causa da dor da morte. O marido de Binu, Qiliang , de repente desaparece, mais tarda ela descobre que fora recrutado para trabalhar na construção da Grande Muralha da China. O tal canteiro de obras não é o que se poderia chamar de lugar tranqüilo com boas condições de trabalho. A construção teria consumido número em torno dos duzentos e cinqüenta mil homens.




Flor do pêssego


Pois foi para esse lugar que levaram Qiliang, o marido de Binu. A mulher assustada com os rigores do inverno que se aproxima, resolve levar roupas apropriadas ao marido que trabalha no trecho batizado de montanha da Grande Andorinha. A montanha dista mil li , segundo fui informado isso quer dizer milhares de quilômetros, da Aldeia do Pêssego, e Binu parte carregando uma trouxa na cabeça. Se eu tiver um cavalo, irei a cavalo. Se tiver um jumento, irei montada nele. Se não tiver nenhum dos dois, irei a pé. Um animal é capaz de percorrer essa distância. Nós não somos superiores aos animais? Quem disse que eu não posso andar mil li?




Convém estar preparado, sensível leitor, pois assim que Binu parte a história se enche de honra, piedade, sentimentalismo, fé, idealismo desmedido e obsessão. São valores eternos, você pode argumentar, erudito leitor, mas todos na mesma taça torna a bebida um tanto ácida em demasia.





A seguir, um exemplo. O recrutamento para trabalhar na construção da Grande Muralha trazia implícito o passaporte para a eternidade. Fugir era impossível, um carroceiro conseguiu.

Binu encontrou o tal carroceiro e ao perceber que lhe faltavam as mãos...

O carroceiro exibiu demoradamente os cotos sem mãos, primeiro o esquerdo, depois o direito. “Por que tanto interesse nisto aqui? Está pensando em se casar comigo?” Riu, ameaçador. “Quem cortou? Adivinhe. Vou lhe dizer uma coisa, pode tentar até o fim dos tempos, mas nunca vai adivinhar. Eu mesmo fiz isso comigo para evitar que me levassem para a montanha da Grande Andorinha! Primeiro cortei a mão esquerda, mas o convocador disse que não ter a mão esquerda não fazia diferença, já que eu ainda podia carregar pedras com a direita. Então pedi ajuda a meu pai para cortar a direita.




São personagens perdidos entre a miséria, a opressão, a fome, toda sorte de desgraça, perdem a guerra da sobrevivência para eles mesmos, sufocam a liberdade em seu interior. A viagem de Binu é farta em sofrimentos, Su Tong divide em estações a narrativa, a medida que avança, narrativa e caminhada, os requintes de humilhação a que a mulher é submetida vão se sucedendo, enquanto isso o narrador deixa o leitor com suspeitas de um certo sadismo, também em crescimento.

Binu tem um papel na trama, sofrer. Sofre sozinha. Não encontra a menor solidariedade ao longo das 249 páginas de A mulher que chora.

É justamente o choro que permitirá a Binu um certo alívio de seu sofrimento. Às mulheres da Aldeia do Pêssego não é permitido chorar pelos olhos, aprenderam a chorar pelos pés, seios, cabelos, mãos. Suas lágrimas não são lágrimas quaisquer, são poderosas, capazes de curar doenças e mexer com a natureza.

Binu não pára, não descansa, decidida a levar as roupas de lã ao marido, não dá importância aos avisos acerca da estupidez de tal empreitada. É sabido que o conformismo impede mudanças, mas determinados exageros no concerne ao movimento, a atividade, ao idealismo, chegam a beirar o grotesco. Os personagens de A mulher que chora respiram os ares do absurdo e da verdade. Paradoxal? Nem tanto. Quer ver?

Os operários são recrutados sem explicações, sabem que trabalharão na construção da Muralha, não sabem ao certo onde nem as razões para tal construção. Muitos morrerão. Não resistem, não podem fazê-lo. Uma mulher resiste. Resiste chorando. Muda algo?

Minimamente sim.

Com potente lupa o leitor perceberá uma amostra da mediocridade humana, das condições sociais e políticas da China daquela época, e das atrocidades que o poder costuma perpetrar independente do cenário.

No frigir dos ovos Su Tong trabalhou no limite entre a dor e a tragédia, e no entender deste aprendiz o limite já é excesso.


Su Tong nasceu em Suzhou, China em 1963. Licenciou-se em Literatura na Universidade de Pequim. É o autor de "Rice" e da colecção "Raise the Red Lantern", que deu origem ao filme, nomeado para os Óscares, «Esposas e concubinas» de Zhang Yimou.Su Tong vive em Nanjing, China.








*Luíz Horácio - Escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, Nenhum pássaro no céu, Luísa e a barriga da mamãe (infantil), jornalista, professor de Literatura, mestrando em Letras.








Imagens: Internet

terça-feira, 13 de abril de 2010

Desilusões de um americano / O grande jogo de Billy Phelan



* Luíz Horácio



O grande jogo de Billy Phelan e Desilusões de um americano, dois livros, dois autores, duas excelentes histórias bem diferentes, mas com algumas coisas em comum.

No centro das tramas a família. Em O grande jogo de Billy Phelan a família propriamente dita e a família mafiosa. Em Desilusões de um americano as memórias de um pai morto abrem caminho para a família, enfim, se conhecer e se reconhecer. Há outros traços em comum, veremos adiante, mas caso a escolha por um dos títulos for inevitável, caro leitor, opte por Desilusões de um americano, sem a menor possibilidade de arrependimento.

Tanto num quanto noutro estão disponíveis fartas doses de imaginação e criatividade, parece simples, mas não é; tais itens ainda são materiais indispensáveis à arquitetura de uma grande história. Deixam de lado as supostas inovações , tolices que vão dos quebra-cabeças sem sentido de Osman Lins e seu Avalovara, às frases sem pontuação de Saramago onde,nesses casos, a história torna-se aspecto secundário. Formalismos à parte, William Kennedy e Siri Hustvedt contam histórias, sabem contar, de maneira cativante e surpreendente.

Idas e vindas são marcantes nos dois romances. Agregam ficção à vida e com sutileza adentram em questões significativas da existência humana. A relação pai/filho, Billy e Francis; Edward e Martin, na história de Kennedy. Erik, Inga e Lars, pelo lado de Ustvedt. Acrescente-se o tom investigativo, o suspense, as sinuosas pistas oferecidas . Nem sempre confiáveis. O leitor se torna o grande vencedor.

O grande jogo de Billy Phelan é uma tradicional história de gângster, do submundo do jogo e das “peculiaridades” do poder.Nada fora do lugar , porém sem a costumeira previsibilidade que exige a luta do bem contra o mal. Aqui o bem, caso exista, usa disfarce.

Tradição e modernidade não se chocam no texto de William Kennedy, unem-se na tarefa de contar a história de Billy Phelan, o jogador, que vive a dizer: “Billy sempre paga suas dívidas.” E de aposta em aposta a vida de Billy transcorre sem maiores atropelos, no ritmo dos bem quistos. Até o dia em que solicitado a atuar como informante, diz não ao papel. Fecham-se as portas, Billy não tem onde beber e jogar. Resta-lhe a solidão, agora mais acentuada. Não, paciente leitor, você não encontrará cenas de amor, de encontros, O grande jogo de Billy Phelan é um livro seco, frio,sem espaço para remissões. Aqui tudo é contido, impera a tensão, o suspense silencioso.

Exemplo: Charlie Boy, o garoto da família McCall é seqüestrado. A ação não é descrita. Nenhum tiro é disparado, tampouco na libertação onde a aparição, na janela de um carro, de dois canos de uma espingarda, constitui a maior violência.

Aparentemente simples, se ficarmos apenas com a história de Billy, no entanto complexa, precisa, se atentarmos aos aspectos da política, da corrupção e da miséria que cerca a existência humana.

Outros pontos em comum: a presença de imigrantes, noruegueses em Desilusões..., irlandeses em profusão em O grande jogo...o caderno do pai de Martin em O grande jogo... O diário do pai de Erik em Desilusões... A importância dos sonhos nos dois romances. O cunhado de Erik, escritor e roteirista de cinema, o pai de Martin, autor de peças teatrais. Em ambas histórias atrizes desempenham importantes papéis na trama. Hustvedt e Kennedy descrevem o cenário, mas merece destaque a forma como Kennedy o faz, sempre durante caminhadas dos personagens. O movimento não cessa, nem mesmo naquilo que a tradição apresenta como algo estático. As doenças dos pais de Erik e Martin, as recordações, a guerra. Da guerra, a semelhança das cenas, fortes, mas sem apelar para o exagero nas descrições. A ação de O grande jogo ...ocorre nos anos da grande depressão americana, nas memórias de Lars várias referências a essa mesma época em Desilusões...Investiga-se um seqüestro em O grande jogo...procura-se descobrir a identidade da autora de uma carta, em Desilusões...Um pai deixa cair um bebê em O grande jogo...em Desilusões um pai se distrai e a filha cai pela janela do apartamento.

Memória e realidade se fundem nos dois livros, Martin tem muito de Kennedy que também foi jornalista. Hustvedt utiliza anotações de seu pai morto em 2003.

Desilusões de um americano é um romance de idéias, de cunho autobiográfico. Memórias, problemas familiares, o não dito, o não acontecido. Aqui o mal se dilui nas frustrações.

Na trama de Ustvedt o jogo também está em cena, na forma de um quebra-cabeças, ou melhor, de dois quebra-cabeças. A existência de um caderno de memórias do imigrante norueguês Lars, pai de Érika e Inga. Ali encontram-se os relatos de sua chegada aos EUA, de sua participação na segunda guerra mundial, e um mistério. Remexendo os papéis do pai, os irmãos encontram a carta de uma certa Lisa. A mulher pede que Lars silencie sobre a morte de uma pessoa, também desconhecida. Durante o périplo investigativo, Inga e Erik estabelecem diálogos, instigantes ao leitorcurioso, acerca de filosofia, neurociência e psiquiatria. Mais um atrativo de Desilusões de um americano.

Dois passados que precisam ser montados, criados, recriados talvez, o do pai do psicanalista Erik Davidsen, uma morte precisa ser esclarecida, e o do cunhado de Erik, o roteirista Max Blaustein, uma vida- um filho fora do casamento- precisa ser admitida.

Vale chamar a atenção para dois aspectos: Desilusões de um americano é narrado por uma voz masculina. Segundo ponto;personagens femininas, no mínimo estranhas, para não dizer atormentadas.

Inga traumatizada pelo terrorismo do 11 de setembro, tenta seguir em frente após a morte do marido, mas tem uma filha adolescente e seus problemas e não bastasse isso ainda é perseguida por uma jornalista interessada em vasculhar a vida do falecido.Miranda, inquilina de Erik, não consegue cortar os laços com o psicopata pai de sua filha. Mas, em se tratando de mulheres “estranhas” ainda resta uma atriz e o que seria uma drag-queen instantânea.

Mas os personagens masculinos não são nenhum exemplo de equilíbrio; Erik parece não se abalar por nada, emoções não são seu forte, Jeffrey Lane, ex-marido de Miranda, pode ser chamado de psicopata,Max teve filho fora do casamento,Burton e o amor platônico por Inga.
Embora todos esses atrativos citados, o personagem mais marcante de ambos romances é a solidão. Solidão que no cenário de incertezas desenha novas realidades.

A solidão de Martin, o jornalista, a solidão de Billy Phelan, o jogador, abrandada por sua suposta liberdade, independência, desapego.Perder ou ganhar, o importante é jogar.A solidão de Francis, pai de Billy, que abandona a família após deixar cair e morrer seu outro filho ainda bebê. O mesmo Francis que tempos passados matara um condutor de bonde com uma pedrada. Logo fugiu da cidade.Não tardou a voltar e ficar por outros quinze anos. Ao comentar os dois acontecimentos: “É” , disse Billy. “Até dar um jeito de matar outra pessoa.” A solidão de Melissa, a atriz, que, apesar da idade,pode comparar os dotes de Martin e de seu pai, o dramaturgo Edward Daugherty.

A solidão de Francis, a mesma solidão de Billy,igual a solidão de Martin, a solidão de Edward, a solidão do abandono.

A cicatriz da solidão na figura do seqüestrado Charlie Boy.

Em Desilusões de um americano, a solidão de Erik, morte do pai e fim de seu casamento. Sente-se atraído por Miranda, sua inquilina, mas a história não progride. À irmã, Inga, filósofa, escritora; além da morte do pai, a morte do marido Max Blaustein. A fama do marido oprime e isola essa mulher que parece “suportar a vida.” A solidão como testemunho histórico e social.
A ação permanente dos acontecimentos, o que se deu não se desfaz tampouco é esquecido.Como o abandono de Billy, a traição sofrida por Inga, a separação de Erik, o gesto assassino de Francis, cenas que se repetem com a capacidade de tornar cada vez maior a solidão. Como faz comigo a cena da morte de minha filha. Solidão, começo e fim.

Desilusões de um americano, além do prazer da leitura, se presta a estabelecer um debate acerca dos conceitos de auto-ficção, autor implícito, autor criador, autor pessoa. Onde começa um e termina o outro? Existem mesmo, além teoria, essas divisões e subdivisões?



*Escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, Nenhum pássaro no céu, Luísa e a barriga da mamãe (infantil), jornalista, professor de Literatura, mestrando em Letras.
Imagens: Internet