sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

São Nicolau e a lenda de Papai Noel

Da mesma forma que milhões de crianças no mundo todo, eu adorava a chegada do Natal para poder ganhar presentes e ver Papai Noel. Sempre moramos no subúrbio do Rio, e nessa época, vivíamos em Cascadura, e minha mãe nos levava (eu, meu irmão e minha irmã) para Madureira ou para o Méier para vermos o "bom velhinho". Ele me pegava no colo, perguntava o que eu queria de presente e me dava balas deliciosas embrulhadas em papel vermelho, que não me saem da lembrança.
Ontem, li na internet um artigo de um amigo, no qual ele falava do seu desencanto em não sentir mais entusiasmo ao lembrar do Natal, que foi substituído pelo consumismo exacerbado, e a falta de solidariedade. Senti grande tristeza por ele.
Por ter consciência das imperfeições dos seres humanos, da maldade, das loucuras e da violência que nos cerca, é que quando estou triste, penso no espírito natalino com todas as coisas boas que ele me traz. Procuro pensar no meu tempo de infância e resgatar as coisas mágicas, bucólicas, ingênuas e dessa forma recarregar o ânimo e a disposição para seguir adiante.
Sou admiradora do Papai Noel, que está associado a São Nicolau, e que todos teimam em dizem não existir. Ele existe sim! Assim como Santo Agostinho, São Nicolau também era bispo e vivia na da cidade de Patara, na Turquia, humilde, bondoso em extremo e adorado por todos.

Conheçam um pouco mais da história desse santo surpreendente e bem-aventurado.



São Nicolau *Taumaturgo (*aquele que faz milagres) da cidade de Mira, da província de Lícia, é um santo especialmente querido pelos ortodoxos, e em particular, pelos russos. Ele ajuda ràpidamente em diversas calamidades da vida e perigos das viagens. Ele nasceu na Ásia Menor no final do séc. III. E desde a sua infância, demonstrou a sua profunda religiosidade e aproximou-se do seu tio, bispo da cidade de Patara e ainda jovem foi ordenado sacerdote.
Após a morte dos seus pais, São Niolau herdou uma grande fortuna a que começou a distribuir entre os pobres. Ele se empenhou em ajudar secretamente, para que ninguém pudesse agradecer-lhe. O seguinte caso mostra, como ele ajudava aos infelizes:
Havia na cidade de Patara um rico comerciante com 3 filhas. Quando as suas filhas chegaram à maturidade, as transações comerciais do pai delas fracassaram e ele chegou à completa falência. Daí ele teve uma idéia criminosa de usar a beleza das filhas para conseguir meios de sobrevivência. São Nicolau ficou ao par do seu plano e decidiu salvar a ele junto com as filhas de tal pecado e vergonha. Aproximando-se durante a noite à casa do comerciante falido ele jogou na janela aberta um saquinho com moedas de ouro. O comerciante, achando o ouro, com grande alegria preparou o enxoval da filha mais velha e arranjou-lhe um bom casamento. Passado um pouco de tempo, São Nicolau novamente jogou na janela um saquinho com ouro, o suficiente para o enxoval e o casamento da segunda filha. Quando o São Nicolau jogou o terceiro saquinho com ouro para a filha mais nova, o comerciante já estava à espera dele. Prostrando-se diante do Santo, agradeceu com lágrimas pela salvação da sua família de um horrível pecado e vergonha. Após o casamento das três filhas, o comerciante conseguiu recuperar os seus negócios e começou a ajudar aos próximos, imitando o seu benfeitor.
São Nicolau desejou visitar os lugares santos e embarcou num barco de Patara para a Palestina. O mar era calmo, mas ao Santo foi revelado que em breve haveria uma tempestade e ele avisou aos outros viajantes. E realmente, veio uma tremenda tempestade e o barco virou um brinquedo indefeso das ondas violentas. Como todos sabiam que São Nicolau era padre, todos pediram a ele rezar pela salvação. Após a oração do Santo, o vento se acalmou e veio uma grande calmaria. Depois disto, um dos barqueiros foi derrubado pelo vento do mastre ao convés e morreu. São Nicolau ressuscitou ele com suas orações.
Após a sua peregrinação a lugares santos, São Nicolau queria se isolar num deserto e passar a sua vida inteira longe dos homens. Mas não era esta a vontade de Deus. Deus escolheu o Santo a ser o bom pastor dos homens. São Nicolau ouviu uma voz, ordenando a ele voltar à sua pátria e servir aos homens.
Não querendo morar na cidade onde foi tão bem conhecido, São Nicolau foi a uma cidade vizinha, Mira. Esta era a capital da província de Lícia e aqui era estabelecida a sé episcopal. O Santo se estabeleceu lá como um pobre. Como ele amava a igreja, ele ía para lá diariamente , logo que se abriam as portas dela.
Nesta época o bispo de Mira faleceu e os bispos vizinhos se reuniram para eleger o seu sucessor.Como eles não conseguiam chegar à unanimidade na escolha, um deles aconselhou: "O Senhor deve Ele mesmo nos indicar a pessoa certa. Assim, irmãos, vamos rezar, jejuar e esperar pelo escolhido de Deus." E ao mais velho dos bispos Deus revelou,que a primeira pessoa a entrar na igreja após a abertura da porta deve ser eleito o bispo. Ele contou o seu sonho aos outros bispos e antes da missa da manhã, ficou vigiando a porta e esperando pelo eleito de Deus. São Nicolau, conforme o seu costume, chegou primeiro para rezar. Vendo o Santo, o bispo perguntou a ele: "Como é seu nome?" São Nicolau humildemente respondeu.
"Me siga, meu filho"- disse o bispo, pegou na mão dele, conduziu-o até a igreja e avisou, que ele será ordenado bispo de Mira.São Nicolau tinha medo de aceitar o cargo tão alto, mas teve que ceder à vontade dos bispos e do povo.




Após a sua ordenação, São Nicolau resolveu: "Até agora eu pude viver para mim mesmo e para a salvação da minha alma, mas daqui em diante todo o momento da minha vida deve ser dedicado aos outros." E esquecendo a si mesmo, o Santo abriu a porta de sua casa a todos e tornou-se o verdadeiro pai dos órfãos e pobres, defensor dos oprimidos e benfeitor a todos. Conforme o testemunho dos seus contemporâneos, ele era humile, pacífico, se vestia mais simplesmente possível, comeu só o estritamente necessário e ainda só uma vez por dia, à noite.
Quando, no reinado do imperador Diocleciano (284-305) começou a perseguição da Igreja, São Nicolau foi encarcerado. E lá na prisão ele também esqueceu a si e com as suas palavras e seu exemplo apoiava os cristãos, que estavam sofrendo junto com ele. Mas não era a vontade de Deus para que ele morresse como mártir. O novo imperador Constantino era benévolo aos cristãos e deu à eles o direito de abertamente confessar a sua fé e suas convicções religiosas.
E São Nicolau pode voltar ao seu povo. É quase impossível de enumerar todos os casos da ajuda dele e seus milagres. Aconteceu, que na Lícia começou fome. São Nicolau apareceu em sonho a um comerciante, que na Itália estava carregando seus barcos com trigo, deu a ele moedas de ouro e mandou-lhe navegar para a cidade de Mira na Lícia. Ao acordar, o comerciante achou na sua mão moedas de ouro, e possuido de um grande temor, não ousou desobedecer à ordem do Santo. Ele trouxe o seu trigo para a Lícia e contou aos habitantes o seu milagroso sonho, graças ao qual ele chegou lá.
Naquele tempo, em muitas igrejas começou uma forte agitação a respeito da heresia de Aria que negava a Divindade do Senhor Jesus Cristo. Para apaziguar a Igreja, o imperador Constantino o Grande convocou o Primeiro Concílio na cidade de Nicéia, em 325. Entre os bispos do Concílio estava também o São Nicolau. O Concílio condenou a heresia de Aria e elaborou o Credo, onde com palavras bem definidas ficou expressa a fé ortodoxa em Senhor Jesus Cristo, como Filho Unigênito, com a mesma essência do Pai. Durante os debates, São Nicolau, ouvindo a blasfemia do Aria, ficou tão indignado, que perante todo mundo bateu no rosto dele. Pela indisciplina, o Concílio desapossou São Nicolau da dignidade de bispo. Mas, logo após este incidente, alguns bispos tiveram uma visão em que Senhor Jesus Cristo entregou à São Nicolau Evangelho e Nossa Senhora colocou nele o Seu manto. Os bispos entenderam, como é contrária à Deus a heresia de Aria e reintegraram o São Nicolau no seu bispado.
Da hagiografia de São Nicolau sabemos, que uma vez o imperador condenou à morte 3 dos seus chefes. Estes se lembraram dos milagres de S. Nicolau e mandaram-lhe um pedido de ajuda. O Santo rezou e no sonho apareceu ao imperador e ordenou à ele libertar os seus fieis servos, ameaçando, que no caso contrário, o imperador será castigado. "Quem és tu - perguntou o imperador- que ousas mandar aqui?" "Eu sou Nicolau, arcebispo de Mira" , respondeu o Santo. Não ousando desrespeitar a ordem, o imperador reviu com atenção o caso dos seus chefes e libertou-os com as devidas honras.
Aconteceu, que saiu do Egito para a Líbia um barco. No mar começou uma horrível tempestade e o barco estava afundando. Algumas pessoas se lembraram do São Nicolau e começaram a rezar a ele. E viram claramente, como o Santo estava correndo à eles por cima das ondas enfurecidas, entrou no barco e pegou o leme com as suas mãos. A tempestade acalmou e o barco chegou ao porto ileso.
São Nicolau morreu muito velho em meados do século IV, mas com a morte dele, a sua ajuda não cessou. Durante mais de 1500 anos ele dá a sua rápida ajuda a todos, que rezam à ele. Os testemunhos da ajuda dele constituem uma vasta literatura e o amor da gente ortodoxa aumenta a cada dia.
Quando, em 1087 a provincia de Lícia foi devastada, o Santo apareceu no sonho a um padre em Bari, na Itália e mandou trasladar as suas relíquias para esta cidade. Esta ordem do Santo foi rapidamente cumprida e desde aquela época, o Santo repousa na igreja de Bari. As suas relíquias vertem bálsamo, que cura os doentes. Este acontecimento é comemorado em 22 de maio (9 de maio no estilo velho).

FESTA DE SÃO NICOLAU DE BARI



Uma das festas religiosas mais comemoradas no sul da Itália é a de São Nicolau em Bari. São Nicolau é um dos santos mais populares do cristianismo, mas não só. A atual representação com roupa vermelha bordada de branca tem origem no poema “A Visit from St. Nicholas” de 1821 de Clement C. Moore, que o descreveu como um senhor alegre e fofinho, contribuindo para difundir a figura mítica, folclórica, do Papai Noel. Na Igreja ortodoxa russa São Nicolau é geralmente o terceiro ícone ao lado de Cristo e Maria com o menino Jesus.


Os restos do Santo foram conservados na cidade turca de Mira até a ocupação dos muçulmanos. Bari e Veneza, na época rivais no mar Adriático, entraram em disputa para ficar com os restos. Em 9 de maio de 1087 uma expedição de Bari com três navios, partiu da cidade em direção a Mira: os bareses se apossaram assim dos restos mortais de São Nicolau.

Oração de São Nicolau


Deus, Todo-Poderoso, atendei às nossas preces e aceitai que Vos adoremos, prestando homenagem a São Nicolau, Sede bendito e louvado, eternamente, pelos dons que concedestes a esse Vosso Santo, e por nos haver dado São Nicolau com nosso protetor.São Nicolau, protegei-me contra os perigos do mar.São Nicolau, guiai-me. São Nicolau, socorrei-me. (Rezar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria).

Assista um desenho e um Clip de Natal:

http://br.youtube.com/watch?v=-EDf3TSlP8s&feature=related (Turma da Mônica)

http://br.youtube.com/watch?v=lA0vzY8FwO8&feature=related (mensagem de Natal)

Fontes:

Papai Noel : Uma Biografia - Gerry Bowler- Ed. Planeta (Brasil)

http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/st_nicolas_p.htm;

http://www.blogbelavida.com/post/216/festa-de-sao-nicolau-em-bari

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

ÁLVARO MARINS - "Páginas esquecidas:Uma antologia diferente de contos machadianos"






No meu reengresso no curso de graduação em Literatura, só me deparei com "feras", e Álvaro Marins é uma delas. Quando fala de literatura seus olhos brilham de paixão pelo tema; cada autor, cada obra abordada por ele, se transforma num tesouro inigualável:
Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Vinicius de Morais, Rubem Fonseca, Osman Lins, Murilo Rubião, Manuel Bandeira e tantos outros, que com seu entusiasmo, acabava nos contagiando a todos de tal forma, que nos encantávamos por tudo que aprendíamos a cada aula.
Eu, particularmente, recorria à biblioteca e à internet para saber mais e mais sobre cada obra e autor citados.



Em agosto, Álvaro lançou "Páginas esquecidas: Uma antologia diferente de contos machadianos", coletânea em que ele privilegiou os contos que não pertencessem a antologias de cunhos valorativos, mas contos que tratavam os temas recorrentes e obsessivos de Machado de Assis: ciúme-ambição-dinheiro-parasitismo social (os parasitas são muito importantes na obra de Machado)-hipocrisia; os narradores. Fala também, da crítica ácida que Machado fazia aos personagens românticos.







Resumo do livro:

Em 'Páginas esquecidas: uma antologia diferente de contos machadianos', de Machado de Assis, é possível saborear uma nova visão crítica da obra deste grandioso escritor, no ano que marca o centenário de sua morte. Organizada por Álvaro Marins, esta antologia, que integra a coleção Sal da Língua, apresenta 16 contos machadianos, com temas que se relacionam a partir de diferentes abordagens elaboradas pelo escritor. Nos temas, “o parasitismo decadente da classe patrimonial”, “a psicologia velhaca dos representantes do patrimonialismo” e até mesmo “o jogo de aparências e o teatro de futilidades de paixões muito mais encenadas do que vividas”, assim denominados pelo organizador, que afirma ainda ser possível observar, através desses textos, a trajetória estética de Machado e o amadurecimento do escritor sobre determinadas questões.

Livro de Álvaro Marins(org.)
Editora: Língua Geral
R$ 45,00

Onde comprar: em todas as livrarias e também no site : http://www.linguageral.com.br/

Leia o primeiro capítulo de "Páginas esquecidas:Uma antologia diferente de contos machadianos" : http://www.linguageral.com.br/site/downloads/titulos/69.pdf


MACHADO DE ASSIS - Vida e Obra


Joaquim Maria Machado de Assis nasceu dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro. O garoto pobre, filho de um operário mestiço chamado Francisco José de Assis e de Maria Leopoldina Machado de Assis, marcou a história da literatura brasileira. Ao contrário do que se imagina, a trajetória de Machado de Assis não o conduziu naturalmente para o mundo das letras. Ainda na infância o jovem “Machadinho”, como era carinhosamente chamado, perdeu sua mãe. Durante sua infância e adolescência foi criado por Maria Inês, sua madrasta. A falta de recursos financeiros o obrigou a dividir seu tempo entre os estudos e o trabalho de vendedor de doces. Ainda sobre condições não muito favoráveis, Machado de Assis demonstrava possuir grande facilidade de aprendizado. Segundo alguns relatos – no tempo em que morou em São Cristóvão – aprendeu a falar francês com a dona de uma padaria da região. Já aos 16 anos conseguiu publicar sua primeira obra literária na revista “Marmota Fluminense”, onde registrou as linhas do poema “Ela”. No ano seguinte, Machado conseguiu um cargo como tipógrafo na Imprensa Nacional e dividiu seu tempo com a criação de novos textos. Durante sua estadia na Imprensa Nacional, o escritor iniciante teve a oportunidade de conhecer Manuel Antônio de Almeida, diretor da instituição e autor do romance “Memórias de um sargento de milícias”. O contato com o diretor lhe concedeu novas oportunidades no campo da literatura e o alcance de outros postos de trabalho. Aos 19 anos de idade, Machado de Assis se tornou colaborador e revisor do Jornal Marmota Fluminense. Nesse período conheceu outros expressivos escritores de seu tempo, como José de Alencar, Gonçalves Dias, Manoel de Macedo e Manoel Antônio de Almeida. Nesse tempo ainda se dedicou à escrita de obras românticas e ao trabalho jornalístico. Entre 1859 e 1860, conseguiu emprego como colaborador e revisor de diferentes meios de comunicação da época. Entre outros jornais e revistas, Machado de Assis escreveu para o Correio Mercantil, Diário do Rio de Janeiro, O Espelho, A Semana Ilustrada e Jornal das Famílias. A primeira obra impressa de Machado de Assis foi o livro “Queda que as mulheres têm para os tolos”, onde aparece como tradutor. Na década de 1860, consolidou sua carreira profissional como revisor e editor. Na mesma época conheceu Faustino Xavier de Novais, diretor da revista “O futuro” e irmão de sua futura esposa. Seu casamento com Carolina foi bem sucedido e marcado pela afinidade que sua companheira também possuía com o mundo da literatura. Em 1867, Machado de Assis publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado “Crisálidas”. O sucessoda carreira literária teve seqüência com a publicação do romance “Ressurreição”, de 1872. A vida de intelectual foi amparada por uma promissora carreira constituída no funcionalismo público. A conquista do cargo de primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas ofereceu uma razoável condição de vida. No ano de 1874, produziu o romance “A mão e a luva” em uma seqüência de publicações realizadas dentro do jornal O Globo, na época, mantido por Quintino Bocaiúva. O prestígio artístico de Machado de Assis o tornou um autor de grande popularidade. Durante as comemorações do tricentenário de Luís de Camões, produziu uma peça de teatro encenada no Imperial Teatro Dom Pedro II. Entre 1881 e 1897, o jornal Gazeta de Notícias abrigou grande parte daquelas que seriam consideradas suas melhores crônicas. O ano de 1881 foi marcante para a carreira artística e burocrática de Machado de Assis. Naquele mesmo ano, Machado tornou-se oficial de gabinete do ministério em que trabalhava e publicou o romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, considerado de suma importância para o realismo na literatura brasileira. A ampla rede de relações e amizades de Machado de Assis lhe abriu portas para um outro importante passo na história da literatura brasileira. Em reuniões com seu amigo, e também escritor, José Veríssimo confabulou as primeiras medidas para a criação da Academia Brasileira de Letras. Participando ativamente das reuniões de escritores que apoiavam tal projeto, Machado de Assis tornou-se o primeiro presidente da instituição. Com a sua morte, em 1908, foi sucedido por Rui Barbosa. A trajetória de Machado de Assis é alvo de interesse dos apreciadores da literatura e de vários pesquisadores. A sua obra conta com um leque temático e estilístico bastante variado, dificultando bastante o enquadramento de seu legado em um único gênero. O impacto da sua obra chegou a figurá-lo entre os principais nomes da literatura internacional.










Obras de Machado de Assis:

Romances:

"Ressurreição" (1872)
"A Mão e a Luva" (1874)
"Helena" (1876)
"Iaiá Garcia" (1878)
"Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881)
"Casa Velha" (1885)
"Quincas Borba" (1891)
"Dom Casmurro" (1899)
"Esaú e Jacó" (1904)
"Memorial de Aires" (1908)

Contos:

"Contos Fluminenses" (1870)
"Histórias da Meia-Noite" (1873)
"Papéis Avulsos" (1882)
"Histórias Sem Data" (1884)
"Várias Histórias" (1896)
"Páginas Recolhidas" (1899)
"Relíquias de Casa Velha" (1906)

Poesia:

"Crisálidas" (1864)
"Falenas" (1870)
"Americanas" (1875)
"Gazeta de Holanda" (1886-88)
"Ocidentais" (1901)
"O Almada" (1908)
"Dispersas" (1854-1939)
Crônicas:
"Comentários da Semana" (1861-1863)
"Crônicas do Dr. Semana" (1861-1864)
"Crônicas - O Futuro" (1862-1863)
"Ao Acaso" (1864-1865)
"Cartas Fluminenses" (1867)
"Badaladas" (1871-1873)
"História de Quinze Dias" (1876-1877)
"História dos Trinta Dias" (1878)
"Notas Semanais" (1878)
"Balas de Estalo" (1883-1886)
"Bons Dias!" (1888-1889)
"A Semana" (1892-1800)

Teatro:

"As Forças Caudinas" (1956)
"Hoje Avental, Amanhã Luva" (1860)
"Desencantos" (1861)
"O Caminho da Porta/O Protocolo" (1863)
"Quase Ministro" (1864)
"Os Deuses de Casaca" (1866)
"O Bote de Rapé" (1878)
"Tu, só Tu, Puro Amor" (1880)
"Não Consultes Médico" (1899)
"Lição de Botânica" (1906)



Álvaro Marins é doutor em Teoria Literária pela UFRJ e professor adjunto do Centro Universitário da Cidade. É autor de "Machado de Assis e Lima Barreto: da ironia à sátira" (Rio de Janeiro, Utópos, 2004) e organizador, junto com Fred Góes, do volume "Melhores poemas de Paulo Leminski" (São Paulo, Global Editora, 6a ed., 2003), "Páginas esquecidas: Uma antologia diferente dos contos machadianos" (Rio de Janeiro, Língua Geral, 2008).



Assista a entrevista de Álvaro Marins ao programa GloboNews Painel Literatura com Edney Silvestre - agosto de 2008: http://especiais.globonews.globo.com/machadodeassis/2008/09/18/livre-reune-as-obsessoes-de-machado-de-assis/

Fontes: http://www.brasilescola.com/literatura/biografia-machado-assis.htm

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

VISITEM OS BLOGS QUE EU ACOMPANHO

Ângela Lopes

Quem sou eu
Uma pessoa transparente, que gosta de ouvir e de ser ouvida, sincera, amiga, verdadeira, que é calma e às vezes nervosa, sentimental e às vezes firme...


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Geraldo D'Almeida Alves

Quem sou eu
Escritor, pesquisador e palestrante de Filosofia




http://alvesgeraldo2.blogspot.com/;



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

APENAS OS IDIOTAS CONSEGUEM EXPLICAR O AMOR
para Rejane


Quando ele veio trouxe uma mala velha cheia de livros. Naquele mesmo dia enfiou-a embaixo da nossa cama. Todas as manhãs colocava a mala em cima da cama e ficava a olhar e chorar em meio às páginas dos livros. Um dia tomei coragem e perguntei a razão daquilo e ele respondeu que chorava pelas pessoas tristes que assim eram porque não tinham coragem de chorar. E chorou ainda mais, dia após dia, depois daquele dia.
Quando ele veio, também trouxe consigo uma outra mala, não tão velha, cheia de CDS. Tinha de quase tudo, de jazz a bossa nova passando por MPB, samba e rock. Alguns ele costumava ouvir no carro, mas a maioria escutava em casa quando me mostrava e se entristecia por eu não gostar. Com a música ele não chorava, mas não parava de fazer anotações a cada disco que escutava. Dizia que as músicas acordavam lembranças e que tudo que escrevia resultava dessas recordações, por isso anotava.
Ele gostava de rir, agora eu sei que ele ria para encobrir a tristeza. E ele era triste por tantas coisas, um dia, a garrafa de vinho pela metade, me confessou que tudo o entristecia e que por isso pensava seriamente em se matar. Sei que foi feliz comigo, que foi feliz com o que eu podia lhe dar; não posso almejar mais do que isso. Em primeiro lugar, porque ele não me permitia outras ações, em segundo; porque ele era assim e mais tarde entendi o porquê de ele viver dizendo que as pessoas não mudam. Ele bem que tentava, mas não conseguia mudar.
Uma vez uma amiga o aconselhou a rezar e ele disse que não acreditava em rezas e tampouco em Deus.Como crer em alguém capaz de prometer uma vida eterna à uma criança e logo permitir que ela morra com pouco mais de dois meses de vida.


Anteontem, no começo da noite ele ligou o computador e me chamou.
-Sim.
-Gostaria que você lesse e me desse sua opinião.

Ele tinha acabado de escrever mais um de seus livros. Antes de ler tomamos uma garrafa de vinho.Depois, vim para o computador, ele sentou no sofá e mais uma vez começou a ler o Dom Quixote. Por volta das quatro da manhã terminei de ler o livro. Não sabia o que dizer. Ele dormia no sofá em minha frente, acordei-o.

-Leu?
-Li.
-Está bem escrito?
-Está.
-E da história, você gostou?
-Primeiro quero saber se você gostou? Você gosta das histórias que cria?
-Gostei, gosto.
-Mesmo com tanta dor, tanta morte?
-A morte é o apogeu da dor. Mas dói, escrever me dói tanto, meu amor, me faz sofrer tanto,eu me vingo de mim, eu me vingo... Vivo a me perguntar: será que um dia conseguirei me consertar?, às vezes me canso de mim...queria tanto ser mais útil para aqueles que precisam de mim, principalmente meus filhos. Preciso escrever um livro sem defeitos. E afinal, você gostou?
-Preciso ler de novo.
Mas saiba que essa insatisfação não é sua apenas. Eu poderia fazer muito mais se não fosse tão desorganizada e até certo ponto "irresponsável". Por certo, poderia dar uma condição de estabilidade futura muito melhor a meu filho, uma qualidade e vida melhor a meu pai e mais tranqüilidade a todos que me cercam.
Não seja tão duro com você.
Sofra, porque isso é inevitável, sempre podemos fazer melhor. Sinal de consciência, mas não tanto que aniquile com sua felicidade. Por favor!Por que eu dependo dela.
Seja um pouco mais modesto. Aliás, não. Quem sabe possa escrever o tal livro perfeito, afinal você é você.

-Se você vai precisar ler de novo é sinal que está ruim, um livro bom não precisa de mais de uma leitura para ser entendido.

Levantou e saiu. Fui dormir.
Quando acordei ele estava escrevendo.
-Deixa eu ler de novo?
-Deletei.
-Você está brincando! Tinha umas frases tão bonitas, pena que não anotei.
-Agora é tarde.Estou escrevendo outro.
-Sobre o que é?
-É a história de um homem que tinha dois medos; de amar e de morrer.


Eu sabia que se tratava da história dele. Afinal de contas um homem que se separa cinco vezes é porque tem medo de amar. Se bem que às vezes fico em dúvida. Talvez ele não tenha medo de amar, o que ele faz é assustar com seu jeito de amar.
Lembro do dia em que ele me revelou que se descobrira apaixonado por outra mulher, mas isso não significava que precisasse deixar de me amar. Pedi que explicasse e ele contou que uma antiga colega de faculdade tinha revelado que sempre prestara atenção nele, tinha um interesse especial. Ele estava comigo e me amava, nunca tive dúvida, mas ouvir ele dizer que a ex-colega também lhe despertava interesse, não me fez muito bem. Tentei deixar pra lá, afinal de contas desde o começo de nossa relação me convenci que o que ele mais precisava era de amor e atenção.Nunca vi alguém tão carente e solitário quanto ele. Impressionante! Ele precisava de amor e atenção das pessoas que ele escolhia, não era o amor de quem precisava amá-lo. Coisa de enlouquecer. Não, não foi nem uma nem duas vezes que cheguei a pensar que ele estava ficando louco. Ao mesmo tempo me perguntava como um louco conseguia ser um amante quase perfeito. Louco ou quase louco não importava, eu o queria ao meu lado. Mas eu sofria.
-Querido, vou te amar pra sempre, no que depender de mim essa relação nunca terá fim.
-Deixar de te amar...só se eu enlouquecer.
-Mesmo assim, continuarei a te amar, te amarei feito uma louca.



Ficamos juntos um longo tempo e agora tenho que admitir que foi um erro. A pior escolha que uma mulher pode fazer é essa, viver com um escritor; estão sempre insatisfeitos. A ele tudo incomodava, nunca entendi a facilidade com que chorava, para que serve um escritor, por que não escrevem coisas só para a gente se distrair, por quê? Ele precisava da tristeza, da dor, para escrever.
Quando ele veio me trouxe um medo: que a cada mulher inteligente e culta que conhecesse, seria capaz de amar, afinal de contas tinha me dito que entendia ser amor sinônimo de liberdade. E de vez em quando se punha a falar das ex-mulheres;o que incomodava não eram as lembranças das fartas frustrações de seus relacionamentos e sim a lembrança/saudade dos momentos bons vividos com aquelas mulheres.Por que não as esquecia por completo? É assim, as coisas ruins existem para nos fazer lembrar das coisas boas, eu não suportava, embora ele estivesse aqui, comigo.Sempre muito carinhoso. De tanto sentir medo escrevi um livro de poesia, todas sobre o mesmo tema. Uma é esta.
Acho que é impossível mascarar o medo
...o medo é uma merda...mas
De todos os medos que me castigam
Tem um que é especial
Ele se fantasia
Com as cores da crueldade e da compaixão
É mais triste que o medo da morte
Mais frio que o medo da noite
Ou mais alienante que o sonho da sorte
É o medo louco de não ser ninguém
de virar mendiga
Patética criatura do chão
Onde só fotógrafos sádicos
Conseguem focalizar poesia
Em tamanha degradação

Quando ele veio trouxe um vazio imenso que conseguimos amenizar, tinha dias que ao vê-lo tão triste me dava vontade de queimar aquela mala, parecia que as dores que o castigavam estavam todas ali. E ele fazia questão de renová-las.
Hoje pela manhã ele se foi.
-Por quê?
-Só tenho repetições a lhe oferecer, você merece mais.
-Mas que pretensioso, quem você pensa que é para dizer do que preciso ou deixo de precisar?
-Não sei de mais nada, tenho uma certeza apenas; tudo é muito triste. Em certos dias quase tive certeza do meu amor por você.
-E agora, agora...que dia é hoje? Dia da incerteza? Então quem sabe amanhã você tornará a me amar?

- Não estou brincando. Faz tempo que o amor é só mais um pedaço do meu sofrimento, cansei.
-Porra, mas que merda de amor é esse que opta pela separação?
-Esse é o meu amor, um jeito de amar que me desagrada, mas basta!, apenas os idiotas conseguem explicar o amor.
Hoje pela manhã ele se foi, não levou a mala.
Quando ele voltar...............


Luíz Horácio Rodrigues nasceu em 1957, em Quaraí (RS). É professor de língua portuguesa e literatura, e coordena o curso de pós-graduação Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato, de Porto Alegre. Colabora com os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho e revistas. É também roteirista, documentarista e autor teatral. Escreveu os livros Perciliana e pássaro com alma de cão - ed. Conex e Nenhum pássaro no céu - ed. Fábrica de Leitura.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

REISADO: PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO



O reconhecimento do reisado como patrimônio brasileiro, foi reinvindicado em seminário no IV Encontro Mestresdo Mundo, encerrado no último sábado 06/12/08. Segundo o pesquisador cearense Oswald Barroso, "O reisado é um folguedo que se desenvolve no Brasil inteiro, com uma variedade imensa e uma importância enorme para as diversas artes. Mapear essa manifestação, para esse processo de registro seria um desafio enorme, dada a sua complexidade e diversidade". Juntamente com a capoeira, agora teremos a certeza que essa bela festa popular, será preservada para o deleite de gerações futuras.

REISADO



O Reisado é uma das pantomimas folclóricas mais ricas e mais apreciadas, principalmente no Nordeste. Faz parte do repertório das Festas Jesuínas, e é apresentado de 24 de dezembro a 6 de janeiro, isto é, pelo Natal, Ano Bom e Reis. O Reisado é formado por um grupo de foliões, de pastores e pastoras que se reúnem numa espécie de rancho, com o fim de visitar as casas das pessoas mais gradas e hospitaleiras da região, a cantar e a dançar. O reisado apresenta diversas modalidades e compõe-se de várias partes: a) abrição da porta; b) entrada; c) louvação ao Divino; d) chamadas do rei; e) peças de sala; f) danças; g) a guerra; h) as sortes; i) encerramento da função. Tem como principais personagens: o rei, o mestre, o contramestre, Mateus, Catarina, figuras e moleques.

Indumentária:


Rei - culote até os joelhos, terminado por franjas, blusa de cetim de cor diferente com mangas compridas; no peito, espelhinhos; manto de cetim dourado que cai até os joelhos; coroa de ouro, cetro.

Mestre - chapéu de palha, forrado de cetim, de aba dobrada na testa (como usam os cangaceiros) adornado com muitos espelhinhos, bordados dourados e flores artificiais; da parte não dobrada da aba pendem fitas compridas de cores variadas, saiote de cetineta até a altura dos joelhos, de cores vivas, com grega de galões largos; por baixo saia branca, com dois ou três babados; blusa, peitoral e capa. Contramestre - idêntica à do Mestre, porém menos pomposa.

Mateus -
paletó e calça de brim com placas de remendos, alpercatas de couro cru, chapéu de palha enfeitado com espelhinhos e franjas, penduricalhos ao peito, como se fossem medalhas, cantil e bornal a tiracolo; pandeiro, espingarda de bambu.




Catarina/Catirina (palhaça) - roupa de tecido xadrez, de maneira a lembrar um palhaço.

Figuras - trajes idênticos ao do mestre, porém mais pobres e mais simples.
Inicia-se o folguedo com o rei seguido do mestre e do contramestre e acompanhado de meninos que trazem grandes candeias de querosene, conduzindo o reisado. Atrás seguem os dançadores de entremeios, com baús cheios de máscaras e trajes. Entoam marchas ao som de violas, harmônicas, maracás, rabeca, pandeiros e vão em demanda das casas onde celebram sua função.

Abrição da porta:

O mestre dirige a evolução do episódio por meio de apitos. Canta-se e dança-se com volteios altivos e elegantes. O reluzir dos espelhos e das lantejoulas produz grande efeito pictórico. Mateus vai aboiando dando uma nota de comicidade à função. Terminam pedindo licença para entrar.













Entrada:
Entram os tocadores, criando animação, seguidos do rei, do mestre, do contra-mestre e das figuras, portando-se todos com garbo e imponência. Cantam a peça da entrada e fazem elogios ao dono da casa. Executam marchas e contramarchas em ritmo ligeiro e com passos arrastados.

Louvação ao Divino:

O reisado dirige-se ao presépio ou à capela da casa visitada. Ajoelham.
Cantam em louvação ao Divino, ao som da música, mas os maracás são abafados com as mãos para produzir um som surdo. Voltam à sala. O rei ocupa o trono. As figuras colocam-se em duas filas. Realizam-se, então, os entremeios, os episódios de guerra e as embaixadas. O mestre dirige a peça.

Chamadas do rei:

Ao fim de uma peça, ou de um entremeio, o rei levanta-se do trono, chama o mestre e com ele cruza sua espada, em ressoantes entrechoques, enquanto estabelece com ele uma série de embaixadas.

Peças de sala:

Antes e depois das embaixadas, são cantadas e dançadas as peças de sala. Estas são críticas, comentários, sátiras sobre fatos ou acontecimentos ligados à vida de pessoas ou do povo da região.

Danças:

As danças são numerosas e variadas, como, por exemplo, a dança do gingá com o entremeio da mamãe velha.

A Guerra:

O mestre apita e o primeiro embaixador atende. Cruza espadas e inicia embaixadas de guerra, primeiro com o mestre, depois com o rei. Quando chega a vez do segundo embaixador, as embaixadas já se tornam cansativas, repetindo-se as batidas de espadas. Por fim, todos os figurantes, inclusive o rei e o mestre se empenham na luta e o combate se torna geral.

As sortes:

Todos os figurantes, até o próprio rei, atiram seus lenços aos donos da casa e à assistência. Estes os devolvem com dinheiro dentro. Recolhidas as sortes, o mestre apita e as filas de dançarinos se afastam para os lados. Então começam os entremeios. Estes são composições teatrais, jocosas, burlescas, como o bumba-meu-boi, o cavalo-marinho, etc.
Encerrados os entremeios, voltam as danças e cantorias de peças, sucedem-se as embaixadas até que sejam apresentados novos entremeios. Note-se, de passagem, que os personagens dos entremeios não tomam parte nas danças das embaixadas.
São os entremeios que dão maior brilho a esta dança dramática e são tão apreciados que alguns são apresentados mesmo fora de sua época como, por exemplo, (o famoso bumba-meu-boi, o boi simboliza o do presépio) que, inicialmente, era o principal entremeio do reisado e é levado agora também nas Festas Juninas.



Muitos destes entremeios, deliciosos quadros independentes, revelam um espirito chistoso, outros se inspiram em motivos míticos ou totêmicos, como o Zabelê.

Folharal:

Nesta dança, o personagem oculta a cabeça sob uma cabaça donde pendem longas folhas de samambaia, traja um camisolão coberto de folhas e capim. Aumenta seu fantástico aspecto quando os longos cabelos de samambaia esvoaçam nos continues rodopios dados pelo bailarino.
Zabelê: O dançarino, disfarçado num saco pintado, usando máscara com bico, dança e assobia, imitando o pássaro jacu.

Curiabá:
O dançarino imita o macaco, se coça dançando e faz mil trejeitos engraçados.


Sapo Cururu:

Agachado no chão, o dançarino coaxa e dá estranhos pulos.




Alma, Diabo e Miguel:


É um entremeio que deixa a assistência suspensa e trêmula de medo. A alma, envolta em lençol branco, desfiando um rosário, gemendo, aparece. Foge do Diabo que, todo vestido de vermelho com rabo e garras afiadas, a persegue. Agarra-a mas quando já a arrasta para o inferno, interpõe-se no seu caminho o anjo São Miguel, geralmente representado por uma moça, de asas brancas e espada em riste. Trava-se uma luta entre ele e o Diabo que é vencido. Há um forte estouro de pólvora na sala e o Diabo aproveita a oportunidade para desaparecer da cena. Suspiros de alívio na assistência.
Entre inúmeros outros, podem-se ainda citar o
Lobisomem, o Matuto e o Fantasma, o Capitão de Campo, o Pescador e a Sereia.


E assim, os artistas que representam os entremeios aproveitam cada embaixada para correrem aos baús por eles trazidos no cortejo, de onde tiram febrilmente suas fantasias inesgotáveis.
Data de registro: meados do século XX (~1950)

Para assistir a festa do Reisado (luta de espadas) , acesse os links: http://br.youtube.com/watch?v=ENSR4NfdjRc; http://br.youtube.com/watch?v=ym4Hbj_vqSI

REISADO NA VISÃO DE LUÍS DA CÂMARA CASCUDO


Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do folclore brasileiro, diz que Reisado é a denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e Dia de Reis.
O Reisado chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses, que ainda conservam a tradição em suas pequenas aldeias, celebrando o nascimento do Menino Jesus. Em Portugal é conhecido como Reisada ou Reseiro.



No Brasil é uma espécie de revista popular, recheada de histórias folclóricas, mas sua essência continua a mesma, com uma mistura de temas sacros e profanos.
O Reisado é formado por um grupo de músicos, cantores e dançarinos que percorrem as ruas das cidades e até propriedades rurais, de porta em porta, anunciando a chegada do Messias, pedindo prendas e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam.
A denominação de Reisado persiste ainda em Alagoas, Sergipe e Bahia. Em diversas outras regiões o folguedo é chamado de
Bumba-meu-boi, Boi de Reis, Boi-Bumbá ou simplesmente, Boi. Em São Paulo é conhecido como Folia de Reis, onde a festa é composta de apresentações de grupos de músicos e cantores, todos com roupas coloridas, entoando versos sobre o nascimento de Jesus Cristo,liderados por um mestre.
Fazem parte do espetáculo os “entremeios” (corruptela de entremezes), pequenas encenações dramáticas que são intercaladas com a execução de peças, embaixadas e batalhas. Os personagens são tipos humanos ou animais e seres fantásticos humanizados, cheios de energia e determinação.
O folguedo do ciclo natalino é comemorado em várias regiões brasileiras, principalmente no Norte e Nordeste
, onde ganhou cores, formas e sons regionais. Em Alagoas, constitui-se numa representação dramática, normalmente curta e pobre de enredo, acompanhada e precedida de canto.

Em Sergipe, é apresentado em qualquer época do ano e não apenas nas festas de Natal e Reis. Os temas de seu enredo variam de acordo com o lugar e o período em que são encenados: amor, guerra, religião, entre outros.

O Reisado apresenta diversas modalidades e é composto de várias partes: a abertura ou abrição de porta; entrada; louvação ao Divino; chamadas do rei; peças de sala; danças; guerra; as sortes; encerramento da função.

A música no Reisado está sempre presente. O Mestre é o solista, sendo respondido pelo coro a duas vozes. Os instrumentos utilizados alternadamente são: a sanfona, o tambor, a zabumba, a viola, a rebeca ou violão, o ganzá, pandeiros, pífanos e os “maracás”, chocalhos feitos de lata, enfeitados com fitas coloridas.

Há uma grande variedade de passos nas danças do Reisado, entre os quais pode-se destacar: do Gingá, onde os figurantes de cócoras se balançam e gingam; da Maquila, um pulo pequeno com as pernas cruzadas e balanços alternados do corpo para os lados, passo também exibido pelos
caboclinhos; Corrupio, movimento de pião com o calcanhar esquerdo; Encruzado, cruzando-se as pernas ora a direita à frente da esquerda, ora ao contrário.

Tem como personagens principais o Mestre, o Rei e a Rainha, o Contramestre, os Mateus, a Catirina, figuras e moleques.

O Mestre é o regente do espetáculo. Utilizando apitos, gestos e ordens, comanda a entrada e saída de peças e o andamento das execuções musicais. Usa um chapéu forrado de cetim, de aba dobrada na testa (como o dos cangaceiros), adornado com muitos espelhinhos, bordados dourados e flores artificiais, de onde pendem fitas compridas de várias cores; saiote de cetim ou cetineta de cores vivas, até a altura dos joelhos, enfeitado com gregas e galões, tendo por baixo saia branca, com babados; blusa, peitoral e capa.

O traje do Rei deve ser mais bonito e enfeitado. Veste saiote ou calção e blusa de mangas compridas de cores iguais, peitoral, manto de cores diferentes em tecido brilhante (cetim ou laquê);calça sapato tênis (tipo conga), meiões coloridos e na cabeça uma coroa feita nos moldes das dos reis ocidentais, semelhante a das outras figuras, porém encimada por uma cruz; levam nas mãos uma espada e, às vezes, também um cetro. Durante o cortejo os Reis vêm na frente, logo atrás do Mestre e do Contramestre. A Rainha é representada por uma menina, com vestido “de festa”, branco ou rosa, uma coroa na cabeça e um ramalhete de flores nas mãos.




O Contramestre é o responsável pelo Reisado na ausência do Mestre. Seu traje é semelhante ao daquele, só que menos pomposo.

Os Mateus, que sempre aparecem em dupla, usam trajes diferentes dos outros figurantes: vestem paletós e calças de tecido xadrez, usam um grande chapéu afunilado que chamam de cafuringa, com espelhos e fitas coloridas, óculos escuros, rosto pintado de preto, geralmente com tisna de panela ou vaselina e levam nas mãos os pandeiros. São os personagens cômicos do Reisado, junto com a Catirina.

Conhecida antigamente como Lica, a Catirina é a noiva do Mateus. Veste-se de preto, traz um pano amarrado na cabeça, o rosto pintado de preto e um chicote nas mãos, com o qual corre atrás das moças e crianças.

As outras figuras formam o coro do Reisado, que participam ativamente apenas nas batalhas, nas danças e no canto, quando respondem ao solo do Mestre. Formam duas fileiras simétricas, organizadas hierarquicamente e posicionadas uma do lado direito outra do lado esquerdo do Mestre.
É uma das tradições populares mais ricas e apreciadas do folclore brasileiro, principalmente na região Nordeste.

FONTES CONSULTADAS:
.BARROSO, Oswald. Reis de Congo. Fortaleza: Museu da Imagem e do Som, 1996.
.RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Aurora, 1970.
.DALWTON MOURA-
http://diariodonordeste.globo.com;
http://www.terrabrasileira.net/folclore/regioes/6ritos/reisado.html; http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=316&textCode=5772&date=currentDate

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

E já estamos perto do Natal

Aqueles que acompanham esse blog, sabem do meu apreço pelos escritores e compositores talentosos que tive o privilégio de conhecer nesses últimos anos. São tantos, que chego a pensar que é um presente de Deus por eu estar dedicando-me com mais afinco à literatura. Entre aqueles mais próximos de mim estão: Álvaro Marins ("Machado e Lima Da Ironia à Sátira"; "Páginas esquecidas: uma antologia diferente de contos machadianos"- lançado recentemente; "Melhores poemas de Paulo Leminsk" junto com Fred Góes), Valdemar Valente Junior ("Cultura Luso-brasileira" - apresenta as origens da nossa colonização, do século XVI até metade do século XX), André Gardel ("Teoria da Literatura: Fundamentos" (2006) e "Teoria da Literatura: tradições e Rupturas" (2007), além de vários poemas, e como cantor, vários CDs, "Vôo da cidade" é o mais recente), Ricardo Vigna lançou o CD "Clima Verde" em parceria com Geraldo Martins), Érico Braga Barbosa Lima lançou "Novíssima Gramática do velho Português" e os estimados Luíz Horácio e Ronaldo Correia de Brito, que são habitués nesse espaço, com textos de excelente qualidade. O texto abaixo, é uma reminiscência bem-humorada, das aventuras infantis do Ronaldo com Maria Luiza, que o aproximou da cultura popular e do folclore, que mais tarde passaram a influenciar todas as suas obras teatrais, cinematográficas e literárias. Bem, vamos a ele.

E já que estamos perto do Natal


Numa noite de um mês de dezembro fui levado para ver a Lapinha pela empregada de nossa casa. Maria Luiza me puxava pela mão, enquanto subíamos a Ladeira do Seminário, assim chamada porque lá no alto ficava o seminário dos padres, um edifício imenso, pintado de amarelo e cercado de pés de eucalipto.

No final da tarde, os urubus se recolhiam aos galhos mais altos das árvores. Eram tantos que formavam uma mancha preta contra o céu. Quando os padres sentavam na calçada para a leitura dos breviários, as aves faziam cocô nas páginas abertas dos livros. A anedota corria solta pela cidade do Crato, lá no sul do Ceará, e era uma nota profana e engraçada naquele mundo sombrio de procissões e missas rezadas em latim.

O dono da brincadeira de lapinha, que eu assisti deslumbrado, era o pai de Maria Luiza, um cabo de polícia moreno e gordo. Mesmo sendo criança, eu estranhava um homem armado de revólver e cassetete se ocupar de um teatrinho feminino e delicado. Apenas as meninas representavam o auto da lapinha, com suas cantigas medievais portuguesas, adaptadas pelos padres à catequese dos pobres brasileiros.



As pastoras formavam dois cordões, um vermelho e um azul, representativos de mouros e cristãos. Esmaecidas pela singeleza da brincadeira, as cores ficaram na minha lembrança como rosa e azul claro. Havia muitos personagens: sol, lua, estrela, anjo, borboleta, beija-flor, menina da cesta, ciganas, Maria, José, Reis Magos e, o mais maravilhoso de tudo, caboclinhos de aldeia. Esses indiozinhos de presépio foram certamente botados na cena da adoração por jesuítas como o Padre Anchieta, na intenção de converter ao cristianismo os primeiros habitantes do Brasil.

Os caboclinhos cantavam os versos mais surpreendentes desse auto em louvor ao Menino Deus. Numa estrofe de quatro versos eles explicavam como se deu a Encarnação, aquele mistério da Igreja Católica segundo o qual Maria concebeu sendo virgem.

Passa o sol pela vidraça
Já passou sem tocar nela
Assim foi a Virgem
Levou luz ficou donzela.
Quem terá sido o poeta anônimo a criar esses versos? Ele quis nos dizer que assim como o sol atravessa a vidraça sem parti-la, a Virgem Maria, igualmente, recebeu uma luz e concebeu sem perder a virgindade. Ah, esses gênios populares! Tudo isso acabou em pouco tempo. De cultura viva se transformou em folclore ou espetáculo para turistas.

Eu desejava brincar na lapinha, mas era brinquedo de meninas e de gente pobre, de uma condição social diferente da minha. O máximo que consegui foi que Maria Luiza me desse as asas do anjo e as da borboleta. Mesmo esse presente foi proibido por meu pai e eu tive de escondê-las num quarto dos fundos de nossa casa, penduradas nos caibros do telhado. De vez em quando eu olhava aquelas invenções aladas e sonhava meus vôos. Até que o tempo cobriu-as de poeira e fuligem e ficaram esquecidas.



A mesma Maria Luiza me levou para ver um preso enforcado no porão da penitenciária do Crato. Uma cena horrível, que ainda me assombra. Não lembro se ao subir a ladeira do Seminário eu segurava a mão direita ou a mão esquerda dessa mulher que me apresentou o mundo. Sei que o mundo está cheio de alegrias e tristezas, tanto à direita como à esquerda. E que viver é a difícil arte de escolher caminhos.

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify. Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim, e o romance Galiléia pela Alfaguara. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma vez mais, o escritor Luíz Horácio nos brinda com uma deliciosa resenha, que nos estimula a lermos "Aqui nos encontramos". Esse livro possui elementos que aguçam a nossa curiosidade; fala de frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte. Eu já estou providenciando o meu exemplar para curtir nas férias.


AQUI NOS ENCONTRAMOS - John Peter Berger

Paciente leitor, aqui me tens de regresso, mais uma vez com a morte embaixo do braço. Antes permitam uma inconfidência: 02 de maio de 2006 , noite, sala da casa de Fausto Wolff , Rio de Janeiro e mostrava a mim, ao editor Alberto Quartim, e ao jornalista Marcelo Carota, o Pirata, uma mesa onde, sob um vidro, estavam fotos daqueles que haviam feito, nos dizeres de FW, a sua cabeça. Uma homenagem aos mortos.

É assim, infelizmente, cultivamos o hábito de homenagear os mortos. Dos vivos, esquecemos com facilidade. Homenagem é coisa para morto. É? Se você responder afirmativamente saiba que não concordo. Não sei por que, mas me agrada muito mais gente viva. Digo isso porque nunca deixei de dizer ao Fausto o quanto o amava, e quando brigamos ele também ficou sabendo o motivo. O escritor e professor Prado Veppo a quem dedico um de meus livros também soube de meu amor enquanto vivia. Dos citados acima, o Quartim e o Pirata, desejo-lhes mais cem anos entre nós, de preferência em minha companhia, e assim desse jeito meio tosco vou agradecendo aos meus amigos, forma modesta de homenageá-los.















Fausto Wolff e Prado Veppo

Em Aqui nos encontramos, John Berger homenageia pessoas que fizeram parte de sua trajetória de 82 anos e também discorre, sempre com o auxílio dos mortos, sobre algumas frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte.


"Aquilo que você deveria saber é o seguinte: os mortos não ficam onde estão enterrados."

A frase acima é o tiro de partida a esse passeio empreendido pelo autor na companhia da saudade. A frase é dita pela mãe do protagonista, morta há 15 anos, num encontro em Lisboa. O protagonista é o próprio autor deste misto de romance e ensaio biográfico.

Partindo de Lisboa, John passa alguns países europeus numa longa viagem arquetípica onde são testados os limites entre o real e o imaginário, entre o passado e o presente, entre a individualidade e a necessidade do outro. Numa leitura mais simples podemos dizer que é um reencontro com a capacidade de se emocionar.

"Aqui nos encontramos"
é um olhar para o passado, nesse relato de 208 páginas o leitor perceberá a literatura como o motivo central das preocupações de John, logo em seguida poderá eleger Lisboa como outro de seus amores, a Europa viria a seguir; mas também perceberá que ele amava ainda mais a conquista de uma liberdade que lhe permitiria ver-se tal como era, sem exemplos históricos, muito menos religiosos.

O leitor sente-se despojado de uma carga histórica nem sempre confiável e nos mais das vezes infantil, quase boba, desse modo estará livre para contemplar-se em meio às ruínas emocionais. Assim tanto leitor quanto autor poderão compreender a importância das perdas a que lhes obrigaram a vida e sua falta de lógica.

Muitas vezes nos aconselham que o melhor modo para nos ressarcirmos moralmente de nossas perdas materiais e afetivas, é a prática do mergulho interior, encerrar-se em si mesmo e organizar uma grande força centrípeta para logo adiante transformá-la em força centrífuga. John volta essa força para a Europa, volta com seu sentido criador e harmonizador de emoções. Os sentimentos estão no comando dessa viagem, mas o navegador é o espírito crítico. Por vezes vestindo o uniforme do criticismo histórico. É nesse momento que a narrativa passa a atuar na consciência e no espírito de seus compatriotas, John atua como um terrorista das idéias. John Berger é inglês e a Inglaterra tem mais que o dobro da população que é capaz de alimentar com recursos próprios.

O número de vidas que entram em nossa vida é incalculável.

O resultado disso, o mais evidente é a saudade. Embora o autor se refira apenas aos que entram, por outro lado esses mesmos costumam sair sem nos avisar, alguns retornam, a outros a morte não dá essa permissão.


Aqui nos encontramos é a homenagem solicitada por Miriam, a mãe de Jonh, em seu encontro em Lisboa:
"Apenas escreva o que descobrir (...) e faça o gesto de cortesia de nos observar"
De observar mortos; sua mãe, Borges, Ken, o jornalista, professor de dança, gigolô, em sua viagem as lembranças deflagram comentários sobre frutas, os mortos estimulam essas recordações, encontra sua filha Kátia , funcionária do Grand Théâtre de Genebra.

Os personagens de Berger constituem uma amostra da substância humana - e por conseguinte claro escura -da história, resultam daí, símbolos, imagens emblemáticas das limitações e também da crueldade sem fim que se faz inerente ao homem.

Em verdade, John Berger e todos os demais escritores, escrevem apenas um vasto livro onde cada diferença aponta uma semelhança e cada desvio implica um novo intento de nos aproximarmos de nosso centro. Todos invocam a sintaxe da alma, como escreveu Manuel Álvarez Ortega, todos querem unir realidade com suas obsessões individuais, ao mesmo tempo em que todos caminham para a morte.

Talvez o leitor de Aqui nos encontramos conclua a leitura sem saber muito bem de que se trata, se um ensaio, uma autobiografia, um relato de viagem; ainda que comovido por uma terna melancolia arrisque encarar o texto como um diálogo entre amigos e que o tema dominante sejam as recordações a permitir sinuosidades e invadir meandros sensíveis. Desse modo os ecos dessas recordações assumem dimensões orgânicas.

Concordo com Miriam, os mortos não ficam onde estão enterrados. Não me refiro às pessoas mortas, visto que a morte é o fim, essa balela de vida após a morte só vai me convencer depois de morto. E ponto.

Porém ficam as lembranças e é aí que os mortos mudam de lugar embora não deixem jamais de ser concessões de nossas permanentes carências. E já que John falou de Miriam, sua mãe e de viagens, me permita, sensível leitor, falar de Doralina, minha mãe e um pouco do significado de viajar. Melhor, me permita falar de algumas lembranças que ela deixou.

As viagens têm a propriedade de operar mudanças nas pessoas, e eu gostava de observá-los, pai e mãe, quando retornavam após alguns dias fora de casa. Queria saber por quanto tempo eles permaneceriam diferentes.Nunca durou o tempo que eu esperava.

Viajar para minha mãe representava um soluço de liberdade enquanto o cotidiano lhe emprestava os grilhões que ela não conseguia disfarçar. Tolerá-los apressou o desenlace trágico.
As mães de meus filhos, todas, têm um pouco de minha mãe, é triste, muito triste.


Assustado, fugi pra solidão, pro silêncio, esconderijo dos covardes, dos egoístas, daqueles que não conseguem sequer se ajudar. Perdoem, meus medos são fortes demais para se unirem a outros, eu não suportaria.


No silêncio consigo não fugir de mim, é quando choro e me aplaudo, é quando corto os pulsos e não sangro, é quando rio e não me humilho, é quando escrevo e não corrijo, é quando morro e acordo.

Meu pai me deu o silêncio que preencho com palavras silenciosas que minha mãe me ensinou a escrever. Mas o vazio quase insuportável, ah o vazio, não há pai, mãe, mulheres ou filhos que consiga aplacar!

É no silêncio que me sinto bem, é do silêncio que acredito ainda venha a ouvir minha mãe, me fascinam as mãos, os pés e os olhares, os carinhos mais sinceros. Assisti a morte de uma filha e o nascimento de outra. À primeira só pude oferecer meu olhar, dois meses de vida, olhos fechados, máscara de oxigênio, madrugada, de repente levantou o braço em minha direção, dei-lhe a mão, ela abriu os olhos e em seguida guardou-os para sempre. A segunda, logo a tive em meus braços, só me perceberia bem mais tarde.

A morte é o silêncio privado do olhar. A mais genuína traição.

Eu vivo olhando para as minhas mãos. Não pretendo ultrajá-las secando mais lágrimas.
Caro leitor Aqui nos encontramos é daqueles livros que dignifica a arte de escrever, capaz de provocar em leitores e escritores a ânsia de aprender cada vez mais, sobretudo aprender a amar e fazer desse amor a homenagem maior, aos vivos sempre, porque homenagear morto, posso garantir, é uma grande sacanagem. Até hoje não sei de nenhum que tenha agradecido.


O AUTOR

John Peter Berger nasceu em Londres, em 5 de novembro de 1926. Aos 15 anos, era anarquista. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando já era escritor, passou a ser duramente criticado por sua simpatia ao marxismo.Ele é famoso por suas obras de ficção - romance e contos - e não-ficção, em especial livros de critica de arte. Destaque para Modos de ver, de 1972, referência para toda uma geração de historiadores da arte, ao refletir sobre a relação entre o que vemos e o que sabemos ou acreditamos. Escrito em parceria com mais quatro autores, o livro é baseado no popular programa homônimo, veiculado pela BBC de Londres no início dos anos 70.

TRECHO

Todos os meus livros têm sido a respeito de você, digo subitamente.
Que bobagem! Talvez você os tenha escrito de modo que eu estivesse lá, fazendo-lhe companhia.E eu estava. Contudo, eles eram a respeito de tudo no mundo, menos de mim!Tive de esperar até agora, até você ser um velho em Lisboa, para estar escrevendo esta história muito curta sobre mim.
Livros também dizem respeito à linguagem, e linguagem para mim é inseparável de sua voz.
Você está tentando ser esperto.Não faça isso. Apenas pense em mim.Então você aprenderá a persistência em face do sofrimento. Algo que só pode ser aprendido com uma mulher, nunca com um homem.
Scott na Antártida?
Pense na mulher de Scott.O nome dela era Kathleen. "Eu não lamento", disse Kathlenn, "Não lamento nada senão o sofrimento dele."
Por que você nunca leu nenhum de meus livros?
Eu gostava de livros que me levavam para outra vida. Era por isso que lia os livros que lia.Muitos. Cada um era sobre a vida real, mas não sobre o que estava acontecendo comigo quando encontrava meu marcador de livros e continuava a ler. Quando eu lia, perdia por completo o sentido do tempo. Mulheres sempre conjecturam a respeito de outras vidas, a maioria dos homens é ambiciosa demais para compreender isso. Outras vidas, outras vidas que você viveu antes ou que poderia ter vivido. E seus livros, eu esperava, eram a respeito de outra vida que eu só queria imaginar, não viver, imaginar por mim mesma sozinha, sem quaisquer palavras. De modo que foi melhor que eu não os lesse. Eu podia vê-luz através do vidro da porta da estante. Isso era suficiente para mim.
Eu corro o risco de escrever absurdos hoje em dia.
Você escreve alguma coisa e não sabe imediatamente o que é.
Sempre foi assim, diz ela. Tudo o que você precisa saber é se está mentindo ou se está tentando contar a verdade, você já não pode mais se dar ao luxo de cometer um erro quanto a esta distinção.


Luíz Horácio Rodrigues nasceu em 1957, em Quaraí (RS). É professor de língua portuguesa e literatura, e coordena o curso de pós-graduação Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato, de Porto Alegre. Colabora com os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho e revistas. É também roteirista, documentarista e autor teatral. Escreveu os livros Perciliana e pássaro com alma de cão - ed. Conex e Nenhum pássaro no céu - ed. Fábrica de Leitura.