segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A caixa liberou todos os males. Mas guardou a esperança

 
por Eduardo Martins




Pandora

 A palavra deu nome a mais de uma personagem do cinema, a uma distribuidora brasileira de filmes, a um dos satélites de Saturno e a um site do qual se podem baixar músicas na internet. Como lenda, foi tema de filme com Angelina Jolie. Alguma razão, haveria para que Pandora tivesse tão amplo número de referências.


Júpiter
 

Prometeu

Segundo a mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher na Terra. Para castigar o titã Prometeu, Júpiter ordenou a seu filho Vulcano que criasse, do barro, uma mulher tão bela e encantadora que provocasse a infelicidade dos homens. Na origem, Pandora significa “todos os dons”, “todas as dádivas”, tamanhos foram os predicados que as divindades do Olimpo puseram nessa mulher.


Epimeteu

Pandora foi dada como mulher a Epimeteu, irmão de Prometeu, o titã que havia roubado o fogo do céu. A primeira mulher na Terra levou do Olimpo uma caixa cujo conteúdo não conhecia. Recebeu a recomendação de não abri-la, mas ela ou o marido, Epimeteu, abriu a caixa, que continha todos os males do mundo. Até aí a humanidade não conhecia doenças nem dores. Por isso se fala hoje em caixa de Pandora como algo que desencadeia problemas ou aflições. Ficou, porém, um consolo: no fundo da caixa restou a esperança.


Vulcano

Vulcano, o filho que cumpriu a ordem de Júpiter para criar Pandora, emprestou o nome a um dos maiores perigos para a humanidade, o vulcão. Vulcano, identificado ao deus grego Hefesto, nasceu tão disforme que Júpiter o lançou do alto do Olimpo ao mar.

Recolhido por Tétis, filha de Oceano, foi por ela criado numa gruta, na qual desenvolveu a habilidade de fabricar brincos, broches, anéis e braceletes. Também criou duas forjas onde foram polidos pela primeira vez o ouro, o ferro, o cobre e o aço
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Poseidon
  
Deusa Tétis filha de Poseidon

Sua oficina ficava sob o monte Etna, na Itália, que encerra um dos vulcões mais ativos do mundo moderno. Transformado em deus do fogo, Vulcano é representado habitualmente ao lado de uma forja, tendo numa das mãos um martelo e na outra um raio.



  • Eduardo Martins é editor de O Estado de S. Paulo e autor do Manual de Redação e Estilo do jornal.


Fonte: História Viva
Imagens: Internet

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

UMA FRAÇÃO DO TODO



* Luíz Horácio Rodrigues




Não admiro tampouco invejo aqueles que alardeiam não ter medo da morte. Não temer a morte é não ter medo de morrer. Essas pessoas me assustam. Temo a morte e as maneiras de morrer. Li e reli Sêneca: “Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que tu, talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer”. Não funcionou.

Sêneca


Uma fração do todo é um livro descontraído e pretensioso. Descontraído por se tratar de uma comédia, pretensioso por pretender abarcar mais que uma fração do todo, vai de uma análise profunda da solidão ao exame pormenorizado da vida em sociedade. Consegue ser trágico, irônico e engraçado. Ao mesmo tempo. Na dose exata às pretensões do mercado. Tudo bem visível, tudo na superfície. Sim, é ficção, eu sei. Mas de ficção desse teor o inferno está cheio.

Steve Toltz
Uma fração do todo é de ruborizar o livro de Murakami, aquele sobre corrida. Steve Toltz mostra que não brinca em serviço, está bem preparado fisicamente. Recomenda-se o mesmo treinamento aos leitores pois estarão a cada página frente a um novo acontecimento. Tal aspecto aliado a características dos personagens, sobretudo Terry, faz de Uma fração do todo um tardio representante da novela picaresca. Imprevisibilidade é outra característica da obra de Toltz, reviravoltas e mortes que mudam o rumo da história. Sim, o leitor jamais sentirá o tédio tentando lhe seduzir, ao mesmo tempo se perguntará: mas pra que tudo isso?

Optei pela morte, pelo medo da morte. Mas precisava tanto para tão pouco?

Não interprete, freudiano leitor, por favor não interprete.Isso não significa que este aprendiz ame livros sonolentos onde pouco acontece, como Becket e o tédio mor de Clarice Lispector.Nada disso. Toltz escreveu um livro para os irmãos Cohen, fique atento cinéfilo leitor. O trágico e o engraçado referido anteriormente, lembra? Lá no começo.

Irmãos Cohen, irmãos Dean. Martin e Terry Dean. Opostos, extremamente opostos.Martin, filósofo pessimista, Terry, líder da “cooperativa democrática do crime. Martin, o taciturno, a ausência de movimento. Terry,o bandido carismático, a inquietação.

A história é narrada por Jasper Dean, filho de Martin. Jasper é o resultado das influências familiares extremamente opostas. Tudo leva a crer, no entanto, que se as influências viessem apenas de seu pai, o resultado não seria muito animador. “Ele me tirou da escola com a intenção de me educar ele próprio e, em vez de me deixar pintar com os dedos, lia para mim as cartas que Van Gogh escreveu para o irmão Theo pouco antes de cortar a própria orelha”.

Jasper Dean


Jasper é praticamente a cobaia de Martin. Cobaia de filósofo existencialista, convenhamos... O garoto sobrevive, assim como outras cobaias sobreviventes, ostentando sequelas.

Van Gogh

A orelha de Van Gogh é uma das traduções da obra de Toltz, trata-se de uma fração. Ao final da leitura restará ao leitor a possibilidade de optar por uma fração, escolhi o medo da morte. Você tem várias outras: análise engraçadinha sobre a Australia e os australianos, tratado sobre relações familiares,retorno ao ideal quixotesco,pitadas de Policarpo Quaresma, e pasme, reflexões acerca da solitária atividade intelectual. Repleto de novidades, não?

A outra tradução: o inconformismo de Martin. Submeter uma criança ao cansaço dos professores é exigir extrema submissão. Com a palavra Jasper: “...depois de oito meses no jardim de infância, decidiu me tirar de lá, porque o sistema educacional era ‘embrutecedor, emburrecedor, arcaico e materialista’. Eu não sei como alguém pode chamar pintura a dedo de arcaico e materialista”.

Depende, Jasper, depende. Mais uma: o livro traz inúmeros questionamentos, humor, interpretações de inestimável relevância, que beira a auto-ajuda.
Percebeu, exigente leitor, um livro de mil e uma utilidades. Bom proveito.


*Luíz Horácio Pinto Rodrigues








Natural de Quaraí, pequeno município gaúcho na fronteira com o Uruguai, é formado em Letras e  Mestre na mesma área. Viveu sua juventude na terra natal e em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras e passou cerca de vinte anos ali, escrevendo e colaborando com páginas literárias de várias publicações. Atualmente reside em Porto Alegre (RS). Sua principal obra é a denominada Trilogia Alada, inaugurada com Perciliana e o pássaro com alma de cão, seguida de Nenhum pássaro no céu, e encerrada agora com Pássaros grandes não cantam.

Fotos: Internet

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Brasil também teve campos de concentração


Durante a 2ª Guerra, também tivemos nossos campos de concentração - onde japoneses, italianos e principalmente alemães ficaram confinados. Conheça as histórias dessas pessoas

por Alexandre Duarte



Manhã de 2 de março de 1944. Na Estação Experimental de Produção Animal de Pindamonhangaba, uma fazenda no interior de São Paulo, ouviu-se um som que não era comum no local. Era o choro de uma criança nascendo. Mas não uma criança qualquer. O choro era de Carlos Johanes Braak, o único brasileiro nascido em um campo de concentração - e em seu próprio país. Durante a 2a Guerra Mundial, o Brasil manteve 31 campos de concentração, para onde mandava os cidadãos de países do Eixo - a coligação formada por Itália, Japão e Alemanha. Os pais de Carlos, que eram alemães, estavam entre as centenas de pessoas que viveram esse lado menos cordial da história brasileira. "Era uma fazenda. O estábulo virou um dormitório. Minha mãe ficava numa casa, separada. Foi onde passei os dois primeiros anos da minha vida", lembra Carlos.


O pai de Carlos se chamava August Braak. Sua mãe, Hildegard Lange. Eles partiram de Hamburgo, na Alemanha, em direção à Cidade do Cabo, na África do Sul. Estavam a bordo de um navio chamado Windhuk, no qual August trabalhava como comissário e tesoureiro.

O Windhuk era uma embarcação turística, mas também coletava mercadorias. Quando a 2a Guerra começou, o navio já estava no continente africano - em Lobito, Angola, recebendo um carregamento de laranjas. O navio não tinha como voltar para a Alemanha em guerra, pois estava sendo perseguido por embarcações inglesas. O capitão decidiu fugir para o Brasil. E a embarcação acabou chegando ao Porto de Santos disfarçada de navio japonês, com o nome de Santos Maru, em 7 de dezembro de 1939.
Assim que o navio chegou aqui, ficou evidente que ele não era japonês coisa nenhuma. Mas os alemães foram bem recebidos. August e Hidelgard, bem como os outros 242 tripulantes, viviam em Santos e redondezas. Alguns moravam no próprio barco, outros, em pensões. Todos recebiam salários do governo alemão, e levavam uma boa vida. Em 19 de abril de 1940, os pais de Carlos se casaram numa festa a bordo do navio.
 
Mas, em 1942, tudo mudou. O Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo - cujos cidadãos passaram a ser considerados inimigos. "O governo brasileiro precisava fazer isso [criar os campos de concentração] para se alinhar com as estratégias dos Aliados e dos EUA", explica a pesquisadora Priscila Perazzo, autora do livro Prisioneiros da Guerra (Ed. Humanitas). Alguns estrangeiros foram mandados para presídios comuns - como os de Ilha Grande e Ilha das Flores (RJ). Mas a maioria foi para campos de concentração, organizados pelo Ministério da Justiça.


Os pais de Carlos foram parar num desses campos - a fazenda em Pindamonhangaba, onde ficaram confinados 136 alemães do navio Windhuk. Eles foram presos porque seu navio tinha chegado ao Brasil durante a guerra, coisa que o governo interpretou como uma ameaça.

Os prisioneiros não podiam manter suas tradições. Nada de ler livros em alemão, por exemplo. Mas o clima era relativamente tranquilo. Alguns prisioneiros podiam visitar o centro da cidade aos sábados, aonde iam acompanhados pelos guardas. "Era comum os presos chegarem carregando os fuzis dos guardas, que sempre voltavam bêbados", diz Carlos.
Trabalhos forçados


A outra parte da tripulação do navio foi parar no campo de Guaratinguetá - entre eles Horst Judes, também tripulante do Windhuk, que tinha 19 anos. Quando desembarcou em Santos, foi um dos que ficaram vivendo no navio, até ser preso em 1942. No campo de concentração de Guarantinguetá, o tratamento não era tão bom. "Éramos obrigados a trabalhar no campo", conta o alemão, hoje com 87 anos e dono de uma chácara no interior de São Paulo. A rotina no campo de Guarantinguetá era acordar cedo, pegar enxada e picareta e dar duro. Cada prisioneiro levava um número nas costas. "O meu era 17", conta Horst. O café da manhã tinha dois pãezinhos e uma caneca de café. No almoço e no jantar era só arroz com feijão. Às quintas e aos domingos, era dia de macarrão. Mas a comida nem sempre era suficiente, e os prisioneiros dependiam de padrinhos, geralmente alemães livres, que os ajudavam de diversas maneiras. Alemães livres? Sim. A maior parte dos imigrantes não foi presa. Iam para os campos aqueles que chegavam ao Brasil em plena guerra, ou eram suspeitos de espionagem.

Foi graças a esse apadrinhamento que Horst conseguiu sobreviver depois de ser solto, em 1945. "Saímos do campo sem dinheiro nem emprego. Foram os padrinhos que nos ajudaram. O meu era de São Paulo. Trabalhei como mordomo e até como taxista", conta. Como a maioria desses estrangeiros, ele também constituiu uma família brasileira, e diz gostar do país que adotou de maneira forçada.
Campo de Concentração Tomé-Açú (PA)


Na época, o governo brasileiro fazia de tudo para mostrar que os prisioneiros de guerra eram bem tratados - o que nem sempre era verdade. O tempo de internamento variava. Houve pessoas que ficaram 3 anos presas, mas outras conseguiam ser libertadas mais cedo. Também é difícil definir exatamente o número de presos que foram mandados para os campos de concentração brasileiros entre 1942 e 1945, pois os registros são vagos. Mas existe uma documentação que revela nomes e, em alguns campos, o número exato de prisioneiros que passaram por lá. Os registros comprovam que a maioria era de alemães, seguidos de japoneses em bem menor número, italianos e um ou outro austríaco.

Campo Oscar Schneider (SC)

Juventude Hitlerista



 Poucas pessoas foram tão afetadas com o internamento nos campos quanto Ingrid Helga Koster, cujas memórias registrou no livro Ingrid, uma História de Exílios (Ed. Sagüi). Nascida no Paraná, ela se tornou órfã de pai com apenas 1 ano de idade. Quando tinha 5 anos, sua mãe se casou novamente, com um alemão. Seu padrasto, Karl von Schültze, tinha migrado para o Brasil em 1920, para fugir da crise que castigava a Alemanha depois da 1a Guerra Mundial. Schültze chegou aqui e, junto com outros estrangeiros, começou a trabalhar em uma empresa alemã, a AEG, fazendo instalações elétricas em vários lugares do país. Ele se casou com a mãe de Ingrid no início dos anos 30, em Rio Negro, no Paraná. Pouco depois a família, já com duas outras filhas, se mudou para Joinville, em Santa Catarina, cidade dominada pela cultura alemã. Ingrid se lembra de ouvir no rádio um novo chanceler que assumira o poder na Alemanha, cujo carisma a deixava emocionada. "Eu ficava arrepiada. Ele sabia falar com o povo. Nós não imaginávamos o que estava acontecendo", conta Ingrid. O tal chanceler era Hitler.
 

Então começou a guerra, e o pai de Ingrid pressentiu que as coisas ficariam ruins. Ele proibiu, mais de uma vez, que Ingrid se unisse ao movimento Juventude Hitlerista que existia em Joinville. Na Alemanha, esse grupo foi criado para reunir e doutrinar ideologicamente os jovens de 6 a 18 anos. No Brasil, o grupo assumiu um tom mais brando - servia principalmente como ponto de encontro para os imigrantes alemães. Mas o pai de Ingrid não quis nem saber. E também queimou todos os livros em alemão que tinha em casa. Entre eles o famoso Mein Kampf (Minha Luta), de Hitler.


Até que, em 1942, a polícia bateu à porta. "Eles chegaram procurando pelo meu pai, o levaram e ficamos dias sem notícias. Até que chegou um comunicado dizendo que ele estava preso aqui em Joinville", lembra ela, que depois de algum tempo passou a levar marmitas para seu pai no Hospital Oscar Schneider, adaptado como campo de concentração à época. O governo brasileiro acreditava que Karl fosse um espião nazista. Por isso, o regime de confinamento dele era rígido. Nos dois meses em que ficou em Joinville, nenhum familiar pode visitá-lo. A marmita era entregue aos guardas. Até que certo dia, quando Ingrid foi levar a comida, lhe avisaram que seu pai não estava mais lá: tinha sido transferido para o Presídio da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. "Nosso dinheiro acabou e tivemos que voltar para o Paraná, viver do jeito que dava", diz Ingrid. "Nossa casa era apedrejada, pichavam a suástica nos muros. Nós éramos o inimigo."

Daí em diante, ela só pôde visitar o padrasto uma vez por ano - no Natal. Quando a guerra acabou, Karl foi libertado por falta de provas. Mas seu chefe na AEG, Albrecht Gustav Engels, acabou condenado a 8 anos de prisão por fazer espionagem nazista. "Meu pai nunca falou sobre os tempos em que ficou preso. Mas acredito que tenha sofrido muito, inclusive tortura, porque antes era uma pessoa alegre e depois se tornou calado, triste", conta Ingrid. Ela chegou a perguntar antes de o padrasto morrer, em 1966, se ele realmente espionara. Karl deu uma resposta vaga, e disse apenas que não foi condenado. Então ele era mesmo um espião nazista? "Até hoje não tenho certeza", admite Ingrid.

Mesmo tendo passado por sofrimentos e humilhações, os prisioneiros alemães não quiseram deixar o Brasil depois da guerra. Como o padrasto de Ingrid. "Quando eu perguntava se ele não gostaria de voltar, ele dizia que, apesar de tudo, agora era brasileiro."

Os principais campos de detenção 

 
1. Tomé-Açú (PA)

A 200 km de Belém. Recebeu alemães e japoneses.

2. Chã de Estêvão (PE)

Abrigou empregados alemães da Cia Paulista de Tecidos (hoje conhecida como Casas Pernambucanas).
3. Ilha das Flores (RJ)


Nessa cadeia, prisioneiros de guerra foram misturados com detentos comuns - uma violação das leis internacionais.


4. Pouso Alegre (MG)

O campo de Pouso Alegre reunia presos militares: os 62 marinheiros do navio Anneleise Essberger.

5. Guaratinguetá e Pindamonhangaba (SP)

Fazendas que pertenciam ao governo e foram adaptadas para receber alemães.

6. Oscar Schneider (SC) Hospital transformado em colônia penal.

Fonte: História Viva


Imagens: Internet

domingo, 22 de maio de 2011

Casanova, o cara que catava todas


Irresistível para as mulheres, insuperável pelos homens, ele entrou para a história como protagonista de fantásticas aventuras amorosas. Porém, até hoje persistem as dúvidas sobre se tudo não passou de imaginação, exagero ou mera literatura

por Clézio Veloso



Se para representar a Idade Média proliferaram os contos de cavalaria, que inundaram nossa imaginação com jovens em armaduras brilhantes lutando pela honra de suas donzelas, quando pensamos no século 18 vêm-nos à mente reis coroados e nobres envolvidos apenas com o diz-que-diz das cortes européias, amores proibidos e duelos entre cavalheiros. Se esse século virasse um filme (na verdade, já rendeu vários), o ator principal bem poderia ser Giacomo Giovanni Casanova. Ninguém soube viver tão bem como esse aventureiro nascido em Veneza, que se tornou mundialmente conhecido como o maior conquistador de todos os tempos. Sua fama surgiu com a publicação de um livro chamado Memórias, cuja autoria é atribuída a Casanova.

A obra, considerada um dos mais importantes retratos europeus daquele período, veio à luz cerca de 30 anos depois de sua morte e narra as proezas de um homem que nunca trabalhou ou derramou uma gota de suor e ainda assim amealhou fortunas e adquiriu conhecimentos. Mas foi ao lado de damas da corte, princesas e rameiras com as quais se deitou que ele construiu sua fama de conquistador. Mesmo desprovido de elementos particulares de sedução, não teria havido mulher que resistisse aos seus encantos.

Uma história perfeita demais para ser verdade. E é provável que ela não seja real mesmo. Praticamente tudo que sabemos sobre a vida de Casanova é narrado nas Memórias. Ali, ele surge como um gênio, poliglota, intelectual, aventureiro, espião, milionário e, é claro, conquistador. Todos os ingredientes necessários para fazer de qualquer livro um best seller – e de Casanova um personagem eterno. O problema é que nem mesmo a autoria da obra é completamente consensual. E, sobre seu conteúdo polêmico, ainda se discute que parte Casanova realmente viveu e o que ele (ou foram seus editores?) inventou.

De fato, Giacomo Giovanni Casanova surgiu para o mundo com a publicação póstuma de suas Memórias. Até então apenas os moradores da pequena cidade de Dux, na Boêmia, tinham ouvido falar dele. Ali, onde passou os últimos anos de sua vida como bibliotecário do conde Joseph Charles de Waldstein, ele é descrito em correspondências da época como um homem rabugento e com o costume de contar histórias que ninguém levava em consideração. “Um veneziano de fértil imaginação, devotado às suas narrativas e a constantes intrigas. Neste porto de tranqüilidade, ele estava sempre a procurar querelas”, escreveu o príncipe de Ligne, que era sobrinho do conde.

Os cidadãos de Dux quiseram até expulsá-lo da vizinhança, porque dizia obscenidades às meninas que encontrava. Brigou com os padres da igreja local e intrigou-os com o conde. Recusava-se a pagar o que comprava, reclamava dos criados, da comida e da falta de atenção. Seria esse velho rabugento e encrenqueiro, que vivia enfurnado entre livros empoeirados, o maior amante de todos os tempos?

Menino prodígio

O que se sabe do verdadeiro Casanova é muito pouco. Nascido em Veneza (que então era um reino independente, mas hoje faz parte da Itália), em 2 de abril de 1725, ele era filho de um casal de atores, Gaetano Giuseppe Giacomo e Zanetta Farussi. Na época, os artistas iam aonde os nobres e reis estavam. Assim, os pais de Casanova viviam viajando de cidade em cidade, se apresentando às cortes em Lyon, Viena e Paris. Mas sempre voltavam para casa. “Em Veneza, o jovem Giacomo deve ter conhecido artistas de rua, andarilhos, jogadores e malandros, que viviam de pequenos golpes”, escreveu James Rives Childs, autor de Casanova – Uma Nova Perspectiva, uma das mais completas biografias sobre o conquistador. “Em Memórias, Casanova descreve em detalhes situações com as quais deve ter convivido na intimidade”, afirma Childs.



No final do século 18, Veneza era uma cidade cosmopolita. Seu movimentado porto recebia viajantes de toda a Europa, árabes do norte da África e mercadores turcos. Vendia-se e comprava-se de tudo. Enriquecia-se rápido, faziam-se amigos, cultivavam-se rivais. “Havia um clima de festa quase constante. Tanto nos grandes bailes promovidos pelos nobres quanto nos carnavais de rua, que arrastavam multidões mascaradas”, diz Childs.

A partir daí, entramos num período de sua vida que somente as Memórias relatam. Segundo o próprio Casanova, ele teria aprendido a ler e a escrever aos 8 anos de idade. Em 1734, após a morte do pai, ele foi colocado num internato em Pádua. Lá teria estudado sob a orientação de padres e obtido, aos 17 anos, o grau de doutor eclesiástico, na Universidade de Pádua. Nessa época, ele teria adquirido os primeiros conhecimentos de química, matemática, esgrima, filosofia e equitação. Também teria aprendido o latim, o grego, o francês, o hebreu, um pouco de inglês e também do espanhol.

Aos 20 anos, ele já vivia solto pelo mundo. No campo profissional foi um privilegiado, exercendo tantas atividades quantos eram os seus talentos. Pequeno industrial, violinista, jogador de cartas, diplomata, espião, empresário e tradutor. Também teria sido o fundador da loteria na França. De nada disso, no entanto, temos provas irrefutáveis. Sabe-se apenas que ele realmente falava outros idiomas. Há textos seus em latim – o que não chegava a ser um prodígio naqueles dias – e grego (um grego sofrível, é verdade, mas vá lá).

Mas, apesar da variedade de ofícios, nunca chegou a desenvolver nenhuma carreira específica. Pois desde muito jovem ele teria descoberto sua verdadeira vocação. Viver dos favores dos amigos e, sobretudo, das amigas, foi durante toda a sua vida a principal fonte de recursos. Moreno, alto, esbanjador e inteligente, Giácomo Casanova tinha uma presença marcante entre a nobreza européia. “Frederico, o Grande, teria-o tomado por um homem de rara beleza”, escreveu o austríaco Stefan Zweig em Três Poetas de sua Vida - Casanova, Sthendal, Tolstoi. A boa impressão que ele causou no poderoso rei da Prússia era ainda maior entre as mulheres. Seu primeiro caso amoroso narrado em Memórias foi no tempo do colégio, em Pádua. Ele teria feito sexo com Bettina, irmã de um amigo. Casanova tinha 9 anos de idade e ela passava dos 30. E ela lhe teria ensinado tudo sobre como agradar as mulheres.

Seus casos são muitos e se multiplicam nas diferentes biografias. Tanto que é difícil contar. Na verdade, há gente especializada em fazê-lo. O historiador alemão Friedrich Wilhelm Barthold foi o primeiro a tentar e publicou, em 1846, a obra Personagens Históricos nas Memórias de Casanova. Segundo ele, Casanova possui um currículo insuperável: ele transou com 5.575 mulheres!!!


Mulher, mulher

As táticas de conquista utilizadas por Casanova variavam conforme o alvo (cada cor de cabelo, por exemplo, exigia uma estratégia distinta), mas o galanteio era a primeira de suas abordagens. O truque era dar a elas a impressão de que ele correspondia ao que desejavam. Tanto mais perfeito quisessem um homem, tanto mais ele seria. Se preferissem a rudeza dos camponeses, num matuto ele se transformava. Além disso, ele trabalhava duro para agradar a todas.“Perito em preliminares, ele era capaz de passar um dia inteiro entre carícias e pequenos jogos sexuais. Ninguém melhor que ele sabia tratar uma mulher”, escreveu Barthold.



A reputação de Casanova impressiona ainda mais se levarmos em consideração a forma como as mulheres viviam e se comportavam na Europa do século 18. Respeito e decência eram a base da educação das jovens venezianas – pelo menos as da nobreza, que as da burguesia procuravam imitar. Para se ter uma idéia, elas se dirigiam aos pais por “senhor meu pai” e “senhora minha mãe” e raramente se relacionavam diretamente com pessoas de fora do círculo familiar. Para aprender as boas maneiras eram encaminhadas aos conventos, onde ficavam sob a guarda das freiras.

As peculiaridades dos trajes femininos daqueles dias deram origem a um dos mais curiosos capítulos das Memórias. Ao lado das habilidades com a espada, a oratória e os jogos de lógica, Casanova gaba-se de competência para manusear as vestes femininas, sempre com o intuito de se livrar delas, claro. O traje íntimo de uma senhora era composto por tiras de tecido apertadas à cintura e ajustadas com hastes de metal ou de madeira, que desciam em forma de lança pelas pregas das saias. Em cima disso ainda vinha um saiote (alguns não tinham botões e eram costurados, todas as manhãs, pelas amas, antes de as nobres senhoritas saírem de seus quartos) e só então os vestidos, que eram muito amplos e sustentados por arcos de metal. Dois trabalhos, portanto, tinha Giacomo: vencer a rotineira resistência moral e as vestes femininas. Por outro lado, com as próprias vestes ele não tinha que se preocupar: os homens, incluindo ele próprio, não costumavam tirar toda a roupa na hora do sexo.

A destreza no manejo dos intrincados trajes femininos não era a única habilidade de Casanova. O desempenho com as armas foi outra de suas virtudes. Excelente atirador e esgrimista notável, seus duelos teriam ficado famosos na França e em toda a Europa. O mais conhecido deles aconteceu em 1766. O galante aventureiro já havia passado dos 40 anos. Seu adversário era ninguém menos que o conde Branicki, militar e amigo do rei Estanislau Poniativski, da Polônia.

A discussão toda, é claro, foi por causa de uma mulher. Casanova estava em Varsóvia e a convite do próprio rei foi à corte assistir a uma apresentação de balé que comemorava o dia de São Casimiro. No intervalo, ele resolveu cumprimentar uma bailarina piemontesa que tinha chamado a atenção do monarca. De passagem, parou no camarote de uma outra dançarina que havia conhecido no dia anterior. “Mas tínhamos trocado algumas palavras, quando o conde Branicki chegou”, escreveu Casanova. A moça era amante do oficial e, sabendo disso, Casanova cumprimentou-o friamente e se afastou.



Desconfiado, o conde pôs-se a provocar o veneziano acusando-o de covardia. “Não pude reprimir a vontade de levar a mão aos copos da espada. Todavia, mudando de idéia imediatamente, contentei-me em dar de ombros como sinal de desprezo, e saí do camarote.” Casanova não havia dado quatro passos no corredor, quando as palavras “veneziano poltrão”, ditas em voz alta, o alcançaram. Foi o suficiente para que desafiasse Branicki para um duelo.

Às 6 horas da manhã do dia seguinte, lá estavam os dois postados frente a frente. Inicialmente, Casanova teria optado pela espada, mas o conde declinou da escolha, alegando que com um estranho não se bateria senão a pistola. Como de praxe, prevaleceu a vontade do desafiado Branicki. Os dois homens se afastaram cerca de 15 passos. As brumas da manhã fria começavam a se dissipar quando foi dado o aviso para disparar. Branicki perdeu alguns segundos para fazer a pontaria e Casanova disparou, seguido quase que imediatamente pelo militar. Alvejado no peito, o conde Branicki cambaleou e caiu: estava morto. Casanova também foi atingido de raspão na mão esquerda. “A bala tinha sido amortecida por um botão de metal de minha véstia”, escreveu. A fortuna, mais uma vez, lhe havia sorrido.

Essa história, contada em Memórias, é sempre citada pelos biógrafos que defendem que as narrativas de Casanova, apesar de hiperbólicas, têm alguns pontos de contato com a história. Isso porque houve, de fato, um conde de Branicki morto em 1762 (ou 1763, não se sabe ao certo), num duelo em 16 de setembro. Na Polônia, o dia de São Casimiro é o dia 15 de setembro (no Brasil, ele é comemorado em 4 de março).


O descanso do guerreiro

Segundo suas Memórias, Casanova teria ganhado muito dinheiro. O bastante para comprar um título de nobreza (ambição comum entre os burgueses da época). Viajou por toda a Europa, conviveu com reis, namorou princesas, usufruiu seus favores e, no entanto, acabou pobre. Segundo Barthold, sua beleza e vigor cederam à velhice e à doença. Os amigos foram desaparecendo e as mulheres não mais o queriam. Em 1785, já velho e cansado da vida errante que tinha levado até então, Casanova aceitou o convite do conde de Waldstein, talvez seu último protetor, para cuidar da biblioteca de seu castelo em Dux. Não parece um fim muito apropriado para um aventureiro – e, para os céticos, esse seria mais um indício do exagero de seus relatos. Aos 60 anos de idade, rodeado de livros e votado a uma solidão que tanto contrastava com sua vida pregressa, pôs um ponto final em suas viagens para dedicar-se às letras.


Em Dux põe-se a escrever. Publicou alguns livros, mas passava a maior parte do tempo dedicando-se às Memórias. Em 1794 – então com 69 anos de idade – dá como concluída a autobiografia e a mostra aqui e ali, para editores alemães e suíços, mas não consegue apoio para publicá-la. Em 4 de junho de 1798, Casanova morreu.


Memórias

Porém sua morte não interrompeu sua vocação para criar polêmica, pelo contrário. Em 1820, a casa Anger & Cia., de Leipzig, propôs à editora Brockhaus, da mesma cidade, a venda de um manuscrito de autoria de um veneziano com o título História da Minha Vida. A proposta era feita em nome de Carlo Angiolini, sobrinho do autor, um tal de Giacomo Giovanni Casanova. Na época, livros no estilo de confissões, memórias e aventuras tinham boas vendas e a Brockhaus adquiriu os manuscritos.

Os originais, redigidos em francês, foram traduzidos inicialmente para o alemão por Wilhelm von Schültz, que lhe deu o título provisório de Memórias do Veneziano Casanova. Com esse nome, a primeira edição foi lançada em 1822. A versão francesa, remodelada pelo professor Jean Laforgue, da Academia de Dresde, foi publicada em 1826. O êxito foi enorme. Casanova, enfim, saía do anonimato para a imortalidade.

Mas, apesar de ter de fato escrito os originais da autobiografia, pouco mais que a idéia de uma vida venturosa imaginada por Casanova teria sido usada pelos editores na composição do que foi publicado. Para o historiador francês Joseph Pollio, autor de Bibliographie de Casanova, nenhuma dessas obras corresponde ao original de Casanova. Para se ter uma idéia, a Brockhaus comprou o manuscrito com 600 páginas, conforme o registro de compra. O documento especifica, ainda, que foram entregues, além do original, duas cópias. Ou seja, a versão vendida pelo sobrinho de Casanova tinha no máximo 200 páginas. Miraculosamente, com elas Schültz fez 12 volumes. Cada um tem, em média, 500 páginas. É por isso que ele é apontado como o verdadeiro autor da edição definitiva das memórias de Casanova.

E mais: a confrontação dos textos em alemão e francês mostra que Laforgue fez uma obra completamente diferente da de Schültz. “Alguns nomes e referências históricas citados nos escritos foram tirados de livros do século 19. Há inúmeros exemplos de lugares que simplesmente não existiram no tempo da juventude de Casanova, mas que aparecem na versão de Laforgue”, diz Pollio. No entanto, jamais foi feita uma comparação entre os textos de Schültz e os originais, pois os manuscritos de Casanova nunca foram mostrados publicamente.



No final das contas, uma passagem das Memórias de Casanova parece vir a calhar. “Penso que enganar os tolos é façanha digna do homem de espírito. Felicito-me sempre quando me lembro de os ter apanhado em minha rede”, teria escrito.

Saiba mais

Livros:

  • Memórias, Giacomo G. Casanova, 1956, Editora Delta, São Paulo, No livro Casanova narra as aventuras, as conquistas amorosas e os conhecimentos adquiridos durante a vida. Leitura indispensável para os iniciantes na arte da sedução. Mas é preciso fôlego. A obra tem 12 volumes!

  • Casanova – Uma Nova Perspectiva, James Rives Childs, 1992, Editora L&PM, Porto Alegre, Depois de mais de uma década de estudos e pesquisas, J. Rives Childs faz a revisão do mito “Casanova” e tenta desvendar a vida e a alma de Giacomo Giovanni Casanova.

10 lições de Casanova para o amor



1. Para conquistar as loiras, ofereça verduras frescas, frutos do mar, peixes na manteiga, ovos, comidas adocicadas, cremosas, suaves queijos não muito picantes. Bebem os vinhos brancos e champanhe.

2. As morenas adoram hortaliças de perfume intenso, embutidos apimentados, risotos, carne vermelha, ostras com limão, queijos fortes, doces recheados e chocolate. Gostam dos vinhos tintos, como o Bourgogne e o Bordeaux, e do champanhe.

3. As ruivas escolhem alimentos requintados e leves, mas por outro lado o temperamento as aproxima do fogo. Tomam vinhos brancos secos, os Côtes du Rhône e os rosados. E champanhe, sempre champanhe.

4. Receita para um bom desempenho sexual: um cesto de ovos, canela-da-índia, gengibre e vinho de Chipre.

5. Para aguçar o apetite sexual: 12 ostras no café da manhã e outras 12 no almoço.

6. A conquista é um jogo. Para vencer, conhecer as fragilidades do adversário é fundamental.

7. Deve-se lisonjear a vaidade feminina pelo luxo e pela prodigalidade.

8. Toda mulher busca a felicidade. Quatro quintos do meu prazer consistem em torná-las felizes.

9. Um homem que demonstra seu amor por palavras é um tolo; ele deve se declarar por meio de sua atenção.

10. Inflamar, sem consumir; conquistar, sem destruir; seduzir, mas não desmoralizar.

Fonte: Aventuras na História
Imagens: Internet 

domingo, 1 de maio de 2011

O número de páginas de um livro não diz do seu valor


*Ronaldo Correia de Brito


Juan Rulfo
César Vallejo


O romancista Juan Rulfo bem poderia ter escrito Não mora mais ninguém, poema em prosa do peruano César Vallejo, pela maneira semelhante como lida com os vivos e os mortos. Vallejo afirma: "O lugar por onde um homem passou nunca mais será ermo. Somente está solitário, de solidão humana, o lugar por onde ainda nenhum homem passou. (...) Todos de fato deixaram a casa, mas na verdade todos continuam dentro dela. Não, não é a lembrança deles, são eles mesmos que ficam".

Com a fatalidade de quem não se desvencilha da memória e do passado, Rulfo criou uma obra inquietante, silenciosa, em que as vozes de cada história narrada soam como se fossem a nossa própria voz.

Romance ou novela, como preferirem chamar, Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo, influenciou gerações de escritores latino-americanos, mesmo os que nunca o leram. Algo parecido ao que aconteceu na Rússia com O Capote, conto de Nicolai Gogol. Segundo Dostoievski, toda literatura russa posterior a Gogol é filha dessa narrativa meio absurda, meio kafkiana, a história de um homem que perde o seu capote e na tentativa de encontrá-lo se extravia em meio à burocracia.


Gogol
Dostoievski


Atribui-se a Rulfo a paternidade do realismo mágico, também conferida a Alejo Carpentier. Mas é bem distinta a atmosfera onírica de Pedro Páramo daquela que consagrou Gabriel Garcia Márquez em Cem Anos de Solidão, e beirou o exotismo com Isabel Allende.


Alejo Caspentier
Gabriel G.
Marques
  

 










Isabel Allende
 Em Pedro Páramo, os mortos falam e caminham, afigurando-se mais reais e tangíveis do que os próprios vivos. Eles parecem ter a função de extraviar os sobreviventes de Comala, um lugar estranho imaginado por Rulfo, esfumaçado e poeirento, onde o tempo possui uma outra medida e as vozes e lamentos das pessoas brotam de abismos.





Para desencaminhar-se nesse infra-mundo, um filho de Pedro Páramo se desloca na companhia de um tropeiro, realizando o desejo da mãe de que ele conheça o pai que o gerou e pise a terra de Comala, de onde ela saiu para nunca mais voltar: "Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe que disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morresse".

Ao final da leitura, nos perguntamos se Comala existe de verdade. Se Pedro Páramo é apenas o espectro de um poder insano e absoluto, que se arruína e leva consigo as pessoas e o mundo em volta, ou se é um homem que parece nada temer, mas que se assombra com a noite e seus fantasmas. Sem resposta, repetimos as mesmas perguntas a cada nova leitura desse livro infinito e único, apesar de suas páginas tão escassas.

 

*Ronaldo Correia de Brito - Nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify. Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim, e o romance Galiléia pela Alfaguara. Retratos Imorais- Alfaguara / Objetiva. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

A NINFA INCONSTANTE



*Luíz Horácio Pinto Rodrigues


A protagonista de A ninfa inconstante não é Estela, não é Cuba, tampouco o narrador. A memória é a grande estrela desse belo trabalho de Guilhermo Cabrera Infante. "Não me interessa eliminar e muito menos mudar meu passado. Preciso é de uma máquina do tempo para vivê-lo de novo. Essa máquina é a memória."




A memoria, infelizmente, nem sempre desperta tão somente lembranças satisfatórias, é de sua natureza conservar lamentos e frustrações. O narrador de A ninfa inconstante também se depara com essa face opaca das emoções.

“Agora sei que o momento em que a vi pela primeira vez foi um momento equivocado".

Estela não tem dezesseis anos, nem alta nem baixa, a lolita blasée de Infante tampouco tenta se fazer sedutora. Não disfarça seu desconforto frente ao discurso desse crítico de cinema que, eu não afirmaria que se apaixonou, mas que se deslumbrou. O intelectual é casado com uma mulher que, deixa claro, já não difere mais os momentos em que está em sua presença daqueles de ausência. Convém não se apressar, paciente leitor, A ninfa inconstante não é mais um daqueles romances onde o “tio” se apaixona pela ninfenta, longe disso.




O intelectual é arrogante, chato, um reservatório de citações literárias e cinematográficas; mas está longe de ser um “tio” bobão, muito longe. Estela não é ingênua e carrega um plano, prova maior de sua falta de inocência.

O narrador não elucubra planos e mais planos para conquistar Estela, sua satisfação é admirar aquela juventude bela, enquanto isso sua vida se esvai. Mas como ganhar tempo, como superar o paradoxo que se agiganta a sua frente: matar a sede de viver.

Como cenário a cidade de Havana, uma Havana ainda musical e sensual.




A ninfa inconstante, obra póstuma de Guilhermo Cabrera Infante, pode ser lida como um balanço de sua produção, uma síntese, caso você prefira assim, caro leitor. Nessa narrativa estão bem nítidas todas as todas as possibilidades do estilo desse autor: os jogos de palavras que sermpre o seduziram, as referências cinematográficas e literárias, o fascínio pela linguagem mais coloquial, a das expressões populares e o apreço por um tipo de humor extremamente peculiar.

Cabrera Infante tece sua trama a partir de um encontro de Estelita com o narrador, critico de cinema da revista Carteles.




Existirão pontos comuns? Música, cinema e literatura são coisas dele. E Estelita , traz o quê? “Era sua própria personagem, sua protagonista e ao mesmo tempo sua antagonista sem angústia existencial.”

O narrador e Estelita, o brilhantismo da narrativa de Cabrera Infante estabelece conexões entre essas personagens tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas. O que é de uma, já foi de outra. O que ora pertence a mais velha, um dia envolverá a jovem. “Destino é quando uma força irresistível tropeça com o objeto imóvel que você é. Destino também é desatino.”

A ninfa inconstante é um livro fascinante, no entanto, vale a pena anotar esse aviso, obediente leitor: é necessário um esforço tsunamico para não sucumbir no labirinto linguistico erguido por Cabrera Infante.


Guillermo Cabrera Infante (Gibara, Cuba, 22 de abril de 1929 - Londres, 21 de fevereiro de 2005) foi um escritor cubano naturalizado britânico. Além de ser romancista, contista e ensaísta, escreveu poemas visuais e roteiros cinematográficos.

Em 1949 criou o semanal Nova Geração (em espanhol Nueva Generación) e em 1950 ingressou na Escola de Jornalismo. Dois anos depois, após a aparição de um relato na Boehmia, foi preso. Nos anos seguintes não pôde finalizar seus trabalhos com seu próprio nome, e por isso usou um pseudônimo (G. Caín).

Obras:

• Contos-relato: Assim na Paz como na Guerra (1960) / A Vista do Amanhecer no Trópico (1974).

• Ensaios: Um ofício de sigilo XX (1960) / O (1975) / Exorcismo de estilo (1976) / Arcadia todas as noites (1978) / Holy smoke (1984) / "Mea Cuba" (esp.) (1993).

• Romances: Três tristes tigres (1965) / A Havana para um infante defunto (1980).



*Luíz Horácio Pinto Rodrigues - Natural de Quaraí, pequeno município gaúcho na fronteira com o Uruguai, é formado em Letras e faz mestrado na mesma área. Viveu sua juventude na terra natal e em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras e passou cerca de vinte anos ali, escrevendo e colaborando com páginas literárias de várias publicações. Sua principal obra é a denominada Trilogia Alada, inaugurada com Perciliana e o pássaro com alma de cão, seguida de Nenhum pássaro no céu, e encerrada agora com Pássaros grandes não cantam.

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