segunda-feira, 19 de julho de 2010

O mal e o belo: os artistas e as doenças

As doenças - assim como a paixão, a felicidade, o infortúnio e a solidão - influenciam a vida de todo mundo. Mas, quando atingem artistas geniais, elas podem inspirar algumas de suas melhores criações.

por Sérgio Miranda

Uma crise de apendicite foi responsável pelo surgimento de um dos mestres da pintura. A depressão de um jovem artista ajudou-o a criar um novo movimento artístico. Problemas neurológicos permitiram a outro superar os limites da própria consciência e criar cores impensáveis. A história está cheia de exemplos da relação entre a arte e as doenças que acometeram os artistas. E de como elas ficaram refletidas – e muito mais bonitas – em suas criações.

Embora seja possível que sempre tenha sido assim, só no século 19 filósofos e artistas insatisfeitos com os limites da “arte como imitação” (ou representação) lançaram a teoria da “arte como expressão”. Desse modo, o foco para a compreensão da arte deslocou-se do objeto para o artista, da criação para o criador. É a partir daí que, pelo menos para a crítica de arte, passou a ser importante o que o artista sentia. E, às vezes, como todo mundo, ele sentia dor.

“As doenças influenciam a forma como o indivíduo se relaciona consigo mesmo e com o mundo, e muitas delas podem estimular o potencial de cada um”, diz a professora Leila Cury Tardivo, do departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP. “Diante do sofrimento, o artista ganha uma força de sublimação e sua arte pode ajudá-lo a discutir, compreender e conviver com a própria doença.”




















Alguns superaram o mal sem que isso aparecesse em sua obra, como Antônio Francisco Lisboa (1730-1814), conhecido como Aleijadinho, que sofreu de uma doença degenerativa (não se sabe ao certo se sífilis, escorbuto, hanseníase ou reumatismo), sem que isso refletisse em suas esculturas. Outros acusaram o golpe de forma sutil, como o espanhol Francisco Goya (1746-1828), cuja pintura variou de graciosa para trágica depois que o artista perdeu a audição aos 46 anos de idade. O norueguês Edvard Munch (1863-1944) começou a pintar aos 17 anos, depois que sua mãe e uma irmã morreram de tuberculose, e colecionou tragédias (seu pai e um irmão morreram e outra irmã foi internada em um hospital psiquiátrico) antes que completasse 30 anos e pintasse seu quadro mais famoso: O Grito, uma mistura de dor, desespero e tinta a óleo.


Edvard Munch


O grito - Munch


Henri e Henry


Conde de Tolouse-Lautrec

Na exuberante Paris do final do século 19, o infortúnio atingiu a rica família burguesa do conde Alphonse. No dia 30 de maio de 1878, então com 13 anos de idade, o pequeno Henri tentou pular uma cadeira em seu quarto, tropeçou e quebrou a perna esquerda. A recuperação foi lenta e não tinha terminado quando o menino saiu para uma caminhada e caiu depois de pisar em um buraco: quebrou a direita. Nunca mais ele foi o mesmo. Dono de um talento natural para o desenho, Henri Toulouse-Lautrec chegou à idade adulta com apenas 1,37 metro de altura e nunca esteve à vontade com isso. Superprotegido pela mãe, Adèle, sentia-se humilhado em seu meio social, não tinha amigos nem namoradas. “Por causa do trauma físico, abandonou a doce vida de menino rico e preferiu a companhia de outros excluídos, como jogadores, artistas e prostitutas”, afirma Daisy Peccinini, pesquisadora do Museu de Arte Contemporânea da USP. Passou a viver (chegou a morar, mesmo) em cabarés que eternizou em suas obras, como o Chat Noir e o Moulin Rouge. Mas a vida boêmia cobrou seu preço. Toulouse-Lautrec morreu aos 47 anos de idade, com a saúde debilitada pelo álcool e pela sífilis.

Obra de Lautrec

 
Numa manhã quente do verão de 1890, na cidade francesa de Le Cateau-Cambrésis, quando Héloise Gérars deixou a loja onde vendia sementes com o marido para visitar o filho acamado depois de uma cirurgia de apendicite, algo no mundo das artes estava para mudar. Com 20 anos, o outro Henri era estudante de direito em Paris, onde dividia seu tempo entre os livros, um escritório de advocacia e visitas ao Louvre.

Dona Héloise levou-lhe um estojo de pintura, tinta guache e alguns pincéis, e a França perdeu um advogado para ganhar um mestre das artes. Henri Matisse largou a faculdade para se dedicar à pintura e à escultura. Quando expôs no Salão de Outono de Paris, em 1905, aos 35 anos de idade, conquistou fama internacional como um dos mais inova-dores – e modernos – artistas de todos os tempos. Matisse morreu em 1954, aos 65 anos, de câncer no intestino.

Jackson e Vicent

Em 1912, enquanto Matisse renovava as cores da arte moderna ocidental, nascia do outro lado do Atlântico um homem que, marcado sobretudo pelo alcoolismo, revolucionaria a arte da expressão. O mais novo de cinco filhos, Jackson teve uma infância conturbada. Aos 10 anos de idade já havia morado em seis estados diferentes e ainda na escola envolveu-se com a bebida. Aos 16 anos começou a estudar arte, primeiro em Riverside, na Califórnia, de onde foi expulso após uma briga, e depois em Nova York.


Pollock


Aos 25 anos, foi internado pela primeira vez para tratamento psiquiátrico, tentando livrar-se do alcoolismo. Várias internações se seguiram, sem que conseguisse deixar o vício. Reconhecido como um artista realmente original, Jackson Pollock deixou Nova York e, na época, admitiu que as tentativas de desintoxicação passaram a nortear sua produção, cada vez mais expressiva de suas angústias, ansiedades e depressões. “Pollock transformou os conceitos surrealistas com sua rebeldia e seu método de pintar. Ele não tinha paciência para o tradicional e ansiava por descobrir coisas novas”, diz Daisy.

Quadro de Pollock


Esse anseio acabou refletindo em sua pintura. Imensas telas eram esticadas no chão e ele deixava a tinta escorrer de latas furadas ou a espalhava usando pedaços de madeira ou escovas de dente. Tudo feito de maneira muito rápida e intuitiva. “Quando me encontro na minha pintura, não tenho consciência do que estou fazendo. Mas apenas quando perco o contato com ela é que o resultado é uma confusão. Do contrário, há pura harmonia”, escreveu o artista em 1947, citado pelo crítico americano Frank O’Hara no livro Jackson Pollock.
Aos 44 anos, Pollock voltava para casa embriagado depois de uma festa quando seu carro chocou-se com uma árvore. A morte foi instantânea.


Van Gogh


Distúrbios psicológicos são comumente associados à criatividade, como se fossem indícios de genialidade ou mesmo condições necessárias para a manifestação artística. É possível que Theodore tenha pensado nisso quando encontrou aquele envelope. Impossível não reconhecer a letra do irmão, Vincent. Na carta, ele dizia que decidira instalar-se em Paris. Era 1880 e o holandês Vincent van Gogh acabara de sofrer uma crise nervosa. A ida a Paris era uma decisão importante. Ele deixaria para trás uma carreira religiosa e a família e apostaria tudo na arte. Havia decidido expressar seus sentimentos por meio da pintura.“Preferiria minha loucura à sabedoria dos outros”, escreveu. “Em Paris, seus quadros ganharam cores fortes que foram além da representação da natureza, expressando o estado do artista”, diz Daisy. Mas não parece que tenha conseguido a paz que almejou.


Quadro Van Gogh


Em 1888, Van Gogh foi para Arles e convidou o amigo e artista francês Paul Gauguin para ir com ele. No mesmo ano, passou a sofrer de epilepsia, o que o deixou extremamente nervoso e sujeito a surtos psicóticos. Durante uma crise, discutiu com Gauguin e, no extremo de sua condição, cortou um pedaço da própria orelha.

Em 1889, foi internado no hospital de Saint-Remy para doentes mentais. Lá pintou paisagens, internos, pátios e médicos. Seus últimos quadros mostram fortes deformações da realidade. Seus trigais estão inquietos, os ciprestes trêmulos, as oliveiras retorcidas. Em 27 de julho de 1890, depois de pintar 70 quadros em poucas semanas, Van Gogh saiu para o campo que havia pintado dias antes com um revólver na mão. Deu um tiro no próprio estômago e, dois dias depois, aos 37 anos de idade, morreu.

Amedeo e Frida



Modigliani
A vida nunca foi fácil para o mais novo dos quatro filhos de Flaminio e Eugenia. A família lutava com muitas dificuldades em Livorno, Itália, e o pequeno Amedeo já ajudava no orçamento dando aulas particulares e fazendo traduções. Apesar da pobreza, seguiam uma tradição de interesses literários e filosóficos. Aos 14 anos, o caçula contraiu febre tifóide e teve que abandonar a escola, passando a dedicar-se ao estudo da arte. Dois anos depois caiu novamente doente, dessa vez com tuberculose.


Quadro de Modigliani


Mas manteve-se firme no propósito de estudar arte. Foi para Florença e depois Veneza, onde tomou contato com artistas impressionistas e as esculturas de Rodin. Foi em Veneza também que Amedeo Modigliani rendeu-se ao hábito do haxixe. Em 1906, chegou a Paris e aderiu, apesar da saúde débil, à vida sensual e dissoluta dos artistas de Montmartre. Sob efeito da pobreza, consolado pelo vinho e pelas drogas, Modigliani passou a pintar retratos. Pintava pescoços alongados e rostos e olhos mortiços, inteiramente azuis ou cinza.

Em 1919, a tuberculose o atacou de forma aguda e Modigliani pintou seu único auto-retrato, em que aparece vestindo sobretudo e cachecol. As mãos finas e frágeis acompanham o rosto magro de olhos vazados. Poucos meses depois, em 24 de janeiro de 1920, morreu aos 35 anos de idade.


Frida Khalo

Autorretrato

Modigliani talvez pudesse ter cuidado melhor da saúde. Muitos não têm essa chance. A mexicana Frida Khalo teve poliomielite aos 6 anos. Com o pé direito ligeiramente deformado, ela seguiu uma vida normal e ingressou na Escola Nacional Preparatória em 1922. Atraída para as artes pelo maior pintor mexicano, Diego Rivera, conseguiu emprego como aprendiz, em 1925. No mesmo ano, sofreu uma grave lesão na coluna em um acidente de trânsito.
No mês em que ficou no hospital, apesar de amparada em talas de gesso e com os movimentos limitados, fez as primeiras tentativas na pintura. Quando foi para casa, sua mãe providenciou para que a cama fosse adaptada para permitir a ela pintasse.


Diego Rivera e Frida


Quadro de Rivera


Em 1930, já casada com Rivera, sofreu um aborto. E outro, em 1932. Em 1934 teve nova gravidez interrompida e os dedos do pé doente amputados.

Apesar das limitações físicas, Frida Khalo continuou participando de exposições e lecionando. Em 1944, pintou A Coluna Partida. Três anos depois teve a coluna vertebral operada e permaneceu meses imobilizada. Em 1950 passou por mais sete cirurgias: mais nove meses no hospital. Em 1953, quando foi organizada sua primeira exposição individual, ela compareceu instalada numa cama, ao lado de suas telas. No mesmo ano teve a perna direita amputada até o joelho.

Ainda em 1953, Frida Khalo tentou o suicídio. No ano seguinte, desafiou os conselhos médicos e, apesar de uma infecção pulmonar, participou das manifestações contrárias à intervenção americana na Guatemala. Morreu logo depois, em julho, aos 47 anos.
Só dói quando eu escrevo


Para alguns escritores, o declínio da saúde pode ter despertado uma nova sensibilidade

Leandro Sarmatz

“O mais prático dos sóis, / o sol de um comprimido de aspirina.” Quem escreveu esses versos não foi um publicitário a soldo da indústria farmacêutica, mas o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Vítima de enxaqueca por décadas, João Cabral tomava o comprimidinho branco como quem chupa dropes de hortelã.




Nem todos tiveram o sangue-frio e a ironia do autor de Morte e Vida Severina. Para grandes nomes da literatura, experimentar a dor e a degradação física significou penetrar em um mundo diferente. Em alguns casos, a provação foi demais. Noutros, a doença os fez descobrir um outro tipo de sensibilidade e talvez tenha até influenciado suas obras.



Proust

Há estudiosos capazes de jurar que o estilo frondoso de Marcel Proust (1871-1922) nas quase 3 mil páginas de Em Busca do Tempo Perdido seja conseqüên-cia direta da asma. Encerrado num quarto forrado com cortiça durante vários anos, Proust fez o retrato da fina flor parisiense entre crises que o obrigavam a passar longos períodos afastado do mundo. Os críticos dizem que, se não fosse a doença, Proust teria sido apenas mais um esnobe da aristocracia da Cidade Luz.


Lord Byron

Pulmões, aliás, parecem ser o calcanhar-de-aquiles de vários autores. Entre a metade do século 19 e o início do 20, a tuberculose ceifou dezenas de poetas e ficcionistas. O bacilo de Koch assombrou a existência de vários autores românticos, inspirando poemas melancólicos, liris-mo saudosista e elegias a granel. A cons-ciência da brevidade da vida forçava escritores mal saídos da adolescência a uma espécie de maturidade forçada. Por volta de 1870, o impacto da doença entre poetas europeus e latino-americanos era devastador. Como os britânicos lorde Byron e John Keats e os brasileiros Castro Alves e Álvares de Azevedo – todos invariavelmente boa-pinta, talentosos e com muito ainda a oferecer para as letras –, que feneceram como flores do jardim das musas.


John Keats



Castro Alves


Álvares de Azevedo


Mas a ciranda fatal de tosse, fraqueza e catarro escarlate não foi exclusividade da geração “mal do século”. Ainda no século 20, o checo Franz Kafka (1883-1924), autor de A Metamorfose, teve a doença diagnosticada no período mais produtivo de sua carreira. Durante os sete anos entre a descoberta da tuberculose e a morte num sanatório austríaco, Kafka deixou alguns de seus melhores contos e textos biográficos que, por sua lucidez quase sobre-humana, só poderiam ter sido escritos por alguém que estivesse com um pezinho no outro mundo (qualquer que seja!).



Kafka


Contemporâneo de Kafka, o irlandês James Joyce (1882-1941) presenciou o gradativo ocaso de sua acuidade visual. Vítima de glaucoma (pressão ocular), o autor de Ulysses já não enxergava quando completou Finnegans Wake, talvez o romance mais enigmático da história. Já se aventou a possibilidade de a atmosfera sombria do livro ter estreita relação com a doença de Joyce. Para um escritor, perder a visão pode parecer o mesmo que o Ronaldinho ter a perna amputada. Mas para o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) a cegueira não significou o ocaso da carreira. Dono de uma memória proverbial, Borges compunha textos de cabeça e depois pedia para transcrevê-los no papel. Mas essa forma de “escrever” teve pelo menos uma conseqüência danosa: seus contos tornaram-se simples e até esquemáticos – ao contrário da sofisticação da época em que o autor de O Aleph enxergava.


James Joyce

Cândido


Um dos maiores artistas brasileiros morreu intoxicado pelo amarelo


Portinari



Quadro de Portinari 

A dor enfrentada pelo artista pode estar presente em sua obra. Mas, às vezes, é a própria arte o motivo da dor. Um dos mais importantes artistas brasileiros, o filho de imigrantes italianos Cândido Portinari, expressava através da pintura as dores sociais do país e do mundo à sua volta. Desde Despejados, de 1934, ele soube mostrar a força expressiva dos tipos humildes, cotidianos e verdadeiros. Seu trabalho marcou uma produção nacional independente e rapidamente alcançou reconhecimento internacional. Portinari era apaixonado pela pintura e pela cor.



Dom Quixote

Em 1954, no entanto, essa dedicação seria colocada à prova. Enquanto realizava os painéis Guerra e Paz – encomenda do governo brasileiro que hoje ocupa a sede da ONU, em Nova York –, Portinari começou a ter crises respiratórias e foi internado para testes e exames. Os médicos detectaram uma intoxicação causada pelo elevado índice de chumbo contido nas tintas que usava, particularmente num tipo de amarelo, e recomendaram que o artista passasse um tempo sem pintar. A biografia do artista publicada pelo Projeto Portinari conta que o artista reclamou à amiga e escritora Dinah Silveira de Queiroz: “Imagine! Não posso mais pintar. Estou proibido de viver!”

Por um tempo, Portinari dedicou-se ao desenho, compôs a série Dom Quixote em 1956, e passou a escrever memórias e poemas. Mas, mesmo em menor escala, continuou a pintar.
Em 1961, o artista sofreu diversas crises e alternou períodos de repouso com outros de trabalho entusiasmado. No ano seguinte, enquanto preparava uma exposição em Milão, descuidou-se da saúde e das recomendações médicas e voltou a usar os amarelos proibidos. O escritor português José Cardoso Pires escreveu sobre esse momento, no livro E Agora, José?: “O veneno das tintas lhe tinha corrompido o sangue, e ele sabia-o. O óxido das cores circulava nele como uma silicose de artesão, era o seu secreto respirar. E indo assim, em irmandade com a morte”. O estado de saúde do artista se agravou na madrugada de 6 de fevereiro de 1962. Portinari morreu no mesmo dia, às 23h40, no Rio de Janeiro.

Saiba mais

Livros

Cartas a Théo, Vincent van Gogh, L&PM, 2002 - Revela a percepção que o artista tinha sobre sua arte, o mundo e sua doença.

Ceifar: Semear – A Correspondência de Van Gogh, Luciana Bertini Godoy, Annablume, 2002 - Propõe um método inovador para analisar a relação entre psicologia e arte.

Frida Kahlo, Rauda Jamis, Martins Fontes, 1987 - Biografia romanceada traz trechos de seu diário.

Jackson Pollock, Frank O’Hara, Itatiaia, 1960 - As várias fases da vida, da arte e da doença do mais inovador artista americano do século 20.

Fonte: Revista História
Imagens: Internet

terça-feira, 13 de julho de 2010

A ATUALIDADE DE WALTER BENJAMIN E DE THEODOR W. ADORNO

* Luíz Horácio




A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno, de Márcio Seligmann-Silva é cem por cento fiel à idéia de atualidade que Benjamin e Adorno acreditavam. Na capacidade que as idéias tinham de ir ao encontro do seu presente e daí a operar mudanças.


Walter Benjamin

Atualizar, um relâmpago a iluminar, a energizar o ontem e o agora.Tarefa nada simples que raros conseguem cumprir com tanta eficiência e singularidade como esses dois filósofos.

Seligman evita comparações, cabe ao leitor fazê-las. Uma delas diz respeito a divisão do livro, em duas partes desiguais. Ao destinar longo espaço às questões biográficas de Benjamin, deixa de examinar com maior profundidade as obras desse autor, já com Adorno, em número de páginas bem inferior, Seligman dá pouca atenção à biografia e ao citar as obras prioriza a Dialética do Esclarecimento. Vale ressaltar que tanto a vida de um como de outro está intensamente imbricada com a carreira intelectual, impossível separar vida e obra. No entanto a academia consegue. E com que eficácia conseguem separar os autores de suas obras!
Benjamin numa palestra intitulada O Autor como produtor prega uma maneira de apresentar a catástrofe, não como mero efeito estético. Se você, mestre, doutor ou curioso leitor; lembrou de alguma aula do seu curso, você não está delirando, a academia ainda é assim.

Ao alcançar as páginas finais de A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno dobre sua atenção ao ler Novas abordagens para a arte da apresentação da dor, texto primoroso do professor Seligman.

Mas essa questão de destinar mais espaço à vida e obra de Benjamin do que a Adorno, não leve tão a sério, paciente leitor, são picuinhas de resenhista/ensaísta admirador desses autores, o trabalho do professor Márcio Seligmann-Silva, se não apresenta novidades, é de leitura indispensável àqueles que pensam acerca dos valores e dos significados da arte, da cultura, do conhecimento.

Ao apresentar dados biográficos de Walter Benjamin, Seligman destaca o judaísmo peculiar desse filósofo- “Quando eu nasci, meus pais tiveram a idéia que eu pudesse me tornar um escritor. Então seria bom que ninguém notasse imediatamente que eu era um judeu” - sua permanente melancolia, seu suicido na fronteira entre a Espanha e a França, em conseqüência do pavor que a Segunda Guerra Mundial lhe provocava.

A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno proporciona o contato do leitor com alguns conceitos, os que são sempre abordados, da teoria de Walter Benjamin: a teoria da linguagem -“ Palavras são ainda como cavernas entre as quais elas [as crianças] conhecem caminhos com conexões singulares” - a aproximação entre filosofia e literatura, suas idéias acerca do romantismo, sua teoria da história como catástrofe, A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica.


O leitor ficará sabendo das razões de Adorno para dar preferência ao ensaio como forma de expressão de suas idéias. “o modo de o ensaio se apropriar dos conceitos seria comparável ao comportamento de uma pessoa que, encontrando-se num país estrangeiro, se vê obrigada a falar a língua deste, em vez de compô-la escolarmente a partir de certos elementos. Essa pessoa, digamos, vai ler sem dicionário.”

As impressões de Adorno e Benjamin sobre a arte, a tese de Benjamin sobre o cinema - o inconsciente óptico - e suas relações com o conceito freudiano de inconsciente. Adorno teorizou sobre a arte de um modo geral - “como escritura histórica” na medida em que ela é para ele “memória do sofrimento acumulado”. “Mas que seria a arte enquanto historiografia se ela se desembaraçasse da memória do sofrimento acumulado?”

A questionável teoria do sublime merece abordagem primorosa neste A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno. Um dos pontos de sua teoria estética trata de uma obra de arte onde o indivíduo se apresente totalmente abandonado ao sofrimento e à dor.

Em Dialética do esclarecimento Adorno e Horkheimer (coautor) dizem do fim da possibilidade do trágico na era da indústria cultural.No entender de ambos o “indivíduo trágico”, aquele capaz de resistir,deixou de existir. A indústria cultural, por sua vez,se apodera do trágico, o pasteuriza e o reduz aos seus fins: “O destino trágico converte-se na punição justa, na qual a estética burguesa sempre aspirou transformá-lo.”

Seligman faz excepcional introdução à Dialética do esclarecimento, apresenta as idéias do filósofo acerca da indústria cultural -critico ferrenho- seus estudos e vasto conhecimento sobre música, a teoria do sublime, um diálogo harmônico com Benjamin, o inumano, o texto anteriormente citado Novas abordagens para a arte da apresentação da dor.

Adorno e Benjamin são filósofos tão originais e viscerais que alguns de seus textos, num primeiro momento, nos remetem a uma conclusão inevitável: ingenuidade.Isso costuma ocorrer quando nos deparamos com alguém, em qualquer setor de nossas vidas, que acredita em seus conceitos, ama o que faz. Geralmente o reconhecimento da profundidade, da sua relevância, fica para um futuro. Às vezes distante, raras vezes interminável como no caso de Adorno e Benjamin.

Convém ler e refletir mais algumas vezes antes de assinar tal conclusão, a da ingenuidade. Não é necessário longa pesquisa para encontramos “críticos” que fazem do misticismo de Benjamin motivo de chacota. Não é pequeno o número de opositores às idéias de Adorno, principalmente as que dizem respeito ao sentido e ao valor da arte. Mas vale lembrar

George Steiner, professor de Literatura Comparada e crítico de cultura, em No castelo do Barba Azul (1991), numa interlocução com Notes towards the definition of culture (1948), de T. S. Eliot, salientar algumas notas para a redefinição de cultura, diz que isso tem um quê de utopia e demonstra um tom de desencanto metafísico quanto à trajetória cultural do Ocidente, visão essa legitimada por uma decadência espiritual do homem, algo que remontaria ao mito da Queda.

 

Representantes da Escola de Frankfurt, Benjamin e Adorno me obrigam ao socorro de Steiner que aponta como fator importante no que diz respeito a desumanização do homem teria sido, na primeira metade do século XIX, o desenvolvimento da produção em massa, o sistema da linha de montagem das fábricas, onde as energias dos operários eram desviadas da ação revolucionária e da guerra e encontravam aprovação social, sendo por um tempo arrefecidas, ou talvez acumuladas para extremos de violência posteriores, algo que seria o preço que a civilização precisou pagar pelo abafamento imposto aos instintos humanos centrais e não realizados, e fomentadores, no fim de contas, do que Freud chamou, em O mal-estar na civilização, de desejo de morte.

A atualidade de Walter Benjamin e de Theodor W. Adorno serve de sofisticado guia para quem quiser investigar, estudar vida e obra desses impressionantes filósofos.

Embora canônicos parecem, infelizmente, rumar ao papel de coadjuvantes, ou melhor, de figurantes no teatro da cultura.

Permita, tolerante leitor, um momento de entusiasmo deste humilde aprendiz: diz respeito a um momento magistral deste trabalho de Márcio Seligmann-Silva, o texto onde ele aborda o livro Passagens, de Walter Benjamin. Esse titulo me fascina, encerra quase toda a teoria benjaminiana, estética, lingüística,histórica,literária, e.... inacabada.


Sepultura de Walter Benjamin


Recomenda-se cautela na leitura tanto de Benjamin como de Adorno, visto que certos radicalismos podem causar sérias dependências. Manter o senso critico sempre alerta é medida extremamente salutar. Refletir não é prerrogativa dos filósofos tão somente, e você sabe disso, questionador leitor.








*Luíz Horácio - Escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, Nenhum pássaro no céu, Luísa e a barriga da mamãe-infantil, jornalista, professor de Literatura, mestrando em Letras.


Imagens: Internet

domingo, 27 de junho de 2010

O assassinato de Júlio César




Imperador Júlio César

Ele foi o homem mais poderoso do mundo romano e adotou medidas populistas que desagradaram a aristocracia. Para proteger a república, os senadores o mataram, sem saber que aniquilariam sua classe política

por Reinaldo José Lopes



Coliseu romano


Três escravos se esgueiraram para dentro do Senado vazio e correram em direção ao corpo ensanguentado, caído perto da estátua de Pompeu. Mais tarde, os ferimentos seriam contados: 23 golpes de adaga. Os assassinos de Caio Júlio César não estavam mais ali. Planejaram transformar a morte num grande ato de propaganda política, mas não contavam com o medo e a revolta do povo comum de Roma, quase todo formado por adeptos do ditador. Os responsáveis pelo atentado, portanto, tiveram de se esconder, entrincheirados na colina do Capitólio. Matar César tinha sido ridiculamente fácil; assassinar o que ele significava para Roma era bem mais complicado. A morte do homem mais poderoso do Império Romano teve pouco a ver com as cenas criadas por poetas como William Shakespeare, mas tem todos os elementos de uma grande tragédia, com cenas de intriga, maquiavelismo, traição e, a julgar pelo que dizem os escritores da Antiguidade, até avisos proféticos que foram ignorados. O famigerado Bruto pode não ter sido filho de César, como reza a lenda, mas ele e seus comparsas tinham em comum a decisão de eliminar o homem que tinha sido seu benfeitor. E os efeitos colaterais do plano foram ainda piores: anos de guerra civil, um império que quase se esfacelou e o fim das ambições políticas para a classe representada pelos assassinos. Se a personalidade e os instintos políticos de César fossem ligeiramente diferentes, ele jamais teria tombado no Senado. Afinal, a tradição das longas guerras civis que tinham assolado Roma ao longo dos séculos 2 a.C. e 1 a.C. era clara: se quiser governar tranquilo, não deixe seus inimigos vivos. Essa foi a regra durante as décadas de conflito entre Optimates, a facção que defendia a supremacia dos aristocratas romanos, e Populares, os quais, como o nome diz, queriam fazer concessões ao povo romano (embora seus líderes fossem homens da nobreza). César era um expoente dos Populares, o que levou o aristocrático Senado a tentar eliminá-lo logo depois que ele retornou da Gália (atual França), depois de oito anos de batalhas, como general vitorioso no ano 49 a.C. Não deu muito certo, para dizer o mínimo. As forças senatoriais, lideradas por Pompeu Magno, ex-aliado de César, foram esmagadas em batalhas na Espanha e na Grécia. Com as legiões de todo o Império sob seu comando, César podia fazer o que quisesse, mas preferiu deixar de lado as guerras civis e perdoar a todos que se rendessem sem luta. "A chamada clementia [ancestral de ‘clemência’ em português] se tornou a marca política de César, e uma grande arma de propaganda", afirma o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Em muitos casos, a clementia de César envolvia até a promoção de antigos inimigos. Dois dos mais mimados pelo novo senhor de Roma foram os líderes da conspiração que acabaria por matá-lo: Caio Cássio Longino e Marcos Júnio Bruto, sendo que ambos haviam recebido cargos e honrarias.


Exército romano


Oficialmente, Roma era uma república, mas na prática o poder absoluto estava nas mãos de César. Em épocas de crise, Roma tinha sido governada pelos chamados ditadores, que ganhavam poderes amplos durante um período de no máximo seis meses; em 45 a.C., o Senado deu ao general o título de senador vitalício, um ano depois de conferir o cargo a ele por dez anos - dois fenômenos sem precedentes na história republicana. Com essas manobras, sem falar de outras honras dadas a ele pelo Senado, como o título de Pater Patriae (Pai da Pátria), parecia que César tinha amansado de vez os Optimates e trazido os antigos inimigos para o seu lado. Mas a situação real era bem mais complicada.



O ovo da serpente


Brutus e o fantasma de Júlio César



Caio Cassio Longino



Caio Longino



Marco Junio


A propaganda política dos conspiradores tentou pintar o atentado contra César não como homicídio, mas como tiranicídio - um ato destinado a restaurar as "antigas liberdades" da Roma republicana destronando um déspota. Outros historiadores, como o americano Michael Parenti, em seu livro O Assassinato de Júlio César, argumentam que a decisão de eliminar o general foi só mais um round na velha briga entre Optimates e Populares. Afinal, César tomou medidas que desagradaram a antiga aristocracia, como a distribuição de terras para veteranos de guerra e a concessão de cidadania romana a povos das províncias do Império. Ele ainda aumentou o número de membros do Senado de 600 para 900, incluindo até alguns moradores da Gália na conta, o que certamente ameaçava a supremacia dos nobres romanos. No entanto, para Isabelle Pafford, doutora em História Antiga e Arqueologia do Mediterrâneo pela Universidade da Califórnia em Berkeley, a motivação dos conspirados pode ter sido bem mais simples. "Creio que as razões da conspiração eram mais pessoais que políticas, porque os responsáveis nem chegaram a ter um plano sobre o que fazer depois. Eles estavam pensando na sua própria carreira, não na ‘república’ ou na estabilidade política dela", diz Isabelle. Trocando em miúdos: Bruto, Cássio e companhia perceberam que estavam destinados a ser, no máximo, joguetes bem pagos de César - e não gostaram nem um pouco da ideia.
Segundo o historiador italiano Luciano Canfora, pesquisador da Universidade de Bari e autor de Júlio César - O Ditador Democrático, a ideia de eliminar o ditador já estava circulando desde 45 a.C. - no início entre antigos oficiais do próprio César, descontentes com o fato de não terem sido promovidos como desejavam. Membro do círculo de César havia tempo, apesar do seu passado entre os Optimates, Cássio conseguiu se aproximar dessa facção descontente e começou a articular um plano que, no fim das contas, agregaria cerca de 60 senadores, todos membros da velha elite. "Uma estratégia que examinaram foi aguardar as eleições consulares, durante as quais César ficaria em pé na ponte de madeira usada pelos eleitores a caminho da votação", escreve Michael Parenti. "Alguns conspiradores o empurrariam sobre o parapeito, enquanto outros estariam esperando embaixo, com as adagas desembainhadas." O plano não foi adiante por ser considerado muito arriscado, e os conspiradores decidiram que o melhor caminho era atacar durante uma cerimônia mais reservada. Antes disso, porém, Cássio queria conseguir o apoio de uma figura considerada chave: seu cunhado, Marcos Bruto. Eles andavam brigados - numa crise de ciumeira, o primeiro tentou impedir que o segundo assumisse um cargo cobiçado pouco tempo antes -, "mas Cássio sabia exatamente como convencer Bruto a agir", diz Luciano Canfora. Acontece que um dos ancestrais do senador, Lúcio Júnio Bruto, era famoso nas lendas romanas por ter expulsado da cidade seu último rei, Tarquínio, em 509 a.C.

O significado simbólico era óbvio: o descendente do homem que acabou com a monarquia em Roma estava "destinado" a eliminar o "tirano" e "rei ilegítimo" Júlio César. Em segredo, Cássio espalhou grafites e panfletos pela cidade, com frases como "Bruto, estás dormindo?" ou "Tu não és realmente Bruto", na tentativa de mexer com os brios do cunhado e envolvê-lo nessa mística. "Dos outros pretores [cargo ocupado por Bruto] esperam-se privilégios, espetáculos, mas de ti a abolição da tirania", disse Cássio, segundo o historiador grego Plutarco. E Bruto mordeu a isca.



Túmulo de Sevília - amante de César, mãe de Brutus

Embora tivesse lutado ao lado de Pompeu e contra César, Bruto foi perdoado e recebeu do vencedor o governo da Gália Cisalpina (atual norte da Itália) e uma importante posição entre os sacerdotes de Roma. A generosidade exuberante do ditador talvez se deva a uma mãozinha de Servília, mãe de Bruto, amante de César e, segundo alguns escritores antigos, grande amor da vida do general. Mas daí a propor que Bruto era, na verdade, o filho bastardo de César vai uma distância considerável. "Isso é improvável, de acordo com a maioria dos especialistas, por causa da data de nascimento de Bruto", diz Isabelle. Quando seu futuro assassino veio ao mundo, César tinha apenas 15 anos. "A relação entre os dois era próxima, mas nada anormal dentro da sociedade romana", afirma ela.

Sinais e sangue



Morte de César

A data marcada para o ataque dos conspiradores era a dos Idos de Março de 44 a.C. (título dado ao dia 15 desse mês). O combinado era aproveitar a presença de César no Senado para a cartada decisiva. Segundo os autores que abordaram o caso na Antiguidade, não faltaram avisos e sinais dos deuses para o ditador. Primeiro foi um jantar na casa de um amigo na noite anterior ao atentado. Após a comida, a conversa acabou se voltando para qual seria a melhor maneira de morrer ("inesperada e rápida", teria dito César). Depois foi o pesadelo de Calpúrnia, mulher do general, que sonhou que o marido era assassinado em seus braços e implorou para que ele não fosse ao Senado. César também sonhou que voava e apertava a mão do deus Júpiter. César quase cedeu a Calpúrnia, mas um dos traidores, Décimo Bruto (parente distante do outro Bruto), conseguiu convencer o ditador a ir até o Senado mesmo assim. De acordo com Plutarco, o erudito grego Artemidoro de Cnido, que frequentava a casa de Bruto, teria tentado alertar César da conspiração por meio de um bilhete, já bem perto do Senado, mas César deixou para ler a mensagem depois da audiência. Os historiadores antigos concordam a respeito dos detalhes essenciais do ataque. Os assassinos esperaram que César se aproximasse de sua cadeira e o rodearam, supostamente para apoiar uma petição feita por Tílio Cimbro, que queria trazer seu irmão de volta do exílio. César pediu que ele esperasse um pouco e Cimbro puxou a barra da toga do ditador - o sinal para o ataque. César teria dito "Ora, isso é uma violência", enquanto outro senador, Casca, dava o primeiro golpe de adaga. César reagiu pela primeira e única vez, gritando "Casca, seu canalha, o que está fazendo?" e acertando o atacante com um pedaço de metal pontudo, usado para escrever. A essa altura os golpes se multiplicavam. De acordo com o historiador romano Suetônio, "quando, porém, percebeu que de todos os lados lhe vinham em cima com punhais em riste, envolveu a cabeça com a toga e com a mão esquerda puxou a extremidade dela até os pés para tombar decorosamente [sem mostrar os genitais]".

Até tu, Brutus?



Senado romano

Resta ainda um enigma, que deixava até alguns historiadores antigos céticos: a suposta frase "Tu também, meu filho?", dita quando César viu Bruto entre os assassinos. Primeiro, ela teria sido pronunciada em grego, língua na qual ela é ambígua. Kai su, têknon também pode querer dizer "você também, menino/moleque". "Minha impressão é que, ao colocar a frase em grego, os escritores antigos querem dar a impressão de que César está citando alguma tragédia. Ou seja, estão colocando palavras na boca dele, num contexto literário. Ia ser muito difícil ouvi-lo no meio daquela confusão toda", afirma Isabella, que se diz cética a respeito de todos os detalhes do episódio. Reza a lenda que, depois da morte do ditador, Bruto tentou fazer um discurso para os Liberatores (como os assassinos se denominavam), mas eles e os demais senadores acabaram fugindo da cena do crime. Com a fria reação popular ao fim de César, os Liberatores se viram num dilema e acabaram se sentando à mesa de negociação com Antônio. Afinal, se César tinha mesmo sido um tirano, nenhuma de suas decisões era válida - inclusive as nomeações de vários dos assassinos para cargos importantes e rentáveis. As conversas acabaram terminando no que parecia uma monumental pizza: César não seria oficialmente declarado tirano, e portanto poderia receber funerais dignos, e os Liberatores não seriam declarados assassinos, mantendo assim o cargo e a posição social. Plano digno de outro Senado que todos conhecemos, sem dúvida, se não fosse pela malandragem e pelo poder oratório de Antônio. Nos funerais, ele exibiu uma imagem de cera, em que se viam os ferimentos sofridos por César, e fez um elogio fúnebre com tamanha paixão que o povo de Roma, revoltado, jurou vingança contra os Liberatores. Mesmo anistiados, Cássio e Bruto decidiram fugir para as províncias romanas do Oriente. Lá, a dupla de conspiradores reuniu soldados para tentar conquistar todo o Império Romano, mas era mais fácil matar César que imitá-lo. Uma aliança entre Marco Antônio, Marco Emílio Lépido (outro general de César) e o herdeiro e sobrinho-neto do ditador, Otaviano, esmagou as forças de Bruto e Cássio em Filipos, na Macedônia. A dupla cometeu suicídio (ou, para ser mais exato, Bruto se matou e Cássio mandou que um de seus ex-escravos o matasse). Ainda não era o fim das grandes guerras civis romanas - nas décadas seguintes, Otaviano derrotaria Antônio e viraria Augusto, o primeiro imperador. Mas, sem dúvida alguma, era o fim das chances de poder para sujeitos como Cássio, Bruto, Casca e os demais senadores, que se diziam Liberatores


E se César tivesse escapado?

O tirano teria se tornado imperador ou morrido em batalhas


Marco Antonio


Imagine uma realidade alternativa na qual César, um pouquinho mais preocupado com a própria segurança, só faz suas poucas e imponentes aparições públicas rodeado por uma guarda de gauleses brutamontes, muito bem pagos e leais apenas ao ditador. À primeira vista, o resultado dessa política mais cautelosa parece óbvio: Roma teria seu primeiro imperador uns 20 anos antes do que realmente acabou acontecendo (com a subida ao poder de Augusto, sobrinho-neto e herdeiro de César). De resto, tudo teria caminhado mais ou menos do mesmo jeito que no nosso mundo. Ou não? "A ascensão do Principado [o governo absoluto de Augusto] certamente parece inevitável a partir da nossa perspectiva, mas deveríamos ser mais humildes ao tentar prever o que aconteceria. Para começar, se a tentativa de assassinato não tivesse acontecido, César teria partido para outra campanha militar", diz Isabelle Pafford, referindo-se ao plano do ditador de atacar o Império da Pártia, que então dominava vastas regiões na Mesopotâmia e na Pérsia. Acontece que as legiões romanas já tinham levado sovas consideráveis na Pártia, o que significa que César podia muito bem acabar morrendo em batalha. "Nesse caso, o Império Romano teria se fraturado, com a própria Roma entrando em declínio", diz ela. "Com Júlio César vivo, os rumos do Império aparentemente seriam muito diversos do que foram. Ele teria tudo para antecipar as tendências centralizadoras e para implantar um culto imperial [no qual o governante era adorado como deus] ainda mais robusto. O Senado teria menos poder simbólico do que teve com Augusto", afirma Pedro Paulo Funari. Pode até ser que Marco Antônio fosse nomeado como sucessor. Assim, diz o historiador, Roma ficaria cada vez mais voltada para o Oriente, onde esses modelos de governo eram mais conhecidos e bem aceitos. "Haveria movimentos messiânicos na Palestina, como o de Jesus? Haveria a destruição de Jerusalém em 70 d.C.? Não se sabe", diz Funari, levando em conta que a relação de César com a população judaica da Palestina e do resto do Império era bastante pacífica.

Política na faca

Assassinatos políticos já eram praxe séculos antes de César tombar no Senado

Israel, 840 a.C.

Jeú, general do exército, conspirou contra o rei Jorão, matou-o com uma flechada no coração e aproveitou para liquidar a rainha-mãe Jezebel, junto com outros 70 membros da família real. Jeú tornou-se rei.

Grécia, século 6 a.C.

Dois jovens amantes atenienses, Harmôdio e Aristogeiton, tentaram despachar os irmãos Hípias e Hiparco, que mandavam em Atenas, ocupando a posição de tiranos. Hiparco morreu, Hípias escapou e os conspiradores foram mortos.

Pérsia, século 6 a.C.

Parente distante dos reis da Pérsia e oficial do exército, Dario alegou que o soberano do momento na verdade era um impostor e, com ajuda de outros nobres do império, invadiu o palácio real e o matou com suas próprias mãos, tornando-se imperador.

Macedônia, 336 a.C.

Alexandre, o Grande, ganhou o trono graças à morte violenta de seu pai, Filipe II, atacado por um membro de sua guarda pessoal (e seu ex-amante). Acredita-se que o assassinato tenha sido orquestrado pela mãe de Alexandre.


Os suspeitos

Caio Cássio Longino

General com experiência nas guerras romanas no Oriente, estudou filosofia na Grécia e se aliou a Pompeu, líder da facção aristocrática inimiga de César, quando estourou o conflito civil em Roma. Quando Pompeu foi derrotado, Cássio recebeu o perdão oficial de César e o cargo de pretor, mas não ficou nem um pouco satisfeito.

Marcos Júnio Bruto

Descendia de um ancestral famoso e semilendário que, segundo a tradição, fora responsável por expulsar Tarquínio,o último rei de Roma. Sua mãe, Servília, era amante de César. Como Cássio, seu cunhado, ele acabou se aliando a Pompeu durante a guerra civil, sendo perdoado assim que se rendeu.

Décimo Júnio Bruto Albino

Parente distante do outro Bruto e do próprio César, era um almirante de mão cheia, que ajudou o ditador a vencer batalhas navais durante a conquista da Gália e na guerra civil. Com reputação acima de qualquer suspeita, os conspiradores trataram de recrutá-lo, junto com outros membros do círculo de César que andavam descontentes.

Públio Servílio Casca

Casca e seu irmão, Caio, eram senadores membros de uma família leal a César, mas tudo indica que a falta de perspectivas políticas para o Senado com o poder cada vez mais absoluto do ditador os levou a se juntar aos conspiradores. Públio Casca, segundo os autores antigos, foi o primeiro senador a ferir César com sua adaga.

Marco Túlio Cícero

Excelente orador, escritor e filósofo, foi o grande articulador do partido aristocrático, os Optimates, pouco antes da guerra civil e durante o conflito. Aceitou o domínio de César e fez os senadores jurarem defender a vida do ditador. Mas não deixava de queimar o filme de César. Não participou diretamente do atentado.


Saiba mais

LIVROS

Júlio César - O Ditador Democrático, Luciano Canfora, Estação Liberdade, 2002

Provavelmente a obra mais completa e erudita sobre a vida e morte de César em português, com uma análise minuciosa das fontes antigas sobre o ditador.

O Assassinato de Júlio César, Michael Parenti, Record, 2005

Parenti tenta entender o assassinato de César como um dos últimos rounds da luta entre políticos reformistas e conservadores na república romana. O livro é repleto de descrições e teorias sobre o que poderia ter sido diferente no destino do tirano mais famoso de Roma.
Rubicão, Tom Holland, Record, 2006

Introdução leve e clara à crise da república, da geração anterior a César à morte de Augusto, o sobrinho-neto herdeiro de Roma, que instaurou o império.

Fonte: Revista História
Autor: Reinaldo José Lopes
Imagens: Internet

terça-feira, 25 de maio de 2010

A FALIBILIDADE DA JUSTIÇA NO JULGAMENTO DE JESUS

Antônio Campos (Escritor e Advogado)



No ano 17 do reinado do imperador romano Tibério César e 30 da nossa era, em Jerusalém, numa sexta-feira, o Procurador Romano da Judeia, Pôncio Pilatos, condenou Jesus Cristo a morrer crucificado entre dois ladrões, um à esquerda e outro à direita.





PÔNCIO PILATOS

JESUS ENTRE LADRÕES

Nos dois processos a que Jesus foi submetido, o religioso, perante o Sinédrio (Tribunal supremo dos judeus, que aplicava as leis mosaicas, integrado pelos sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da Lei), e o civil, segundo a lei romana, perante Pilatos, ambos iniciados e concluídos em menos de 24 horas, foram cometidas diversas irregularidades e arbitrariedades.

Pilatos violou várias regras elementares do Direito Romano: não designou os acusadores, não concedeu ao acusado o direito de ter um defensor, não proferiu a sentença em termos regulares.

FORUM ROMANO


O procedimento a que Jesus foi submetido violou relevante norma legal da época:

"nas causas pecuniárias pode-se terminar o processo no mesmo dia em que se começou; nas causas capitais, pode-se pronunciar a absolvição no mesmo dia, mas a condenação deve, ao invés, deferir-se ao dia seguinte, na esperança que se encontre um argumento a favor do acusado".

Jesus não convocou advogado para assisti-lo. Na realidade, ele é quem estava patrocinando a causa da Humanidade, em cuja defesa sacrificou a própria vida.

O imperador Tibério César queria dominar o Mundo com espadas e máquinas de guerra. Jesus queria transformá-lo com uma história de amor e terminou crucificado. Se os insignes criminalistas de nossa era requeressem a revisão criminal de Jesus - para efeito de estudo - facilmente demonstrariam diversas ilegalidades praticadas pelo Sinédrio quanto à própria lei mosaica e diversas ofensas praticadas contra a Lex Romana por Pilatos. Para se corrigir um erro judiciário pode-se alegar um fato novo a qualquer tempo. Não há preclusão para a injustiça. Aliás, a justiça é a fonte psicológica do Direito.

Quanto ao tema, o inigualável Rui Barbosa em página pouco conhecida e bastante atual assim pontifica:


ANÁS

HERODES


"De Anás a Herodes o julgamento de Cristo é o espelho de todas as deserções da Justiça, corrompida pelas facções, pelos demagogos e pelos governos. A sua fraqueza, a sua inocência, a sua perversão moral crucificaram o Salvador, e continuam a crucificá-lo, ainda hoje, nos impérios e nas repúblicas, de cada vez que um tribunal sofisma, tergiversa, recua, abdica. Foi como agitador do povo e subversor das instituições que se imolou Jesus. E, de cada vez que há precisão de sacrificar um amigo do Direito, um advogado da verdade, um protetor dos indefesos, um apóstolo de ideias generosas, um confessor da lei, educador do povo, é esse, a ordem pública, o pretexto, que renasce, para exculpar as transações dos juízes tíbios com os interesses do poder. Todos esses acreditam, como Pôncio, salvar-se, lavando as mãos do sangue, que vão derramar, do atentado, que vão cometer. Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde." (in Obras Seletas, vol. 7, Casa de Rui Barbosa, Rio, 1957).



O julgamento de Jesus Cristo demonstrou a falibilidade da Justiça humana e constitui o maior erro judiciário da história.

ANTÔNIO CAMPOS - Filho do escritor Maximiano Campos, da Geração 65 de autores pernambucanos, Antônio Campos nasceu em 25 de julho de 1968, no Recife, onde se bacharelou em Direito em 1990. É advogado especializado em Direito Empresarial e Direito do Entretenimento.

Imagens: Internet