segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Aisha - A favorita do profeta Maomé - uma relação de ciúmes e traição.

Entre as 13 esposas de Maomé, Aisha era a predileta. Ciumenta e inteligente, seus relatos da vida conjugal viraram modelos de conduta e influenciaram a tradição muçulmana


por Adriana Maximiliano

Aisha bint Abu Bakr tinha 6 anos e estava se divertindo num balanço, no quintal, quando soube que ia se casar. A mãe da menina deu a notícia e avisou que, a partir daquele dia, estava proibido "brincar fora de casa". O futuro marido era o melhor amigo do seu pai e tinha 51 anos. Em uma cerimônia sóbria, na casa da família da noiva, em Medina, Arábia Saudita, a união foi oficializada em 623 d.C. Ela contava 9 anos e se tornava a terceira mulher de Maomé, o criador do islamismo. Foi, para sempre, a preferida do seu harém. Quando perguntaram ao profeta a quem mais amava no mundo, ele foi direto: Aisha. Nos braços dela, morreu nove anos depois, e no quarto da favorita foi enterrado.
A vida de Aisha é tema de um polêmico romance lançado na Europa e nos Estados Unidos, The Jewel of Medina, da norte-americana Sherry Jones. A editora Random House desistiu da publicação, após ameaças terroristas, e a casa da dono da Gibson Square, Martin Rynja, que insistiu na iniciativa, sofreu uma tentativa de incêndio. Os críticos consideraram o livro uma piada de mau gosto. Sherry desenha Aisha como uma menina ocidental do século 21, caída de paraquedas no colo de Maomé.




Aisha e Maomé

Mas o que se sabe realmente sobre a história dessa jovem? Segundo uma das principais biógrafas das esposas de Maomé, Nabia Abbott, a menina e o profeta costumavam tomar banho juntos e até brincavam de boneca. Foi ao lado dela que ele teve a maior parte de suas revelações, as verdades fundamentais que iriam compor o Corão. E a própria Aisha contou que Maomé gostava de rezar com a cabeça recostada em seu colo, enquanto suava vigorosamente e ouvia sinos tocar. Embora sejam escassos os registros sobre a aparência física da jovem, provavelmente de cabelos e olhos castanhos, como a maioria das moças árabes, os textos apontam pelo menos uma diferença entre Aisha e as outras 13 esposas (e duas concubinas): era a mais jovem e foi a única a casar virgem.

Mel e ciúme





O casamento com crianças era comum na época e Aisha jamais se lamentou. Pelo contrário, era possessiva e ciumenta. Uma vez, armou um plano para afastar o marido de sua quarta esposa, Hafsa, com quem ele andava se demorando mais do que o costume. O profeta adorava doce e Hafsa havia ganhado um pote de mel, verdadeiro motivo das atenções especiais que vinha recebendo. Aisha, então, chamou outras duas esposas, Sawda e Safiyya, e combinou que todas deveriam reclamar do hálito do esposo e culpar a alimentação das abelhas pelo cheiro ruim. Deu certo. Ele ficou cismado e não quis mais o mel de Hafsa.





Mas o que assombrava mesmo Aisha era o fantasma de Khadija bint Khouweylid, a primeira esposa de Maomé, rica, mais velha que ele e morta três anos antes do casamento da menina. Roía-se de ciúme porque o marido fora fiel a Khadija, que, por sua vez, o ajudara a fundar o islamismo. Foi para ela que ele primeiro contou sobre a visão do anjo Gabriel. Tiveram seis filhos - dois meninos, que morreram, e quatro meninas. Maomé seria pai somente mais uma vez, com uma de suas concubinas - mas o menino, Ibrahim, também morreria na infância.



Um mês depois da morte de Khadija, no ano 619, Maomé decidiu se casar de novo, por sugestão de uma tia, Khawla bint Hakin. Ela também sugeriu opções de noiva: "Se quiser uma virgem, [case] com Aisha, filha de seu amigo Abu Bakr. Se quiser uma não-virgem, com Sawda". Viúva vinda da Abissínia, a segunda indicação da tia do profeta aceitou de pronto o pedido, e eles se casaram.

Abu-Bakr, que era então o mais importante aliado de Maomé, também concordou em ceder a filha. Mas Aisha estava prometida a outro e era necessário desfazer o compromisso. Foi fácil. Os pais do menino eram cristãos e cancelaram o trato com alívio. Assim, começaram as visitas diárias do novo pretendente à namorada.

A união aconteceu logo depois da mudança de Meca para Medina, fugindo da perseguição dos judeus. Chamado de hégira, o êxodo de Maomé e de seus seguidores inaugurou o islamismo, em 622 da era cristã. A fuga deu início ao calendário maometano e fim à infância de Aisha. “Nenhum camelo ou ovelha foi sacrificado no meu casamento”, contaria ela. Todas as atenções estavam concentradas em consolidar a nova religião.


O Alcorão


Em Medina, ele construiu apartamentos de tijolo para cada uma das esposas. O local onde ficava o de Aisha, hoje, é a Mesquita de Medina. Ninguém imagine um palácio. “Os apartamentos das mulheres de Maomé eram tão pequenos que mal se podia ficar de pé dentro deles. Ele não tinha casa. Passava cada noite com uma esposa e o apartamento dela virava a sua residência durante o dia”, escreveu Karen Armstrong no livro Muhammad: a Prophet for our Time (“Maomé: um profeta para o nosso tempo”), sem edição em português.

Divórcio coletivo



Meca

Fora Aisha e Khadija, todas as mulheres de Maomé eram viúvas de aliados, que ele desposou para não deixá-las desamparadas. A menina, diferentemente, não foi escolhida por conveniência. E seus privilégios logo ficaram evidentes. Assim que Aisha entrou na vida do profeta, ele passou a evitar Sawda, que, com medo de ser abandonada, cedeu à rival seu dia (e noite) com o marido, garantido por direito. A história inspirou o versículo 128 da surata (capítulo) do Corão: “Se uma mulher notar indiferença ou menosprezo por parte de seu marido, não há mal em se reconciliarem amigavelmente, porque a concórdia é o melhor, apesar de o ser humano, por natureza, ser propenso à avareza”.

Os textos da Suna, código de ética islâmico, do século 8, também destacam o favoritismo. “A superioridade de Aisha em comparação às outras mulheres é como a do tarid [um prato de pão e carne que ele adorava] em relação a outros tipos de comida. Muitos homens alcançam esse nível de perfeição, mas nenhuma mulher o conseguiu, exceto por Maria, filha de Imran, e Asia, a mulher do Faraó”.

A preferência, contudo, nunca significou exclusividade. Quando Aisha perguntou ao profeta quem seria a sua mulher no paraíso, ele avisou: “Você será uma delas”. E, numa crise entre as esposas, ele até ameaçou se separar de todo o harém: ou as mulheres aceitavam suas condições ou ia pedir o divórcio. Diversas versões explicam a medida drástica. Segundo uma delas, Aisha e Zeinab bint Khuzainah, a quinta esposa, começaram uma disputa por animais abatidos. Outra versão diz que a quarta esposa, Hafsa, flagrou Maomé com uma concubina no dia de Aisha e contou a ela. Ao retornar das montanhas, um mês depois, nenhuma quis deixá-lo.



Ascensão de Maomé

Maomé morreu deitado no chão do quarto de Aisha, com a cabeça no colo dela, em 632. As outras mulheres consentiram que, enquanto tratava de sua doença misteriosa, ficasse com a esposa preferida. O corpo foi enterrado no mesmo cômodo, que passou a ser chamado de Quarto Sagrado.

Com a morte do marido, Aisha se dedicou aos estudos. Tinha 18 anos, mas não teve filhos e foi proibida de casar de novo. Assim como as outras, não recebeu herança do profeta, que doou seus bens para caridade. Mas, pelo Quarto Sagrado, ganhou 200 mil dirhams, tanto dinheiro que precisou de cinco camelos para transportá-lo. As viúvas ficaram conhecidas como Mães dos Crentes e eram muito respeitadas. Em 641, começaram a receber uma pensão do Estado. Por ter sido a favorita, Aisha ganhava mais.

O pai da jovem esposa, Abu Bakr, virou o primeiro califa, sucessor do profeta e com poderes sobre todos os muçulmanos. O posto só foi extinto em 1924, quando a Turquia aboliu o Império Otomano. Mas, até lá, as disputas deixaram marcas. O quarto califa, Uthman ibn Affan, governou por 12 anos conturbados, até ser assassinado e substituído por Ali ibn Abu Talib, primo e genro de Maomé, marido de sua filha Fátima, e um antigo desafeto de Aisha.

Na guerra civil contra Ali, ela protagonizou, em 4 de dezembro de 656, sua primeira e única experiência militar. Por causa de Aisha, o confronto ficou conhecido como a Batalha do Camelo. A viúva poderosa foi à praça de guerra em seu camelo, Askar, dar apoio moral aos aliados, escondida por trás dos véus da sua howdah (o assento alto, usado sobre a sela). Mas Ali a descobriu e ordenou a todos os seus homens que atacassem Askar. O camelo e centenas de soldados morreram e Aisha acabou presa. Os muçulmanos, daí em diante, iriam se dividir entre xiitas, partidários de Ali, e sunitas, do rival Amir Muwiya.

O desastre no campo de batalha afastou Aisha da política e serviu de pretexto para que, no século 10, os muçulmanos atribuíssem à mulher um papel desbotado, escondida sob véus da cabeça aos pés. Na época de Maomé não era assim. Suas esposas usavam véus discretos, cobrindo o colo e apenas parcialmente a cabeça. Aisha morreu em 678, de doença desconhecida. Segundo as feministas, ela foi absolutamente relevante para a construção da tradição islâmica, como demonstram os seus muitos relatos que, mesmo vindos de uma mulher, foram incorporados à Suna.

O caso do colar

Uma carona de camelo gera perigosas suspeitas de adultério




As esposas de Maomé costumavam acompanhá-lo nas batalhas, encarregadas de levar a água, alimentar os guerreiros e cuidar dos feridos. Certa vez, Aisha se desgarrou e o episódio gerou uma crise política para o profeta. Depois da Batalha da Trincheira, contra os judeus, em 628, Maomé passou a fazer expedições fora de Medina. Em uma delas, na hora de levantar acampamento, Aisha se afastou - segundo ela, para urinar - e, na volta, notou que tinha perdido um colar de ágatas. Refez o caminho para procurá-lo e, embora tenha encontrado a joia, perdeu-se do grupo. O condutor dos camelos pensou que ela estivesse na howdah (assento sobre as selas dos camelos), que tinha as cortinas cerradas, e partiu. Aisha, por sua vez, adormeceu, esperando que viessem buscá-la, até ser acordada por um jovem muçulmano, Safwan ibn al-Muattal. Ele a levou a Medina, de carona num camelo. Mas, ao chegarem juntos, suspeitas de traição correram a cidade. O profeta aconselhou-se com o genro Ali ibn Abu Talib, que nunca gostou de Aisha e julgou-a culpada. Procurou a escrava da mulher, que, por sua vez, a defendeu. Resolveu visitar a esposa: “Se você é inocente, Alá vai absolvê-la. Mas, se é culpada, peça pela misericórdia Dele”. Na mesma noite, teve uma revelação. “Alá, o Altíssimo, mostrou que você é inocente”, contou a Aisha. Chicoteou então três acusados de espalhar os rumores e ditou o capítulo 24 do Corão: “São necessárias quatro testemunhas para alguém ser declarado culpado de adultério”.

Contos de fé

Ditados sagrados falam da vida do profeta e ditam normas
A história de Aisha, assim como a de Maomé, foi preservada por meio de relatos feitos por ela mesma e por outros seguidores do profeta. Esses testemunhos são conhecidos como ahadith ou, no singular, hadith (ditado, em árabe). Maomé ditou o Corão, livro sagrado do islamismo. Mas, quando ele morreu, muitas normas de conduta não estavam estabelecidas, e as suas viúvas eram consultadas para desfazer dúvidas éticas. Aisha foi a que mais colaborou. Com excelente memória, lembrava com detalhes de situações pelas quais o profeta passara, o que ele dissera e como teria agido na ocasião. Tornou-se, assim, peça importante para todo o Islã: os milhares de ahadith formam a Suna, o código mais importante dos muçulmanos, depois do Corão. O historiador Imam Bukhari, um dos mais conceituados no Islã, estudou cerca de 500 mil ahadith no século 9 e atestou que apenas 7275 eram verdadeiros. Destes, 2210 são atribuídos a Aisha.


Saiba mais

LIVROS

Maomé: uma Biografia do Profeta, Karen Armstrong, Companhia das Letras, 2002

Biografia de Maomé que conta diversos episódios da vida de Aisha.

The Beloved of Mohammed, Nabia Abbott, The University of Chicago, 1942

A principal biografia de isha.

SITE : www.usc.edu/dept/MSA/fundamentals/hadithsunnah/ - Textos da Suna (em inglês).

Fonte: http://historia.abril.com.br/gente/favorita-profeta-479973.shtml

Imagens: Internet

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Mitologia Grega: nem Zeus se salva

As histórias parecem filme de terror. E os deuses do Olimpo estão mais
para capeta que para santo

Os gregos bem que poderiam ter sido roteiristas de filmes de terror. As histórias que cercam cada divindade, cada ser mitológico, são impressionantes. Como quase todos os povos, eles atribuíam os fenômenos inexplicáveis à ação dos deuses. Ou eram obra de heróis do passado. A criação do mundo, é claro, foi obra desses seres superiores. Segundo historiadores, os antigos gregos não chegaram a um acordo sobre como foi a criação do mundo e quem era o deus responsável no momento.

Na mitologia grega, deuses e deusas formavam uma imensa e confusa família. Por um lado, comportavam-se como seres humanos comuns: amavam, odiavam, comiam, bebiam, tinham filhos, eram cruéis e vingativos. Eram também imortais, poderosos e muito sensíveis. Qualquer pisada na bola, por menor que fosse, desencadeava um castigo descomunal, mesmo entre eles lá em cima. E aí entrava a criatividade alucinada dos gregos. Para evitar essa situação desagradável, os adivinhos tentavam “ler” o desejo dos deuses no vôo das aves, nas entranhas de animais sacrificados e nos sonhos. Havia também os oráculos, locais sagrados onde um deus respondia às perguntas dos fiéis através de um intermediário (o sacerdote) em estado de êxtase. O oráculo mais famoso era o de Apolo, na cidade de Delfos.

Doze deusesda terceira geração de deuses desde a criação do mundo – acabaram caindo mais no gosto da população. Eram os primeiros com aspecto humano. Viviam no monte Olimpo, no norte da Grécia. Mais tarde, o Olimpo tornou-se um lugar abstrato, acima das nuvens. Os doze bambambãs eram: Zeus, senhor do raio e pai dos deuses e dos homens; Hera, protetora do casamento; Deméter, deusa da agricultura; Poseidon, senhor dos mares; Afrodite, deusa do amor sensual, esposa de Hefesto e amante de pelo menos outros quatro; Atena, deusa da sabedoria; Ares, deus da guerra; Apolo, deus da adivinhação, da música e da medicina, além de ser o galã da família; Ártemis, deusa da caça e protetora da vida selvagem – seu templo é uma das Sete Maravilhas da Antiguidade; Hefesto, deus do fogo e dos metais; Hermes, protetor dos ladrões, condutor da alma dos mortos e mensageiro dos deuses; Dionísio, deus do vinho e da embriaguez. Hades, irmão de Zeus, era menos popular porque tinha uma atribuição ingrata: ele era o soberano do mundo subterrâneo, ou seja, dos mortos.

Quando um deus transava com um mortal, nascia um herói (ou semideus). Esse ser era capaz de feitos mirabolantes, mas morria como qualquer um de nós. O mais famoso até hoje é Héracles (que os romanos chamaram de Hércules).

Como se não bastasse essa gentarada toda, eles ainda criaram animais mitológicos, como a esfinge (que tinha corpo de leão, cabeça de mulher e devorava quem não decifrasse seus enigmas); os centauros (metade homem, metade cavalo); cães de três cabeças; serpentes gigantes e sereias (que tinham corpo de ave, e não de peixe, e busto de mulher). Também havia os doze Titãs e seus irmãos monstruosos, como os três hecatônquiros (de cem mãos e 50 cabeças) e os três ciclopes (gigantes com um olho só no meio da testa).

Festivais religiosos eram celebrados regularmente. Na cidade de Olímpia, de quatro em quatro anos eram realizadas as Olimpíadas em honra a Zeus. Além de cerimônias religiosas, havia concursos de poesia, competições atléticas e corridas de carros.
ZEUS DO CÉU



Para ser o chefe do Olimpo, Zeus destronou o próprio pai, Cronos. Cronos sabia que um filho iria destroná-lo, por isso tinha o péssimo hábito de devorar os pimpolhos assim que eles nasciam. Mais tarde Cronos tomou uma poção que não caiu bem e vomitou toda a filharada.

Zeus seguiu o mau exemplo do pai e, quando a esposa Métis estava grávida, engoliu a mulher para que ela não tivesse um filho mais poderoso que ele. Mas, durante uma batalha contra Hefesto, Zeus tomou uma machadada na cabeça, e do buraco saiu a filha que ele tinha engolido com mãe e tudo. Era Atena, já adulta, armada e perigosa.

Quando não estavam se matando, conpirando ou traindo, os deuses faziam altas baladas nos palácios do Olimpo. Lá eles comiam, bebiam, ouviam música e dançavam.

Atena


Nasceu de um buraco feito a machadada na cabeça do pai, Zeus.

Ares


Deus da guerra. Sua diversão era ver sangue.

Afrodite


Deusa da paixão sensual. Gerada pelos órgãos castrados do pai.
Ártemis



Matou o amado e transformou um caçador em veado.

Cronos



Castrou o pai, casou com a irmã e devorou os filhos.
Apolo



Deus da música, da profecia e da infestação de ratos.
Dioníso



Deus do vinho. Passou parte da gestação na coxa do pai.
Hermes



Ainda era bebê quando roubou o gado do irmão Apolo.

Hades



Soberano dos mortos. Ninguém ousava dizer seu nome.
Hera



Uma deusa venenosa: invejosa, ciumenta e agressiva.

Héracles



Hércules, para os romanos. Aos 8 meses, matou duas cobras.
Zeus
O soberano do Olimpo escapou de ser comido pelo pai.
Poseidon

Deus do mar. Um dos filhos que Cronos comeu.
Eros


Deus do amor. A mãe reclamava que o menino não crescia.

Para saber mais

Introdução aos Deuses Antigos, Ribeiro Jr., Portal Graecia Antiqua, São Carlos.
Imagens: Internet

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Vale tudo: Homossexualidade na antiguidade



Na Antiguidade, ninguém saía dizendo por aí que fulano era gay, mesmo que fosse. Por milhares de anos, o amor entre iguais era tão comum que não existia nem o conceito de homossexualidade.

por Humberto Rodrigues e Cláudia de Castro Lima

A união civil entre pessoas do mesmo sexo pode parecer algo bastante recente, coisa de gente moderna. Apenas em 1989 a Dinamarca abraçou a causa – foi o primeiro país a fazer isso. Hoje, o casamento gay está amparado na lei de 21 nações. Essa marcha, porém, de nova não tem nada. Sua história retoma um tempo em que não havia necessidade de distinguir o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo – para os povos antigos, o conceito de homossexualidade simplesmente não existia.

As tribos das ilhas de Nova Guiné, Fiji e Salomão, no oceano Pacífico, cerca de 10 mil anos atrás já exercitavam algumas formas de homossexualidade ritual. Os melanésios acreditavam que o conhecimento sagrado só poderia ser transmitido por meio do coito entre duplas do mesmo sexo. No rito, um homem travestido representava um espírito dotado de grande alegria – e seus trejeitos não eram muito diferentes dos de um show de drag queens atual.


Um dos mais antigos e importantes conjuntos de leis do mundo, elaborado pelo imperador Hammurabi na antiga Mesopotâmia em cerca de 1750 a.C., contém alguns privilégios que deveriam ser dados aos prostitutos e às prostitutas que participavam dos cultos religiosos. Eles eram sagrados e tinham relações com os homens devotos dentro dos templos da Mesopotâmia, Fenícia, Egito, Sicília e Índia, entre outros lugares. Herdeiras do Código de Hammurabi, as leis hititas chegam a reconhecer uniões entre pessoas do mesmo sexo. E olha que isso foi há mais de 3 mil anos.

Na Grécia e na Roma da Antiguidade, era absolutamente normal um homem mais velho ter relações sexuais com um mais jovem. O filósofo grego Sócrates (469-399), adepto do amor homossexual, pregava que o coito anal era a melhor forma de inspiração – e o sexo heterossexual, por sua vez, servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. Após os 12 anos, desde que o garoto concordasse, transformava-se em um parceiro passivo até por volta dos 18 anos, com a aprovação de sua família. Normalmente, aos 25 tornava-se um homem – e aí esperava-se que assumisse o papel ativo.

Entre os romanos, os ideais amorosos eram equivalentes aos dos gregos. A pederastia (relação entre um homem adulto e um rapaz mais jovem) era encarada como um sentimento puro. No entanto, se a ordem fosse subvertida e um homem mais velho mantivesse relações sexuais com outro, estava estabelecida sua desgraça – os adultos passivos eram encarados com desprezo por toda a sociedade, a ponto de o sujeito ser impedido de exercer cargos públicos.

Boa parte do modo como os povos da Antiguidade encaravam o amor entre pessoas do mesmo sexo pode ser explicada – ou, ao menos, entendida – se levarmos em conta suas crenças. Na mitologia grega, romana ou entre os deuses hindus e babilônios, por exemplo, a homossexualidade existia. Muitos deuses antigos não têm sexo definido. Alguns, como o popularíssimo hindu Ganesh, da fortuna, teriam até mesmo nascido de uma relação entre duas divindades femininas. Não é nada difícil perceber que, na Antiguidade, o sexo não tinha como objetivo exclusivo a procriação. Isso começou a mudar, porém, com o advento do cristianismo.

Sexo para procriar

O judaísmo já pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”. Até o início do século 4, essa idéia, porém, ficou restrita à comunidade judaica e aos poucos cristãos que existiam. Nessa época, o imperador romano Constantino converteu-se à fé cristã – e, na seqüência, o cristianismo tornou-se obrigatório no maior império do mundo. Como o sexo passou a ser encarado apenas como forma de gerar filhos, a homossexualidade virou algo antinatural. Data de 390, do reinado de Teodósio, o Grande, o primeiro registro de um castigo corporal aplicado em gays.

O primeiro texto de lei proibindo sem reservas a homossexualidade foi promulgado mais tarde, em 533, pelo imperador cristão Justiniano. Ele vinculou todas as relações homossexuais ao adultério – para o qual se previa a pena de morte. Mais tarde, em 538 e 544, outras leis obrigavam os homossexuais a arrepender-se de seus pecados e fazer penitência. O nascimento e a expansão do islamismo, a partir do século 7, junto com a força cristã, reforçaram a teoria do sexo para procriação.

Durante muito tempo, até meados do século 14, no entanto, embora a fé condenasse os prazeres da carne, na prática os costumes permaneciam os mesmos. A Igreja viu-se, a partir daí, diante de uma série de crises. Os católicos assistiram horrorizados à conversão ao protestantismo de diversas pessoas após a Reforma de Lutero. E, com o humanismo renascentista, os valores clássicos – e, assim, o gosto dos antigos pela forma masculina – voltaram à tona. Pintores, escritores, dramaturgos e poetas celebravam o amor entre homens. Além disso, entre a nobreza, que costumava ditar moda, a homossexualidade sempre correu solta. E, o mais importante, sem censura alguma – ficaram notórios os casos homossexuais de monarcas como o inglês Ricardo Coração de Leão (1157-1199).

No curto intervalo entre 1347 e 1351, a peste negra assolou a Europa e matou 25 milhões de pessoas. Como ninguém sabia a causa da doença, a especulação ultrapassava os limites da saúde pública e alcançava os costumes. O “pecado” em que viviam os homens passou a ser apontado como a causa dela e de diversas outras catástrofes, como fomes e guerras. Judeus, hereges e sodomitas tornaram-se a causa dos males da sociedade. Não havia outra solução a não ser a erradicação desses grupos. Medidas enérgicas foram tomadas. Em Florença, por exemplo, a sodomia foi proibida em 1432, com a criação dos Ufficiali di Notte (agentes da noite). O resultado? Setenta anos de perseguição aos homens que mantinham relações com outros. Entre 1432 e 1502, mais de 17 mil foram incriminados e 3 mil condenados por sodomia, numa população de 40 mil habitantes.

Leis duras foram estabelecidas em vários outros países europeus. Na Inglaterra, o século 19 começou com o enforcamento de vários cidadãos acusados de sodomia. E, entre 1800 e 1834, 80 homens foram mortos. Apenas em 1861 o país aboliu a pena de morte para os atos de sodomia, substituindo-a por uma pena de dez anos de trabalhos forçados.

Ciência maluca

Outro tratamento nada usual foi destinado tanto à homossexualidade quanto à ninfomania feminina: a lobotomia. Desenvolvida pelo neurocirurgião português António Egas Moniz, que chegou a ganhar o prêmio Nobel de Medicina de 1949 por isso, ela consistia em uma técnica cirúrgica que cortava um pedaço do cérebro dos doentes psiquiátricos, mais precisamente nervos do córtex pré-frontal. Na Suécia, 3 mil gays foram lobotomizados. Na Dinamarca, 3500 – a última cirurgia foi em 1981. Nos Estados Unidos, cidadãos portadores de “disfunções sexuais” lobotomizados chegaram às dezenas de milhares. O tratamento médico era empregado porque a homossexualidade passou a ser vista como uma doença, uma espécie de defeito genético.

A preocupação científica com os gays começou no século 19. A expressão “homossexual” foi criada em 1848, pelo psicólogo alemão Karoly Maria Benkert. Sua definição para o termo: “Além do impulso sexual normal dos homens e das mulheres, a natureza, do seu modo soberano, dotou à nascença certos indivíduos masculinos e femininos do impulso homossexual(...). Esse impulso cria de antemão uma aversão direta ao sexo oposto”. Em 1897, o inglês Havelock Ellis publicou o primeiro livro médico sobre homossexualismo em inglês, Sexual Inversion (“Inversão sexual”, inédito no Brasil). Como muitos da época, ele defendia a idéia de que a homossexualidade era congênita e hereditária. A opinião científica, médica e psiquiátrica vigente era de que a homossexualidade era uma doença resultante de anormalidade genética associada a problemas mentais na família. A teoria, junto das idéias emergentes sobre pureza racial e eugenismo nos anos 1930, torna fácil entender por que a lobotomia foi indicada para os homossexuais.

A situação só começou a mudar no fim do século passado, quando a discussão passou a se libertar de estigmas. Em 1979, a Associação Americana de Psiquiatria finalmente tirou a homossexualidade de sua lista oficial de doenças mentais. Na mesma época, o advento da aids teve um resultado ambíguo para os homossexuais. Embora tenha ressuscitado o preconceito, já que a doença foi associada aos gays a princípio, também fez com que muitos deles viessem à tona, sem medo de mostrar a cara, para reivindicar seus direitos. Durante os anos 80 e 90, a maioria dos países desenvolvidos descriminalizou a homossexualidade e proibiu a discriminação contra gays e lésbicas. Em 2004, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos invalidou todas as leis estaduais que ainda proibiam a sodomia.

“Em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana”, escreveu William Naphy, diretor do colégio de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, Reino Unido, em Born to Be Gay – História da Homossexualidade. “Nesse sentido, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade. No entanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana.” Para muitos, ainda hoje sair do armário continua sendo uma questão de tempo. As portas, no entanto, vêm sendo abertas desde a Antiguidade.

Este armário não te pertence

Personalidades que não escondiam suas preferências




O que tinham em comum pessoas como os imperadores Adriano e Nero, o filósofo Sócrates, o artista e inventor Leonardo da Vinci? Todos eles mantiveram relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. A homossexualidade experimentou ao longo da história da humanidade diversos altos e baixos. De comportamento absolutamente natural, passou a ser “pecado” e até a ser crime. Aqui, algumas histórias de personalidades que amaram seus iguais.


Alexandre, o Grande




O conquistador Alexandre, o Grande (356-323 a.C.), também foi conquistado. Seu amante era Hefastião, seu braço direito e ocupante de um importante posto no Exército. Quando ele morreu de febre, na volta de uma campanha na Índia, Alexandre caiu em desespero: ficou sem comer e beber por vários dias. Mandou proporcionar a seu amado um funeral majestoso: os preparativos foram tantos que a cerimônia só pôde ser realizada seis meses depois da morte. Alexandre fez questão de dirigir a carruagem fúnebre, decretando luto oficial em seu reino.

Júlio César



O romano Suetônio escreveu em seu As Vidas dos Doze Césares, livro do século 2, sobre os hábitos dos governantes do fim da república e do começo do Império Romano. Dos 12, só um deles, Cláudio, nunca teve relações homossexuais. O mais famoso, Júlio César (100-44 a.C.), teve aos 19 anos um relacionamento com o rei Nicomedes – César era o passivo. Entre todos os romanos, os mais excêntricos foram Calígula (12-41 d.C.) e Nero (37-68). O primeiro obrigava súditos a beijar seu pênis. O segundo teve dois maridos e manteve relações com a própria mãe.

Maria Antonieta



Segundo William Naphy no livro Born to Be Gay, havia um “reconhecimento generalizado da bissexualidade” da rainha da França Maria Antonieta (1755-1793). O escritor inglês Heste Thrale-Piozzi escreveu, em 1789, que a monarca encontrava-se “à cabeça de um grupo de monstros que se conhecem uns aos outros por safistas” – ou seja, lésbicas.

Ricardo Coração de Leão



As aventuras homossexuais do rei inglês Ricardo I (1157-1199) eram notórias na época. Um de seus casos, quando ele ainda era duque de Aquitânia, foi com outro nobre, Filipe II, rei da França. Uma crônica da época afirma: “Comiam os dois todos os dias à mesma mesa e do mesmo prato, e à noite as suas camas não os separavam. E o rei da França amava-o como à própria alma”. Outros monarcas europeus, como Henrique III da França (1551-1589) e Jaime IV da Escócia e I da Inglaterra (1566-1625), também tiveram vários amantes do mesmo sexo.

Oscar Wilde
O dramaturgo inglês (1854-1900) casou-se e teve dois filhos, mas também teve vários casos com homens. A relação mais marcante foi com o lorde Alfred Douglas, com quem mantinha o hábito de procurar jovens operários para o sexo. O pai do amante, o marquês de Queensberry, acusou Wilde de ser sodomita. O escritor processou o nobre por difamação – e arruinou-se. Foram três julgamentos, e o marquês juntara provas de sodomia contra ele. Wilde foi condenado a dois anos de trabalhos forçados. Na prisão, definhou – e morreu pouco tempo após deixar a cadeia.

Amor na ilha de Lesbos

Há muito pouco registro do lesbianismo até o século 18



O historiador romano Plutarco dizia, no século 1, que na cidade grega de Esparta todas as melhores mulheres amavam garotas. Apesar disso, há muito pouco registro sobre o lesbianismo até pelo menos o século 18. Os termos “lesbianismo” e “lésbica”, aliás, têm origem na ilha grega de Lesbos, no mar Egeu, local de nascimento da poetisa Safo (610-580 a.C.) – seu nome originou a palavra “safismo”. Embora os livros de Safo tenham sido queimados por ordem de Gregório de Nazianzus, bispo de Constantinopla, cerca de 200 fragmentos resistiram ao tempo e ao cristianismo. Os poemas revelam uma paixão exuberante ao amor feminino, o que faz crer que a autora tenha partilhado desse sentimento. É impossível, no entanto, afirmar se a autora realmente amou as mulheres que enaltece em seus poemas – ou se era apenas uma questão de estilo. Um dos primeiros códigos legais a fazer menção ao homossexualismo feminino é um francês de 1270. Ele estabelecia que o homem que mantivesse relação homossexual deveria ser castrado e, se reincidente, morto. E também que uma mulher que tivesse relações com outra mulher perderia o “membro” se fosse pega. Que “membro” seria cortado, porém, o código não especifica.


Saiba mais
Livros

Born to Be Gay – História da Homossexualidade, William Naphy, Edições 70, 2006
No livro, o autor faz um profundo estudo da homossexualidade desde a Antiguidade.

O Amor Entre Iguais, Humberto Rodrigues, Mythos, 2004Traz aspectos históricos, sociais e legais sobre o assunto.

Fonte: Aventuras na História
Imagens: Internet

domingo, 23 de agosto de 2009

EUCLIDES DA CUNHA

Em agosto de 2009 comemora-se 100 anos da morte de Euclides da Cunha - militar, escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geógrafo e engenheiro. Por sua trajetória inigualável, todos os anos, na cidade de São José do Rio Pardo, entre 09 e 15 de agosto, realiza-se a "Semana Euclidiana", porque ali ele vivia quando escreveu sua obra-prima Os Sertões, e tornou-se uma cidade turística conhecida como "O berço de Os Sertões".


Euclides Rodrigues da Cunha nasceu em Cantagalo, 20 de janeiro de 1866. Foi escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador e engenheiro brasileiro. Órfão de mãe desde os três anos de idade, foi educado pelas tias. Freqüentou conceituados colégios fluminenses e, quando precisou prosseguir seus estudos, ingressou na Escola Politécnica e, um ano depois, na Escola Militar da Praia Vermelha.

Cadete republicano - Contagiado pelo ardor republicano dos cadetes e de Benjamin Constant, professor da Escola Militar, atirou durante revista às tropas sua espada aos pés do Ministro da Guerra Tomás Coelho. Euclides foi submetido ao Conselho de Disciplina e, em 1888, saiu do Exército. Participou ativamente da propaganda republicana no jornal O Estado de S. Paulo.
Proclamada a República, foi reintegrado ao Exército com promoção. Ingressou na Escola Superior de Guerra e conseguiu ser primeiro-tenente e bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais
.




Euclides casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Frederico Solon de Sampaio Ribeiro, um dos líderes da República.



Ciclo de CanudosEm 1891, deixou a Escola de Guerra e foi designado coadjuvante de ensino na Escola Militar. Em 1893, praticou na Estrada de Ferro Central do Brasil. Quando surgiu a insurreição de Canudos, em 1897, Euclides escreveu dois artigos pioneiros intitulados "A nossa Vendéia" que lhe valeram um convite d'O Estado de S. Paulo para presenciar o final do conflito. Isso porque ele considerava, como muitos republicanos à época, que o movimento de Antonio Conselheiro tinha a pretensão de restaurar a monarquia e era apoiado pelos monarquistas residentes no País e no exterior.


"Tragédia da Piedade"Morreu em 1909. Ao saber que sua esposa, mais conhecida como Ana de Assis, o abandonara pelo jovem tenente Dilermando de Assis, que aparentemente já tinha sido ou era seu amante há tempos - e a quem Euclides atribuía a paternidade de um dos filhos de Ana, "a espiga de milho no meio do cafezal" (querendo dizer que era o único louro numa família de tez morena) -, saiu armado na direção da casa do militar, disposto a matar ou morrer. Dilermando era campeão de tiro e matou-o. Tudo indica que o matou lealmente, tanto que foi absolvido na Justiça Militar. Ana casou-se com ele.

O corpo de Euclides foi examinado pelo médico e escritor Afrânio Peixoto, que também assinou o laudo e viria mais tarde a ocupar a sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.

CRONOLOGIA

1866

Em 20 de janeiro nasce Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, na Fazenda Saudade, no arraial de Santa Rita do Rio Negro (hoje denominado Euclidelândia), município de Cantagalo (RJ). Filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Moreira da Cunha. É batizado em 24 de novembro.

1869

Com apenas 3 anos perde a mãe. Passa a ser criado com a irmã mais nova, Adélia. A orfandade materna influencia o temperamento de Euclides, sendo ele considerado uma criança tristonha e introspectiva.

1870

Em companhia da irmã muda-se para Teresópolis, para viver com os tios Rosinda e Urbano Gouveia.Vive uma nova perda com a morte da tia Rosinda, que vinha exercendo o papel de segunda mãe.

1871-73

Euclides e Adélia são entregues aos cuidados de outra tia, Laura Moreira Garcez, casada com o coronel Magalhães Garcez, e vão morar em São Fidélis.

1874

Ao ingressar na vida escolar é matriculado no Colégio Caldeira, famoso no município. O colégio era dirigido pelo português exilado Francisco José Caldeira, pedagogo de idéias revolucionárias.

1877-78

O pai de Euclides muda-se para o Rio de Janeiro e passa a viver com os avós maternos, em Salvador, Bahia. É transferido para o colégio Carneiro Ribeiro.

1879

Volta a viver no Rio de Janeiro, desta vez com o tio paterno Antonio Pimenta da Cunha. Os estudos continuam no Colégio Anglo-Americano.

1880-82

Considerado um adolescente instável, mudou de estabelecimento de ensino por mais duas vezes, passando pelos colégios Vitório da Costa e Menezes Vieira.

1883-84

Transfere-se para o Externato Aquino, dirigido por um grande educador, João Pedro de Aquino. Presta exames de geografia, francês, retórica e história.Em conjunto com sete colegas, funda o jornal O Democrata e em 4 de abril de 1884 publica o primeiro artigo, no qual defendia a natureza e o equilíbrio ecológico.

1884-85

Começa a escrever versos em uma caderneta intitulada "As Ondas".Presta exames e é admitido na Escola Politécnica onde, por falta de recursos, estuda apenas um ano.

1886

Em 20 de fevereiro é transferido para a Escola Militar da Praia Vermelha, gratuita, sendo designado cadete número 308. A escola era tida como um dos principais centros intelectuais do País, ao lado das faculdades de Direito de São Paulo e Recife. Reencontra o professor Benjamin Constant e ingressa no movimento republicano.

1887


Registra em seu diário e demonstra com sua poesia uma crise íntima. Escreve para a "Revista da Família Acadêmica da Sociedade Literária da Família Acadêmica".

1888

Em 4 de novembro protagoniza o "Episódio da baioneta" ou "Episódio do sabre". Durante desfile em homenagem ao então ministro da guerra, o conselheiro Tomás Coelho, em protesto contra a monarquia, Euclides sai da fila de cadetes e tenta quebrar sua baioneta (pequena espada colocada na ponta do fuzil), jogando-a depois aos pés do ministro. É levado à enfermaria e tem diagnosticado um esgotamento nervoso por excesso de estudo. Porém, Euclides recusa-se a se considerar doente e ao ser submetido ao conselho disciplinar, reafirma suas convicções republicanas.

Apesar de ser perdoado por D. Pedro II, sua matrícula é cancelada e ele deixa o Exército em 14 de dezembro. Em menos de uma semana parte para São Paulo, cidade considerada o quartel general das lutas republicanas, onde é bem recebido.

Em 22 de dezembro escreve "A Pátria e a Dinastia", seu primeiro artigo para a Província de S. Paulo (hoje O Estado de S. Paulo), assinando apenas com suas iniciais. Dia 29 de dezembro passa a colaborar permanentemente na seção do jornal "Questões Sociais", sob pseudônimo de Proudhon, nome do filósofo francês teórico do Socialismo.

1889

No início do ano volta para o Rio de Janeiro.
Em 6 e 7 de maio presta exames para a Escola Politécnica.
Com a Proclamação da República, Euclides é chamado de volta ao Exército e em seguida promovido a alferes-aluno.
Deixa de escrever para a Província de S. Paulo e passa a colaborar com a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro.

1890

Em 8 de janeiro matricula-se na Escola Superior de Guerra. No mês seguinte completa o curso de artilharia. É promovido a Segundo Tenente em 14 de abril.
Em de 10 de setembro casa-se com Ana Ribeiro, filha do general Solon Ribeiro, militar de destaque na proclamação da República.

1891

Realiza os cursos de Estado Maior e Engenharia Militar e vai para a Escola Superior de Guerra, torna-se Adjunto de Ensino na Escola Militar.

1892

Em 9 de janeiro é promovido a 1º Tenente.Obtém o título de Bacharel em Matemática, Ciências Físicas e Naturais.Inicia sua colaboração para O Estado de S. Paulo.

1893

O então presidente Floriano Peixoto convoca Euclides para uma entrevista e dá a ele a oportunidade de escolher o cargo que queria ocupar na nova administração do país. O engenheiro responde o que previa a lei para os recém-formados: um ano de prática na Estrada de Ferro Central do Brasil. Em 16 de agosto recebe a nomeação para trabalhar na estrada como engenheiro.

Cuida das obras de fortificação das trincheiras de Saúde, no Morro da Conceição.Em dezembro passa a fazer parte da Diretoria Geral de Obras Militares.

1894

Escreve duas cartas para a Gazeta de Notícias, com o título "A Dinamite", nas quais defende a democracia e a não violência. Eram respostas ao senador cearense João Cordeiro, que pedia o fuzilamento dos manifestantes antiflorianistas presos depois da Revolta da Armada.
Em conseqüência de sua atitude, é designado para servir em Campanha, cidade de Minas Gerais a fim de realizar refomas em um quartel, onde conhece João Luís Alves, que se torna seu grande amigo.

1895

Recebe a visita do pai, em fevereiro e com ele deixa Campanha, mudando-se para Belém do Descalvado (atualmente Descalvado), em São Paulo.Em 28 de junho é agregado ao Corpo do Estado Maior.

1896

Deixa o Exército em 13 de julho, por estar desencantado com a República e por divergir do governo Floriano Peixoto quanto ao tratamento dado a prisioneiros políticos. É reformado como 1º Tenente.

Em 18 de setembro assume o cargo de engenheiro-ajudante da Superintendente de Obras Públicas do Estado de São Paulo. Passa a viajar pelo interior de São Paulo para a construção de pontes, edifícios públicos, restauração de obras e demarcação de limites.

1897

Escreve para O Estado de S. Paulo dois artigos sobre a campanha de Canudos, publicados respectivamente em 14 de março e 17 de julho. No primeiro deles, intitulado "A nossa Vendéia", compara a primeira batalha de Canudos com a luta ocorrida na França entre republicanos e camponeses defensores da monarquia.

A convite de Júlio de Mesquita é enviado como correspondente de guerra do O Estado de S. Paulo e segue em 4 de agosto para os sertões da Bahia junto da comitiva militar do ministro da guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt.

Passa vários dias em Salvador, observando as tropas que chegam à Bahia e partem para os sertões, e envia os primeiros artigos.

Em 1º de setembro chega em Queimadas, estação ferroviária e "porta" para os sertões de Canudos.

Deixa a cidade em 4 de setembro e passa por Tanquinho, Cansação, Quirinquinquá, até chegar a Monte Santo, dia 7. No dia seguinte, descreve em seu diário de guerra o calvário de Monte Santo, e parte para Canudos.

Em 16 de setembro chega ao palco da guerra. Continua a enviar artigos com as observações colhidas durante o conflito e faz diversas anotações, que posteriormente seriam utilizadas no livro Os Sertões.

Com o massacre dos seguidores de Antonio Conselheiro e o conseqüente fim da guerra, Euclides volta a Salvador, onde permanece por alguns dias, retornando ao Rio de Janeiro em 17 de outubro.

Em 26 de outubro, de volta a São Paulo, publica em O Estado de S. Paulo o último artigo da série "Diário de uma expedição", intitulado "O Batalhão de São Paulo".
Depois vai para Belém do Descalvado para descansar na fazenda do pai.


1898

Publica no O Estado de S. Paulo, em 19 de janeiro, as primeiras amostras de Os Sertões, no artigo "Excerto de um livro inédito".

É incumbido da reconstrução da ponte sobre o Rio Pardo, que desabara na cidade de São José do Rio Pardo.

Reside com a família no sobrado da Rua 13 de Maio, esquina com Marechal Floriano, local onde hoje se situa a Casa de Cultura Euclides da Cunha, a Casa Euclidiana.

No barraco de zinco próximo à ponte, enquanto supervisionava a reconstrução , Euclides começa a redigir Os Sertões.

Francisco Escobar, intendente municipal e homem de grande cultura, estimula o escritor, fornecendo livros e reunindo um grupo de intelectuais para a leitura dos primeiros capítulos.

1900

Escreve para o jornal O Rio Pardo um artigo intitulado "O 4º Centenário do Brasil".
Em maio termina a redação de Os Sertões e Francisco Escobar contrata o sargento de polícia José Augusto Pereira Pimenta para transcrever em boa caligrafia os originais.


Novamente é chamado para colaborar em O Estado de S. Paulo, desta vez para fazer uma análise dos cem últimos anos das atividades humanas no País. O artigo "O Brasil no século XIX" é publicado em 31 de dezembro de 1900.

1901

É promovido a Chefe de Distrito de Obras.Em 31 de janeiro nasce o terceiro filho de Euclides, Manoel Afonso, registrado apenas como Manoel mas conhecido como Afonsinho.

A ponte sobre o Rio Pardo é inaugurada em 18 de maio com grande festa.

Muda-se para São Carlos do Pinhal (atual São Carlos), São Paulo, para acompanhar a construção do edifício do fórum da cidade.

Em seguida fixa residência em Guaratinguetá, SP. É transferido para o Segundo Distrito de Obras.

1902

Garcia Redondo, amigo de São Paulo, apresenta Euclides a Lúcio de Mendonça, que o encaminha ao Sr. Massow, da Editora Laemmert, que se propõe a editar o livro financiado pelo autor.
Recebe as primeiras páginas impressas do livro em maio. Antes da publicação Euclides vai ao Rio de Janeiro e corrige em cada volume os 80 erros que verificara.


Escreve, por recomendação da Superintendência de Obras, Relatório sobre a Ilha de Búzios.
É transferido para Lorena no Vale do Paraíba.


A Livraria Laemmert lança no Rio de Janeiro Os Sertões. O livro é sucesso de crítica e de vendas, sendo que todos os volumes da 1ª edição se esgotam em dois meses.

1903

A segunda edição de Os Sertões é publicada em julho.
Em 21 de setembro é eleito para a cadeira número sete da Academia Brasileira de Letras, antes ocupada por Valentim Magalhães.


Em 20 de novembro toma posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Demite-se da Superintendência de Obras Públicas de São Paulo.

1904

É nomeado engenheiro-fiscal da Comissão de Saneamento de Santos em 15 de janeiro. Muda-se para o Guarujá e percorre ambas as cidades do litoral paulista.

Prepara a pedido de Dr. Cardoso de Almeida relatório sobre Os Reparos nos Fortes de Bertioga.
Em 24 de abril demite-se do cargo depois de incidente com o chefe da comissão.


Desempregado, Oliveira Lima e José Veríssimo apresentam ao Barão do Rio Branco o nome de Euclides da Cunha para um cargo na Comissão de Reconhecimento do Alto Purus. Rio Branco o entrevista e o nomeia em agosto Chefe da Comissão.

Em 13 de dezembro parte para o Amazonas.

1905

Reside em Manaus, aguardando instruções.

Chega à foz do Chandless em 25 de maio.

Em 3 de julho participa de banquete em Curanjá e discursa, lamentando a ausência da bandeira nacional no local.

Volta a Manaus em 23 de outubro. Encerra os trabalhos da Comissão em 16 de dezembro.

1906

Retorna ao Rio de Janeiro e fica adido ao gabinete do Barão do Rio Branco. Apresenta ao Barão do Rio Branco o relatório da Comissão do Alto Purus.Em julho nasce o filho Mauro, que vive apenas sete dias.

Em 18 de dezembro toma posse na Academia Brasileira de Letras recebido por Silvio Romero, em cerimônia com a presença do Presidente Afonso Pena.

Contrastes e Confrontos, uma reunião de artigos é publicado pela Editora Literária Tipográfia do Porto (Portugal).

1907

Continua adido ao gabinete do Barão do Rio Branco, em situação precária, à procura de estabilidade, mas atraído pela figura do Barão.Nasce Luís, registrado como filho de Euclides.
Em setembro lança "Peru Versus Bolívia", pela Livraria Francisco Alves.


Convidado pelo Centro 11 de Agosto dos alunos da Faculdade de Direito de São Paulo, pronuncia a conferência "Castro Alves e Seu Tempo".

1908

Ainda no Itamaraty, trabalhando com o Barão do Rio Branco é envolvido no incidente do telegrama número 9, promovido pelo Ministro das Relações Exteriores da Argentina Estanislau Zeballos, comprometendo as relações com o Brasil. Responde ao Chanceler argentino de forma enérgica, sem contestação.

Prefacia o livro Poemas e Canções de Vicente de Carvalho.

Prefacia o livro Inferno Verde de seu grande amigo e companheiro na Escola Militar Alberto Rangel.

Termina o livro À Margem da História, com estudos sobre a Amazônia, que seria publicado depois de sua morte pela Livraria Chardron, de Portugal.

1909

Inscreve-se no concurso de lógica no Colégio Nacional, hoje Colégio Pedro II, com outros quatorze candidatos, ficando Farias Brito em primeiro lugar e Euclides da Cunha em segundo. A legislação da época facultava o Presidente da Repúlica escolher entre os dois primeiros colocados, e Euclides é nomeado professor. Ministrou a primeira aula em 21 de julho.

Na manhã de 15 de agosto Euclides vai armado ao subúrbio carioca da Piedade, na residência de Dilermando de Assis. O escritor e o cadete Dilermando trocam tiros. Euclides é assassinado e o episódio fica conhecido como "A Tragédia da Piedade".

O corpo é velado no Salão da Academia Brasileira de Letras no Silogeu Brasileiro e é sepultado na sepultura 3026 no Cemitério São João Batista.

http://www.euclidesdacunha.org.br/

A GUERRA DE CANUDOS

História da Guerra de Canudos, o líder Antônio Conselheiro, o messianismo no Nordeste do início da República, conflitos sociais na História do Brasil

A situação do Nordeste brasileiro, no final do século XIX, era muito precária. Fome, seca, miséria, violência e abandono político afetavam os nordestinos, principalmente a população mais carente. Toda essa situação, em conjunto com o fanatismo religioso, desencadeou um grave problema social. Em novembro de 1896, no sertão da Bahia, foi iniciado este conflito civil. Esta durou por quase um ano, até 05 de outubro de 1897, e, devido à força adquirida, o governo da Bahia pediu o apoio da República para conter este movimento formado por fanáticos, jagunços e sertanejos sem emprego.

O beato Conselheiro, homem que passou a ser conhecido logo depois da Proclamação da República, era quem liderava este movimento. Ele acreditava que havia sido enviado por Deus para acabar com as diferenças sociais e também com os pecados republicanos, entre estes, estavam o casamento civil e a cobrança de impostos. Com estas idéias em mente, ele conseguiu reunir um grande número de adeptos que acreditavam que seu líder realmente poderia libertá-los da situação de extrema pobreza na qual se encontravam.

Com o passar do tempo, as idéias iniciais difundiram-se de tal forma que jagunços passaram a utilizar-se das mesmas para justificar seus roubos e suas atitudes que em nada condiziam com nenhum tipo de ensinamento religioso; este fato tirou por completo a tranqüilidade na qual os sertanejos daquela região estavam acostumados a viver.

Devido a enorme proporção que este movimento adquiriu, o governo da Bahia não conseguiu por si só segurar a grande revolta que acontecia em seu Estado, por esta razão, pediu a interferência da República. Esta, por sua vez, também encontrou muitas dificuldades para conter os fanáticos. Somente no quarto combate, onde as forças da República já estavam mais bem equipadas e organizadas, os incansáveis guerreiros foram vencidos pelo cerco que os impediam de sair do local no qual se encontravam para buscar qualquer tipo de alimento e muitos morreram de fome. O massacre foi tamanho que não escaparam idosos, mulheres e crianças.

Pode-se dizer que este acontecimento histórico representou a luta pela libertação dos pobres que viviam na zona rural, e, também, que a resistência mostrada durante todas as batalhas ressaltou o potencial do sertanejo na luta por seus ideais. Euclides da Cunha, em seu livro Os Sertões, eternizou este movimento que evidenciou a importância da luta social na história de nosso país.

Conclusão : Esta revolta, ocorrida nos primeiros tempos da República, mostra o descaso dos governantes com relação aos grandes problemas sociais do Brasil. Assim como as greves, as revoltas que reivindicavam melhores condições de vida ( mais empregos, justiça social, liberdade, educação etc), foram tratadas como "casos de polícia" pelo governo republicano. A violência oficial foi usada, muitas vezes em exagero, na tentativa de calar aqueles que lutavam por direitos sociais e melhores condições de vida.

http://www.historiadobrasil.net/guerracanudos/


Os Sertões


O romance Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, surgiu de uma reportagem encomendada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Encarregado de cobrir a Guerra de Canudos (1896-1897), Euclides encontrou nos confrontos entre o Exército brasileiro e um grupo de fanáticos religiosos liderados por Antonio Conselheiro matéria para descrever a geografia e a população do sertão baiano. Vistos como uma ameaça à jovem República brasileira, os seguidores de Conselheiro foram dizimados. "Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciêmo-lo", afirma o escritor na nota preliminar do livro.

Dividido em três partes - A Terra, O Homem e A Luta -, o livro concentra diversas influências de seu tempo. Teóricos europeus, declaradamente ou não, alicerçam o autor na definição do sertanejo, depreciado pelo embasamento em correntes deterministas - hoje ultrapassadas. A obra, publicada no limiar do século 20, em 1902, de certa forma teria uma estreita ligação com o Naturalismo que a precede, mas apontava para o Modernismo que adviria duas décadas depois: o estudo do homem brasileiro seria um dos seus objetivos. Nascido na cidade de Cantagalo (RJ) em 1866, Euclides estudou engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, o que lhe forneceu os instrumentos para a análise e o exame feitos no livro. Seria impreciso enquadrar a obra em um único gênero. Não se trata apenas de um relato científico ou jornalístico. O entrecruzamento dessas formas com o emprego do lirismo, de complexas figuras de linguagem e do tom de "ataque franco", segundo o próprio Euclides, resultou na "bíblia da nacionalidade" - para tomar emprestada a definição do célebre abolicionista Joaquim Nabuco sobre o romance. Para a literatura brasileira, a grandeza de Os Sertões está obviamente no trabalho de linguagem operado pelo autor, que, sob o primeiro plano da objetividade científica, deixa-se tomar pela indignação e pelo espanto ante o que testemunha. Euclides via a República de maneira desiludida, identificava as "sub-raças" e prenunciava a sua extinção. Mas a natureza o surpreende quando o período é o das chuvas: "E o sertão é um paraíso... Ressurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas (...). (...) segue o campeiro pelos arrastadores, tangendo a boiada farta, e entoando a cantiga predileta... Assim se vão os dias. Passam-se um, dois, seis meses venturosos, derivados da exuberância da terra (...)". Esse deslumbramento alterna-se com o retrato da seca, o "martírio secular da terra". A proliferação de antíteses se dá também em outros níveis da obra, uma das razões que levam os críticos a ver um “barroco científico” moldando a narrativa. É de um Euclides observador preciso e rigoroso e plenamente hábil na construção de imagens que José Lins do Rego e Graciliano poderão herdar, cada um a sua maneira, as bases de um regionalismo maduro. Até sua morte no Rio de Janeiro, em 1909 - morto em um duelo com o amante da mulher -, Euclides ainda publicou o livro Contrastes e Confrontos (1907). À Margem da História (1909) foi lançado postumamente. Um livro em três partes Na divisão do relato, o esforço para sistematizar a vida sertaneja e compreender o destino de uma região.





A TERRA: O cenário do conflito. Aqui, a geologia e a geografia tratam de pormenores do solo, do relevo, da flora e do clima, impiedoso no período da seca. O relato científico, nestas páginas descritivas que antecedem o conflito, é talvez o mais belo do livro, sobretudo quando trata da vegetação. Os mandacarus, os cactos, os xiquexiques, as favelas - planta típica da região que daria nome a uma elevação local e teria outros significados anos mais tarde -, a catanduva, tudo é catalogado por uma poética científica.

O HOMEM: O antropólogo, o sociólogo e o etnólogo tomam a voz para desenhar a gênese do sertanejo, um Hércules-Quasímodo: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário." Traça-se a biografia de Antonio Conselheiro - "um gnóstico bronco", "o anacoreta sombrio" -, dos infortúnios da vida pessoal à transformação em líder religioso no crescente arraial de Canudos.

A LUTA: As sucessivas tentativas de invasão de Canudos pelo Exército. Somente a quarta expedição foi vitoriosa. No clímax do livro, a resistência da comunidade e os relatos das sangrentas batalhas. Euclides pormenoriza os embates entre os sertanejos e os soldados até o desfecho: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao seu esgotamento completo”. O corpo de Antonio Conselheiro foi retirado de escombros e a cabeça foi cortada como prêmio: "Ali estavam (...) as linhas essenciais do crime e da loucura..."

http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/sertoes-401371.shtml

Domínio Público – Para baixar gratuitamente essa obra literária é só acessar:

http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/sertoes-401371.shtml

Obra – trechos

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.

E tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história como ela o merece:
...” il s´irrite contre les démi-vérités que sont les démi-faussetés, contre les auteurs qui n´altèrent ni une date, ni une généalogie, mais dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gardent le dessin des évenéments et en changent la couleur, qui copient les faits et défigurent l´âme: il veut sentir en barbare, parmi les barbares, et parmi les anciens, en ancien.” (Os Sertões, Nota Preliminar).


Terra ignota


Abordando-o, compreende-se que até hoje escasseiem sobre tão grande trato de território, que quase abarcaria a Holanda ( 9o 11-10o 20´de lat. E 4o- 3o de long. O R.J.), notícias exatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas, enfeixando informes escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se aventura o rabisco de um ri problemático ou idealização de uma corda de serras.”(Os Sertões - A Terra ).

O sertanejo

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

A aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.

É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar-se de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre os estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo - cai é o termo - de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.”(Os Sertões – O Homem ).

Profecias

“Ora, esta identidade avulta, mais frisante, quando se comparam com as do passado as concepções absurdas do esmaniado apóstolo sertanejo. Como os montanhistas, ele surgia no epílogo da Terra... O mesmo milenarismo extravagante, o mesmo pavor do Anti-Cristo despontando na derrocada universal da vida. O fim do mundo próximo...

Que os fiéis abandonassem todos os haveres, tudo quanto os maculasse com um leve traço de vaidade. Todas as fortunas estavam a pique da catástrofe iminente e fora temeridade inútil conservá-las.

Que abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgatório duro; e não a manchassem nunca com o sacrilégio de um sorriso. O Juízo final aproximava-se, inflexível.
Renunciavam-no anos sucessivos de desgraças :
“... Em 1896 hade (sic) rebanhos mil correr da praia para o certão (sic ); então o certão (sic ) virará praia e a praia virará certão (sic).


“Em 1897 haverá muito pasto e pouco rasto e um só rebanho e um só pastor.

“Em 1898 haverá muitos chapéus e poucas cabeças.

Em 1899 ficarão as águas em sangue e o planeta há de aparecer no nascente com o raio do sol que o ramo se confrontará na terra e a terra em algum lugar se confrontará no céu...

“Hade (sic) chover uma grande chuva de estrelas e aí será o fim do mundo. Em 1900 se apagarão as luzes. Deus disse no Evangelho: eu tenho um rebanho que anda fora deste aprisco e é preciso que se reunam porque há um só pastor e um só rebanho!”(Os Sertões - O homem)
“ Como quer que seja, para a Amazônia de agora devera restaurar-se integralmente, na definição da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma - ultra iquinotialem non peccavi - que Barleus engenhou para os desmandos da época colonial .


Os mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. À entrada de Manaus existe a belíssima ilha de Marapatá - e essa ilha tem uma função alarmante. É o mais original dos lazaretos - um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência... Meça-se o alcance deste prodígio da fantasia popular. A ilha que existe fronteira à boca do Purus, perdeu o antigo nome geográfico e chama-se a “ilha da Consciência”; e o mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juruá. É uma preocupação: o homem, ao penetrar as duas portas que levam ao paraíso diabólico dos seringais, abdica as melhores qualidades nativas e fulmina-se a si próprio a rir, com aquela ironia formidável”.(“Terra sem história “, À Margem da história)
“A expansão imperialista das grandes potências é um fato de crescimento, o transbordar naturalíssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas, em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que daí resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na feição ruidosa e acidental da energia pacífica e formidável das indústrias. Nada dos velhos atributos românticos do passado ou da preocupação retrógrada do heroísmo. As próprias vitórias perdem o significado antigo. São até dispensáveis.(...) Estão fora dos lanes o gênio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas forças acumuladas de longas culturas e do próprio gênio de raça, podem golpeá-las à vontade os adversários que as combatem e batem debatendo- se, e que se afogam. Não param. Não podem parar. Impele-as o fatalismo da própria força. Diante da fragilidade dos países fracos, ou das raças incompetentes, elas recordam, na história, aquele horror ao vácuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresistíveis da matéria.” ( Contrastes e confrontos).


“Os antigos mapas sul-americanos têm às vezes a eloquência de seus próprios erros.
Abraham Ortelius, Joan Martines, ou Thevet, sendo os mais falsos desenhadores do Novo Mundo, foram exatos cronistas de seus primeiros dias. A figura do continente deformado, quase retangular, com as suas cordilheiras de molde invariável, rios coleando nas mais regulares sinuosas e amplas terras uniformes, ermas de acidentes físicos, cheias de seres anormais e extravagantes - é, certo, incorretíssima. Mas tem rigorismos fotográficos no retratar uma época. Sem o quererem, os cartógrafos, tão absorvidos na pintura do novo typus orbis, desenhavam-lhe as sociedades nascentes; e os seus riscos incorretos, gizados à ventura, conforme lhos ditava a fantasia, tornaram-se linhas estranhamente descritivas. Num prodígio de síntese, valem livros.” (Peru versus Bolívia ).

http://www.vidaslusofonas.pt/euclides_da_cunha.htm

OBRAS

1884
CUNHA, Euclides da. Em viagem: folhetim. O Democrata, Rio de Janeiro, 4 abr. 1884.
1887
A flor do cárcere. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, 1 (1): 10, nov.
1887.
1888
A Pátria e a Dinastia. A Província de São Paulo, 22 dez.
1888.
Críticos. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, 1(7): 209-213, maio 1888.
Estâncias. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, 1 (10): 366, out. 1888.
Fazendo versos. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, 1(3): 87-88, jan. 1888.
Heróis de ontem. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, 1(8): 227-8, jun. 1888.
Stella. Revista da Família Acadêmica, Rio de Janeiro, 1(9): 265, jul. 1888.
1889
Atos e palavras. A Província de São Paulo, 10-12, 15, 16, 18, 23, 24 jan.
1889.
Da corte. A Província de São Paulo, maio 1889.
Homens de hoje. A Província de São Paulo, 22 e 28 jun. 1889.
1890
Divagando. Democracia, Rio de Janeiro, 26 abr. 1890.
Divagando. Democracia, 24 maio 1890.
Divagando. Democracia, 2 jun. 1890.
O ex-imperador. Democracia, 3 mar. 1890.
Sejamos francos. Democracia, Rio de Janeiro, 18 mar. 1890.
1892
Da penumbra. O Estado de São Paulo, 15, 17 e 19 mar.
1892.
Dia a dia. O Estado de São Paulo, 29 e 31 mar. 1892.
Dia a dia. O Estado de São Paulo, 1-3, 5-8, 10, 13, 17, 20, 24 e 27 abr. 1892.
Dia a dia. O Estado de São Paulo, 1, 8, 11, 15, 18 e 22 maio 1892.
Dia a dia. O Estado de São Paulo, 5, 12, 22 e 29 jun. 1892.
Dia a dia. O Estado de São Paulo, 3 e 6 jul. 1892.
Instituto Politécnico. O Estado de São Paulo, 24 maio 1892.
Instituto Politécnico. O Estado de São Paulo, 1o. jun. 1892.
1894
A dinamite. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 fev. 1894.
1897
A nossa Vendéia. O Estado de São Paulo, 14 mar. 1897 e 17 jul. 1897.
Anchieta. O Estado de São Paulo, 9 jun. 1897.
Canudos: diário de uma expedição. O Estado de São Paulo, 18 e 22-29 ago. 1897.
Canudos: diário de uma expedição. O Estado de São Paulo, 1, 3, 9, 12, 14, 21, 26 e 27 set. 1897.
Canudos: diário de uma expedição. O Estado de São Paulo, 11-13, 20, 21 e 25 out. 1897.
Distribuição dos vegetais no Estado de São Paulo. O Estado de São Paulo, 4 mar. 1897.
Estudos de higiene: crítica ao livro do mesmo título do Doutor Torquato Tapajós. O Estado de S. Paulo, 4, 9 e 14 maio 1897.
O Argentaurum. O Estado de S. Paulo, 2 jul. 1897.
O batalhão de São Paulo. O Estado de S. Paulo, 26 out. 1897.
1898
O "Brasil mental". O Estado de S. Paulo, 10-12 jul. 1898.
Excerto de um livro inédito. O Estado de S. Paulo, 19 jan. 1898.
Fronteira sul do Amazonas. O Estado de S. Paulo, 14 nov. 1898.
1899
A guerra no sertão [fragmento]. Revista Brasileira, Rio de Janeiro, 19 (92/93): 270-281, ago./set.
1899.
1900
As secas do Norte. O Estado de S. Paulo, 29, 30 out. 1900 e 1o. nov.
1900.
O IV Centenário do Brasil. O Rio Pardo, São José do Rio Pardo, 6 maio 1900
.
1901
O Brasil no século XIX. O Estado de S. Paulo, 31 jan. 1901.
1902
Os Sertões: campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1902. vii + 632 p. il.
Ao longo de uma estrada. O Estado de São Paulo, São Paulo, 18 jan. 1902.
Olhemos para os sertões. O Estado de São Paulo, São Paulo, 18 e 19 mar. 1902.
1903
Os Sertões: campanha de Canudos. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: Laemmert,
1903. vii + 618 p. il.
Viajando… O Estado de São Paulo, São Paulo, 8 set. 1903.
À margem de um livro. O Estado de São Paulo, São Paulo, 6 e 7 nov. 1903.
Os batedores da Inconfidência. O Estado de São Paulo, São Paulo, 21 abr. 1903.
Posse no Instituto Histórico. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 66 (2): 288-93, 1903.
1904
A arcádia da Alemanha. O Estado de São Paulo, 6 ago. 1904.
Civilização. O Estado de São Paulo, 10 jul. 1904.
Conflito inevitável. O Estado de São Paulo, 14 maio 1904.
Contra os caucheiros. O Estado de São Paulo, 22 maio 1904.
Entre as ruínas. O Paiz, Rio de Janeiro, 15 ago. 1904.
Entre o Madeira e o Javari. O Estado de São Paulo, 29 maio 1904.
Heróis e bandidos. O Paiz, Rio de Janeiro, 11, jun. 1904.
O marechal de ferro. O Estado de São Paulo, 29 jun. 1904.
Um velho problema. O Estado de São Paulo, 1o. maio 1904.
Uma comédia histórica. O Estado de São Paulo, 25 jun. 1904.
Vida das estátuas. O Paiz, Rio de Janeiro, 21 jul. 1904.
1905
Os Sertões: campanha de Canudos. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: Laemmert, 1905, vii + 618 p. il.
Rio abandonado: o Purus. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 68 (2): 337-89, 1905.
Os trabalhos da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus [Entrevista]. Jornal do Commercio, Manaus, 29 out. 1905.
1906
Relatório da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus: 1904-1905. notas do comissariado brasileiro. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1906. 76 p. mapas.
Da Independência à República. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 69 (2): 7-71, 1906.
Os nossos "autógrafos". Renascença, Rio de Janeiro, 3 (34): 276, dez. 1906.
1907
Contrastes e confrontos. Pref. José Pereira de Sampaio (Bruno). Porto: Empresa Literária e Tpográfica, 1907. 257 p.
Contrastes e confrontos. 2. ed. ampliada. Estudo de Araripe Júnior. Porto: Empresa Literária e Tpográfica, 1907. 384 p. il.
Peru 'versus' Bolívia. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 1907. 201 p. il.
Castro Alves e seu tempo. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 3 dez. 1907.
Entre os seringais. Kosmos, Rio de Janeiro, 3 (1), jan. 1906.
O valor de um símbolo. O Estado de São Paulo, 23 dez. 1907.
1908
La cuestión de limites entre Bolívia y el Peru. trad. Eliosoro Vilazón. Buenos Aires: Cia Sud-Americana de Billetes de Banco, 1908.
Martín Garcia. Buenos Aires: Cori Hermanos, 1908. 113 p.
Numa volta do passado. Kosmos, Rio de Janeiro, 5 (10), out. 1908.
Parecer acerca dos trabalhos do Sr. Fernando A. Gorette. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 71 (2): 540-543, 1908.
A última visita. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 30 set. e 1o. out. 1908.
1909
Amazônia. Revista Americana, Rio de Janeiro, 1 (2): 178-188, nov.
1909.
A verdade e o erro: prova escrita do concurso de lógica do Ginásio Nacional [17 maio 1909]. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 2 jun. 1909.
Um atlas do Brasil: último trabalho do Dr. Euclides da Cunha. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 29 ago. 1909.
Obras póstumas
À margem da história''. Porto: Chardron, Lello, 1909. 390 p. il.
1975
Caderneta de campo. Introd., notas e coment. por Olímpio de Souza Andrade. São Paulo, Cultrix; Brasília, INL, 1975. xxxii, 197 p. il.
Canudos: diário de uma expedição. Introd. de Gilberto Freyre. Rio de Janeiro: José Olympio, 1939. xxv, 186 p. il.
Ondas. Coleção de poesias escritas por Euclides da Cunha em 1883, publicadas em 1966, na "Obra Completa de Euclides da Cunha", pela Editora Aguilar, e em volume autônomo em 2005, pela Editora Martin Claret, com prefácio de Márcio José Lauria.

Imagens: Internet