quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

E já estamos perto do Natal

Aqueles que acompanham esse blog, sabem do meu apreço pelos escritores e compositores talentosos que tive o privilégio de conhecer nesses últimos anos. São tantos, que chego a pensar que é um presente de Deus por eu estar dedicando-me com mais afinco à literatura. Entre aqueles mais próximos de mim estão: Álvaro Marins ("Machado e Lima Da Ironia à Sátira"; "Páginas esquecidas: uma antologia diferente de contos machadianos"- lançado recentemente; "Melhores poemas de Paulo Leminsk" junto com Fred Góes), Valdemar Valente Junior ("Cultura Luso-brasileira" - apresenta as origens da nossa colonização, do século XVI até metade do século XX), André Gardel ("Teoria da Literatura: Fundamentos" (2006) e "Teoria da Literatura: tradições e Rupturas" (2007), além de vários poemas, e como cantor, vários CDs, "Vôo da cidade" é o mais recente), Ricardo Vigna lançou o CD "Clima Verde" em parceria com Geraldo Martins), Érico Braga Barbosa Lima lançou "Novíssima Gramática do velho Português" e os estimados Luíz Horácio e Ronaldo Correia de Brito, que são habitués nesse espaço, com textos de excelente qualidade. O texto abaixo, é uma reminiscência bem-humorada, das aventuras infantis do Ronaldo com Maria Luiza, que o aproximou da cultura popular e do folclore, que mais tarde passaram a influenciar todas as suas obras teatrais, cinematográficas e literárias. Bem, vamos a ele.

E já que estamos perto do Natal


Numa noite de um mês de dezembro fui levado para ver a Lapinha pela empregada de nossa casa. Maria Luiza me puxava pela mão, enquanto subíamos a Ladeira do Seminário, assim chamada porque lá no alto ficava o seminário dos padres, um edifício imenso, pintado de amarelo e cercado de pés de eucalipto.

No final da tarde, os urubus se recolhiam aos galhos mais altos das árvores. Eram tantos que formavam uma mancha preta contra o céu. Quando os padres sentavam na calçada para a leitura dos breviários, as aves faziam cocô nas páginas abertas dos livros. A anedota corria solta pela cidade do Crato, lá no sul do Ceará, e era uma nota profana e engraçada naquele mundo sombrio de procissões e missas rezadas em latim.

O dono da brincadeira de lapinha, que eu assisti deslumbrado, era o pai de Maria Luiza, um cabo de polícia moreno e gordo. Mesmo sendo criança, eu estranhava um homem armado de revólver e cassetete se ocupar de um teatrinho feminino e delicado. Apenas as meninas representavam o auto da lapinha, com suas cantigas medievais portuguesas, adaptadas pelos padres à catequese dos pobres brasileiros.



As pastoras formavam dois cordões, um vermelho e um azul, representativos de mouros e cristãos. Esmaecidas pela singeleza da brincadeira, as cores ficaram na minha lembrança como rosa e azul claro. Havia muitos personagens: sol, lua, estrela, anjo, borboleta, beija-flor, menina da cesta, ciganas, Maria, José, Reis Magos e, o mais maravilhoso de tudo, caboclinhos de aldeia. Esses indiozinhos de presépio foram certamente botados na cena da adoração por jesuítas como o Padre Anchieta, na intenção de converter ao cristianismo os primeiros habitantes do Brasil.

Os caboclinhos cantavam os versos mais surpreendentes desse auto em louvor ao Menino Deus. Numa estrofe de quatro versos eles explicavam como se deu a Encarnação, aquele mistério da Igreja Católica segundo o qual Maria concebeu sendo virgem.

Passa o sol pela vidraça
Já passou sem tocar nela
Assim foi a Virgem
Levou luz ficou donzela.
Quem terá sido o poeta anônimo a criar esses versos? Ele quis nos dizer que assim como o sol atravessa a vidraça sem parti-la, a Virgem Maria, igualmente, recebeu uma luz e concebeu sem perder a virgindade. Ah, esses gênios populares! Tudo isso acabou em pouco tempo. De cultura viva se transformou em folclore ou espetáculo para turistas.

Eu desejava brincar na lapinha, mas era brinquedo de meninas e de gente pobre, de uma condição social diferente da minha. O máximo que consegui foi que Maria Luiza me desse as asas do anjo e as da borboleta. Mesmo esse presente foi proibido por meu pai e eu tive de escondê-las num quarto dos fundos de nossa casa, penduradas nos caibros do telhado. De vez em quando eu olhava aquelas invenções aladas e sonhava meus vôos. Até que o tempo cobriu-as de poeira e fuligem e ficaram esquecidas.



A mesma Maria Luiza me levou para ver um preso enforcado no porão da penitenciária do Crato. Uma cena horrível, que ainda me assombra. Não lembro se ao subir a ladeira do Seminário eu segurava a mão direita ou a mão esquerda dessa mulher que me apresentou o mundo. Sei que o mundo está cheio de alegrias e tristezas, tanto à direita como à esquerda. E que viver é a difícil arte de escolher caminhos.

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify. Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim, e o romance Galiléia pela Alfaguara. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma vez mais, o escritor Luíz Horácio nos brinda com uma deliciosa resenha, que nos estimula a lermos "Aqui nos encontramos". Esse livro possui elementos que aguçam a nossa curiosidade; fala de frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte. Eu já estou providenciando o meu exemplar para curtir nas férias.


AQUI NOS ENCONTRAMOS - John Peter Berger

Paciente leitor, aqui me tens de regresso, mais uma vez com a morte embaixo do braço. Antes permitam uma inconfidência: 02 de maio de 2006 , noite, sala da casa de Fausto Wolff , Rio de Janeiro e mostrava a mim, ao editor Alberto Quartim, e ao jornalista Marcelo Carota, o Pirata, uma mesa onde, sob um vidro, estavam fotos daqueles que haviam feito, nos dizeres de FW, a sua cabeça. Uma homenagem aos mortos.

É assim, infelizmente, cultivamos o hábito de homenagear os mortos. Dos vivos, esquecemos com facilidade. Homenagem é coisa para morto. É? Se você responder afirmativamente saiba que não concordo. Não sei por que, mas me agrada muito mais gente viva. Digo isso porque nunca deixei de dizer ao Fausto o quanto o amava, e quando brigamos ele também ficou sabendo o motivo. O escritor e professor Prado Veppo a quem dedico um de meus livros também soube de meu amor enquanto vivia. Dos citados acima, o Quartim e o Pirata, desejo-lhes mais cem anos entre nós, de preferência em minha companhia, e assim desse jeito meio tosco vou agradecendo aos meus amigos, forma modesta de homenageá-los.















Fausto Wolff e Prado Veppo

Em Aqui nos encontramos, John Berger homenageia pessoas que fizeram parte de sua trajetória de 82 anos e também discorre, sempre com o auxílio dos mortos, sobre algumas frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte.


"Aquilo que você deveria saber é o seguinte: os mortos não ficam onde estão enterrados."

A frase acima é o tiro de partida a esse passeio empreendido pelo autor na companhia da saudade. A frase é dita pela mãe do protagonista, morta há 15 anos, num encontro em Lisboa. O protagonista é o próprio autor deste misto de romance e ensaio biográfico.

Partindo de Lisboa, John passa alguns países europeus numa longa viagem arquetípica onde são testados os limites entre o real e o imaginário, entre o passado e o presente, entre a individualidade e a necessidade do outro. Numa leitura mais simples podemos dizer que é um reencontro com a capacidade de se emocionar.

"Aqui nos encontramos"
é um olhar para o passado, nesse relato de 208 páginas o leitor perceberá a literatura como o motivo central das preocupações de John, logo em seguida poderá eleger Lisboa como outro de seus amores, a Europa viria a seguir; mas também perceberá que ele amava ainda mais a conquista de uma liberdade que lhe permitiria ver-se tal como era, sem exemplos históricos, muito menos religiosos.

O leitor sente-se despojado de uma carga histórica nem sempre confiável e nos mais das vezes infantil, quase boba, desse modo estará livre para contemplar-se em meio às ruínas emocionais. Assim tanto leitor quanto autor poderão compreender a importância das perdas a que lhes obrigaram a vida e sua falta de lógica.

Muitas vezes nos aconselham que o melhor modo para nos ressarcirmos moralmente de nossas perdas materiais e afetivas, é a prática do mergulho interior, encerrar-se em si mesmo e organizar uma grande força centrípeta para logo adiante transformá-la em força centrífuga. John volta essa força para a Europa, volta com seu sentido criador e harmonizador de emoções. Os sentimentos estão no comando dessa viagem, mas o navegador é o espírito crítico. Por vezes vestindo o uniforme do criticismo histórico. É nesse momento que a narrativa passa a atuar na consciência e no espírito de seus compatriotas, John atua como um terrorista das idéias. John Berger é inglês e a Inglaterra tem mais que o dobro da população que é capaz de alimentar com recursos próprios.

O número de vidas que entram em nossa vida é incalculável.

O resultado disso, o mais evidente é a saudade. Embora o autor se refira apenas aos que entram, por outro lado esses mesmos costumam sair sem nos avisar, alguns retornam, a outros a morte não dá essa permissão.


Aqui nos encontramos é a homenagem solicitada por Miriam, a mãe de Jonh, em seu encontro em Lisboa:
"Apenas escreva o que descobrir (...) e faça o gesto de cortesia de nos observar"
De observar mortos; sua mãe, Borges, Ken, o jornalista, professor de dança, gigolô, em sua viagem as lembranças deflagram comentários sobre frutas, os mortos estimulam essas recordações, encontra sua filha Kátia , funcionária do Grand Théâtre de Genebra.

Os personagens de Berger constituem uma amostra da substância humana - e por conseguinte claro escura -da história, resultam daí, símbolos, imagens emblemáticas das limitações e também da crueldade sem fim que se faz inerente ao homem.

Em verdade, John Berger e todos os demais escritores, escrevem apenas um vasto livro onde cada diferença aponta uma semelhança e cada desvio implica um novo intento de nos aproximarmos de nosso centro. Todos invocam a sintaxe da alma, como escreveu Manuel Álvarez Ortega, todos querem unir realidade com suas obsessões individuais, ao mesmo tempo em que todos caminham para a morte.

Talvez o leitor de Aqui nos encontramos conclua a leitura sem saber muito bem de que se trata, se um ensaio, uma autobiografia, um relato de viagem; ainda que comovido por uma terna melancolia arrisque encarar o texto como um diálogo entre amigos e que o tema dominante sejam as recordações a permitir sinuosidades e invadir meandros sensíveis. Desse modo os ecos dessas recordações assumem dimensões orgânicas.

Concordo com Miriam, os mortos não ficam onde estão enterrados. Não me refiro às pessoas mortas, visto que a morte é o fim, essa balela de vida após a morte só vai me convencer depois de morto. E ponto.

Porém ficam as lembranças e é aí que os mortos mudam de lugar embora não deixem jamais de ser concessões de nossas permanentes carências. E já que John falou de Miriam, sua mãe e de viagens, me permita, sensível leitor, falar de Doralina, minha mãe e um pouco do significado de viajar. Melhor, me permita falar de algumas lembranças que ela deixou.

As viagens têm a propriedade de operar mudanças nas pessoas, e eu gostava de observá-los, pai e mãe, quando retornavam após alguns dias fora de casa. Queria saber por quanto tempo eles permaneceriam diferentes.Nunca durou o tempo que eu esperava.

Viajar para minha mãe representava um soluço de liberdade enquanto o cotidiano lhe emprestava os grilhões que ela não conseguia disfarçar. Tolerá-los apressou o desenlace trágico.
As mães de meus filhos, todas, têm um pouco de minha mãe, é triste, muito triste.


Assustado, fugi pra solidão, pro silêncio, esconderijo dos covardes, dos egoístas, daqueles que não conseguem sequer se ajudar. Perdoem, meus medos são fortes demais para se unirem a outros, eu não suportaria.


No silêncio consigo não fugir de mim, é quando choro e me aplaudo, é quando corto os pulsos e não sangro, é quando rio e não me humilho, é quando escrevo e não corrijo, é quando morro e acordo.

Meu pai me deu o silêncio que preencho com palavras silenciosas que minha mãe me ensinou a escrever. Mas o vazio quase insuportável, ah o vazio, não há pai, mãe, mulheres ou filhos que consiga aplacar!

É no silêncio que me sinto bem, é do silêncio que acredito ainda venha a ouvir minha mãe, me fascinam as mãos, os pés e os olhares, os carinhos mais sinceros. Assisti a morte de uma filha e o nascimento de outra. À primeira só pude oferecer meu olhar, dois meses de vida, olhos fechados, máscara de oxigênio, madrugada, de repente levantou o braço em minha direção, dei-lhe a mão, ela abriu os olhos e em seguida guardou-os para sempre. A segunda, logo a tive em meus braços, só me perceberia bem mais tarde.

A morte é o silêncio privado do olhar. A mais genuína traição.

Eu vivo olhando para as minhas mãos. Não pretendo ultrajá-las secando mais lágrimas.
Caro leitor Aqui nos encontramos é daqueles livros que dignifica a arte de escrever, capaz de provocar em leitores e escritores a ânsia de aprender cada vez mais, sobretudo aprender a amar e fazer desse amor a homenagem maior, aos vivos sempre, porque homenagear morto, posso garantir, é uma grande sacanagem. Até hoje não sei de nenhum que tenha agradecido.


O AUTOR

John Peter Berger nasceu em Londres, em 5 de novembro de 1926. Aos 15 anos, era anarquista. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando já era escritor, passou a ser duramente criticado por sua simpatia ao marxismo.Ele é famoso por suas obras de ficção - romance e contos - e não-ficção, em especial livros de critica de arte. Destaque para Modos de ver, de 1972, referência para toda uma geração de historiadores da arte, ao refletir sobre a relação entre o que vemos e o que sabemos ou acreditamos. Escrito em parceria com mais quatro autores, o livro é baseado no popular programa homônimo, veiculado pela BBC de Londres no início dos anos 70.

TRECHO

Todos os meus livros têm sido a respeito de você, digo subitamente.
Que bobagem! Talvez você os tenha escrito de modo que eu estivesse lá, fazendo-lhe companhia.E eu estava. Contudo, eles eram a respeito de tudo no mundo, menos de mim!Tive de esperar até agora, até você ser um velho em Lisboa, para estar escrevendo esta história muito curta sobre mim.
Livros também dizem respeito à linguagem, e linguagem para mim é inseparável de sua voz.
Você está tentando ser esperto.Não faça isso. Apenas pense em mim.Então você aprenderá a persistência em face do sofrimento. Algo que só pode ser aprendido com uma mulher, nunca com um homem.
Scott na Antártida?
Pense na mulher de Scott.O nome dela era Kathleen. "Eu não lamento", disse Kathlenn, "Não lamento nada senão o sofrimento dele."
Por que você nunca leu nenhum de meus livros?
Eu gostava de livros que me levavam para outra vida. Era por isso que lia os livros que lia.Muitos. Cada um era sobre a vida real, mas não sobre o que estava acontecendo comigo quando encontrava meu marcador de livros e continuava a ler. Quando eu lia, perdia por completo o sentido do tempo. Mulheres sempre conjecturam a respeito de outras vidas, a maioria dos homens é ambiciosa demais para compreender isso. Outras vidas, outras vidas que você viveu antes ou que poderia ter vivido. E seus livros, eu esperava, eram a respeito de outra vida que eu só queria imaginar, não viver, imaginar por mim mesma sozinha, sem quaisquer palavras. De modo que foi melhor que eu não os lesse. Eu podia vê-luz através do vidro da porta da estante. Isso era suficiente para mim.
Eu corro o risco de escrever absurdos hoje em dia.
Você escreve alguma coisa e não sabe imediatamente o que é.
Sempre foi assim, diz ela. Tudo o que você precisa saber é se está mentindo ou se está tentando contar a verdade, você já não pode mais se dar ao luxo de cometer um erro quanto a esta distinção.


Luíz Horácio Rodrigues nasceu em 1957, em Quaraí (RS). É professor de língua portuguesa e literatura, e coordena o curso de pós-graduação Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato, de Porto Alegre. Colabora com os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho e revistas. É também roteirista, documentarista e autor teatral. Escreveu os livros Perciliana e pássaro com alma de cão - ed. Conex e Nenhum pássaro no céu - ed. Fábrica de Leitura.

sábado, 22 de novembro de 2008

Gibran Khalil Gibran
( جبران خليل جبران ) nasceu em 6 de dezembro de 1883, na cidade de Bisharri, no sopé da Montanha do Cedro, no norte do Líbano. O pai, um coletor de impostos, bebia e jogava, mas vinha de uma linhagem de intelectuais e de religiosos maronitas pelo lado da mãe. Khalil não teve uma educação formal, mas aprendeu inglês, francês e árabe ao mesmo tempo, além de revelar-se uma promessa precoce como artista, desenvolvendo uma paixão por Leonardo da Vinci aos seis anos de idade. Aos onze anos, toda a família, com exceção do pai, emigrou para a América e estabeleceu-se em uma comunidade de imigrantes libaneses no bairro chinês de Boston. A mãe trabalhava como costureira, e o irmão mais velho, Boutros, abriu um armazém. Gibran freqüentou a escola, onde seu nome começou a ser escrito como Khalil. Foi mandado para aulas de desenho e em seguida foi apresentado ao fotógrafo Fred Holland Day, que o usou como modelo e lhe encomendava desenhos.
Em 1898, Gibran foi mandado para casa para freqüentar a escola Al Hikma, em Beirute. Estudou literatura francesa romântica e árabe. Em 1902, voltou para a família via Paris. Uma das irmãs, Sultana, morreu de tuberculose antes da sua chegada, e foi logo seguida pelo irmão, Boutros. Dentro de apenas algumas semanas, a mãe morreu de câncer, deixando-o com a irmã caçula, Mariama. Gibran vendeu o armazém e passou a ganhar a vida como pintor. Mais tarde, teve um romance com a jornalista Josephine Peabody, que o apresentou a Mary Haskell, uma professora que viria a ser sua patrocinadora e colaboradora. Sua carreira como escritor estabeleceu-se quando começou a escrever para o jornal Mohajer, de emigrantes árabes.
Em 1905, o primeiro livro, AI-Musiqah, foi publicado. Seguiram-se mais artigos e livros, a maioria criticando o Estado e a Igreja e, em 1908, seu livro de poemas em prosa, Ai-Arwah ai Mutamarridah, foi proibido pelo governo sírio e ele foi excomungado pela Igreja Sida. Mary Haskell patrocinou-lhe então uma estada de dois anos em Paris, onde Gibran estudou pintura na École des Beaux-Arts e na Académie Julien, onde fez uma exposição em 1910.
De volta aos Estados Unidos, depois de Mary Haskell ter recusado seu pedido de casamento, mudou-se para Nova lorque e trabalhou como pintor de retratos. Fazia exposições regularmente, e um livro com seus desenhos foi publicado. Em 1912, a publicação de sua novela Broken Wings rendeu-lhe uma correspondência permanente com May Ziadah, uma jovem libanesa que vivia no Cairo. Mary Haskell encorajou-o a escrever em inglês e, em 1915, apareceu um poema, Pie Perfect World, seguido do primeiro livro em inglês, Pie Madman, em 1918. Durante este tempo, continuou a escrever em árabe e a trabalhar como artista.
Em 1920, Gibran tomou-se um dos fundadores de uma sociedade literária chamada Arrabitali ou O Laço da Pena. Sua carreira como pintor e escritor florescia, mas estava com problemas cardíacos e começou a beber muito para mitigar as dores no coração. Era convidado com frequência a discursar para congregações de igrejas liberais.
Em 1922, foi inaugurada uma exposição de seus desenhos a bico de pena e aquarelas e, em 1923, foi publicada sua obra-prima, O Profeta. Foi um sucesso imediato e as vendas nunca caíram. Publicou vários outros trabalhos em inglês e em árabe, sendo o mais notável Jesus, Filho do Homem (1928), antes de morrer, em Nova York, de insuficiência hepática e tuberculose incipiente em 10 de abril de 1931. Gibran nunca perdeu a paixão pelo Líbano, sua terra natal, onde foi enterrado e onde é considerado uma lenda.


ALGUNS TRECHOS DE SUA VASTA OBRA

A PRECE

"Vós orais na aflição e na necessidade; também devieis orar na alegria e nos tempos de abundância.
Pois o que é a oração senão a expansão de vós no ar vivo?
E se vos dá consolo largar vossa escuridão no espaço, também vos deve dar felicidade lançar o vosso coração à aurora.
E se só conseguirdes chorar quando a vossa alma vos chamar à oração, ela vos estimulará até que, ainda a chorar, vos comeceis a rir.
Quando rezais encontrais no ar aqueles que rezam à mesma hora e que, se não fosse na oração, nunca encontrarieis.
Por isso deixai que a vossa visita a esse templo invisível não seja senão para o êxtase e doce comunhão.
Pois não deveis entrar no templo com outro objectivo que não seja o de pedir aquilo que não recebereis:
E se lá entrardes com humildade assim permanecereis:
Ou mesmo se lá entrardes para pedir favores para os outros não sereis ouvidos.

É suficiente que entreis invisíveis no templo.
Não vos posso ensinar a orar por palavras.
Deus não ouve as vossas palavras a não ser quando ele próprio as murmura através dos vossos lábios.
E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.
Mas vós que nascestes nas montanhas e nas florestas e nos mares, encontrareis a oração nos vossos corações, e se escutardes na quietude da noite, ouvi-los-eis dizer em silêncio:
"Nosso Deus, que sois o nosso eu alado, é a vossa vontade em nós que quer.
E o vosso desejo em nós que é desejado.
É a vossa vontade para que tornemos as nossas noites que são vossas, em dias
que são igualmente vossos.
Não vos podemos pedir, pois conheceis os nossos desejos antes de nós
próprios nascermos, vós sois o nosso desejo, e em dar-nos mais de vós, dais-vos todo."
(Para ouvir o texto original, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=udvrO_Ef7ZE ).


A Tempestade

O Pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam o
coração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.



Entre as Colinas

Entre as colinas,quando vos sentardes à sombra frescados álamos brancos,partilhando da paz e da serenidade dos campose dos prados distantes,então que vosso coração diga em silêncio:"Deus repousa na Razão".E quando bramir a tempestade,e o vento poderoso sacudir a floresta,e o trovão e o relâmpago proclamarema majestade do céu,então que vosso coração digacom temor e respeito:"Deus age na Paixão".E já que sois um sopro na esfera de Deuse uma folha na floresta de Deus,também devereisdescansar na razão e agir na paixão.



TRECHO DO PROFETA

Sete vezes desprezei minha alma:
Quando a vi disfarçar-se com a humildade para alcançar a grandeza;
Quando a vi coxear na presença dos coxos;
Quanto lhe deram a escolher entre o fácil e o difícil, e escolheu o fácil;
Quando cometeu um mal e consolou-se com a idéia de que outros cometem o mal também;
Quando aceitou a humilhação por covardia e atribuiu sua paciência à fortaleza;
Quando desprezou a fealdade de uma face que não era, na realidade, senão uma de suas próprias máscaras;
Quando considerou uma virtude elogiar e glorificar.


Fontes:
http://www.paralerepensar.com.br/gibran.htm
http://www.vidaempoesia.com.br/gibrankhalilgibran.htm

sexta-feira, 21 de novembro de 2008



A LOUCURA EM SHAKESPEARE E FREUD


Quem é o paciente psicótico? (Freud: O Caso Schreber)
Questão impossível de ser respondida sem incorrer em uma certa redução que toda generalização acarreta, se levarmos em conta que as pessoas são sempre mais ricas e multifacetadas do que as conceituações que fazemos sobre elas, ou a partir delas. (...) Um psicótico é uma pessoa que teve, em algum momento da vida, uma situação tal que o obrigou a romper relações: com os outros, com o mundo, com a realidade. Podemos pensar que tratou-se de um evento traumático que teve como conseqüência um retraimento, um fechamento em si mesmo (...), quando seu psiquismo puser-se a construir alguma tentativa de restabelecer-se, de retomar a vida. Nesse momento, surgem formações como os delírios para tentar dar conta de tal reconstrução.
Há algo no psicótico que, se não é generalizável, é ao menos um ponto de apoio a partir do qual é possível falar, intervir e, mais ainda, compreender um pouco daquele sofrimento que a pessoa apresenta: o delírio. Nem todos os pacientes deliram mas, os que assim o fazem permitem o estabelecimento de um certo tipo de relação com o analista(...). A histeria, a obsessão e a psicose alucinatória partem de um mesmo princípio: a tentativa de esquecimento de algo indesejado e se desdobram de formas diferentes a fazer algo com o afeto que sobra. A psicose faz alucinações e delírios. Ao escrever sobre Schreber, Freud traz a idéia de que a formação dos sintomas – conversões, ideações obsessivas, alucinações, delírios – parte de um compromisso qualquer entre instâncias em prol de uma defesa. Entendo todas essas produções como sintomas, jogos de forças entre recalcante e recalcado, censor e censurado. Trata-se de produções que são o aparente que remete a outros desdobramentos, resultado do que se anuncia e do que se busca suprimir e, portanto, de um conflito de forças. Na psicose alucinatória a defesa é a rejeição da representação incompatível juntamente com o afeto, o que faz Freud afirmar que essa seria a defesa melhor sucedida de todas. No entanto, ao romper com a representação incompatível que está associada a alguma parcela da realidade, rompe-se também com essa realidade de maneira parcial ou total
. Fonte: Alessandra Ribeiro

LEAR: Tu me chamas de bobo, rapaz?
BOBO: Abandonaste todos os teus outros títulos, mas esse nasceste com ele."
Shakespeare: Rei Lear. (Ato I, 4).
“A formação delirante que julgamos ser uma produção patológica é, na verdade, uma tentativa de cura, um processo de econstrução.” Freud: O Caso Schreber.
O problema da loucura recebeu uma iluminação diferente a partir de Freud, que foi o primeiro a ver a personalidade como um continuum que vai da sanidade à loucura. A doença mental vista por Freud como regressão inclui, sempre, aspectos de desorganização assim como tentativas no sentido de dar nova estrutura à personalidade. Mesmo na esquizofrenia é sempre possível encontrar aspectos sadios e mecanismos neuróticos misturados com os aspectos delirantes e alucinatórios. Ainda no delírio Freud via a primeira tentativa dos pacientes de restaurar o sentido de vida perdido na enfermidade. Por outro lado, procurava ver conflitos subjacentes nas pessoas ditas normais, que permanentemente ameaçam de desorganização a qualquer de nós. A idéia central da psicanálise é a de um estruturalismo genético que faz com que formas e conteúdos aparentemente incompreensíveis, tais como sonhos, delírios, alucinações e atos falhos possam ser compreendidos dentro de uma estrutura maior que alcance os planos conscientes e inconscientes de cada pessoa e cuja origem possa ser seguida desde o nascimento.

Em Shakespeare, também, os problemas da loucura são considerados em sua íntima conexão com a sanidade e mesmo com a sabedoria. Vamos considerar, para efeito de exposição, os três tipos de loucura que aparecem em suas peças: a loucura dos Bobos, a loucura fingida e a loucura verdadeira.
1)
Os Bobos
Os Bobos funcionam mais ou menos como os coros das tragédias gregas, pois têm também este sentido de promover o aprendizado do herói. O Bobo não é propriamente uma pessoa e sim uma função exercida nas cortes medievais. Tal função caracteriza-se por uma licença especial para poder dizer certas verdades, mesmo que desagradáveis ao rei ou a outras personagens da corte – “Licensed fools”. Por esta razão, os sentimentos dos personagens da corte em relação ao Bobo são sempre ambivalentes. Ele é tolerado e até mesmo amado, mas é também maltratado em inúmeras circunstâncias. Em nenhuma outra peça, esta função do Bobo aparece com tamanha nitidez quanto no Rei Lear. Referindo-se aos maus-tratos que Lear recebe das filhas, após dividir seu reino entre as duas, o Bobo comenta:
...
“Dá-me um ovo, tio, que darei duas coroas.
LEAR –
Que duas coroas seriam essas?
BOBO –
Bem, partido o ovo em duas metades e comidas as substâncias, as duas coroas do próprio ovo. Quando partiste tua coroa ao meio e deste ambas as partes, carregaste teu burro nas costas através do lamaçal. Tinhas pouco sizo debaixo de tua coroa calva, quando
abdicaste tua coroa de ouro. Se falo como Bobo, seja açoitado o primeiro que isto notar.”
O Bobo representa o modo mais expressivo da sabedoria na loucura. Em suas falas, aparentemente sem sentido (nonsense), eles atingem a profunda ambigüidade característica do ser humano. Tanto que, no Rei Lear, ele funciona como um verdadeiro intérprete do rei, exercendo um papel psicoterápico fundamental para a recuperação de Lear. Quando Lear reencontra Cordélia, o Bobo simplesmente desaparece da peça. Cordélia que passa a ocupar-se de restaurar a saúde mental do rei, entra no lugar do Bobo. Shakespeare explicita esta relação fazendo Lear chamar Cordélia de Boba na última cena da peça. (Ato V, Cena 3.)
LEAR – “E minha pobre boba foi enforcada. Não, não tem vida. Porque um cão, um cavalo, um rato estão vivos e tu, sem um simples sopro sequer!Não voltarás nunca mais, nunca,
nunca.”
Segundo Harold Jenkins, todo Bobo tem a função de desfazer idealizações, e exemplifica este modo de conceber o Bobo com o Touchstone de Como Gostais. Touchstone representa o contraponto da idealização da vida na floresta de Arden, bucólica, exaltada como mais natural e despreocupada do que a vida protocolar da corte. Touchstone está sempre a nos lembrar dos confortos da vida doméstica. É ele quem nos fala do cansaço físico, quem se lembra da necessidade de “almoço, jantar e horas de dormir”. Touchstone é quem sabe das horas, pois é o único a possuir uma espécie de relógio. Em plena floresta, ele é capaz de dizer: “São dez horas”. E de fazer este comentário realista acerca do tempo:
“E, assim, de hora em hora, nós amadurecemos e amadurecemos e depois, de hora em hora, apodrecemos e apodrecemos”.
O Bobo é uma das duas personagens a lembrar a decadência e a morte, dentro da vida idealizada da floresta de Arden. O outro é Jacques, um “melancólico” seguidor do rei que exerce também uma função de Bobo, denunciando a poluição da floresta pelos homens e nos lembrando a decadência humana, em sua conhecida fala sobre as sete idades do homem.
JACQUES –
O mundo inteiro é um palco, todos os homens e mulheres não passam de atores. Têm suas entradas e saídas e um homem em seu tempo representa muitos papéis e sete idades têm seus atos. Primeiro, é o infante que dá vagidos e vomita nos braços da ama; depois, é o escolar chorão com a pasta e a reluzente cara de aurora que, semelhante a um caracol, se arrasta de má vontade para a escola. Em seguida, é o apaixonado, suspirando como um forno, como uma balada triste composta para as sobrancelhas de sua amada. Depois, é um soldado,
cheio de estranhos juramentos e barbado como um leopardo, zeloso pela própria honra, pronto e atrevido na querela, procurando a bolha de ar de reputação até na boca dos canhões. Mais tarde, é o juiz, com o belo ventre arredondado, repleto com um bom capão, os olhos reveros e a barba formalista, cheio de frases graves e de lugares-comuns. E, assim, representa seu papel. A sexta nos transforma no personagem do magro e ardiloso Pantalhão, com óculos no nariz e a bolsa do lado. As calças de sua juventude, que conservou cuidadosamente, seriam um mundo largo demais para as magras canelas e a forte voz viril,
convertida novamente em falsete infantil, emite agora sons agudos e assoviados. Finalmente, a cena derradeira, a que termina esta estranha história cheia de acontecimentos, é a segunda infância e o total esquecimento, sem dentes, sem olhos, sem paladar, sem coisa alguma.”
2) A loucura fingida


Alguns personagens de Shakespeare vão fingir-se de loucos a fim de conseguir um determinado objetivo. O caso mais conhecido é o da falsa loucura de Hamlet, através da qual ele visava obter dados que incriminassem o rei seu padrasto na morte de seu pai, ficando, ele próprio, livre de qualquer suspeita. Logo no Ato I, Hamlet vai anunciar a Horácio sua intenção de fingir-se de louco e fazê-lo jurar que não irá denunciá-lo. Seu intuito está ligado à visão do fantasma do pai. (Ato I, 5).
... “por muito rara e extravagante que seja minha conduta, visto que, talvez, no futuro julgue oportuno afetar maneiras estranhas, jurai que, ao ver-me em semelhantes situações, nunca dareis a entender... que sabeis alguma coisa a meu respeito”.
Sendo a loucura fingida uma loucura com uma finalidade, ela é, necessariamente também, uma loucura com método. No Hamlet, é Polônio quem vai perceber esta característica no Interrogatório a que submete o príncipe para descobrir as “causas” de seu estado. Após ouvir de Hamlet várias respostas aparentemente sem sentido, porém cheias de insinuações, Polônio conclui:
POLÔNIO (à parte) –
Embora seja pura loucura, há método nela... Não desejais abrigar-se do ar, meu senhor?
HAMLET –
Em meu túmulo?
POLÔNIO –
É claro, lá ficamos ao abrigo do ar. (À parte) Como são, às vezes, engenhosas as respostas dele! Felicidade que só acontece com a loucura e que nem a mais sã razão e lucidez não poderiam atingir com tanta sorte.
Outro caso de loucura fingida ocorre em Rei Lear. Edgar, filho de Gloster, um nobre amigo de Lear, pretende esconder sua posição, para escapar da fúria de seu pai que se voltara contra ele, instigado por seu meio-irmão, Edmundo. Para isto, o método adequado é disfarçar-se de mendigo louco e ocultar-se numa pobre choupana na floresta. Uma das cenas mais curiosas da tragédia é a do encontro de Lear, o louco verdadeiro, com Edgar, o falso-louco. Este vai ser considerado por Lear como um sábio, capaz de aconselhá-lo em seus problemas. (Cena 6.)
“LEAR - ... Tu é a própria coisa. O homem, sem as comodidades da civilização, não passa de um pobre animal nu e bifurcado como tu és. Fora, fora coisas emprestadas! Vamos, desabotoemo-nos aqui. (Rasgando as próprias roupas.)”
“GLOSTER –
Entrai comigo. Meu dever não saberia curvar-se em tudo às duras ordens de vossas filhas. Por mais que me hajam ordenado que fechasse as portas de minha casa e deixasse que ficásseis à mercê desta noite tirânica, arrisquei-me a vir procurar-vos, a fim de conduzir-vos para onde encontrareis pronto fogo e alimento.
LEAR –
Deixe-me falar primeiro com este filósofo. Qual é a causa do trovão?
KENT –
Meu bom senhor, aceitei-lhe o oferecimento, entrai na casa.
LEAR –
Quero trocar uma palavra com este letrado tebano. Em que te aplicas?
EDGAR –
Em evitar o demônio e matar piolhos.”
3) A loucura verdadeira
São numerosos os loucos que aparecem nas peças de Shakespeare. Loucos de todos os tipos, revelando seu grande conhecimento dos meandros da loucura. Um dos casos mais bem caracterizados é o da Ofélia de Hamlet. Trata-se de uma psicose típica, desenvolvida pela trama das mensagens contraditórias em que ela se vê envolvida pelo irmão, pelo pai e pelo próprio Hamlet. Ofélia, que cedo perdera a mãe, fica fragilizada diante dos homens. O pai e o irmão a proíbem explicitamente de aceitar a corte que lhe faz o príncipe Hamlet. Por outro lado, o pai atribui a loucura de Hamlet à rejeição por Ofélia, portanto à obediência da filha aos seus conselhos. Hamlet, que a princípio mostrara-se amoroso, por sua vez passa a maltratar Ofélia quando decide fingirse de louco. No Ato III, vemos como Ofélia é confundida pela contradição do príncipe.
“HAMLET - ... Amei-te, antes...
OFÉLIA – Foi na verdade, meu senhor, o que me fizeste acreditar.
HAMLET –
Não deverias ter acreditado em mim, pois a virtude não pode ser inoculada em nosso velho tronco sem que nos fique algum mau ressaibo. Eu não te amava.
OFÉLIA – Tanto maior foi minha decepção.
HAMLET –
Entra para um convento. Por que desejas ser mãe de pecadores? Quanto a mim, sou relativamente honesto e, contudo, de tais coisas poderia acusar-me, que melhor seria que minha mãe não me tivesse posto neste mundo. Sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso,
com mais pecados na cabeça do que pensamentos para concebê-los, fantasia para dar-lhes forma ou tempo para executá-los. Por que hão de existir pessoas como eu para se arrastarem entre o céu e a terra? Todos nós somos consumados canalhas; não te fies em nenhum de nós. Segue teu caminho para o convento. Onde está teu pai?

OFÉLIA –
Em casa, meu senhor.
HAMLET – Fecha bem as portas, para que somente em casa represente ele o papel de bobo. Adeus!
OFÉLIA – Ó céus clementes, ajudai-o!” A loucura de Ofélia é tão bem definida que chega a mostrar um quadro de dissociação mental típica:
“REI –
Como estais passando, bela dama?
OFÉLIA –
Bem, Deus vos ajude! Dizem que a coruja é filha do padeiro. Senhor, sabemos o que somos, mas não sabemos o que possamos ser. Deus abençoe vossa mesa!
REI –
Está pensando no pai?
OFÉLIA –
Por favor, nem uma palavra disto; mas quando perguntarem o que significa, dizei o seguinte: (Canta.)
É dia amanhã de São Valentim.
Bem cedo estarei à tua janela,
Donzela que sou, pra ser Valentina.
Ergue-se ele então, sua roupa veste,
Abre-lhe a porta de seu dormitório.
Donzela ela entrou, mas quando saiu
não mais era como ali tinha entrado.

O significado claramente sexual dessa fala tem aspectos que lembram a teoria freudiana da etiologia das doenças mentais. A casta Ofélia sonha com perder sua virgindade. Mesmo em seu delírio, vemos os temas da sexualidade e do luto pela morte do pai expressos de modo dissociado. Além da pulsão sexual na base da doença mental, vemos, em outro caso, a loucura originada pela pulsão de morte. É o que ocorre com Lady Macbeth pelo incentivo dado ao esposo para cometer o assassinato do rei Duncan, a fim de que ele próprio se torne rei. A relação entre a culpa e a loucura fica nítida no Ato V, 1. Aí, vemos um exemplo gritante do postulado de Freud de que certos doentes “preferem” inconscientemente adoecer a sentirem-se culpados por suas ações.

“MÉDICO – Que está fazendo agora? Olhai como esfrega as mãos.
DAMA DE COMPANHIA –
Costuma fazer isso: fingir que está lavando as mãos. Vi-a persistir nesse gesto durante bem um quarto de hora.
LADY MACBETH –
Por mais que eu faça, esta mancha não sai.
MÉDICO –
Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser para guardar lembrança mais viva.
LADY MACBETH –
Vai-te, mancha maldita! Vai-te digo!
- Uma, duas: é tempo de pôr mãos à obra. – Como é lôbrego o Inferno!
-
Por quem sois, meu senhor, que vergonha! Um soldado com medo? – Por que havemos de recear que alguém saiba, se ninguém nos pode pedir contas? – Mas quem poderia ter imaginado que o velho tivesse tanto sangue nas veias?
MÉDICO –
Ouviste bem o que ela disse?
LADY MACBETH –
O Tane de Fife tem esposa: onde está ela? – Que coisa! Estas mãos nunca ficarão limpas? – Parai com isto, meu senhor, parai com isto: esses vossos sobressaltos podem pôr tudo a perder.
MÉDICO –
Vamos embora, vamos embora: ouvimos o que não deveríamos ter ouvido.”
O médico que passara observando a doente durante longo tempo acaba por concluir que Lady Macbeth precisava mais dos serviços de um “padre do que de um médico”. No início da cena, é dito que Macbeth estava ausente. Ora, o que percebemos através da peça é uma inversão de papéis dentro do casal de criminosos. No início, é Lady Macbeth a figura forte que incentiva o marido a assassinar Duncan e, quando ele fraqueja, é ela quem lhe diz que ele deve ser homem e não temer. Agora, é ele quem dá forças à mulher. Portanto, sua ausência contribui para desencadear o surto psicótico. Outro fato notável é que, embora se atribua a Lady Macbeth sonambulismo, na cena, como nota o médico, ela está de “olhos abertos” ao que a aia responde que “seus sentidos estão fechados”. Bion nota que o psicótico é alguém que não está dormindo mas também não está acordado, pois dentro do delírio e das alucinações tudo se passa como se ele estivesse vivendo na realidade interna, apenas prestando pouca atenção aos estímulos externos. Esse é. Aliás, o caso de todos os loucos. Em Rei Lear, vemos como na cena da loucura na tempestade o rei está tão ocupado dentro de sua luta interna contra “as filhas pelicanas” que aparentemente não sente frio nem medo. A loucura de Lear é desencadeada pela perda da fantasia onipotente de distribuir seu reino entre as filhas e continuar com as vantagens do poder. A filha que havia sido desprezada por não entrar no jogo de adulação do pai é expulsa do reino. Mais tarde, no reencontro com Cordélia, esta filha vai marcar a aceitação dos limites, inclusive do limite maior que é a própria morte. Então Lear, que enlouquece por não suportar limites, vai aprender com Cordélia toda a extensão de sua impotência. Assim que desperta da sonoterapia a que o submetera o médico, Lear, pela primeira vez na tragédia, revela a sua idade: “Oitenta e tantos anos, nem uma hora a mais nem a menos”. Ao aceitar, relutante, a morte de Cordélia, na última cena da peça, o rei está pronto para morrer também. Em suma, vimos nos três exemplos deste capítulo como Shakespeare compreendia a loucura em sua gênese sexual e agressiva. Intui também a fantasia de onipotência característica de todos os loucos.
(Extraído de Freud e Shakespeare, de E. Portella Nunes e C. H. Portella Nunes. Imago Editora, 1989).

http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/em_obras_alessandra_ribeiro.htm
http://www.bernardojablonski.com/pdfs/graduacao/loucura_shakespeare_freud.pdf

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

MEU LIVRO DE CABECEIRA




O que é mesmo um livro de cabeceira? O que lemos antes de dormir? Nesse caso, eu não possuo nenhum, pois não gosto de livros no quarto, nem tenho o hábito de ler à noite. Sempre vi os livros como entidades vivas, pulsantes, cheias de peripécias. Temo que os personagens saiam das páginas, movimentem-se fora das frases em que foram urdidos, e perturbem o meu sono. Não os quero nem na porta do meu quarto. Já bastam as impressões que os seus autores deixam em mim, nem sempre agradáveis. Por isso não leio à noite, nem vejo filmes, e até evito o teatro. "A noite fez-se para dormir", diz um personagem de Garcia Lorca.
Qual seria esse livro de cabeceira que sem freqüentar o meu quarto, sempre esteve ao meu lado? Que livro se confunde comigo a ponto de eu misturar os seus personagens com a minha existência? Sem dúvida, uma velha "História Sagrada", que nada mais é do que uma seleta de textos da "Bíblia" hebraica, solenemente apresentada em dois subtítulos: Antigo Testamento e Novo Testamento. Não sei se minha memória confundiu-se ou se os dois volumes eram mesmo ilustrados por Gustave Doré, o ilustrador da "Divina Comédia", do "Dom Quixote", dos "Contos de Perrault", das "Aventuras do Barão de Munchausen" e das "Fábulas de La Fontaine".
Minha mãe trouxera para o sertão essas duas preciosidades, guardadas como jóias num caixotezinho em que também se espremiam os livros de história, geografia, português, e aritmética, um resumido espólio de professora primária. No mundo sertanejo, os livros eram verdadeiras relíquias, a ponto de serem inventariados em testamentos, como as terras, os bois e as casas. De noite - nesse tempo eu lia à noite -, meu pai consertava arreios e celas, minha mãe tecia varandas para as redes, e eu, deitado no chão de tijoleiras, folheava os dois livros sagrados, à luz de uma lamparina. Ainda não emendava as letras em palavras, mas seduzia-me pelas gravuras de traços finos, em que predominavam os tons do preto, acentuando o fantástico. Possuía vagas idéias do que significavam. Instruído pela minha avó, soube da existência de um Cristo, o mesmo homem barbudo e de olhar sereno que ocupava a parede principal da nossa sala. No livro, ele aparecia carregando uma cruz, açoitado, caído ao chão. Tamanha barbaridade contra o pobre inocente merecia castigo. Os algozes não podiam ficar impunes e eu estava ali para exercer a justiça, embora tardia. Orientado por meu pai, impaciente com carretilha e sovela, identificava os homens cruéis. Vez por outra errava o culpado e castigava um apóstolo inocente.
- E esse? - perguntava.- Esse é ruim, pode matar.
Sem compaixão, eu molhava o dedo com cuspe e esfregava a figura do soldado até que não restasse sombra do facínora. E assim, dizimei legiões inteiras, num precoce aprendizado de leitura. Antecipei em muito as pedagogias modernas, os métodos de aprendizado em que se valoriza o tato, o olfato e o paladar.
A "Bíblia" tornou-se o meu livro de cabeceira, ou o mais visceral de todos os livros de que me aproximei. Alheio aos significados religiosos, aos cânones de judeus, católicos e protestantes, pude deliciar-me em sua vasta literatura, na poesia, na história, no mar de narrativas emendadas umas nas outras, como nas "Mil e uma Noites". Decifrando suas páginas, tive ciência da leitura e da escrita, que considero os mais elevados conhecimentos legados ao homem. Reconheci nas paragens bíblicas, os mesmos desertos de sertões nordestinos. Nos pastores de bois, carneiros e cabras, os meus familiares. Nas leis de hospitalidade e nos códigos de honra, as semelhanças sertanejas.
Um antepassado meu, vaqueiro e padre, um dos primeiros colonizadores do sertão cearense, amancebou-se com uma índia jucá e gerou doze filhos. Imaginei que todos nasceram homens, e que fundaram casas e descendências iguais às doze tribos de Israel. Se não foi assim, não tem importância, pois se escrevem os livros misturando realidade e mentira. Um psicanalista afirmaria que preenchemos com literatura o "buraco da falta", querendo dizer com isso que as certezas são fragmentárias, que nossa história pessoal é cheia de fabulação. De maneira bem mais simples, o poeta Pinto do Monteiro recitava:
"Eu só comparo esta vida / à curva da letra 's'/ tem uma ponta que sobe / tem outra ponta que desce / e a volta que dá no meio / nem todo mundo conhece". "A volta que dá no meio", seria o "buraco da falta"?
A "Bíblia", um livro possível de se ler de todas as maneiras, é o lastro de histórias a que podemos recorrer sem credo religioso ou com fé religiosa. Inesgotável, possui as imagens dos sonhos, a épica, a tragédia, a poesia, a sabedoria, a invenção, a genealogia, a retórica e os números. Livro que contém todos os livros. Merece ser lido como eu o lia na infância, imaginando-o escrito pelo povo sertanejo, pessoas como o meu pai ateu e o meu tio procriador, que povoaram as terras cearenses de gado, homens e mulheres, num novo Gênese.

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify. Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim, e o romance Galiléia pela Alfaguara. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

RESTOS - MÁRIO ARAÚJO






Sem introdução. Direto ao assunto. Restos, livro de contos de Mário Araújo devia trazer aquelas famosas cintas onde estaria escrito URGENTE. É isso mesmo, atento leitor, se faz urgente a leitura desses vinte contos sobre amizade. Você deve estar desconfiando desse tosco resenhista pois na certa já deve ter lido que os contos tem como tema a solidão e a morte, não é mesmo?Então pergunto: existe amizade mais estreita do que essa entre solidão e morte? Não seria a morte mera solidão desprovida de movimento? Sendo ou não, encaminho meu desprezo e medo. Mas prometi que não teria introdução e quase quebro a promessa.Voltemos a Restos, pois. De cara o leitor recebe o conto que empresta título ao livro, um homem acompanha a retirada dos restos mortais de seus familiares pois é preciso abrir espaço para o corpo do pai.-Pra sair daqui têm que estar somente os ossos, Marcílio explicou."E quanto tempo leva?" "Nesse caso, com caixão de madeira, pode levar até três anos pra sumir tudo e os ossos ficarem limpinhos." A medida em que Marcílio, o funcionário do cemitério, vai retirando os restos dos parentes, esses vão despertando no homem, no conto ele não tem nome, lembranças . Sobre a avó não fala nada, precisava ficar mais um tempo, dos sapatos, ainda conservados, do tio vem a lembrança da sua teimosia ,e por fim o pedido para não abrir a gaveta que guardava os restos da sua mãe.Já havia espaço suficiente para o cadáver recente. Marcílio conclui seu trabalho carregando sacos com ossos dos dois homens. Entre lembranças, elas costumam ser tristes e num cemitério não tem como evitá-las, o homem sente vontade de urinar. A necessidade prosaica o impede de ver o destino final dos sacos com os ossos.Temática sombria em tom poético, a mesma que escutei vinda do Alvorino, meu pai, relatando a mesma cena quando do remanejamento dos restos de Doralina, minha mãe, e Hildebrando, meu avô. Depois disso é como diz o personagem sem nome do conto: “Abaixei-me e vi, no espelho, que meu rosto era agora uma síntese de elementos que não existiam mais.”
Perdoe, pragmático leitor, caso o exemplo pessoal o desagrade, a culpa é do Mário Araújo que escreve sobre essas cenas do nosso inevitável cotidiano e nos leva a visitar, mesmo que de passagem, nossa rascante solidão. E medo. Sim, medo, ó escapista e espiritualizado leitor.O conto seguinte Rauziclíni, narra a solidão de uma brasileira desempenhando o papel de faxineira numa cidade americana, trata-se de precisa síntese do desamparo em terra estranha. É o conto frio do livro, o clima da narrativa invade o leitor. E frio não pode ser sinônimo de solidão e morte? “Ao primeiro passo, atolou o pé no gelo cremoso e macio e, sem entender exatamente por quê, começou a chorar.”Em Todos riram, quatro amigos vão de Brasília a Goiânia assistir a um jogo da seleção brasileira de futebol. Durante a viagem os temas das conversas variam do futebol às mulheres passando pela imensidão do país, suas peculiaridades lingüísticas e o comentário sobre os nomes dos jogadores do futebol, de Maiconsuel a Richarlyson. Na viagem de volta ao parar em um posto de gasolina, um lugar em meio ao nada, gastam conjecturas na tentativa de descobrir como o velho frentista fazia para ir e vi àquele seu solitário trabalho. “O que eu tenho de idade/ Centopéia tem de perna/ Pois meu mais belo momento/ Amado amadurecimento/Já não é coisa moderna.” E entre o sono e o cansaço o silêncio desperta oferecendo a solidão num nome de mulher. Futebol 1, Futebol 2 e Futebol 3, contos de página e meia onde a solidão e a tristeza são sintetizadas de forma seca e precisa, como o olhar de um goleiro em direção da bola que repousa no fundo da sua goleira num misto de desprezo e ironia. São histórias onde o futebol deixa de ser o circo convencional e se transforma no patético manicômio de nossa trágica pátria.“O choro dos derrotados. Gás lacrimogêneo dilacerando os olhos .”Importante ressaltar que a matéria prima utilizada por Mário Araújo não é nenhuma novidade, no entanto a maneira como a utiliza, a prosa poética , o ritmo imposto à narrativa, transformam solidão e morte num território quase inexplorado. O autor, conforme Emmanuel Lévinas, sabe que se “a palavra proporciona a matéria do artista” também se faz necessário a excelência no trato desses ingredientes. E nesse quesito Mário dá uma lição após a outra. Talvez a mais sutil seja, diante da sisudez da temática, a aparente brincadeira com a linguagem além da humanização precisa de seus personagens onde nenhum padece além da normalidade. Na verdade, os contos de Restos podem ser apreendidos como suspiros de uma humanidade cruel e ao mesmo patética.Crioula apresenta a brisa da morte na figura da anciã que desperta a ira de Margarida, conto antológico que remete à vida de Mané Garrincha e a cantora Elza Soares, triste e primoroso conto.“A senhora tem setenta e cinco anos, o calçamento da rua, mais de cem, e do envelhecimento de ambos resulta uma situação amplamente desvantajosa para a primeira, que, sozinha, tenta descer a rua onde mora em direção ao banco.”
Na tentativa vã de brincar com a linguagem, os sem talento a ofendem. Temos aí os imitadores de Saramago a inventar longos períodos desprovidos de pontuação às frases iniciadas com minúsculas. O patético sempre é constrangedor. Mas não inclua Mário Araújo nessa laia, ele brinca sério com a linguagem como você poderá confirmar em Ancião ansioso, mais um biscoito fino desse Restos. “Mas se Jesus prega, prega-se Jesus. E foi assim que deram um jeito nela, quando o sujeito arrastou-a para um ponto entre duas paredes e lhe sapecou uma bela aula de canto, o suco dele no sulco dela.” A desforra é isso mesmo, vingança. Duas faces da solidão, homem seqüestra, estupra e mata uma jovem. Testemunha o persegue até capturá-lo e fazer justiça com as próprias mãos. A outra face da solidão é a violência perpetrada pelo justiceiro. Nada de novo, mero relato das possibilidades do humano. O trecho ao final desta resenha faz parte desse conto. Certo ou errado narra uma hora e meia da vida de um jovem que aguarda a abertura da sala de cinema para então poder misturar sua solidão com a escuridão “A perspectiva de regredir á situação de uma hora atrás me causa grande desalento.”
Atento leitor, permita um puxão de orelhas, carinhoso porém, note que nos contos de Restos não vislumbramos uma solidão estática, há resistência de parte dos envolvidos. O que também não implica em vitória, mas num debater-se constante.O conto A imagem apresenta a solidão de uma imagem de Jesus que é transferida de uma igreja em ruínas para a casa confortável de um médico que é transformada em santuário com direito a peregrinação. Aqui temos a sutileza na abordagem do tema da religiosidade deixando à mostra que mesmo a espiritualidade exige certa dose de conforto. Triste, leve, verdadeiro, infelizmente viver também é isso; domesticar o cinismo. “O próprio Jesus parecia bem feliz de estar ali. Certamente jamais estivera num lugar como aquele, com tamanho conforto cercado de tantas atenções e afeto.”
Quatro cenas de Brasil não precisa de comentário, são elas: Bala, Bola, Bunda, Bíblia, mas não consigo me conter, perdoe paciente leitor: “-Faz tempo que o Pastor Jônatas pastoreia este rebanho?” - “Já faz muitos anos. Desde que saiu da cadeia.O Pastor Jônatas cumpriu seis anos por ter matado um homem.” Oliveira, Fdp!!! é mais um achado do autor, a parcela tragicômica e fantástica de Restos, ou dos restos de uma existência onde um velho vocifera contra sua própria decrepitude.Um novo conceito é o relato detalhado de um seqüestro e se mais não revelo sobre esse conto é para não atrapalhar o prazer de sua leitura e seu desfecho genial. A solidão combinada a uma mediocridade abastada é capaz de inventar prazeres onde a vida é material de segunda mão.Viagem 1, Viagem 2, Viagem 3, três contos a combinar morte e futuro, esperança e resignação, solidão e velhice. A doce crueldade de um autor. Não há trégua nos contos de Mário, o leitor está em segundo plano, cabe a ele estabelecer as rotas de fuga ou buscar a companhia de nuvens.“Marta - esse era seu nome - jamais tivera a oportunidade de ser apresentada a si mesma. Faltara-lhe aquele momento de solidão em que, na ausência de uma vizinhança, trava-se o conhecimento de si.” Em Solo Mário oferece ao leitor o poder da escolha, se bem que para dar partida à história tão somente, pois sabe ele que o mais importante é sempre o final. Permite que o leitor escolha entre quatro possibilidades de abertura para a história de um músico frente a seus dilemas, onde geralmente não se permite espaço para a existência da morte. Sobretudo da própria morte.“Há muito tempo que tudo que via de si mesmo eram as mãos. A única parte do corpo que uma pessoa vê todos os dias da sua vida, pensou. Do rosto, apenas as lembranças e um par de fotografias que trouxera na bagagem.” Palimpsesto é amálgama de ansiedade e solidão de um escritor que envia seu primeiro romance à apreciação de João Ubaldo Ribeiro. Num primeiro contato dá impressão da parte solar de Restos, mas não embarque nessa canoa, desatento leitor. Concentra-se nessas linhas a mais fiel fotografia da nossa miséria existencial, ela que nos transforma em permanentes pedintes além de deixar a mostra aleijões a espera da bengala alheia que abrirá as portas das oportunidades. Com escritores a cena é das mais comuns. Mendigamos textos a nos recomendar, telefonemas a editores elogiando nossos livros e, nesse vai e vem das influências, os talentos evaporam e as bobagens e os tolos bem relacionados infestam as Flips e as Flaps da vida. Por favor, afobado leitor, não me pergunte o que é Flap. Aproveite seu tempo lendo Restos.“Gosto do meu nome. Mas um nome sozinho não valia muito naquelas circunstâncias.Precisava de sobrenomes, de preferência dois, três, quatro até.Os sobrenomes empurram o nome; por isso, quanto mais, melhor.” Encerra o livro Corpo, sem ironias e sem gracinhas, aqui fecha-se o caixão.“ Ninguém merece deixar esta vida sem seus ritos.”
Afortunado leitor, concluída a leitura de Restos fica um gostinho de quero mais e se você for também um leitor curioso e pretender sair em busca de algo semelhante, não perca seu precioso tempo. Modestamente, vá por mim. Recomece a leitura. Garanto que valerá a pena, não há riscos. Risco é viver , mesmo com todos os atenuantes do consumismo, mesmo evitando pensar e falar sobre velhice, solidão e morte, resta a certeza inquestionável; o nosso horizonte é o chão.

TRECHO

Tirei o pé de cima e me agachei diante daquela pele fustigada.Cheguei tão perto que podia ver os espaços entre as esfoladuras, amostras do terreno tal como fora. A respiração também se alterara, e um assovio agudo se fazia ouvir acompanhando o ar que saía. Bati mais vezes, com a coronha do revólver e em seguida com os próprios punhos, sentindo um certo nojo ao perceber os dentes por trás dos lábios, a cartilagem por trás do nariz. Levantei-me já um pouco cansado, mas continuei desferindo chutes pelo corpo todo, obrigando-o a assumir formas insólitas. Ora parecia um caracol, ora um arco, ora a letra L. Cansei, finalmente, e contemplei a estranha massa orgânica que jazia a meus pés. Não era ninguém que eu conhecesse aquele um deitado no chão, macerado pelos seus próprios fluidos, movendo-se por espasmos. O assassino que eu tanto execrara, que desejara pelo avesso e com quem sonhara acertar contas entre quatro paredes, agora fugia de mim tornando-se outro.As pálpebras permaneciam teimosamente abertas. E foi justamente aquele olhar congelado e sem brilho que me fez lembrar da moça na segunda foto do jornal. Compreendi então que meu plano estava arruinado, total e definitivamente. William sem escondera para sempre no olhar da sua vítima e agora me empurrava, alma abaixo, um incômodo sentimento de piedade.O golpe fatal, no entanto, ainda estava por vir. E veio quando, com enorme esforço, ele tentou balbuciar algo.No primeiro instante, foi como se estivesse acometido por uma constipação de palavras, e nenhum som inteligível saiu da sua boca. Numa segunda tentativa, porém, uma voz frágil escorreu para fora. Não passava CE um guincho rouco, inimaginável algumas horas antes, mas continha o que poderia haver de mais terrível: um pedido de perdão. Sem ter escolha, aceitei. Restos - Mário Araújo - Bertrand Brasil-188 págs.

O AUTOR

Mário Araújo nasceu em 1963, em Curitiba. Tem contos publicados em jornais literários, em antologias e na internet. Seu livro de estréia A Hora Extrema, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Contos e Crônicas, em 2006.
Luíz Horácio nasceu em 1957, em Quaraí (RS). É professor de língua portuguesa e literatura, e coordena o curso de pós-graduação Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato, de Porto Alegre. Colabora com os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho e revistas. É também roteirista, documentarista e autor teatral. Escreveu os livros Perciliana e pássaro com alma de cão - ed. Conex e Nenhum pássaro no céu - ed. Fábrica de Leitura.

sábado, 15 de novembro de 2008

MITOLOGIA GREGA



Entendendo a Mitologia Grega

A Mitologia Helênica é uma das mais geniais concepções que a humanidade produziu. Os gregos, com sua fantasia, povoaram o céu e a terra, os mares e o mundo subterrâneo de Divindades Principais e Secundárias. Amantes da ordem, instauraram uma precisa categoria intermediária para os Semideuses e Heróis.



Os gregos antigos adotavam o Politeísmo Antropomórfico, ou seja, vários deuses, todos com formas e atributos humanos. Religião muito diversificada, acolhia entre seus fiéis desde os que alimentavam poucas esperanças em uma vida paradisíaca além túmulo, como os heróis de Homero, até os que, como Platão, acreditavam no julgamento após a morte, quando os justos seriam separados dos ímpios. Abarcava assim entre seus fiéis desde a ingênua piedade dos camponeses até as requintadas especulações dos Filósofos, e tanto comportava os excessos orgiásticos do culto de Dioniso como a rigorosa ascese (exercício espiritual) dos que buscavam a purificação.
Os primeiros dados existentes sobre a religião grega são as Lendas Homéricas, do século VIII a.C., mas é possível rastrear a evolução de crenças antecedentes. Quando os indo-europeus chegaram à Grécia, já traziam suas próprias crenças e deuses, entre eles Zeus, protetor dos clãs guerreiros e senhor dos estados atmosféricos. Também assimilaram cultos dos habitantes originais da península, os Pelasgos, como o oráculo (resposta de um deus a quem o consultava) de Dodona, os deuses dos rios e dos ventos e Deméter, a deusa de cabeça de cavalo que encarnava o ciclo da vegetação.
A religiosidade popular evidenciava-se nos festejos tradicionais, em geral de origem camponesa, ainda que remoçada com novos nomes.
Os gregos antigos enxergavam vida em quase tudo que os cercavam, e buscavam explicações para tudo. A imaginação fértil deste povo criou personagens e figuras mitológicas das mais diversas. Heróis, deuses, ninfas, titãs e centauros habitavam o mundo material, influenciando em suas vidas. Bastava ler os sinais da natureza, para conseguir atingir seus objetivos. A pitonisa, espécie de sacerdotisa, era uma importante personagem neste contexto. Os gregos a consultavam em seus oráculos para saber sobre as coisas que estavam acontecendo e também sobre o futuro. Quase sempre, a pitonisa buscava explicações mitológicas para tais acontecimentos. Agradar uma divindade era condição fundamental para atingir bons resultados na vida material. Um trabalhador do comércio, por exemplo, deveria deixar o deus Hermes sempre satisfeito, para conseguir bons resultados em seu trabalho.
Os camponeses cultuavam Pã, deus dos rebanhos, cuja flauta mágica os pastores tentavam imitar; as ninfas, que protegiam suas casas; e as nereidas, divindades marinhas.
Pode-se dizer que o sincretismo, ou fusão pacífica das diversas religiões, foi a característica dominante do período Helenístico.


Psicanálise e mitologia - Os grandes temas mitológicos são centrais para a psicanálise desde sua origem. De um lado, eles foram objeto de análise, de outro, representaram um apoio para sustentar as idéias de Freud, como forma de demonstrar que suas descobertas transcendiam a singularidade de seus pacientes. Todas as grandes questões humanas acham-se expressas no mito: o singular e o universal; como tornar-se o que se é; o desejo, a vida e a morte.




Os principais seres mitológicos da Grécia Antiga
Heróis
: seres mortais, filhos de deuses com seres humanos. Exemplos : Herácles ou Hércules e Aquiles.
Ninfas : seres femininos que habitavam os campos e bosques, levando alegria e felicidade.
Sátiros ou Faunos : figura com corpo de homem, chifres e patas de bode.
Centauros : corpo formado por uma metade de homem e outra de cavalo.
Sereias : mulheres com metade do corpo de peixe, atraíam os marinheiros com seus cantos atraentes.



Górgonas : mulheres, espécies de monstros, com cabelos de serpentes. Exemplo : Medusa.
Quimeras : mistura de leão e cabra, soltavam fogo pelas ventas.

Principais deuses gregos
Zeus
- deus de todos os deuses, senhor do Céu.
Afrodite - deusa do amor e da beleza.
Poseidon - deus dos mares.
Hades - deus dos mortos, dos cemitérios e do subterrâneo.
Hera - deusa dos casamentos e da maternidade.
Apolo - deus da luz e das obras de artes.
Artemis - deusa da caça.
Ares - divindade da guerra.
Atena - deusa da sabedoria e da serenidade. Protetora da cidade de Atenas.
Hermes - divindade que representava o comércio e as comunicações.
Hefestos - divindade do fogo e do trabalho.



Origem dos deuses
No princípio era o Caos (fenda), que gerou Géia ou Gaia (a Terra), que por sua vez espontaneamente gerou Pontos (o mar) e Urano (o céu).
A união entre Géia e Pontos gerou as antigas divindades marítimas, praticamente personificadas em Nereu, o velho do mar, que podia assumir todas as formas, diluir-se edesmanchar-se na água. Nereu é representado como um ancião de barbas brancas ecorpo de peixe.
Géia e Urano tembém se uniram, deles surgindo os Titãs (Oceano, Coeus, Crius,Hyperion, Japetus e Cronos), e as Titânidas (Thétis, Phoebe, Mnemósine, Théia, Themise, Rhea). Os irmãos uniram-se às irmãs, gerando uma série de divindades.
Por escolha de Géia, coube a Cronos destronar o pai Urano, o que fez com uma foice de ferro, metal gerado por Géia. Cronos castrou Urano, e atirou ao mar a bolsa escrotal e o pênis, que provocaram uma onda de espuma manchada de sangue, da qual nasceu Afrodite.
Cronos, por sua vez, foi destronado por Zeus, um dos filhos de sua união com Rhea. Cronos temia ser destituído como o pai, por isso devorava seus filhos. Quando do nascimento de Zeus, Rhea enganou Cronos, dando-lhe uma pedra envolta em cueiros, e entregou a criança aos cuidados da ninfa Adrastéia, que o alimentou de mel e do leite da cabra
Amaltéia.
Zeus chegou rapidamente à idade viril, e com a ajuda de Géia, derrubou Cronos, forçando-o a ingerir um remédio de mostarda e sal; Cronos regurgitou primeiro a pedra,depois os demais filhos (Héstia, Hades, Posseidon, Hera e Deméter). Zeus e os deuses mais jovens combateram os Titãs, nas planícies da Tessália, e se apossaram do Monte Olimpo, que passou a ser a morada dos deuses. Na mitologia romana, Cronos é
Saturno.
O encadeamento dessa sucessão de divindades tem como uma de suas explicações a própria história da Grécia, cujos habitantes primitivos, os pelasgos, sofreram as invasões dos aqueus, eólios, jônios e dórios, tribos de origem indo-européia ou ariana, que penetraram e se fixaram na Grécia entre os séculos 20 e 12 a.C. Esses povos invasores fundiram seus mitos e lendas aos dos povos conquistados, daí resultando as diversas versões em torno da origem dos deuses, bem como a variação dos padroeiros das cidades e regiões.