domingo, 1 de maio de 2011

O número de páginas de um livro não diz do seu valor


*Ronaldo Correia de Brito


Juan Rulfo
César Vallejo


O romancista Juan Rulfo bem poderia ter escrito Não mora mais ninguém, poema em prosa do peruano César Vallejo, pela maneira semelhante como lida com os vivos e os mortos. Vallejo afirma: "O lugar por onde um homem passou nunca mais será ermo. Somente está solitário, de solidão humana, o lugar por onde ainda nenhum homem passou. (...) Todos de fato deixaram a casa, mas na verdade todos continuam dentro dela. Não, não é a lembrança deles, são eles mesmos que ficam".

Com a fatalidade de quem não se desvencilha da memória e do passado, Rulfo criou uma obra inquietante, silenciosa, em que as vozes de cada história narrada soam como se fossem a nossa própria voz.

Romance ou novela, como preferirem chamar, Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo, influenciou gerações de escritores latino-americanos, mesmo os que nunca o leram. Algo parecido ao que aconteceu na Rússia com O Capote, conto de Nicolai Gogol. Segundo Dostoievski, toda literatura russa posterior a Gogol é filha dessa narrativa meio absurda, meio kafkiana, a história de um homem que perde o seu capote e na tentativa de encontrá-lo se extravia em meio à burocracia.


Gogol
Dostoievski


Atribui-se a Rulfo a paternidade do realismo mágico, também conferida a Alejo Carpentier. Mas é bem distinta a atmosfera onírica de Pedro Páramo daquela que consagrou Gabriel Garcia Márquez em Cem Anos de Solidão, e beirou o exotismo com Isabel Allende.


Alejo Caspentier
Gabriel G.
Marques
  

 










Isabel Allende
 Em Pedro Páramo, os mortos falam e caminham, afigurando-se mais reais e tangíveis do que os próprios vivos. Eles parecem ter a função de extraviar os sobreviventes de Comala, um lugar estranho imaginado por Rulfo, esfumaçado e poeirento, onde o tempo possui uma outra medida e as vozes e lamentos das pessoas brotam de abismos.





Para desencaminhar-se nesse infra-mundo, um filho de Pedro Páramo se desloca na companhia de um tropeiro, realizando o desejo da mãe de que ele conheça o pai que o gerou e pise a terra de Comala, de onde ela saiu para nunca mais voltar: "Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe que disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morresse".

Ao final da leitura, nos perguntamos se Comala existe de verdade. Se Pedro Páramo é apenas o espectro de um poder insano e absoluto, que se arruína e leva consigo as pessoas e o mundo em volta, ou se é um homem que parece nada temer, mas que se assombra com a noite e seus fantasmas. Sem resposta, repetimos as mesmas perguntas a cada nova leitura desse livro infinito e único, apesar de suas páginas tão escassas.

 

*Ronaldo Correia de Brito - Nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify. Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim, e o romance Galiléia pela Alfaguara. Retratos Imorais- Alfaguara / Objetiva. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

A NINFA INCONSTANTE



*Luíz Horácio Pinto Rodrigues


A protagonista de A ninfa inconstante não é Estela, não é Cuba, tampouco o narrador. A memória é a grande estrela desse belo trabalho de Guilhermo Cabrera Infante. "Não me interessa eliminar e muito menos mudar meu passado. Preciso é de uma máquina do tempo para vivê-lo de novo. Essa máquina é a memória."




A memoria, infelizmente, nem sempre desperta tão somente lembranças satisfatórias, é de sua natureza conservar lamentos e frustrações. O narrador de A ninfa inconstante também se depara com essa face opaca das emoções.

“Agora sei que o momento em que a vi pela primeira vez foi um momento equivocado".

Estela não tem dezesseis anos, nem alta nem baixa, a lolita blasée de Infante tampouco tenta se fazer sedutora. Não disfarça seu desconforto frente ao discurso desse crítico de cinema que, eu não afirmaria que se apaixonou, mas que se deslumbrou. O intelectual é casado com uma mulher que, deixa claro, já não difere mais os momentos em que está em sua presença daqueles de ausência. Convém não se apressar, paciente leitor, A ninfa inconstante não é mais um daqueles romances onde o “tio” se apaixona pela ninfenta, longe disso.




O intelectual é arrogante, chato, um reservatório de citações literárias e cinematográficas; mas está longe de ser um “tio” bobão, muito longe. Estela não é ingênua e carrega um plano, prova maior de sua falta de inocência.

O narrador não elucubra planos e mais planos para conquistar Estela, sua satisfação é admirar aquela juventude bela, enquanto isso sua vida se esvai. Mas como ganhar tempo, como superar o paradoxo que se agiganta a sua frente: matar a sede de viver.

Como cenário a cidade de Havana, uma Havana ainda musical e sensual.




A ninfa inconstante, obra póstuma de Guilhermo Cabrera Infante, pode ser lida como um balanço de sua produção, uma síntese, caso você prefira assim, caro leitor. Nessa narrativa estão bem nítidas todas as todas as possibilidades do estilo desse autor: os jogos de palavras que sermpre o seduziram, as referências cinematográficas e literárias, o fascínio pela linguagem mais coloquial, a das expressões populares e o apreço por um tipo de humor extremamente peculiar.

Cabrera Infante tece sua trama a partir de um encontro de Estelita com o narrador, critico de cinema da revista Carteles.




Existirão pontos comuns? Música, cinema e literatura são coisas dele. E Estelita , traz o quê? “Era sua própria personagem, sua protagonista e ao mesmo tempo sua antagonista sem angústia existencial.”

O narrador e Estelita, o brilhantismo da narrativa de Cabrera Infante estabelece conexões entre essas personagens tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas. O que é de uma, já foi de outra. O que ora pertence a mais velha, um dia envolverá a jovem. “Destino é quando uma força irresistível tropeça com o objeto imóvel que você é. Destino também é desatino.”

A ninfa inconstante é um livro fascinante, no entanto, vale a pena anotar esse aviso, obediente leitor: é necessário um esforço tsunamico para não sucumbir no labirinto linguistico erguido por Cabrera Infante.


Guillermo Cabrera Infante (Gibara, Cuba, 22 de abril de 1929 - Londres, 21 de fevereiro de 2005) foi um escritor cubano naturalizado britânico. Além de ser romancista, contista e ensaísta, escreveu poemas visuais e roteiros cinematográficos.

Em 1949 criou o semanal Nova Geração (em espanhol Nueva Generación) e em 1950 ingressou na Escola de Jornalismo. Dois anos depois, após a aparição de um relato na Boehmia, foi preso. Nos anos seguintes não pôde finalizar seus trabalhos com seu próprio nome, e por isso usou um pseudônimo (G. Caín).

Obras:

• Contos-relato: Assim na Paz como na Guerra (1960) / A Vista do Amanhecer no Trópico (1974).

• Ensaios: Um ofício de sigilo XX (1960) / O (1975) / Exorcismo de estilo (1976) / Arcadia todas as noites (1978) / Holy smoke (1984) / "Mea Cuba" (esp.) (1993).

• Romances: Três tristes tigres (1965) / A Havana para um infante defunto (1980).



*Luíz Horácio Pinto Rodrigues - Natural de Quaraí, pequeno município gaúcho na fronteira com o Uruguai, é formado em Letras e faz mestrado na mesma área. Viveu sua juventude na terra natal e em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras e passou cerca de vinte anos ali, escrevendo e colaborando com páginas literárias de várias publicações. Sua principal obra é a denominada Trilogia Alada, inaugurada com Perciliana e o pássaro com alma de cão, seguida de Nenhum pássaro no céu, e encerrada agora com Pássaros grandes não cantam.

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quinta-feira, 17 de março de 2011

VERDADES E MITOS DA HISTÓRIA


O domingo sempre foi dia de descanso. FALSO


De acordo com a Bíblia, Deus declarou que descansaria no sétimo dia da semana. Com o advento do cristianismo, o repouso dominical se tornou uma tradição de séculos, certo? Errado!





No século XVIII, os filósofos iluministas chegaram a desenvolver toda uma argumentação para enaltecer as vantagens do trabalho aos domingos. De acordo com o artigo que a célebre Enciclopédia dedicou ao dia, determinada comunidade se beneficia quando suas atividades econômicas não são interrompidas no “dia do Senhor”. Anos mais tarde, durante a Revolução Francesa, o tradicional calendário gregoriano foi suprimido e substituído por um novo, que instituiu a semana de dez dias e, seguindo a política de erradicação de qualquer referência religiosa, eliminou o domingo. O antigo calendário foi restabelecido somente em 1806, sob o governo de Napoleão.

Uma das primeiras tentativas de imposição do repouso dominical ocorreu na França em 1814, quando o governo dos Bourbon aprovou uma lei para a “santificação do domingo”. A decisão só valeu até a ascensão, 16 anos depois, da monarquia burguesa de Luís Felipe I, que deixou de aplicar sanções aos que desrespeitavam o descanso no “dia do Senhor”. Em 1880, essas leis foram totalmente abolidas.
Embora iniciada por Leão IX, foi o papa Gregório VII que emprestou seu nome à chamada “reforma gregoriana”. Esse movimento intensificou a crítica à incontinência dos religiosos e passou a valorizar um clero inteiramente voltado à sua tarefa, sem relações familiares que pudessem afastá-lo dos interesses espirituais ou levá-lo a usurpar bens da Igreja para benefício de seus parentes.
O efeito desse recuo se fez sentir especialmente nas regiões industrializadas, nas quais operários sofreram com a perda do benefício e passaram a se organizar para reconquistá-lo. Essa luta levou à adoção de princípios que permanecem em vigor ainda hoje na França, além de inspirarem as legislações de vários outros países. O principal deles é o direito a um repouso de 24 horas após seis dias de trabalho.
Ainda assim, a escolha do dia de descanso ficava a cargo do empregador. Os católicos defenderam o caráter familiar do domingo, apoiados por alguns deputados de esquerda. Aproveitou-se também o fato de que o descanso das mulheres e crianças ocorria geralmente no sétimo dia. Em 13 de julho de 1906 foi votada, enfim, a lei que concedeu o repouso dominical. Conforme a medida ganhava força, passando a ser verdadeiramente aplicada só depois da Primeira Guerra, o “dia do Senhor” perdeu cada vez mais seu caráter religioso.
Longe de ser uma tradição que remete a tempos imemoriais, o direito ao lazer no domingo é recente e foi adquirido à custa de muita luta. Até quando?

O casamento de padres sempre foi proibido. FALSO!

Seguindo o exemplo de Jesus Cristo e de seus discípulos, os primeiros cristãos permaneceram celibatários. A Igreja impôs a regra a seus sacerdotes desde o princípio, certo? Errado!






Jesus Cristo jamais proferiu algo contrário ao casamento de religiosos, e alguns de seus apóstolos tiveram esposas e filhos. O judaísmo, crença da qual se originou o cristianismo, não impunha o celibato aos rabinos. Logo, a Igreja Católica também passou um longo tempo considerando aceitável a ordenação de homens casados.

Uma das primeiras tentativas de imposição do celibato aos padres fracassou no Concílio de Niceia, no ano 325. A reunião só conseguiu proibir o casamento depois da ordenação. Ao que tudo indica, porém, nem mesmo essa cláusula foi respeitada rigorosamente, já que vários clérigos do período viviam com suas companheiras e resistiram à nova regra. No século IV, por exemplo, bispos como Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa eram casados, e 39 dos papas tiveram esposas e filhos, que chegaram, em alguns casos, a suceder os pais.

Essa situação começou a mudar com a ascensão de vários monges a cargos de importância na hierarquia eclesiástica. A multiplicação das decisões papais, concílios e sínodos de bispos em defesa da obrigatoriedade do celibato mostra que a força política desse grupo, praticante da renúncia aos prazeres mundanos, alterou bastante a estrutura de poder da Igreja.

A disputa entre opositores e defensores do celibato se acirrou no século X, quando o Império Carolíngio sucumbiu e a Igreja passou a enfrentar dificuldades para impor suas normas aos clérigos. O afastamento das questões espirituais, a prática da simonia (venda de bens sagrados e de benefícios eclesiásticos) e os casos de nicolaísmo (incontinência dos padres que se casam ou vivem em concubinato) se tornaram mais frequentes. Uma reforma era necessária.


Em vários países, como Alemanha, França, Inglaterra e Espanha, essas decisões foram mal recebidas pelos clérigos locais, e o concubinato dos padres persistiu. No entanto, a população aderia cada vez mais às decisões papais e, ansiosa pela renovação de um clero corrupto e permissivo, rejeitava os religiosos que continuavam a ter uma amante ou a praticar atos condenáveis.

Assim, o desejo de um enquadramento melhor dos padres e de uma definição mais restrita de sua disciplina continuou a ganhar força. Os cânones dos concílios de Latrão II (1139), Latrão III (1179) e, finalmente, Latrão IV (1215) reiteraram a proibição ao concubinato dos padres e à ordenação de homens casados. Essas determinações têm sido rigorosamente aplicadas pela Igreja Católica até os dias atuais, a despeito do que fizeram os cristãos ortodoxos: para eles, a ordenação de homens casados continua sendo, a exemplo do que ocorria nos primeiros anos do cristianismo, uma prática perfeitamente aceitável.

Marco Polo descobriu a China. FALSO!

O viajante italiano foi o primeiro ocidental a visitar o país do Grande Khan e levar aos europeus as primeiras informações sobre a vida nas regiões do maior império do Oriente, certo? Errado!



Marco Polo


Essa história começou na primeira metade do século XIII, numa época em que os mongóis ainda faziam a Europa tremer. O filho de Gêngis Khan havia tomado Moscou em 1238, se apoderado das cidades de Kiev e Zagreb, na atual Ucrânia, invadido a Polônia e ameaçado até mesmo Viena. Essa série de vitórias só foi interrompida pela morte do soberano, já que as disputas por sua sucessão enfraqueceram a dinastia e forçaram os mongóis a recuar até a Ásia central.
Afastado o perigo, o Ocidente passou a enxergar as populações do Leste como aliados em potencial nas cruzadas contra o mundo islâmico, já que alguns asiáticos seguiam o credo nestoriano, variante do cristianismo surgida no século V e considerada herética pela Igreja de Roma. A primeira tentativa de aproximação ocorreu em 1244, quando o papa Inocêncio IV confiou ao monge franciscano Giovanni da Pian del Carpine e ao frei dominicano Ascelino de Cremona a missão de levar até o Grande Khan uma mensagem de desaprovação das destruições que ele provocara, convidando-o a aderir ao “bom caminho”, ou seja, ao cristianismo. O soberano oriental, irritado, respondeu dizendo estar pronto para reconhecer o papa, mas como seu vassalo.

Dois anos depois, quando Luís IX estava na ilha de Chipre liderando a Sétima Cruzada, um enviado mongol lhe propôs uma ação militar conjunta: enquanto os cristãos atacassem o sultão do Cairo, o império do Leste investiria contra o califado de Bagdá. Luís aprovou a ideia, mas o Grande Khan faleceu antes que a delegação francesa chegasse à sua corte para firmar o acordo, fazendo tudo voltar à estaca zero.

O rei da França decidiu nomear uma nova delegação, dessa vez confiada a Guilherme de Rubruck, para difundir os ensinamentos do Evangelho na Ásia e relatar tudo aquilo que pudesse observar. O religioso deixou Constantinopla em 1253 e levou 90 dias para percorrer os 3 mil km que o levariam a Karakorum, no norte do deserto de Gobi, onde residia o khan Mongke, quarto imperador mongol.

No dia 3 de janeiro de 1254, Guilherme de Rubruck finalmente chegou à corte do neto de Gêngis Khan, que pela primeira vez acompanhou a entrada de uma delegação ocidental na cidade. Depois da calorosa recepção, o franciscano participou de uma discussão entre muçulmanos, budistas e cristãos organizada pelo líder oriental, na qual percebeu que sua missão estava fadada ao fracasso: os mongóis não seriam convertidos.

Guilherme tomou o caminho de volta em 1255 e, não podendo encontrar-se pessoalmente com Luís IX, enviou-lhe o riquíssimo relato de sua viagem. Marco Polo só faria o mesmo 40 anos depois.

Cristóvão Colombo descobriu a América. FALSO !


Ele foi o primeiro europeu a chegar ao Novo Mundo e revelou aos homens de seu tempo a existência de um continente até então desconhecido. Certo? Errado!

por Antoine Roullet

Cristóvão Colombo


Oficialmente, o título de “descobridor da América” pertence ao navegante genovês Cristóvão Colombo, mas ele não foi o primeiro estrangeiro a chegar ao chamado Novo Mundo. Além disso, o próprio Colombo nunca se deu conta de que a terra que encontrou era um continente até então desconhecido.

A arqueologia já revelou vestígios da passagem dos vikings pelo continente por volta do ano 1000. Leif Ericson, explorador que viveu na região da Islândia, chegou às margens do atual estado de Maine, no norte dos Estados Unidos, no ano 1003. Em 1010 foi a vez de outro aventureiro nórdico, Bjarn Karlsefni, aportar nos arredores de Long Island, na região de Nova York. Além disso, alguns pesquisadores defendem que um almirante chinês chamado Zeng He teria cruzado o Pacífico e desembarcado, em 1421, no que hoje é a costa leste dos Estados Unidos.

Polêmicas à parte, Cristóvão Colombo jamais se deu conta de que havia descoberto um novo continente. A leitura de suas anotações de bordo ou de suas cartas deixa claro que ele acreditou até a morte que tinha chegado à China ou ao Japão, ou seja, às “Índias”. É o que o navegador escreveu, por exemplo, em uma carta de março de 1493.

Mesmo nos momentos em que se apresenta como um “descobridor”, Colombo se refere aos arredores de um continente que o célebre Marco Polo – do qual foi leitor assíduo – já havia descrito. Em outubro de 1492, depois de seu primeiro encontro com nativos americanos, o explorador fez a seguinte anotação em seu diário de bordo: “Resolvi descer à terra firme e ir à cidade de Guisay entregar as cartas de Vossas Altezas ao Grande Khan”. Guisay é uma cidade real chinesa que Marco Polo visitara. Nesse mesmo documento, Colombo escreveu que, segundo o que os índios haviam informado, ele estava a caminho do Japão. Os nativos tinham apontado, na verdade, para Cuba.

Suas certezas foram parcialmente abaladas nas viagens seguintes, mas o navegador nunca chegou a pensar que aportara em um novo continente. Sua quarta viagem o teria levado, segundo escreveu, à província de “Mago”, “fronteiriça à de Catayo”, ambas na China.

Apesar disso, Colombo revestiu seus relatos com um tom profético. “Estou convencido de que se trata do paraíso terrestre”, disse a respeito da foz do rio Orinoco, no território das atuais Colômbia e Venezuela. Quando voltou à Europa, ele chegou a redigir um “livro de profecias”, no qual juntou citações bíblicas a textos de cosmografia e de profetas medievais numa tentativa de, aparentemente, relacionar o Novo Mundo aos reinos míticos de Társis e Ofir, citados no Antigo Testamento. A obra não chegou a ser terminada.

Somente nos últimos anos de sua vida o genovês considerou a possibilidade de ter descoberto terras realmente virgens. Mas foi necessário certo tempo para que a existência de um novo continente começasse a ser aceita pelos europeus. Américo Vespúcio foi um dos primeiros a apresentar um mapa com quatro continentes. Mais tarde, em 1507, a nova terra seria batizada em homenagem ao explorador italiano. Um ano depois da morte de Colombo, que passou a vida sem entender bem o que havia encontrado.

Fernão de Magalhães deu a volta ao mundo? FALSO!

O navegador português comandou e planejou a expedição marítima que realizou a primeira circum-navegação do globo, no século XVI. Mas ele não chegou a completar o périplo.





Fernão de Magalhães (1480-1521) foi protagonista de uma das maiores aventuras do século XVI. Em busca de uma rota para o Oriente, o navegador português planejou e comandou a expedição que deu a primeira volta ao mundo. No entanto, Magalhães não conseguiu concluir o percurso: morreu no caminho.

Isso não diminui em nada o fato de que sua viagem, nas condições da época, tenha sido uma grande conquista. Segundo relato do italiano Antonio de Pigafetta (1480 ou 1491-1534), um dos únicos sobreviventes e historiógrafo da expedição, a aventura teve mais momentos de adversidades e milagres que de marcha vitoriosa.

As cinco caravelas de Magalhães – San Antonio, Victoria, Concepción, Santiago e Trinidad (capitânia) –, com seus 240 homens, zarparam de Sevilha em 10 de agosto de 1519 e conseguiram passar por Cabo Verde, sem obstáculos, no começo de outubro.

Depois de percorrer esse trajeto, clássico e conhecido, os perigos inerentes a todas as travessias oceânicas pareciam multiplicados por dez naquele começo do século XVI. Confrontados com uma terrível tempestade no Atlântico, os marinheiros não esperavam nada além da hora de perecer.

A salvação da expedição foi creditada às aparições de "são Telmo, santa Clara e são Nicolau", diante das quais os membros da tripulação "clamaram misericórdia", conforme relatou Pigafetta. O que ocorreu, efetivamente, foi que eles avistaram os chamados "fogos de Santelmo", um fenômeno atmosférico ligado à tempestade que produz halos de luz elétrica no alto dos mastros. No mês de março de 1520, Magalhães e seus homens aportavam para uma escala na baía de San Julián, então no Brasil (hoje Argentina).

Ao longo de cinco meses de invernada, surgiram insurreições. "Os comandantes dos outros navios tramaram uma traição contra o capitão-geral para tentar matá-lo", relata Pigafetta. Magalhães mandou decapitar Gaspar de Quesada, o capitão da #Concepción#, depois abandonou Juan de Cartagena, o antigo capitão da #San Antonio#.

Além dessas rebeliões, conforme a expedição avançava perdia navios. A embarcação #Santiago# naufragou enquanto explorava a costa da Patagônia. Os navios restantes seguiram pelo Pacífico e chegaram ao arquipélago de Saint-Lazare – atual Filipinas – em 27 de março de 1521. Foi nessa época que perderam Magalhães. Em 27 de abril, durante um contra-ataque de insulares, foi atingido no rosto por uma "lança feita de cana envenenada, que o matou subitamente", como relatou Pigafetta.

A #Concepción# seria incendiada em 3 de maio e, em 18 de dezembro, seria a vez da #Trinidad# afundar. Mas a pior calamidade ainda era a fome: "Nós só comíamos velhos biscoitos transformados em poeira e cheios de vermes, fedendo a urina de rato", escreveu Pigafetta. Com a fome, vinha a doença, principalmente o escorbuto.

Ao final da expedição, havia apenas um navio, o #Victoria#, com água entrando por todos os lados. Uma parte da carga de especiarias teve de ser jogada ao mar para que a embarcação seguisse mais leve. Em maio de 1522, a nau ultrapassaria o cabo da Boa Esperança. Dezoito de seus homens conseguiriam retornar a Sevilha. Sem Magalhães.

A Inquisição tinha poderes absolutos. FALSO!

Prisões arbitrárias, condenações sem julgamento e torturas: os inquisidores eram mais cruéis e autoritários que a justiça secular, certo? Errado!


Inquisição: morte de Giordano Bruno


Que imagens nos vêm à mente quando pensamos na palavra “Inquisição”? Confissões arrancadas sob tortura e o brilho das fogueiras expurgando os pecados de hereges. Em termos práticos, o Santo Ofício foi um tribunal da Igreja Católica romana, investido do direito canônico e encarregado de tomar decisões sobre os casos de comportamento contrário aos dogmas religiosos. Essa jurisdição excepcional representava, em meio à fragilidade dos tribunais eclesiásticos regulares, a autoridade do próprio papa.

Com a renovação do direito romano, já na Idade Média, a área de atuação dos procedimentos inquisitoriais foi sendo gradualmente alterada. Em um primeiro momento, durante os séculos XII e XIII, seu objetivo foi preservar a disciplina eclesiástica; em seguida, a Igreja passou a se servir da repressão na luta contra as heresias, mas de uma maneira diferente daquela que costumamos imaginar.

Os castigos aplicados pela instituição, por exemplo, eram reproduções das punições já instituídas pelo poder temporal, que em geral se encarregava de condenar e queimar os hereges, as feiticeiras ou os sodomitas. Em uma sociedade na qual imperava a fé, é de supor que os poderes civis se apropriassem, na tentativa de combater a desordem social ou os inimigos públicos, das prerrogativas religiosas.

Os procedimentos do tribunal eclesiástico eram tão rudimentares quanto os da autoridade civil da época. Algumas vezes, eram até mais progressistas: um notário transcrevia todos os debates, e os acusados não ficavam presos durante todo o inquérito, podendo recusar determinado juiz ou apelar para Roma contra alguma decisão do tribunal. Os que confessavam seus erros recebiam uma penitência religiosa – a fustigação pública durante a missa, a responsabilidade de cuidar de um pobre, o confisco dos bens, o exílio ou a peregrinação. Caso contrário, eram excomungados.

O recurso da tortura, muito comum nos tribunais seculares, não foi uma constante na Inquisição: a instituição recorreu muito raramente a esse procedimento. Ao todo, menos de 10% dos julgamentos envolveu a agonia física dos acusados. Com a imposição de uma regra que proibia os eclesiásticos de derramar qualquer gota de sangue dos réus, várias das confissões obtidas sob tortura perderam sua validade. Ao fim e ao cabo, o tribunal religioso condenou pouco.

Ou seja: o aparelho repressor da Inquisição foi bem menos implacável do que o civil. Por que, então, mantemos essa imagem tão sombria do Santo Ofício?

A memória coletiva acabou retendo o episódio da cruzada contra os albigenses, lançada pelos grandes barões do norte da França para acabar com a heresia dos cátaros no sul do país entre 1208 e 1249. Mas foi, sobretudo, o fanatismo do inquisidor espanhol Tomás de Torquemada, no século XV, que marcou definitivamente o espírito do Ocidente europeu. Então vieram a Reforma protestante do século XVI, o antipapismo da Igreja Anglicana, a luta do iluminista Voltaire contra o obscurantismo e, finalmente, o anticlericalismo dos séculos XIX e XX: um conjunto de elementos que pintaram um quadro tenebroso e distorcido da Inquisição. E essa é a imagem que ainda repousa na mentalidade de nosso tempo.

Fonte: História Viva
Imagens: Internet

quinta-feira, 3 de março de 2011

A HUMILHAÇÃO /  INVISÍVEL



por Luíz Horácio Rodrigues




As personagens de Invisível, Paul Auster cabem em A humilhação, Philip Roth e vice versa, sem prejuízo para roteiro e cenário.




Humilhação, segundo o dicionário Aurélio, também significa rebaixamento moral. Adam Walker, de Invisível, é um de seus representantes. No mesmo dicionário, encontramos para Invisível: que se esconde, não se deixa ver, que se recusa a receber qualquer (ou determinada) pessoa. O ator de teatro Simon Axler, protagonista de A humilhação, se enquadra perfeitamente nessa definição.




Philip Roth
Como você pode perceber, caro leitor, traços comuns unem esses dois livros intensos e indispensáveis.


Em A humilhação temos um ator que num determinado dia perde, ou esquece, a capacidade de representar. À perda do talento une-se o medo, o pânico que o impede de sequer cogitar subir ao palco. Logo ele, considerado "o último dos grandes atores do teatro clássico" americano. A partir daí o leitor mergulhará no tema preferido, ou seria o único tema de Philip Roth?, o declínio, o fim. A morte é uma nuvem que paira sobre a obra de Philip Roth. Aqui veste o uniforme do suicida.


Invisível, por sua vez, é um surpreendente, complexo sem ser hermético, romance de formação com tempero na dose exata; crime, loucura, ofensas, incesto, livros dentro do livro.



O ator Axler justifica sua saída de cena com o esgotamento do impulso. Tal impulso seria o sexual? Pode ser,visto que sua súbita melhora ocorre quando se apaixona por Pegeen,lésbica, filha de um casal de velhos amigos, trinta anos mais nova. Nessa mesma trilha o leitor encontrará, em Invisível,o episódio do incesto. O que leva a este aprendiz que ora redige estas pensadas linhas a suspeitar que o impulso sexual, o desejo, também seja uma necessidade e sendo assim carregue a prerrogativa de superar as questões morais. O intrincado enredo de Auster lança nuvens de ambigüidade sobre a questão do incesto,pode ter sido tão somente fruto da imaginação de Walker. Mas quem arrisca afirmar que imaginar não signifique desejar?



De um jeito ou de outro Auster confirma o que diz Maurice Blanchot (1), La littérature est le langage qui se fait ambiguité. Linguagem aliada a criatividade , um autor que entrega ao leitor o que de melhor pode permitir a influência de Samuel Becket, de Sartre, e um Joyce excitantemente saboroso.





Maurice Blanchot

Semelhantes estruturalmente, o livro de Auster apresenta quatro partes enquanto o de Roth, segundo a tradição do teatro clássico é apresentado em três atos. As semelhanças cessam aqui. Humilhação segue a tradição das narrativas lineares, o leitor segue confortavelmente a cronologia.




Paul Auster
Os atos são bem diversos


No primeiro, o leitor se defrontará com a angústia do ator em crise, algo semelhante a síndrome do pânico, que o impede de exercer sua profissão, cogita suicidar-se.Logo a internação numa clínica.O segundo ato traz à cena um Simon Axler apaixonado pela filha de antigos amigos seus, lésbica, e com interesse renovado pela vida e pela profissão.Examina inclusive a possibilidade de ter um filho com Pegeen. A humilhação, a derrota, o ingênuo que acreditou numa relação impossível, é descrita no terceiro e último ato. Axler consegue, enfim, representar. Faz do sótão o seu palco na cena final de A gaivota, de Tchécov, jovem aspirante a escritor que se sente um fracassado em tudo, desesperado com as derrotas no trabalho e no amor. A última cena do livro, a última cena da vida de Simon Axler.






Humilhação é uma ode ao fracasso, Ele perdera a magia. O impulso se esgotara, essa a fala de abertura do drama de Roth. Uma história de cartas marcadas.Inclusive o romance de Axler com Pegeen permite ao leitor antever o desfecho trágico. A qualquer momento Pegeen pode retorna a sua rotina homossexual, ela não o ilude. Não há necessidade, Axler se encarrega disso.



A impossibilidade de representar, de memorizar seu texto, o medo de subir ao palco, fica em segundo plano diante da relação Axler/Peggen. O que a princípio leva o leitor acreditar que uniriam o útil ao agradável, conduzi-la a uma vida hetero em contrapartida ela seria o motivo de seu retorno aos palcos, não se confirma. Axler perde a autenticidade, seu único bem ainda preservado. A humilhação é de um pessimismo a toda prova. Um confronto com a morte, sem efeitos especiais, como costuma ser o grande teatro.



Invisível, se não se alinha a obra de Roth, também não chega atuar como antagonista. Há muito do absurdo na morte, no suicídio ainda mais, na luta pela afirmação da identidade, no vazio cruel da solidão. Talvez o mais absurdo, o mais bizarro dos caminhos, seja aquele que conduz à ilusória justificativa para o sentido da vida.


Se a morte é uma nuvem sobre a obra de Philip Roth, em Invisível temos os mortos e a culpa. Você recorda o que leu acima quando citei James Joyce? Então leia o conto Os mortos, do livro Dublinenses(2) :Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se.





À "presença" dos mortos junte a culpa, lembranças acendendo remorsos, fortalecendo medos. O medo é bom, continuei, repetindo as palavras que ele mesmo tinha usado em sua primeira carta, o medo é o que nos leva a correr riscos e ir além de nossos limites normais ...



Recordar. Adam Walker recorda o tempo em que era um aspirante a poeta e estudante de letras na Universidade de Columbia,corria o ano de 1967, seu encontro com o professor Rudolf Born e sua misteriosa companheira, Margot . Conheceram-se numa festa e logo o professor apresentaria seu plano; financiar uma revista literária, transformaria desse modo o estudante e editor responsável. Adam desconfia, mas o dinheiro farto não permite que escape do projeto de Born. O mistério não cerca Margot, apenas. O mecenas também é pleno de pontos obscuros.


Certa noite, os dois andam pelas ruas, e acontece uma tragédia. Fator determinante para o fim das relações afetivas e profissionais entre Born e Walker. A história,a partir daí, terá suas cenas em Paris.



Adam Walker, ao contar a história, está com mais de sessenta anos, e não consegue dar conta de tamanha complexidade, a memória o trai, a expressão exige rigor. Entram em cena outros personagens. O escritor James Freeman, um antigo colega de Walker. É ao escritor que Walker envia capítulos de seu livro na intenção de obter ajuda para sua conclusão. Quanto à barreira que com que ele havia topado, escrevi que todo mundo em algum momento dá de cara com barreiras desse tipo, e na maioria das vezes a condição para ficar com um bloqueio provém de alguma falha no pensamento do escritor - isto é, ele não compreende plenamente o que está querendo dizer ou, de modo mais sutil, abordou seu assunto por um ângulo errado.



Logo entrará em cena Gwyn, irmã de Walker, vem à tona o incesto, um dos pontos altos da narrativa de Auster. Terá sua vez também Cécile, enteada de Born, que nutriu uma paixão por Walker e escreveu num diário detalhes daqueles tempos. O final de Invisível é de fácil previsão, o que não diminui em nada seu brilhantismo.



Em tempos de literatura cansada,ou obediente às leis do mercado, Paul Auster oferece ao leitor um romance tecido por diferentes vozes e tempos narrativos. A generalidade está em não tornar tais alternâncias um obstáculo à compreensão do leitor. A leitura flui, os fantasmas da narrativa acordam, os meus também. Faço votos que ocorra o mesmo com os seus, paciente leitor.



Sugestão: comece a leitura por A humilhação. O invisível, desde o nosso nascimento está a nossa espera.




  • (1)BLANCHOT, Maurice. De Kafka à Kafka,Édittions Gallimard, Paris,1981
  • (2)JOYCE, James. Dublinenses, in Os mortos, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002

*Luíz Horácio Pinto Rodrigues - Natural de Quaraí, pequeno município gaúcho na fronteira com o Uruguai, é formado em Letras e faz mestrado na mesma área. Viveu sua juventude na terra natal e em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Letras e passou cerca de vinte anos ali, escrevendo e colaborando com páginas literárias de várias publicações. Sua principal obra é a denominada Trilogia Alada, inaugurada com Perciliana e o pássaro com alma de cão, seguida de Nenhum pássaro no céu, e encerrada agora com Pássaros grandes não cantam.
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

D. João teve bastarda com sangue azul
(Notas Arqueológicas)



por Cláudia de Castro Lima

D. João VI


Dom João, o príncipe regente de Portugal que fugiu das tropas napoleônicas de mala e cuia para o Brasil, teve alguns filhos bastardos. E daí? Carlota Joaquina, sua mulher, também (desconfia-se que cinco de seus nove filhos não eram do marido). O que torna a filha do título – que, a propósito, chamava-se Eugênia Maria do Rosário – tão especial a ponto de ganhar um livro, O Segredo da Bastarda. [...]



Marquês de Marialva

A resposta encontra-se na mãe de Eugênia Maria, Eugênia de Meneses. Nobre, filha do marquês de Marialva, ela era dama de companhia de Carlota Joaquina, muito respeitada e estudada. Por isso, a princesa sentiu que a bastarda poderia, de alguma forma, representar uma ameaça à sucessão do trono.

Da. Carlota Joaquina

O relacionamento de Eugênia com a Coroa, para quem o pai trabalhava, era próximo. Ela era amiga da princesa desde que esta tinha 10 anos – quando saiu da Espanha para se casar com o príncipe João. Da amizade de infância ao convite para virar dama de companhia foi uma questão de tempo. Culta, divertida, bonita e dona de um belo par de olhos azuis, Eugênia logo despertou a atenção do príncipe regente, que fez diversas visitas secretas ao quarto dela – até que a engravidou.

De acordo com a escritora Cristina Norton, que pesquisou a vida de Eugênia por cinco anos para escrever O Segredo da Bastarda, quando Carlota ficou sabendo do que ocorrera mandou matar Eugênia. Ela foi obrigada a se afastar da família e a se esconder para o resto da vida em conventos – onde a filha nasceu e vi
veu até os 15 anos. Leia abaixo trechos da entrevista exclusiva que Cristina deu a História.



Entrevista


Cristina Norton


História – Como você descobriu a história de Eugênia e sua filha?


Cristina Norton – Li no livro A Última Corte Absolutista em Portugal uma menção ao fato de o rei só ter amado uma vez, e sua paixão ter sido Eugênia de Meneses. Nunca tinha ouvido isso e fiquei curiosa.


Um rei ter uma amante nunca foi novidade. Por que o caso de Eugênia desperta atenção?


D. João VI teve outros filhos bastardos. Um deles trabalhava nos jardins reais e, por chacota, era chamado de príncipe pelos colegas. Mas ele era filho de uma camponesa, não representava perigo para Carlota Joaquina. Já Eugênia era diferente. Ela pertencia à família mais importante de Portugal. Era uma rival para a princesa.

Eugênia se apaixonou por dom João?


Não. Me intrigou o fato de não ter achado nenhuma paixão dela. Antes de engravidar ela já havia decidido que nunca se casaria.


Como foi a vida da filha bastarda depois da morte da mãe?


Eugênia viveu com a filha num convento até ela ter 15 anos, quando morreu. Dom João, que mandava dinheiro todo mês para ela, pediu que um médico de sua confiança tirasse a menina do convento e a levasse para morar com ele, como se fosse sua filha. Só que Eugênia Maria se apaixonou pelo filho do médico. Pediu autorização do rei para casar-se com ele, mas não a obteve – se isso ocorresse, seria a prova de que eles não eram irmãos. Por isso, ela foi obrigada a casar-se com o bastardo do rei da Inglaterra, que era cônsul de Lisboa.

Fonte: "Aventuras na História"
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