sexta-feira, 8 de maio de 2009

Que Fim Levou?
Os óculos de Lampião
...



Cangaceiro os usava para esconder a cegueira em um dos olhos
( Betina Moura)
Nos primeiros dias de agosto de 1925, o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião (1898-1938), fazia uma de suas muitas incursões pelo sertão pernambucano. Os cangaceiros foram surpreendidos por agentes do governo e começou um tiroteio. Um dos membros, Livino – o irmão mais novo de Lampião –, foi atingido. O líder reagiu. No confronto, um soldado atirou em um cacto e a bala da escopeta fez com que um espinho fosse parar no olho direito de Lampião.


Livino acabou morrendo. Lampião, levado à cidade de Triunfo, perto do campo de batalha, foi atendido por um médico que retirou o espinho, mas não conseguiu salvar o olho do cangaceiro. Resultado: ele ficou cego de um olho. “O bom humor o impedia de esconder o problema, e ele brincava dizendo que não adiantava nada ter dois olhos, pois é preciso fechar um deles para atirar”, diz o pesquisador Antonio Amaury Correa de Araújo, autor de dez livros sobre a história do cangaço. O incidente transformou o cangaceiro em canhoto – ao menos na hora de atirar –, mas não atrapalhou sua fama de justiceiro. E o levou a usar óculos até o fim da vida. “Os óculos, que aparecem em quase todas as fotos, escondiam a deficiência de quem não a conhecia e protegiam os olhos do sol escaldante do sertão”, diz Antonio. Há notícia de pelo menos três óculos diferentes – sobre um deles há a história, nunca confirmada, de que os aros eram de ouro.

Dois dos óculos de Lampião, simples, redondos, de aro comum, foram deixados por ele nas casas de pessoas que o abrigaram durante o chamado “ciclo de Pernambuco”, antes de os cangaceiros cruzarem o rio São Francisco em direção à Bahia, em agosto de 1928. Há cerca de oito anos foram doados por essas pessoas à Casa de Cultura de Serra Talhada, em Pernambuco, onde se encontram até hoje.
Sobre os óculos que usava quando morreu, tudo indica que foram entregues para a polícia de Alagoas, que expôs as cabeças dos cangaceiros mortos após dizimar o grupo de Lampião numa emboscada na gruta do Angico, em Poço Redondo, Sergipe. No ataque-supresa, 11 cangaceiros foram mortos – entre eles, Lampião e sua mulher, Maria Bonita. A própria polícia promoveu a rapinagem do tesouro do bando. Ficaram com eles jóias, dinheiro, perfumes e tudo o mais que tivesse valor – inclusive os óculos.

Fonte: Aventura na História
Autora: Betina Moura
Imagens: Internet

terça-feira, 5 de maio de 2009

O SIGNIFICADO ARQUETÍPICO DE GILGAMESH

Um moderno herói antigo



Rivakah Schärf Kluger


Este texto faz parte do livro "O Significado Arquetípico de Gilgamesh" de Rivakah Schärf Kluger. Agradecemos a Paulus Editora pela permissão de reproduzirmos este capítulo aqui na Rubedo. Conheça mais sobre este e outros livros da Paulus acessando a Revista de Literatura.



1. Os mitos são "assunto da alma"
A Epopéia de Gilgamesh, obra-prima da literatura mundial, é considerada uma das mais antigas epopéias do mundo. Ela é chamada epopéia, porém, como veremos, trata-se realmente de um mito. Para poder compreender um mito, a meu ver, é necessário ter um ponto de vista histórico a partir de duas perspectivas, por assim dizer, uma perspectiva exterior e uma perspectiva interior. A perspectiva exterior diz respeito à necessidade de compreender a forma histórica em que aparecem os arquétipos, o fundo histórico ao qual está relacionado o mito - em nosso caso, a cultura e a religião babilônica. O aspecto interior se refere aos problemas essenciais do tempo, com os quais essa época específica se envolveu conscientemente, ou nos quais a mesma época estava inconscientemente envolvida. Embora esta seja tarefa principalmente científica, acredito que, não obstante isso, se trata de um assunto de necessidade imediata para podermos entender esses documentos humanos em relação à nossa própria vida, pois todas as épocas históricas vivem em nós, e nós não podemos realmente nos entender a não ser que conheçamos as nossas próprias raízes espirituais.

Que época particular e que conteúdos espirituais em nós pelo inconsciente é, até certo ponto, questão de destino individual. Uma vez que a cultura ocidental se baseia em grande parte no judaísmo e no cristianismo, a cultura babilônica como uma de suas raízes pode ser considerada um interesse psicológico imediato para todos nós. Os arquétipos residem em seu domínio, além do tempo e do espaço. Isto constrói a ponte do entendimento entre os homens de todas as eras, e torna possível perceber que nós mesmos, com nossos problemas essenciais, estamos ligados inseparavelmente à continuidade dos problemas eternos da humanidade, como os mesmos são visualizados nos mitos. Mas a forma em que aparecem os mitos, a sua roupagem, por assim dizer, depende das condições históricas: os símbolos em que aparecem se alteram. No ser humano, essas mudanças correspondem ao desenvolvimento da consciência humana. No desenvolvimento de meu trabalho em torno deste tema significativamente rico, esta conexão se projetou cada vez mais em minha mente, de modo que eu desejaria defini-la como a idéia fundamental, como o ponto de partida da minha tentativa de explicar este mito.



Foi somente em 1872 que os estudiosos pela primeira vez se conscientizaram deste mito, quando o assirólogo inglês George Smith publicou "O relato caldeu do dilúvio", como ele intitulou sua tradução da décima segunda tabuleta da epopéia. Escavações feitas em Kouyunjik, a antiga Nínive, desenterraram muitos fragmentos, que foram em seguida enviados para o Museu Britânico de Londres. Descobertas posteriores, naquela região e em outros lugares, chamaram a atenção dos estudiosos na Europa e na América. Gilgamesh, Rei de Uruk - a Erech bíblica - foi pela primeira vez identificado com o caçador Nimrod, a cujo domínio, segundo o Gênesis 10.10, pertencia Erech (Arac). Somente depois é que se tornou claro, através das descobertas de material sumério mais antigo, que não se tratava exatamente disso. Como demonstrou o sumeriólogo americano Samuel Noah Kramer, a epopéia contém e combina elementos de mitos sumérios anteriores, que integram o material anterior isolado num único bloco. Os fragmentos sumérios mais antigos, descobertos nas cidades da Mesopotâmia de Nippur, Kish e Ur, remontam ao quarto milênio a.C.. O nome Gilgamesh mostrou ser sumério, e não semita. Os sumérios eram os mais antigos habitantes da Mesopotâmia que conhecemos. Até agora, sua linguagem não foi vinculada a nenhuma outra. Eles foram os inventores da escrita cuneiforme (em forma de cunha), que foi assumida pelos seus sucessores, os babilônios e os assírios, juntamente com toda a cultura suméria. Mas esses dois povos imprimiram na cultura suméria a sua própria marca particular, e as concepções semitas típicas foram igualmente inseridas na Epopéia de Gilgamesh.

A epopéia como tal é criação dos babilônios semitas, e os seus primeiros fragmentos pertencem aos assim denominado período babilônico antigo, isto é, durante a dinastia de Hamurabi, na primeira metade do segundo milênio a.C. Mas esta versão babilônica é muito fragmentária. Felizmente, cópias posteriores e elaborações ulteriores desses fragmentos foram encontradas nas escavações efutuadas em Nínive, na biblioteca de Assurbanipal, o último grande rei assírio, que reinou no 7º século a.C. A versão mais recente está escrita em doze tabuletas de argila e é o resultado de pelo menos 1.800 a 2.000 anos de trabalho sobre a epopéia.


Fragmentos posteriores a partir de então vieram à luz, os quais encerram valiosas adições ao texto danificado e incompleto. Entre os mesmos, encontram-se também translações para o idioma hitita e hurriano. Um fragmento acadiano datado em torno do 14º século a.C. também foi encontrado em Meggido, Canaã, consequentemente, anterior à colonização israelita nesta área. Essas descobertas mostram como estava difundida a Epopéia de Gilgamesh, desde o sul da Babilônia até a Ásia Menor, e em que alta estima a mesma era tida.


Podemos supor que, da mesma forma como outros mitos e lendas populares, a Epopéia de Gilgamesh foi originalmente transmitida aos povos por via oral, recitada por rápsodos, como está indicado pelo seu estilo e pelas suas freqüentes passagens repetitivas, que imprimiam a mensagem na alma dos diferentes povos, onde a mesma passou por desenvolvimento e por transformações posteriores.

Exatamente que fontes particulares foram coletadas, e de que forma, não me parece ser mera questão casual. O autor ou os autores desta composição devem ter tido a sensação de que isto fazia sentido, como fizeram aqueles que a aceitaram dessa forma através de séculos. O fator combinante pode ser encontrado no incosnciente criativo daqueles que trouxeram os materiais diferentes em conexão uns com os outros. Assim, buscar uma interpretação psicológica desta epopéia antiga, tão plena de significado, parece ser um empreendimento justificado. Os mitos são "assunto da alma", assim como os sonhos, e requerem interpretação simbólica e uma tradução.
A partir da descoberta de Jung do inconsciente coletivo e de seus conteúdos, os arquétipos (as formas típicas básicas do pensamento e sentimentos humanos e as reações subjacentes e determinantes da variedade ilimitada de experiências individuais), uma nova luz incidiu na essência dos mitos. Ao descobrir motivos mitológicos que emergem dos sonhos do homem moderno, Jung reconheceu que os mitos, da mesma forma que os sonhos, são manifestações do inconsciente. Tornou-se evidente, na prática, que apresentar paralelismos mitológicos como uma amplificação de sonhos arquetípicos não só aprofunda o entendimento desses últimos, mas também leva a um entendimento psicológico mais profundo do mito. A sua obra que abriu caminho neste sentido, Symbols of Transformation (Símbolos de Transformação), lançou os fundamentos para um campo mais vasto na pesquisa psicológica sobre os mitos e a sua relevância para o homem moderno.

2. Os mitos e o crescimento da consciência humana


Quanto à sua origem, da mesma forma como os sonhos, os mitos são expressões espontâneas do inconsciente. Como demonstrou Jung, da mesma forma como os sonhos estão relacionados, numa forma compensatória, ao estado atual da consciência do indivíduo, assim também os mitos, podemos presumir, estão relacionados ao estado coletivo da consciência de determinada era da história. Poderíamos presumir que seja o ego coletivo da tribo ou daquele povo, isto é, as crenças e as atitudes sustentadas em comum, a consciência coletiva. Entretanto, isto leva a outra questão, que é importante para a interpretação de um mito assumido como sonho coletivo: não existe ego individual ao qual se possa apelar para associações que ajudem a estabelecer um contexto em que ocorre o sonho. Como podemos interpretar um mito sem o aspecto particular de referência que temos para os sonhos individuais na pessoa daquele que sonha? Neste caso, o único contexto disponível é a cultura daquela época em que surgiu e foi avaliado o mito. Os mitos, por conseguinte, são como reflexões ou imagens de espelho de certas situações culturais da humanidade, e, assim como grandes sonhos arquetípicos individuais, eles contêm intuições e previsões profundas de desenvolvimentos posteriores, e, assim, eles podem ser considerados marcos miliários no desenvolvimento da consciência humana.




Quando interpretamos um sonho individual, podemos olhar para as figuras que nele ocorrem (além da figura do próprio indivíduo que sonha, que geralmente representa seu ego) sob o aspecto do seu assim denominado significado objetivo ou subjetivo, este último referindo-se ao aspecto interior e em grande parte inconsciente da personalidade daquele que sonha. Quanto mais coletivo e arquetípico o sonho, tanto mais se insinua o nível subjetivo da interpretação. Isto vale ainda mais para o caso do sonho, no qual, para começar, não existe um ego individual de um sonhador ao qual se referir. Mas existem indivíduos, divinos e humanos, que aparecem e agem no mito, e os mesmos podem ser interpretados como aspectos da totalidade projetada da psique humana, seja ela individual ou transmitida pela comunidade, a coletiva. No caso do mito do herói, em particular, existe um caráter, o herói, que é o autor numa seqüência contínua de eventos. O herói pode, portanto, ser considerado a previsão de um desenvolvimento da consciência do ego, e a sua atuação no mito, uma indicação do processo de movimento rumo à totalidade que está implícita e inata na psique; no indivíduo, o processo de individuação. Esta é, aparentemente, a razão porque os sonhos arquetípicos ocorrem com freqüência em momentos cruciais de nossa vida, em estados de transição. Mitos antigos podem então tornar-se não apenas amplificações valiosas para tais sonhos, mas a própria chave para a sua interpretação. Pois nós, consciente ou inconscientemente, estamos vivendo ou sendo vividos por padrões arquetípicos, e são as imagens mitológicas as que geralmente estão por trás das experiências mais profundas de significado em nossa vida.

Não parece ser mero acaso o fato de que, nos tempo modernos, tenham-se multiplicado publicações em torno da Epopéia de Gilgamesh, não só no campo da assiriologia, mas também nas obras poéticas, nas composições literárias e nas representações artísticas. É como se o nosso tempo tivesse que encontrar o seu próprio entendimento de buscar o significado ou o lugar específico da nossa própria era histórica, no processo de uma amplificação crescente da consciência, que é o sentido último e a meta última do mito. Como afirmou Jung em sua introdução à "Psicologia do arquétipo infantil" (part. 267):
"... nunca podemos legitimamente nos desligar dos nossos fundamentos arquetípicos, a não ser que estejamos preparados para pagar o preço de uma neurose, assim como não podemos nos desfazer do nosso corpo e dos seus órgãos sem cometer o suicídio. Se não podemos negar os arquétipos ou, de outra forma, neutralizá-los, nos defrontamos, em cada novo estágio de diferenciação da consciência à qual chega a civilização, com a tarefa de encontrar uma nova interpretação apropriada para esta etapa, a fim de conectar a vida do passado que ainda existe em nós com a vida do presente, que ameaça fugir da mesma. Se esta união não se realiza, surge uma espécie de consciência sem raízes, não mais orientada para o passado, consciência que sucumbe impotente a toda forma de sugestões e, na prática, é susceptível a uma epidemia psíquica."




Até que ponto "a vida do passado ainda existe em nós", iremos descobrir à medida que continuarmos a nossa investigação psicológica da Epopéia de Gilgamesh. Por causa do estado fracionado e danificado das tabuletas, o texto apresenta muitas lacunas, o que deixa muitas questões em aberto, cuja solução precisa aguardar a descoberta dos fragmentos adicionais da epopéia. Mas o fascínio exercido pela Epopéia de Gilgamesh, radicado em sua profundeza psicológica, supera todos esses obstáculos. Ele requer apenas a fantasia e a intuição para preencher essas lacunas, pois subsistiu um texto suficiente para imprimir sentido de continuidade significativa aos acontecimentos da história e da totalidade de um processo interior por trás do mito.

Ao trabalhar com o material, fiz uso de todas as traduções disponíveis em alemão, francês, holandês e, em inglês, da tradução poética em hexâmetro inglês de R. Campbell Thompson, da tradução E. A. Speiser, em Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament (textos antigos do Oriente Próximo relativos ao Antigo testamento) e The Gilgamesh Epic and the Old Testament Parallels (A Epopéia de Gilgamesh e paralelismos do Antigo testamento), de Alexander Heidel. Este último é o texto que irei seguir em grande parte. Heidel apresenta boa e ampla introdução ao texto, e introduz na íntegra o paralelismo da Antiga Babilônia e os textos hititas, onde aparecem lacunas na versão padronizada. Não concordo com suas idéias a respeito dos paralelismos do Antigo Testamento, e esta parte foi de modo geral criticada, porém, quanto ao texto e à sua publicação, ambos são considerados de boa qualidade, muito bem processados e confiáveis.


Lamento dizer que meu estudo sobre a linguagem acadiana e sobre os escritos cuneiformes não tenha avançado o suficiente para me possibilitar basear minha pesquisa sobre o texto original. Considero também que tenho passado por alto alguns fatos psicológicos que poderiam ter-se revelado apenas para alguém que possui conhecimento mais profundo sobre a linguagem. Devo, portanto, pedir a indulgência do leitor a esse respeito. Entretanto, o número relativamente elevado de traduções cientificamente valorizadas parece ter-me garantido a tentativa para uma explicação psicológica.

Fonte: Revista de Literatura
Autor: Rivkah Schärf Kluger
Imagens: Internet

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Fatos históricos no mês de maio

Por Maria Carolina Cristianini

Dia 1º



No Grande Prêmio de Fórmula 1 de San Marino, o piloto brasileiro Ayrton Senna morre ao bater contra o muro da curva Tamburello. Um dia antes, durante os treinos, o piloto Roland Ratzenberger também havia falecido na pista.
Em 1994, na Itália.

Eu me lembro
"Eu estava no autódromo e lembro que o Senna não vivia um momento bom, estava preocupado com diversos assuntos pessoais e com os acidentes que haviam ocorrido com o Rubens Barrichello, na sexta-feira, e com o Roland Ratzenberger, no sábado. Não me lembro de tê-lo visto sorrir em nenhum momento naquele Grande Prêmio. Quando a batida aconteceu, pensei: ‘A coisa é feia’. Esperei para ver se ele fazia algum movimento, mas logo senti que era o fim por causa da cabeça caída. O Senna bateu em um ângulo naquela curva que era o único que poderia causar a morte. Só se pode concluir que foi o destino. Nada mais explica o que aconteceu."
Reginaldo Leme, comentarista esportivo.

Dia 6



O exército do imperador alemão Carlos V (1500-1558) ataca Roma. O papa Clemente VII (1478-1534) se abriga no Castelo de Sant’Angelo, casas e igrejas são destruídas e cerca de 40 mil pessoas morrem. O fato tirou da cidade o status de centro do Renascimento.
Em 1527, em Roma

Dia 7
O luxuoso navio Lusitania é torpedeado pelo submarino alemão U-20 durante viagem entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Das 1962 pessoas a bordo, 1198 morrem, entre elas 128 cidadãos americanos. O naufrágio levou os Estados Unidos a entrar na Primeira Guerra Mundial.
Em 1915, na costa da Irlanda


Dia 8




Depois de abolida no Grão-Pará e no Maranhão em 1755, a escravidão indígena deixa de existir em todo o Brasil. A lei determina que os índios sejam monitorados na transição para a liberdade.
Em 1758, em Salvador





Dia 13



O Congresso dos Estados Unidos aprova uma declaração de guerra contra o México. Ao vencer o conflito, os americanos conquistaram 1,3 milhão de quilômetros quadrados de terras.
Em 1846, em Washington.

Eu me lembro
"O navio parou imediatamente (...), afundando na proa. Uma grande confusão predominava a bordo. Os botes ficaram prontos e alguns deles desceram até a água. (...) Alguns foram empurrados do alto, tocaram a água com a proa ou a popa e afundaram."
Anotações do diário de Walter Schwieger, capitão do submarino.


Dia 19



Em um banquete realizado no Hollywood Roosevelt Hotel, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas realiza sua primeira premiação para os melhores filmes do ano. A festa contou com a presença de 270 pessoas, que pagaram 5 dólares pela entrada. A estatueta entregue aos vencedores seria apelidada de Oscar em 1939.
Em 1929, em Hollywood.

Dia 20





Dez meses após zarpar de Lisboa com 170 tripulantes e quatro embarcações, o navegador português Vasco da Gama (1469-1524) chega a Calicute, na Índia. Com isso, descobre o caminho entre a Europa e o Oriente contornando a costa africana, fato que iniciou uma nova era de comércio entre as duas regiões.
Em 1498, em Calicute.


Eu me lembro
"Chegada no porto de Calicute. Que paraíso! E que recepção! Mas quão breve foi a felicidade. Espelhos, pérolas e lã – nada entusiasmou o rei hindu. Ele debochou de nossas oferendas baratas e (...) nos ameaçou, exigiu impostos e quase tudo o que tínhamos a bordo em troca das suas mercadorias. (...) No entanto, agora temos a promessa de que, caso um dia voltemos a Calicute, receberemos condimentos e diamantes em troca de pérolas, prata e ouro."
Diário de uma das caravelas de Vasco da Gama.

Dia 22




Constantino I (272-337) passa a ser o primeiro imperador romano batizado como cristão. Ele queria que a cerimônia acontecesse no rio Jordão, e, por falta de oportunidade de ir até lá, adiou o momento até o fim da vida. Em 313, o rei havia concedido liberdade de culto aos adeptos do cristianismo.
Em 337, em Nicomédia, Turquia.



Dia 23

Durante a Guerra dos Cem Anos, Joana d’Arc (1412-1431) é capturada pelos franceses na cidade francesa de Compiègne. Nos meses seguintes, ela seria vendida aos ingleses, julgada e queimada na fogueira em 1431.
Em 1430, na França.

Dia 27


Condenado pelo crime de sodomia (delito de homossexualidade), o escritor inglês Oscar Wilde (1854-1900) é sentenciado a cumprir dois anos de prisão. A decisão causou protestos no círculo literário, mas Wilde teve de cumprir a pena.
Em 1895, em Londres.
Autora: Maria Carolina Cristianini
Fonte: Aventura na História
Imagens: Internet

domingo, 26 de abril de 2009

DON JUAN



* Luíz Horácio

Madame Bovary é um exemplo de rompimento com o romantismo e opção pela objetividade, pelo realismo; não faltam violência, sexo e fortes doses de melodrama. Anna Karenina não esconde sua paixão, seu encantamento pelo conde Vronski e desfaz seu casamento com Karenin. Diferente de Bovary que escondia suas aventuras, Anna não perdeu tempo, coragem e honestidade a impulsionavam. São dois exemplos de amor, mas não fiquemos restritos a esses, temos um outro tipo de amor em Morte em Veneza, o amor homossexual platônico de um escritor Aschenbach por um adolescente. O Marquês de Sade é o representante maior do sadismo, masoquismo e algumas bizarrices sexuais. E o que dizer da paixão do professor Humboldt, “o coroa”, por uma menina de doze anos?
São formas de amar, são disfarces do amor. E o amor é terreno propício para permitir que medre a hipocrisia e os falsos moralismos. Que cada um ame a seu jeito, de preferência com criatividade.

Pois bem, Don Juan (narrado por ele mesmo) embora o título nos leve a pensar dessa maneira, não é um livro sobre conquistas amorosas. Trata-se de uma narrativa melancólica onde se fazem notar o medo, a tristeza e a permanente ameaça de solidão. O Don Juan de Handke foi um conquistador, no momento não passa de uma vítima de si mesmo, um Don Juan insosso, melhor dizendo. Falta um tanto do sangue dos Don Juans de Lechin, de A gula do beija-flor. Não que este seja um romance dos melhores, mas percebe-se personagens com vida, ainda com emoção, aspecto inexistente em Don Juan (narrado por ele mesmo).


Don Juan é um mito sujeito a inúmeras interpretações, inclua-se nesse rol a que o apresenta como homossexual, creio que não exista país de língua espanhola que não tenha produzido um Don Juan em sua história literária. Grande número de países europeus também têm seu Don Juan. Permita este aprendiz incluir Casanova entre eles. Peter Handke criou o seu, ou melhor inventou um cozinheiro solitário para contar a história do famoso conquistador. A solidão, tema presente em grande parte da obra de Handke, agora aparece duplicada nas pessoas de Don Juan e do cozinheiro.Desconsidere o narrado por ele mesmo. A mesma solidão, personagem irretocável de Tarde de um escritor e assustadora em O medo do goleiro diante do pênalti, em Don Juan, passou da conta e tornou a história tão emocionante quanto um corredor vazio de hospital.

Os libertinos e aqueles que não acreditam no amor fazem disso um jogo, um jogo de xadrez onde cada peça conquistada significa um sopro de vida a mais. Se o sopro é nobre ou medíocre, não me pergunte, amoroso leitor. No romance epistolar de Choderlos de Laclos, Ligações perigosas, os aristocratas se dedicam ao prazer, a intriga, a trapaça. A marquesa de Marteuil escreve ao visconde de Valmont dizendo que “ sentia uma necessidade de enganar tamanha que me reconciliava com o amor, na verdade não para senti-lo, mas para fingi-lo.” Planos traçados, estratégias escolhidas, o estraga prazeres entra em cena: o amor. Está pronta a tragédia. O romance conduz o leitor a uma reflexão sobre o amor e a incapacidade de amar.



Como disse acima, o que não falta é Don Juan na literatura. Temos Don Juan Tenório, de José Zorrilla,, o Don Juan de Tirso de Molina, entre outros, e mais o Don Juan de O regresso de Casanova, de Arthur Schnitzler,(austríaco como Handke) o Don Juan envelhecido. Desses citados, Handke conseguiu manter distância apesar da riqueza de todos Dons Juans, dos contrastes entre Don Juan Tenório e O burlador de Sevilla, ficamos com esses para não alongar o debate. O de Tirso é um sedutor, ateu, imoral, não acredita no amor, no seu entender as mulheres são tão egoístas quanto ele, o de Zorrilla é um demônio transformado em anjo graças ao amor.

Do Casanova , de Schnitzler, de quem o Don Juan de Handke poderia se aproximar, e não lhe faltariam motivos; isso também não acontece pois o personagem de Schnitzler não se rende apesar de sua decadência física, se apaixona por Marcolina, jovem que não ficava devendo nada no quesito malandragem e visão de mundo. Tanto que para lograr seu intento Casanova apela a estratégia nada ortodoxa. O Don Juan de Schnitzler sofre ante ao amor não correspondido somado a consciência da proximidade de sua morte.

Mas vamos ao Don Juan de Hanke, ao quase enredo:

No que sobrou de um monastério em Port-Royal-des-Champs, transformado em albergue, vive um solitário cozinheiro que até então gastava seus dias lendo Racine e Pascal. Um belo dia decide dar um basta nesse hábito. Pois justamente nesse dia aparece no jardim do cozinheiro, Don Juan. O Don Juan que fora de Tirso de Molina, de Zorrilla, de Moliére, Ortega y Gasset, Schnitzler e que dali em diante seria também de Handke.

Ele passa sete dias em Port-Royal, precisava descansar, até mesmo Don Juan cansa de tanto andar mundo afora.

Mas como gastar esse tempo? Don Juan tem a resposta: contando ao cozinheiro, que agora tem motivo para cozinhar, suas mais recentes aventuras. Sete dias, sete país e sete mulheres diferentes.

E Don Juan viaja acompanhado de um serviçal . O que move Don Juan não é o sabor da aventura, mas , acredite viajante leitor, é o luto provocado pela morte do filho único. De luto, entenda essa psicológico leitor, vê-se livre apesar da melancolia para viver o momento e “curtir” uma mulher aqui, outra acolá e assim nessa repetição levar a vida. Não se trata de um sedutor esse Don Juan, tampouco um objeto do desejo das mulheres, ele vive a aventura como nós lemos nossos jornais, mas diferente dele por motivos outros. Responda, lacaniano leitor,o que esperar de um ser movido pelo luto?

Cabe ressaltar a presença do tempo na narrativa, o duplo tempo; o tempo das histórias narradas pelo cozinheiro e a passagem do tempo pelos jardins do albergue em Port-Royal-des-Champs, ambos fazendo o papel de algozes de Don Juan. Tamanha perseguição não esmorece o mito movido pela melancolia e ele abandona albergue e cozinheiro. Na certa alguém estará a sua espera para reinventá-lo.
Don Juan (narrado por ele mesmo) excetuando-se a maestria com que Handke escreve e o brilhantismo da tradução não para em pé. É vazio, não passa de um delicado exercício estilístico. Querem ler Handke, pois busquem os títulos citados anteriormente mais A mulher canhota, Ensaio sobre a fadiga, Numa noite escura, deixei minha casa silenciosa. Esta uma obra prima.

Choderlos de Laclos assim justificava a existência de As ligações perigosas: “Quis fazer uma obra que continuasse ecoando na Terra quando eu já a tivesse abandonado.”

E Peter Handke, almejava o quê? Não, não responda.


TRECHO

Don Juan era órfão, e não em sentido figurado. Há anos, perdera a pessoa que lhe era mais próxima, e não fora seu pai ou sua mãe, mas - ao que me parecia - seu filho, o único. Então, com a morte do filho também era possível se tornar órfão, e como. Ou talvez fosse sua mulher, a única amada, que tivesse morrido?
Ele havia partido para a Geórgia - como para todos os lugares, no mais - sem nenhuma destinação em especial. O que o movia era nada menos que seu luto e desconsolo. Carregar pelo mundo seu enlutamento e descarregá-lo no mundo. Don Juan vivia para isso, como se fosse uma força. Seu luto era mais do que ele, excedia-o. Munido dele, por assim dizer (e não só por assim dizer), ele se sabia - não imortal, isso não - invulnerável. O luto era algo que o tornava indomável, e em contrapartida (ou melhor, de parte a parte), completamente permeável e receptivo para o que quer que acontecesse, e ao mesmo tempo invisível se necessário. Seu luto lhe servia de farnel.Nutria-o em todos os sentidos. Graças a isso ele já não tinha mais grandes carências. Estas nem sequer chegavam a surgir. A única coisa a se repudiar sempre era o pensamento de que, dessa forma, no luto, o ideal da vida terrena se tornaria possível, o que vale também para todas as outras pessoas (vide “descarregar o luto no mundo”). Seu enlutamento, nada episódico, mas desde o princípio, era uma atividade.

Don Juan não mantinha relações com ninguém há anos. O que se dava durante alguma viagem, no máximo, eram contatos casuais, apagados de imediato da memória com o fim do percurso em comum.

AUTOR

PETER HANDKE

Nascido em 1942 na Áustria, renovou a literatura de língua alemã do pós-guerra já com algumas de suas primeiras obras , como Insulto ao público (teatro, 1966) e O medo do goleiro diante do pênalti (1970). O experimentalismo da fase inicial se transformou - ao longo de sua extensa produção como romancista, dramaturgo, poeta e cineasta - em uma reflexão de poeticidade ímpar sobre o processo de escritura e sobre a linguagem como mediadora da percepção.

Resenhista: Luíz Horácio. Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o Pássaro com Alma de Cão", ed.Conex.2006 e "Nenhum Pássaro no Céu", ed. Fábrica de Leitura, 2008. Professor de Literatura, mestrando em Letras.

Imagens: Internet

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Vasco de Balboa: O mar do Sul




O polêmico Vasco de Balboa, há 495 anos, fez, por terra, a segunda maior descoberta espanhola na América: o oceano Pacífico. Mas morreu decapitado, condenado por traição à Espanha.

Por Fabiano Onça


Do alto da serra, os olhos do conquistador espanhol Vasco Núñez de Balboa miravam o que nenhum outro europeu vira antes. Ele acabara de fazer uma grande descoberta, a maior desde que Cristóvão Colombo chegara à América, 21 anos antes. Tamanho feito não foi capaz, porém, de salvar sua vida. Em 15 de janeiro de 1519, Balboa foi decapitado em praça pública, julgado traidor da causa espanhola. Não que ele tivesse sido apanhado de surpresa. Naquela terra recém-descoberta, onde o ouro e as pedras preciosas surgiam em quantidades absurdas mas a lei da Espanha falhava, a sobrevivência de um homem era feita de força bruta e astúcia. Vasco possuía ambas as qualidades. Foi por causa delas que virou herói. Mas também por causa delas perdeu a vida.




Quando foi condenado à morte, Vasco tinha por volta de 44 anos. Ele nascera provavelmente em 1475, em Jerez de los Caballeros, Extremadura, no sudoeste da Espanha. Seu pai, Nuño Arias de Balboa, era, ao menos no nome, um hidalgo, um nobre, descendente dos antigos senhores do castelo de Balboa, que ficava na região. Na prática, isso não significava muito para o então pequeno Vasco. Suas chances de conseguir qualquer herança do pai eram remotas, já que era o terceiro de uma família de quatro filhos homens. Sua melhor opção era pôr-se a serviço de outros nobres de maior importância. Foi assim que, durante os primeiros anos de sua adolescência, Vasco tornou-se pajem e escudeiro de dom Pedro de Portocarrero, senhor de Moguer. Com ele, Vasco aprendeu a manejar a espada. E, mais importante, teve acesso às notícias fantásticas que chegavam das descobertas marítimas.
Em 1500, a Espanha vivia uma febre de conquistas que só se aplacaria após quase dois séculos. Ela começara em 1492 com Colombo, que, patrocinado pelos reis espanhóis, revolucionara o conhecimento geográfico da época. As expedições posteriores, tendo por base a ilha de Hispaniola (atuais República Dominicana e Haiti), no Caribe, onde Colombo fundou as primeiras colônias, trouxeram mais notícias espantosas. Para além das ilhas de Cuba, existiriam ainda mais terras. A expectativa da coroa espanhola com as novas possessões era enorme.
Por isso, em 1494, a Espanha firmou, sob o patrocínio da Igreja, o famoso Tratado de Tordesilhas – na prática, um freio contra Portugal, o único possível país em condições de explorar as novas terras. Os portugueses haviam conseguido em 1488 contornar a África com Bartolomeu Dias e, novamente em 1500, partiam com uma frota para, ao que tudo indica, apossar-se das terras que já sabiam que existiam no Novo Mundo.
Naquele 1500, enquanto borbulhavam as histórias sobre o Novo Mundo, Vasco, cedendo aos impulsos aventureiros e valendo-se da influência de seu amo, conseguiu uma vaga na expedição do explorador Rodrigo de Bastidas. Um ano depois, a frota partiu do porto de Cádiz com duas embarcações principais (dois navios menores seguiram no ano seguinte) com a missão de mapear o então desconhecido litoral dos atuais Panamá e Colômbia. Vasco tinha cerca de 25 anos.

De gaiato no navio


A expedição de Rodrigo de Bastidas permaneceu ao longo do atual litoral colombiano por quase dois anos. Durante esse tempo, Vasco de Balboa tomou contato com a realidade do Novo Mundo. E aprendeu a regra para os aventureiros espanhóis que exploravam as riquezas da região: o conquistador, na prática, era livre para pilhar o que quisesse – pedras preciosas, ouro, pau-brasil – desde que, ao fim da aventura, deixasse um quinto do que tivesse encontrado junto aos fiscais do Tesouro espanhol. Em 1502, Bastidas encerrou a aventura com seus navios abarrotados de ouro e, depois de pagar o que devia à coroa, ainda foi agraciado com uma pensão vitalícia sobre a renda de algumas das terras recém-descobertas.
Vasco, como membro da tripulação, também recebeu sua parte de ouro, suficiente para comprar uma pequena propriedade em Hispaniola. Ali, tentou ganhar a vida cultivando grãos e criando porcos por sete anos. Mas a única coisa que conseguiu reunir após esse tempo foram dívidas. Os credores se impacientavam. E Vasco não tinha onde cair morto.

Em 1509, outra expedição espanhola, comandada por Martin Fernandez de Enciso, um figurão da corte, aportou na ilha de Hispaniola. Enciso havia fundado um povoado onde hoje se encontra a cidade colombiana de Cartagena das Índias. Mas o povoado estava sob duro ataque dos indígenas da região. Enciso deixara alguns soldados defendendo o local, sob o comando de um tal Francisco Pizarro, e voltou às pressas para Hispaniola em busca de reforços. Para Vasco, a oportunidade de se mandar dali havia surgido. Ele se infiltrou dentro de um dos barcos enfiado num barril – e ainda deu um jeito de levar seu inseparável cachorro, Leoncico. O truque foi percebido apenas em alto-mar. Ao saber do penetra, Enciso ameaçou deixá-lo numa ilha deserta. Entretanto, Vasco de Balboa tinha um trunfo: ele conhecia a região para onde o barco ia, pois a primeira expedição de que participara, oito anos antes, havia explorado aquela área.

Após o golpe, o poder



Os barcos chegaram a tempo de resgatar Pizarro e seus homens, mas não conseguiram evitar a destruição do povoado. Àquela altura, um mês após seu embarque, Vasco, com seu natural carisma, conquistara a simpatia da tripulação. Por outro lado, Fernandez de Enciso colecionava inimigos graças à teimosia em tentar reerguer o assentamento, cujo resultado foram apenas mais batalhas contra os belicosos indígenas.


Vasco de Balboa então convenceu Enciso de que havia um lugar melhor para criar um novo povoado, uma região ao norte, com a terra mais fértil e índios menos agressivos. A viagem para a atual região de Daren, no Panamá, levou alguns meses. Lá, a verdade era menos glamurosa. Logo na praia, os espanhóis tiveram que lutar com o cacique Cémaco, chefe local, e seus 500 homens. Conta-se que Vasco teria feito uma promessa à Virgen de La Antigua. Se os espanhóis vencessem, o povoado ganharia o nome da santa. Eles venceram. E, no local, em setembro de 1510, Balboa, Enciso e os sobreviventes fundaram o povoado europeu mais antigo do continente: Santa María de La Antigua de Darién.

A essa altura, Vasco de Balboa havia consolidado de vez sua liderança junto aos soldados, enquanto o comandante oficial continuava criando inimizades, especialmente depois de ele ter ficado com grande parte da pilhagem nas terras do cacique Cémaco. Era hora de Vasco dar o bote: ele conseguiu que Enciso perdesse o cargo alegando que o poder deste só era válido nas terras mais ao sul, e não lá onde se encontravam agora. O pequeno povoado de Santa María elegeu então Martin Samudio e Vasco Núñez de Balboa como alcaides no primeiro conselho municipal das Américas.

Entretanto, quando o governador da região de Veragua, Diego de Nicuesa, ficou sabendo da malandragem de Balboa, tomou um navio e foi para a vila. Queria desfazer tudo e levar o aventureiro preso. Mas Balboa soube disso e insuflou a população contra o governador. Quando ele chegou, em 1º de março de 1511, foi preso por uma multidão de colonos enfurecidos, que o colocaram, ao lado de seus 11 homens, num bote caindo aos pedaços em alto-mar. Ninguém nunca mais ouviu falar da desafortunada autoridade.

O ouro do mar do Sul

Não foi difícil para Balboa convencer as autoridades espanholas a nomeá-lo governador, afinal Nicuesa estava desaparecido e faltava gente capacitada no Novo Mundo. Seu primeiro ato no poder foi orquestrar o julgamento de Fernandez de Enciso, que foi sentenciado à prisão e teve suas riquezas confiscadas – mas dois anos depois foi exilado para a Espanha.

Vasco de Balboa estava livre para fazer o que sabia melhor: conquistar terras, escravizar índios e, mais que tudo, acumular ouro. Certa vez, numa conversa com Panquiaco, filho do cacique Comagre, ouviu pela primeira vez sobre o tal mar do Sul. De acordo com uma carta que Balboa enviou para os reis espanhóis Fernando de Castela e Isabel de Aragão, o índio teria dito: “Se vocês têm tanta fome de ouro que não se importam de sair de suas terras para assolar a terra dos outros, eu vou lhes mostrar uma província que saciará seu apetite”. Panquiaco discorreu sobre as prodigiosas terras a sudoeste, que davam para o mar do Sul. Nelas, o povo teria tanto ouro que pratos e talheres eram feitos do metal.

Durante muito tempo, Vasco de Balboa tentou convencer o rei a patrocinar sua expedição para o tal mar. Como não obteve sucesso, decidiu partir por sua conta em 1º de setembro de 1513. Levava 190 soldados, alguns guias nativos e uma matilha de cães treinados – Leoncico entre eles. Ao norte, conseguiu com o cacique Careta o apoio de mais mil guerreiros. A expedição então mergulhou na selva fechada. “Algumas vezes eles tinham que avançar através de uma barreira de árvores que se enroscavam umas às outras, outras vezes tinham que cruzar lagos, onde homens e bestas de carga pereciam miseravelmente; então, repentinamente, uma elevação abrupta apresentava-se perante eles; no topo, um profundo e assustador precipício se formava diante dos pés”, escreveu o historiador Manuel José Quintana em Vidas de Españoles Célebres (inédito em português). “E, acima de tudo, existia ainda a falta de provisões, que, junto a um estado de ansiedade e constante perigo, era mais que suficiente para quebrar a força de um homem e deprimir sua mente.”

No caminho, deparou com tribos hostis, onde foi recebido a flechadas. Conforme vencia as batalhas, incorporava os índios derrotados à expedição. Entretanto, muitos dos espanhóis ficaram feridos ou exaustos. Vasco decidiu deixar o grosso de seus soldados descansando na aldeia do cacique Cuarecuá e continuou com 67 homens. Seguindo o rio Chucunaque, caminhou por toda a manhã do dia 25 de setembro, escalando uma cadeia de montanhas. Por volta do meio-dia, do alto da serra, viu o tão sonhado mar.

O historiador Francisco López de Gómara (1511-1566), que escreveu a obra-base Historia General de las Índias (sem versão em português), conta que Balboa, mostrando o mar a seus companheiros, disse-lhes: “Vejam aqui, amigos meus, o que tanto desejávamos! Com o favor de Cristo, seremos os mais ricos espanhóis que estas terras jamais viram; faremos o maior serviço ao nosso rei que nenhum vassalo jamais prestou ao seu senhor; e teremos o orgulho e prazer de, tudo quanto por aqui se descobrir e conquistar, converter à nossa fé católica!”

Frente ao oceano, escreveu Balboa ao rei, as pessoas ficaram muito alegres. O capelão da expedição, Andrés de Vera, teria cantado o hino litúrgico Te Deum, abençoando o momento. “Segundo a definição de descobrimento, porém, é inexato afirmar que os europeus descobriram o Pacífico”, diz a historiadora Marta Herrera Angel, da Universidad de los Andes, na Colômbia. “O mais exato é dizer que a população nativa da área levou os europeus a verem o Pacífico. Isso porque a costa pacífica já era densamente povoada e o oceano, navegado milênios antes.”

Nas ilhas próximas, Balboa encontrou pérolas e ouro, muito ouro. Quando voltou para Santa María, em 19 de janeiro de 1514, declarou uma fortuna de 100 mil dobrões em ouro, algo equivalente a 34 milhões de reais atuais. Mas nem tudo continuaria bem. Seu antigo desafeto Fernandez de Enciso disseminara duras acusações contra Vasco na corte, incluindo sua ligação com o sumiço do antigo governador Diogo de Nicuesa. Os reis designaram um novo governador para o lugar de Vasco, o nobre Pedro Árias de Ávila, ou Pedrarias D’Ávila – graças a seu apetite por pedras preciosas.
Balboa ainda tentou outras expedições frustradas antes de ir novamente para o mar do Sul, em 1517. Lá, construiu navios e singrou por cerca de 70 quilômetros, cartografando a costa. Mas voltou ao receber algumas cartas de Pedrarias, requisitando sua presença imediata em Santa María. Foi preso por soldados comandados por seu velho conhecido Francisco Pizarro, acusado de alta traição à Espanha por tentar construir um reino para si no mar do Sul. Foi julgado culpado em janeiro de 1519 e condenado à morte. Até o último momento, Balboa clamou por inocência. Em vão. Ao ser decapitado, sua cabeça não se separou do corpo logo no primeiro golpe. O carrasco teve de dar mais duas machadadas para cumprir a sentença.

O reconhecimento de seu feito – que influenciou gerações de desbravadores do Pacífico, como Fernão de Magalhães e Francis Drake – só ocorreu muitos séculos depois. No Panamá, hoje, a mais alta honraria do país é a medalha Vasco Núñez de Balboa. A moeda local também se chama balboa e, desde 1903, mantém paridade de 1 para 1 com o dólar. Até na Lua nosso herói ganhou honraria póstuma: uma cratera batizada com seu sobrenome.

O matador de incas



Conquistador do Peru, Pizarro traiu o amigo Balboa para ganhar poder
Um dos primeiros espanhóis a empreender a conquista do continente americano, Francisco Pizarro é mais conhecido por suas sangrentas campanhas contra o Império Inca, na atual região do Peru, Equador e Colômbia. Mas Pizarro começou sua carreira na América como um mero soldado, mais tarde integrante da expedição de Vasco de Balboa que localizou o atual oceano Pacífico – ele era um dos 67 soldados que foram com Balboa até o fim da expedição. Suas campanhas posteriores contra os incas, iniciadas em 1523, só ocorreram por causa de um favor concedido pelo então governador da região do Panamá, Pedrarias D’Ávila. Foi ele quem, em 1519, outorgou a Pizarro o título de alcaide (espécie de prefeito) da recém-fundada cidade do Panamá. Mas o favor tinha um preço. Em troca do cargo, Pizarro deveria trazer preso o antigo colega Vasco de Balboa. Entrega feita, o título foi concedido. E graças à traição (e ao dinheiro que o título de alcaide lhe conferia) Francisco Pizarro angariou os fundos necessários para suas expedições posteriores, que o tornariam escandalosamente rico. Pizarro morreu em Lima, no Peru, em 1541, aos 65 anos, por vingança. Em suas campanhas, ele havia batido de frente com outro conquistador, Diego de Almagro. Em 1538, numa disputa entre os dois pelo poder na recém-fundada Lima, Pizarro matou Almagro. Três anos depois, partidários do filho de Almagro invadiram o palácio de Pizarro em Lima e o assassinaram.



Água de batismo

Em carta para o rei, Balboa usa a palavra "pacífico" para descrever o mar
Vasco de Balboa, como os demais aventureiros que vieram para a América sob a tutela da monarquia espanhola, manteve correspondência com o rei Fernando de Aragão e com a rainha Isabel de Castela. Na primeira carta, escrita em 20 de janeiro de 1513, queria convencer o rei da Espanha a investir em sua expedição ao mar do Sul e enviar pelo menos 500 homens da ilha de Hispaniola para acompanhá-lo. Para isso, aguça a cobiça do monarca, enumerando as riquezas da terra. E afirma que as águas do tal mar eram pacíficas. Foi justamente por causa das águas que os espanhóis julgaram mais calmas que as do oceano Atântico que o Pacífico foi assim batizado. Isso, porém, aconteceu alguns anos depois de sua descoberta pelos europeus: foi em 1520, após a expedição do português Fernão de Magalhães, que atravessou suas águas pela primeira vez.

Saiba mais

LIVRO
Vidas de Españoles Célebres, Manuel José Quintana, Espasa Calpe, 1966
Escrito pelo historiador espanhol do século 19, relata as descobertas de Vasco de Balboa, Francisco Pizarro, Américo Vespúcio e outros conquistadores.

SITE
www.mgar.net/docs/balboa.htm Em espanhol, dá acesso às cartas escritas por Vasco de Balboa sobre sua expedição.

Fonte: http://historia.abril.com.br/
Autor: Fabiano Onça
Imagens: Internet

terça-feira, 14 de abril de 2009

A saga do Santo Graal



A taça usada por Jesus, o prato com seu sangue e até uma pedra. O poderoso artefato cristão já foi retratado de muitas formas - e sua história alimenta a imaginação das pessoas há quase mil anos.

por Reinaldo José Lopes
Perseguido e sentindo a morte iminente, um camponês judeu decidiu celebrar o Pessach, a páscoa judaica, com os amigos. Reuniu os 12 mais próximos e, na festa, serviu-lhes pão e vinho. Dividiu o pão, comeu um pedaço e distribuiu o restante para os convidados. “Tomai e comei, isto é o meu corpo”, disse. Encheu um cálice com a bebida, deu o primeiro gole e passou a taça adiante, pedindo: “Bebei dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para a remissão dos pecados”.
A última ceia da vida de Jesus, que morreria no dia seguinte, é hoje a base da celebração cristã da Eucaristia. Sem muitos detalhes, ela foi assim descrita nos evangelhos de Lucas, Mateus e Marcos na Bíblia. E a taça em que ele bebeu com os apóstolos passou de coadjuvante na refeição ao papel principal de um ciclo de lendas que nasceu na Idade Média e perdura até hoje, 2 mil anos depois.

O mito do Santo Graal refere-se, na maior parte das vezes, ao cálice da Última Ceia. Mas as inúmeras lendas criadas em menos de um milênio já descreveram o artefato como a tigela em que Jesus teria cortado o pão na mesma celebração. Em outros escritos, o Graal seria o prato em que um seguidor teria recolhido o sangue de Jesus crucificado, uma vasilha ou uma pedra. Há ainda autores que até acrescentaram elementos da mitologia pagã celta para criar sua própria lenda sobre o Graal.

No meio desse monte de histórias, o que se sabe ao certo é que o mito do Santo Graal foi criado por volta de 1180 por um francês chamado Chrétien de Troyes. Ele foi o primeiro a escrever sobre o artefato que chamou de “graal”, palavra que designava um tipo específico de utensílio de mesa que, até então, não possuía qualquer conotação sagrada. Mais: incorporou o objeto à lenda dos cavaleiros. Algumas vasilhas antigas até chegaram a ser veneradas pelos cristãos como a taça de Jesus, mas nenhuma atraía multidões de peregrinos nem tinha fama mundial. Foi a partir da história do francês que o Graal tornou-se tão influente a ponto de inspirar diversas buscas arqueológicas e fenômenos de mídia do século 21, como O Código Da Vinci.

Taça simples

As mais antigas sementes da lenda do Graal estão na Bíblia, embora em nenhum momento o termo seja usado. A taça da Última Ceia, por exemplo, é mencionada nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Historiadores afirmam que o mais provável é que os utensílios usados naquela refeição fossem simples, feitos de cerâmica ou madeira, já que eram assim os pratos e copos usados pelas camadas populares da Judéia na época. Dessa forma, é bastante improvável que os apetrechos usados na Última Ceia tenham sido preservados.



Além disso, os próprios Evangelhos dizem que o salão onde a refeição aconteceu foi apenas emprestado a Jesus e seus discípulos. E o hábito de guardar ou procurar “relíquias” das grandes figuras do cristianismo só surgiria bem mais tarde, cerca de um século após a morte de Jesus. Para André Chevitarese, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que estuda as evidências históricas sobre a vida de Jesus, é bem possível que nenhum artefato arqueológico diretamente ligado a ele tenha chegado até nós. “E o mesmo vale para quase toda a primeira e a segunda geração de cristãos. Eram pessoas periféricas, gente muito simples, de origem rural”, diz o pesquisador.

A falta de objetos diretamente ligados a Jesus e aos apóstolos incomodava um bocado os cristãos, mas o próprio texto do Novo Testamento não ajudava muito: as narrativas eram secas, com poucos detalhes. “Insatisfeitos, os cristãos de séculos posteriores começaram a produzir versões mais elaboradas dos Evangelhos”, diz o medievalista britânico Richard Barber, autor do livro O Santo Graal – A História de uma Lenda. Assim surgiram alguns dos chamados evangelhos apócrifos, textos que não foram incluídos na Bíblia canônica (ou “oficial”). Apesar disso, alguns deles faziam grande sucesso, como o Evangelho de Nicodemos, escrito no fim do século 4. O relato dá mais detalhes sobre o papel do judeu José de Arimatéia, que teria recolhido o sangue de Jesus crucificado em um prato e também retirado o corpo dele da cruz e dado ao morto um enterro digno. O Evangelho de Nicodemos narra ainda como um soldado romano, de nome Longino, teria perfurado o tórax de Jesus com uma lança (episódio descrito de forma mais breve no Novo Testamento). Para Barber, esse livro apócrifo ajudou a estruturar a lenda do Graal. Como veremos a seguir, a lança de Longino é um dos objetos que “acompanham” o objeto sagrado nas histórias escritas na Idade Média.

Prato fundo


A pioneira dessas histórias, um poema inacabado de Chrétien de Troyes, levava o nome de Percival ou O Conto do Graal. A obra de Chrétien (coincidência ou não, o nome quer dizer “cristão” em francês) já era um sucesso de público e crítica quando ele começou a trabalhar na nova história – entre outras coisas, ele já havia escrito um livro com as aventuras de sir Lancelote na Távola Redonda. A ambientação do novo livro retomava a famosa corte do lendário rei Arthur e as aventuras vividas por seus cavaleiros.

Ao enviuvar, a mãe do herói Percival decidiu criar o filho longe da civilização, de forma que o rapaz se tornou uma espécie de “bom selvagem”, com dificuldade de entender como a sociedade funcionava. Percival acabou encontrando alguns cavaleiros de Artur na floresta e ficou tão fascinado com eles que decidiu tornar-se um também. A mãe o deixou partir, ele arranjou um mentor e, depois de treinado, saiu pelo mundo em busca de aventuras. Em dado momento, chegou ao castelo de um tal Rei Pescador, que o convidou a se hospedar lá. Percival acabou presenciando o que Chrétien chamou de “procissão do Graal”: pessoas carregando uma lança de cuja ponta caem gotas de sangue, candelabros e, finalmente, “um graal” – vale notar que o autor usa a palavra de forma genérica, “um” graal, não “o” graal.

“Não se trata de um cálice”, afirma José Rivair Macedo, especialista em história medieval da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A palavra mais correta para designar o objeto em português provavelmente é escudela”, diz, referindo-se a uma espécie de prato fundo, aparentemente usado na Idade Média. Nas escudelas eram servidos peixes e carnes – e, no poema, “em vez de carregar salmão” ou outros peixes, o Graal transportava uma hóstia, levada até o pai do Rei Pescador, que se encontrava gravemente ferido.



A partir daí, as coisas ficam cada vez mais misteriosas. Percival ficou intrigado com a procissão do Graal, mas não perguntou ao seu anfitrião o significado de tudo aquilo, pois seu mentor ensinara que um cavaleiro não deveria ser indiscreto. Só que o jovem nobre aparentemente é punido por ter ficado de boca fechada: acordou sozinho no dia seguinte e o castelo estava misteriosamente vazio. Percival vagou por algum tempo, até perder a memória. Finalmente, foi socorrido por um eremita, que explicou (bem, mais ou menos) o que estava acontecendo. O sujeito disse que tanto ele quanto o pai do Rei Pescador eram tios maternos de Percival. Também afirmou que o Graal era “uma coisa muito santa” (tante sainte chose, em francês da época) e que, se Percival tivesse perguntado o significado da misteriosa cerimônia no castelo, teria evitado muitas desgraças. E, de repente, o manuscrito acaba – provavelmente o autor morreu antes de concluir a história.

É bastante possível que a idéia do Graal como sendo o cálice da Última Ceia não tivesse nunca passado pela cabeça de Chrétien. “A minha impressão é de que o autor não pretendia abordar a temática religiosa, mas a questão secular da formação do cavaleiro. Isso está implícito na idéia de que Percival, por ter sido criado longe de tudo, não tem a justa medida das coisas e confunde a necessidade de ser discreto com ficar totalmente calado”, diz Macedo. “Mas a referência ao Graal como tante sainte chose abriu um mundo de possibilidades para os escritores que vieram depois.”

Mitologia celta

Acredite: a expressão “um mundo de possibilidades” não tem nada de exagerada. Ninguém sabe ao certo como Chrétien pretendia terminar sua história, mas o fato é que, apenas meio século após a morte do autor, haviam surgido nada menos que 18 continuações, prólogos ou novas versões da história do Graal – um novo livro a cada 2,7 anos, em média. A maioria dos novos textos foi escrita em francês, mas há também obras em alemão, e não demorou muito para que surgissem traduções para outras línguas européias, como o italiano e o português arcaico, ancestral do nosso idioma.

O mito só fez crescer – e adquirir características completamente distintas – em meio a todos esses textos. Segundo Richard Barber, escritores que vieram depois de Chrétien, como Robert de Boron e o autor anônimo de A Demanda do Santo Graal, fizeram uma espécie de equação entre a lança que sangra (um bocado parecida com a lança de Longino, aquela do Evangelho de Nicodemos) e o Graal que carrega a hóstia. E concluíram que, na verdade, o recipiente só podia ser o prato (ou o cálice) sagrado.

Assim, os sucessores de Chrétien conseguiram uma façanha inédita: juntaram a famosa saga da lendária corte do rei Artur, a mais popular da época, com o lado religioso e místico que também encantava o público medieval. Para chegar a esse objetivo, cada autor adotou uma solução diferente. A mais famosa envolveu criar um novo herói da Távola Redonda: surgiu então Galahad, filho de Lancelote, um jovem cavaleiro casto e puro. Na maioria dos casos, Galahad, Percival e Bors (outro cavaleiro da corte de Artur), juntos, comprometem-se a encontrar o Graal para curar o pai do Rei Pescador e o próprio rei (que se machuca em versões posteriores do conto) e para atingir a iluminação.

Por um lado, a lenda parece ter crescido incorporando alguns elementos das antigas mitologias pagãs européias, em especial a celta. Quando o Graal aparece misteriosamente, nos novos contos pós-Chrétien, é capaz de alimentar todos à sua volta com os pratos mais saborosos. “O chamado caldeirão da abundância de alguns deuses celtas também era capaz disso”, afirma o medievalista Macedo.

No entanto, a simbologia mais forte das histórias do Graal está mesmo diretamente ligada à idéia de que a hóstia e o vinho transformam-se no corpo e no sangue de Jesus – conhecida como Eucaristia. Na versão de A Demanda do Santo Graal, Galahad e seus companheiros, quando finalmente acham o misterioso artefato, são recepcionados numa missa celebrada pelo bispo Josefo, filho de José de Arimatéia. Quando Josefo ergue a hóstia consagrada, eles vêem o corpo de um bebê que representa Jesus. Galahad morre depois de contemplar os mistérios do Graal, e o cálice volta ao céu junto com a alma do cavaleiro.

Sangue de Jesus

A popularidade das lendas do Graal foi muito grande até o fim do século 15, mas sofreu um revés secular com o avanço da Reforma Protestante, que tendia a ridicularizar a velha paixão medieval por relíquias sagradas e milagres. Mas, por volta dos séculos 18 e 19, as antigas teses foram retomadas e o interesse pelo Graal voltou a ressurgir.



Em 1802, um acadêmico de Viena foi o primeiro a juntar o artefato aos cavaleiros templários, ordem criada pelo papa Urbano II no início do século 12 para proteger os cristãos que peregrinavam para a Terra Santa. Segundo a nova tese, Percival estava ligado à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. Depois dele, muitos outros autores embarcaram na história.

Para chegar a essa associação, os escritores embasaram-se em uma antiga versão da lenda do Graal, datada do século 13 e de autoria do poeta alemão Wolfram von Eschenbach. Em Parzival, o Graal, descrito como uma pedra, é guardado pelos misteriosos “templeisen”. Embora o nome pareça, esses guerreiros não seriam, para o poeta alemão, os membros da Ordem do Templo: a palavra usada em alemão para templários é tempelherren. Além disso, os templários reais eram monges, enquanto os de Wolfram von Eschenbach casavam-se. Mesmo assim, as versões posteriores passaram a fazer relação entre os dois grupos.

Von Eschenbach também inspirou outras obras. Caso do compositor alemão Richard Wagner: com base no poeta medieval, ele criou sua última ópera, Parsifal, terminada em 1882. No mesmo século, com o ressurgimento do interesse no artefato, os arqueólogos, baseados em técnicas mais avançadas, resolveram começar a caçar o tal tesouro. Afinal, se conseguiram até localizar a antiga Tróia, não seriam capazes de descobrir o Graal também?

Nesse quesito, porém, é claro que as decepções foram se acumulando. Foi descoberto, por exemplo, que dois dos supostos “graais”, guardados como relíquias em igrejas de Gênova, na Itália, e Valência, na Espanha, provavelmente haviam sido feitos no Oriente Médio, só que na Alta Idade Média. No começo do século 20, o chamado Cálice de Antioquia, descoberto na Síria, chegou a ser considerado o Graal, até que análises mais cuidadosas mostraram que se tratava de... uma lâmpada a óleo.

Junto com a revolução científica moderna, paradoxalmente, muitas seitas esotéricas passaram a adotar o Graal como objeto de estudo. Os membros da obscura Ordem da Aurora Dourada, por exemplo, acreditavam que as histórias do Santo Graal eram uma espécie de mensagem em código sobre “os verdadeiros segredos místicos” da fé cristã. A versão mais recente desse fenômeno é a teoria dos escritores Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln exposta em O Santo Graal e a Linhagem Sagrada. Segundo o livro, o San Greal, usado por autores franceses medievais em referência ao Graal, na verdade é uma corruptela de sang real, “sangue real” em francês antigo. Os autores vão mais longe: esse seria o sangue dos supostos descendentes que Jesus teria tido com Maria Madalena.



Já ouviu uma história parecida? Provavelmente porque o livro inspirou outro, o superbest-seller O Código Da Vinci, de Dan Brown. Que, por sua vez, virou um filme de Hollywood. Esta é exatamente a saga do Graal: uma história inacabada que vai sendo constantemente alimentada não só ao sabor de coincidências e de mitologia, mas também de um tanto de criatividade.

O cálice de um carpinteiro

Que tipo de taça um sujeito pobre da Galiléia usaria?
Os filmes do herói Indiana Jones (cuja quarta aventura, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, chega aos cinemas no fim de maio) estão cheios de cenas antológicas. Uma das melhores talvez esteja no longa de 1989, Indiana Jones e a Última Cruzada. Nele, o personagem vivido por Harrison Ford descobre a chave para escolher o verdadeiro Graal. A taça certa, percebe ele, é “o cálice de um carpinteiro”, e não as vasilhas suntuosas que estão por ali. Poucas décadas antes do nascimento de Jesus, a Palestina virou um centro importante de produção de vasilhas de vidro, muitas das quais com formato parecido com o de um cálice de vinho moderno. Mas, como esse tipo de recipiente tinha grande aceitação nos meios não-judaicos, é possível que um judeu devoto como Jesus não aprovasse a moda. Nesse caso, as melhores pistas podem vir do sítio arqueológico de Qumran, na região do mar Morto. Muitos pesquisadores acreditam que no lugar moravam membros da austera seita judaica dos essênios, até o ano 70. Entre eles, parece ter predominado o uso de taças simples de cerâmica, sem alças. “O material de Qumran é bem próximo de Jesus espacialmente e temporalmente”, diz Francisco Marshall, da UFRGS.

As grandes relíquias religiosas

Algumas ainda são procuradas. Outras estariam guardadas
O interesse por restos mortais, roupas e outros artefatos ligados a Jesus, a Maria e aos santos deu margem a uma indústria medieval de relíquias. Documentos do fim da Idade Média sugerem a existência de até 18 diferentes prepúcios de Cristo (como bom judeu, Jesus foi circuncidado). Locais tão distantes quanto a Armênia e a Alemanha afirmavam possuir a lança que perfurou o tórax de Jesus durante seu suplício. E a quantidade de supostos vestidos de Maria certamente não se encaixa com as posses de uma camponesa de Nazaré. As relíquias medievais eram famosas não apenas por seus poderes curativos, mas também pela proteção que concediam. Muitos exércitos carregavam-nas ao partir para a batalha. Alguns artefatos religiosos viraram ícones tão fortes que muitos eram incapazes de aceitar que eles talvez estivessem perdidos para sempre – ou mesmo nunca tivessem existido. Conheça sete das relíquias cristãs mais famosas do mundo – algumas ainda procuradas, outras que se acreditam serem as verdadeiras.
Coroa de Espinhos
O primeiro registro da veneração da coroa que Jesus teria usado data do século 5 – igrejas de Jerusalém exibiam a relíquia. Seis séculos depois, com a chegada dos cruzados ao Oriente Médio, o objeto foi parar na França. Hoje, é abrigado na catedral de Notre Dame, em Paris – com pedaços na Espanha, na Itália, na Alemanha...

Vera Cruz

Helena, mãe de Constantino, primeiro imperador romano cristão, teria ido até a Palestina em 312 e desencavado o pedaço de madeira onde Jesus foi crucificado. Ao longo do tempo, a Vera Cruz (“cruz verdadeira”) foi desmantelada em pedacinhos que hoje estão na Espanha, na Grécia, na Bélgica e na França.

Reis Magos

Na catedral de Colônia, na Alemanha, um rico sarcófago triplo, segundo o mito, abriga os restos mortais dos Três Reis Magos, que presentearam Jesus em seu nascimento. Como os ossos só chegaram a Colônia em 1164, é pouco provável que realmente pertençam ao trio.

Santo Sudário

O pano de linho que teria envolvido o corpo de Jesus sepultado foi submetido a uma datação que revelou que sua idade não ultrapassa os 700 anos. Físicos investigam se uma contaminação rara pode ter gerado um erro de data do objeto, conservado na catedral de Turim, na Itália.

Arca da Aliança

A caixa de madeira folheada a ouro guardava, segundo a Bíblia, as tábuas de pedra com os Dez Mandamentos, além de possuir poderes. Oficialmente, ela desapareceu ou foi destruída com a queda de Jerusalém em 586 a.C. No entanto, uma igreja da Etiópia diz abrigar o artefato. Mas ninguém pode vê-lo.

Pegada de Maomé

A mais rica coleção de relíquias muçulmanas está no museu do palácio Topkapi, em Istambul. Além de objetos ligados a personagens bíblicos, o museu abriga até uma suposta pegada do profeta Maomé, o fundador do islamismo.

Arca de NoéNo fim do século 19 e começo do século 20, virou mania vasculhar as montanhas do nordeste da Turquia, em especial a região do monte Ararat, em busca do gigantesco barco que Noé teria, segundo a Bíblia, usado para salvar os bichos do dilúvio por volta do ano 4000 a.C. Por enquanto, porém, a arca não foi achada.

Saiba mais

Livros


O Santo Graal – A História de uma Lenda, Richard Barber, Record, 2007
Levantamento cuidadoso de todas as etapas da lenda do Graal, com trechos das principais novelas de cavalaria e análises da iconografia medieval que inspirou as histórias.
A Demanda do Santo Graal – Das Origens ao Códice Português, Heitor Megale, Ateliê Editorial, 2001Mostra como as novelas francesas foram traduzidas para o português arcaico e inspiraram a literatura de Portugal na Idade Média
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AUTOR:Reinaldo José Lopes

sexta-feira, 10 de abril de 2009

JOHN FANTE TRABALHA NO ESQUIMÓ OU A DOR QUE NÃO IMPEDE O SONHO

*Luíz Horácio Rodrigues



John Fante trabalha no esquimó é um livro violento, quase feroz, afronta a
indiferença, tão comum em nossos dias novelescos e “biguibrodianos”, seus contos retratam experiências nunca dissociadas do homem. Sejam elas cruéis, sejam elas oníricas. A dor não impede o sonho. É isso o livro de Mariel, sonho. O sonho que não queremos que chegue ao seu final e o pesadelo rotineiro de quem, por exemplo, vive na rua e cuja vida está por uma garrafa de álcool e um pau de fósforo. Estimado leitor, o cenário das histórias não é nada colorido, a trilha sonora não inspira amor, paixão, tampouco compaixão; mas o autor não se ocupa apenas em passear por esses escombros humanos, Mariel os apresenta como denúncia, não se trata apenas do esfacelamento da dignidade carioca, mas da que se alastra por qualquer parte onde se possa encontrar, em convívio permanente, uma centena de seres humanos. Estará instituída a degradação, a burla, a opressão, a seguir virá o ato da segregação e na cena final se dará o crime, assassinato, roubo, estupro. Triste é saber que esse espetáculo jamais sairá de cartaz.

O sonho que Mariel encerra nas 76 páginas de John Fante trabalha no esquimó é um sonho barulhento, tem sempre alguém sobre o fio da navalha, alguém que será vitimado pela afiada e inevitável lâmina;o homem que salta do ônibus, marcado para morrer, evita o som do revólver do matador , opta pelo som do corpo batendo na estrada. A gorda implorando para poder comprar companhia, o barulho das bolinhas de papel arremessadas pelo homem que vendia futuros ou o som de um homem sendo torturado.

Importante ressaltar que Mariel, feito poucos, consegue harmonizar o literário com o não literário, sua escrita assim como seus personagens, busca equilíbrio sobre um fio de arame farpado, lá em, baixo o abismo incandescentes. Sobrevive a coragem, a ousadia, os pontos vulneráveis, sim, eles existem, é a fragilidade que exige coragem caso você não saiba; e talvez o maior deles seja exatamente essa proximidade do real. E a realidade nem sempre é uma caricia, no mais das vezes, quer nas ruas, quer na literatura, é pura agressividade. Com precisão e sensibilidade de quem observa a vida com inconformismo, Mariel criou uma mistura instigante, soube cativar o leitor, combinou ingredientes estranhos , o resultado não é doce, tampouco chega a ser ácido ou azedo, no entanto, não evita o incômodo, a náusea por sermos tão parecidos com certos personagens de Mariel, este ácido flaneur carioca.

Sugiro, atento leitor, que você examine algumas fotos do midiático e oportunista Sebastião Salgado e depois leia John Fante trabalha no esquimó. A forma inversa também será aceita, não alterará o produto. A certeza do equívoco da máxima tosca que diz uma imagem valer mais que mil palavras. Feita essa experiência você saberá a diferença exata entre sensibilidade beirando a ingenuidade e oportunismo vislumbrando cifras. Altas cifras.


Mariel sua obra são pura honestidade e denúncia de nossa precariedade.
Seus contos ora são narrados na primeira pessoa, ora na terceira, a variação não implica em perda de intensidade, em John Fante trabalha no esquimó , o leitor observa uma fotografia do Rio de Janeiro, mas o autor evita os cartões postais, não são obras humanas; o que interessa, a matéria prima dos contos de Mariel é o homem, suas atrocidades, a barbárie envernizada, e uma dose mínima de ilusão.
Recomeda-se bater os ingredientes, servir em copo alto e sorver com o canudo da ironia, aspecto presente de forma sutil na maioria dos contos de Mariel. A abertura com Todos os homens são iguais onde o ator Charlton Heston, interpela o presidente de uma organização, protesta contra o espancamento de um homem negro. Em determinado momento o ator recheia seus argumentos apoderando-se de um rifle. Cabe dizer que o ator, o real, é um dos mais fortes defensores do porte de arma aos americanos.
“Atiraria em homens como aquele com um rifle deste tipo? Só porque desejam justiça, que sejam tratados como iguais e não como gado.” A auto-ironia também está presente no conto Orfandade onde o fazer literário é despido de qualquer traço de um suposto glamour. “Quanto ao futuro e a tal unidade de que ele me perguntava, eu disse não me preocupar muito sobre isso, porque todas as coisas ao final falam de uma mesma observação, insistem em se escrever sob formas diferentes, às vezes frágeis, então descartadas, outras, fortes, aí aproveitadas mais na frente em uma idéia que a comporte em seu bojo.”

Antes de encerrar peço sua permissão, paciente leitor, nós, críticos, resenhistas nunca deixamos de ser ranhetas, e mesmo frente a obras contundentes, de extrema relevância, como este livro de Mariel, conseguimos encontrar problemas e não conseguimos desprezá-luz, mesmo que quase insignificantes, como no caso.

Acontece que tais problemas podem vir a contaminar uma obra e por vezes infesta de modo a não permitir cura, uma promissora carreira. Tais problemas ocorrem nos contos Jonas, a baleia e em Por mil demônios. Nesses momentos o autor abandona o cenário por onde se movimenta com elegância e conhecimento e envereda por terras avessas ao seu projeto estético. O fantástico tornou os contos pueris. A baleia de Mariel remete ao inseto kafkiano, com prejuízo para o autor carioca, o demônio, por sua vez, repousava sobre um ombro e carregava em seu ombro um homúnculo, essa duplicidade do inesperado diluiu o impacto, tornou o conto circular. Mas, como alertei, isso também pode ser encarado como ranhetice de critico. Desconsidere se preferir, generoso leitor.

Aspecto bastante louvável é a coragem de Mariel ao remar contra a corrente do personalismo, do individualismo ou da variação romantismo edulcorado e sexo. John Fante trabalha no esquimó traz abordagens políticas, sociológicas, antropológicas, é quixotesco, não é pejorativo não, apressado leitor, tem a ver com a obra máxima Dom Quixote e é baudelairiano, em sua poesia cortante e no passeio critico pela cidade.
Mariel não foi nada modesto. Conseguiu dar cor à realidade e a solidão que ela encerra. Sorte nossa, privilegiado leitor.

Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro em 1976. É escritor e um dos editores da Fósforo. Publicou em diversos periódicos, entre eles o jornal Rascunho e a revista Ficção nº 11. Participou das antologias: Prosas Cariocas: Uma Nova Cartografia do Rio (Ed. Casa da Palavra); Paralelos: 17 contos da Nova Literatura Brasileira (Ed. Agir); Próximas Palavras (Ed.Eduerj). Colabora como editor no site e no blog Paralelos. Lançou recentemente o livro de contos Linha de Recuo (Ed. Paradoxo).












Resenhista: Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o Pássaro com Alma de Cão", ed.Conex.2006 e "Nenhum Pássaro no Céu", ed. Fábrica de Leitura, 2008. Professor de Literatura, mestrando em Letras.