sábado, 28 de março de 2009

Dom Hélder Câmara





Durante alguns anos cruzei com Dom Hélder Câmara, no bairro do Parque Amorim, no Recife. Nunca soube de onde vinha nem para onde ia. Era sempre nos finais de tarde. Ele usava uma batina surrada, de cor clara, pois não aderira à nova moda dos padres se vestirem à paisana. Eu o cumprimentava e ele me sorria, erguendo a mão. Acho que repetia um gesto de abençoar as pessoas.

Dom Hélder não me conhecia, mas tínhamos em comum a mesma origem cearense, o destino de buscar o Recife. Eu o conhecia muito e o admirava. Vê-lo caminhando sozinho e destemido pelas ruas, me enchia de esperança e coragem. Vivíamos tempos difíceis da ditadura militar e o arcebispo de Olinda e Recife dedicava sua vida a lutar pela justiça, pelos pobres e oprimidos. Aqueles também eram novos tempos de Evangelho, de prática da Teologia da Libertação.







Quando assassinaram o Padre Henrique, Dom Hélder escreveu uma homilia que circulou e foi lida nas igrejas, um discurso poético e de ousada coragem. Nos seus programas da Rádio Olinda, além de pregar a fé na Virgem Maria, sua grande devoção, ele falava de temas concretos, desse mundo real em que vivemos.

A residência oficial dos arcebispos de Olinda e Recife é no Palácio dos Manguinhos, no bairro das Graças. Dom Hélder preferia morar numa casinha minúscula, nos fundos da Igreja das Fronteiras, no Derby. Vivia sozinho, ou melhor, na companhia de Deus e da Virgem Maria. Foi na porta dessa casa que nos encontramos certa manhã e tivemos uma conversa ligeira, que me marcou profundamente.

Meu primeiro filho havia nascido e embora eu estivesse fora da Igreja Católica desde os dezesseis anos de idade, achei que devia batizá-lo. Eu só conhecia um modo de dar nome ao filho: o mesmo modo como me deram um nome no batismo. Qual o significado dessa escolha se eu me afastara voluntariamente da Igreja e de qualquer religião? Acho que ainda carregava fantasmas infantis, terrores de que se um bebê morre pagão, vai para o limbo, um lugar escuro e insalubre, triste e sem esperanças. A psicanálise e a ciência não me tinham curado.



Bati na porta de Dom Hélder. Ele mesmo me atendeu, a fisionomia cansada, os olhos de quem passou horas lendo. Tinha um livro na mão e marcava a página com os dedos. Convidou-me para entrar, mas agradeci, disse que não desejava incomodá-lo, que a conversa seria breve. De tanto vê-lo e ouvi-lo, me parecia próximo, quase íntimo. Senti vontade de pedir a bênção, pois sempre o julguei com o direito de abençoar. Esse gosto antigo eu não perdera ainda.


- Meu primeiro filho nasceu e estou pensando em batizá-lo - falei sem qualquer preâmbulo.

Ele esfregou os olhos e me encarou.


- Pensei em fazer o batismo aqui na sua igreja - completei no mesmo tom e pressa.

Dom Hélder sorriu e perguntou se eu era católico, se praticava o evangelho e se vivia no seio da comunidade religiosa. Respondi que não. Ele me disse que então não havia motivo para batizar a criança, que só se batiza um filho quando se deseja iniciá-lo na vida cristã. Senti-me um hipócrita, um fariseu. Falei que precisava de um ritual para dar o nome à criança. Ele me respondeu que o batismo não é uma celebração social e sim um compromisso de educar o filho nos princípios cristãos. Senti-me pior que um fariseu, um demônio logrado.

Compadecido de minha ignorância e perplexidade, sugeriu-me procurar a paróquia do bairro e batizar o menino no meio de todos os outros, num ritual comunitário. Eu havia corrido atrás de uma celebração particular, um batismo separado. Em suma, um equívoco.

Desculpei-me. Ele insistiu comigo para entrar na casa. Agradeci o conselho, fiz uma reverência e fui embora. Sempre acho que deveria ter pedido a bênção antes de me despedir.

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify.Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim. Lançou recentemente, seu primeiro romance Galileia (2008) pela editora Alfaguara. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3641005-EI6788,00-Dom+Helder+Camara.html

quinta-feira, 12 de março de 2009

MINÚSCULOS ASSASSINATOS E ALGUNS COPOS DE LEITE




Parece mentira, mas não é difícil encontrar quem coloque a literatura na estante das coisas sublimes. Daí para definir que só pode merecer o título de escritor aquele ser que escreve nas madrugadas em companhia de álcool e fumo, é um passo; ou um parágrafo. O tal escritor tem que, acima de tudo, demonstrar que sofre, se acrescentar humor em seu texto não merecerá crédito. Será mais um metido a engraçadinho. E literatura, segundo a crescente horda que ainda pensa desse modo, não é cenário para humor. Pois bem, diante disso não é de espantar o preconceito com escritores oriundos dos blogs, afinal de contas esse pessoal costuma esbanjar bom humor.
Também não vou negar que, fruto dos blogs ou não, 99% do que é publicado não vale nada.


Dito isso vamos ao que de fato interessa, o livro de Fal Azevedo - minúsculos assassinatos e alguns copos de leite - convém lembrar que a autora mantém um dos mais visitados blogs. Como diria minha filha, preconceituoso leitor, "nada a ver." Nada a ver no que diz respeito a ser bom ou não, mas tudo a ver no que concerne à prática da escrita. Não importa onde "neguinho" pratique, se no blog, no papel, ou na areia do mar,mas preconceito está sempre na ordem do dia e narizes se torcerão ao saber que uma grande editora, a Rocco,apostou no talento da Fal. Ficha catalográfica:indicação editorial e preparação de originais Anna Buarque. Não sei se a Rocco quis lavar as mãos transferindo a responsabilidade ou se foi tamanha a certeza na qualidade que levou Anna a assumir essa aposta. Seja lá o que isso signifique parabéns ao olho "mágico" de Anna Buarque.

É isso mesmo, o livro é surpreendente, de fácil leitura, sem que isso signifique superficialidade, muito pelo contrário, o conteúdo é corrosivo, e pasme, você novamente preconceituoso leitor, conduz à reflexão. Esse é um dos tópicos a se avaliar a boa literatura, se conduz ou não à reflexão.

Alma, 44 anos, artista plástica, é a narradora de minúsculos assassinatos e alguns copos de leite; esbanja sensibilidade e humor para tratar, acima de tudo, da morte. A morte além de uma presença; uma tentação. E essa relação da palavra com a morte é um dos aspectos mais valiosos nesse livro de Fal Azevedo. Alma perde a irmã, o pai,o padrasto, a filha, porém mais importante e significativo que a morte é o período seguinte, aquele que nos faz ansiar por uma volta no tempo. Ouça Alma, paciente leitor: "Quando minha filha nasceu , eu não gostava dela. Eu tinha 32 anos e não gostava de ninguém. Ela era feia e enrugada e chorava. Deus, como ela chorava. Eu não sabia o que fazer com ela nem como fazê-la parar de chorar. Eu não sabia como amá-la. Eu não a queria no meu colo.

Filha enterrada, novamente Alma com a palavra: "Se eu fui uma boa mãe? Eu fui a mãe que pude ser, que soube ser, não a que ela merecia, como todas as mães que conheço,quer elas admitam ou não. Não fiz o suficiente. Nunca. Eu poderia tê-la beijado mais, sido mais paciente, acordado mais cedo, lido mais histórias e brincado mais de casinha. Eu deveria ter sorrido mais e dado mais colo, ao invés de ter as minhas ressacas mal-humoradas todas as manhãs. Era minha obrigação fazer daquela menina uma menina feliz. Era minha obrigação fazer seu mundo mais seguro. E eu falhei."






O que nos resta após um sepultamento? No mais das vezes, a culpa.
Morte e culpa, convenhamos, não são ingredientes dos mais festivos. Não estivessem sob o talento de Fal Azevedo o produto na certa traria o perfume da amargura.
Alma é torturada pelas lembranças e a dualidade romanticonaturalista se faz notar ante as reflexões da narradora que deixa transparecer estar ciente de que a visão do ser humano há de ser sempre uma visão da crise. Sabe também que tanto causa como efeito de todas as tragédias dependem da ação do homem. E a lâmina dessa certeza fustiga Alma do inicio ao fim de minúsculos assassinatos e alguns copos de leite.

A obra de Fal Azevedo permite refletir sobre variado conjunto de temas, estes vão do literário até o político;da valorização sensível e critica das coisas de um modo geral até uma consciência delicada e complexa a respeito da condição humana, constantemente a mercê da paixão.

Densa, bem humorada, tensa e sombria, sem que isso signifique depressiva, a narrativa de Fal Azevedo. A leitura de minúsculos assassinatos e alguns copos de leite é um passeio em noite de lua cheia com alguns relâmpagos, como os que seguem, onde pensamento e prosa se unem e beiram o aforismo.

"Meu pai se sentia tão desprotegido quanto um lobo sozinho. Freud teria adorado a família toda, isso sim."

"Vi o bebê no berçário, tive uma crise de choro, e disse que não queria morar com ela."

"Chorei até esquecer por que eu chorava.E daí, comecei a chorar de novo."
"Um dia eu vou fazer sentido."


"Os bárbaros não queriam destruir Roma, meu Deus do céu. Eles queriam ser romanos. E isso muda tudo."

Fal ouviu Pound: "sugerir o máximo dizendo o mínimo."


Impossível o leitor não se deixar invadir pela tristeza, uma tristeza de história em quadrinhos, uma tristeza inevitável, mas que na página seguinte poderá se transformar, não arrisco em alegria, mas em mansidão sem dúvida. A tristeza que Fal apresenta ao leitor não é de assustar, é nossa tristeza do dia a dia, a inevitável, desde que não se trate de um idiota ou quem sabe um débil mental.

Não se percebe o onírico na narrativa de Fal, mas a denúncia, a fantasia, a inquietação, as turbulências advindas do risco de tentar combater as situações comuns do nosso dia a dia. Fal Azevedo afronta o senso comum, se exige o riso, não tolera o riso excessivo nessa nossa interminável morte que é o viver.

A escritora paulista Fal Azevedo acaba de lançar novo livro, o romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite (Rocco, 2008), onde nos apresenta Alma, uma artista na casa dos quarenta anos que, imersa em correspondências, reconstrói momentos marcantes de seu passado. Blogueira, sempre ligada na rede, a também tradutora, professora e fã de bichos de estimação Fal Azevedo gentilmente abriu espaço em sua caixa postal para umas poucas perguntas do Amálgama sobre seus livros e influências, a internet e os caminhos para um escritor iniciante.



Resenha: Luíz Horácio - Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o pássaro com alma de cão", ed. Conex e "Nenhum pássaro no céu"-ed. Fábrica de Leitura. Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.


sábado, 7 de março de 2009

HERANÇAS


Certos livros nos obrigam a lê-los camada a camada, pense numa cebola, imaginativo leitor. Outros nos forçam ao papel de taxidermista e aproveitamos apenas o invólucro.
Heranças, a obra mais recente de Silviano Santiago encerra as duas possibilidades acima.


Novamente a cebola, pele 1- velhice, pele 2-ambição,pele 3 -Machado de Assis, pele 4- cenas de uma Belo Horizonte provinciana, pele 5- cartão postal do Rio de Janeiro, pele 6-Shakespeare, pele 7-modernismo, pele 8-diário de um especulador, pele 9...
Walter, o cínico narrador de Heranças, vive num apartamento na avenida Vieira Souto no Rio de Janeiro e já preparou detalhe por detalhe o seu sepultamento em Botafogo, no cemitério São João Batista.

“Elegi a cidade, escolhi o cemitério.Decidi passar os últimos anos de vida no Rio de Janeiro e ser enterrado no S. João Batista.”

Assim tem início Heranças, e esse início já daria pano para muitas mangas, querem ver?

Seria o Rio de Janeiro uma cidade adequada para velhos? Ou quem sabe, o cemitério do Brasil? Inclua no rol das camadas listadas acima, por favor.

De frente pro mar, antes a tela do computador, e de costas pro Brasil Walter,ora Quincas Borba, ora Dom Casmurro, apresenta ao leitor suas façanhas, resultado de um caráter pra lá de duvidoso.

Trata-se de um romance naturalista onde o autor parece fugir de seu passado de escritor. Nada a ver com Uma história de família, onde desejo e morte não dispensam o tom sentimental, ou o brilhantismo do inusitado em Stella Manhattan .

A cafajestice de Walter faz de Heranças uma ode ao reacionarismo. Sim, condescendente leitor, este aprendiz está ciente do risco de ser taxado de reacionário ao afirmar que o livro reacionário é reacionário.


Importante ressaltar que em tempos de predomínio da estética da favela, da marginalia, do operário sofrido, quer no cinema, quer na literatura, Silviano opta por um representante do topo da classificação social. Sim,paciente leitor, nossa terra tem palmeira, mas também tem a turma que acumula riquezas, nem todos são da linhagem de caráter do Walter, mas, em sua maioria, carregam farta parcela de culpa pela miséria crescente em qualquer cantão desse país.

Mas quem é Walter? Walter é parente de Jean Sibelius, personagem de um conto de Julian Barnes no livro Um toque de limão, dos velhos canalhas sedutores, personagens de Juan Claudio Lechin em seu abominável A gula do beija-flor.No trabalho de Lechin as maiores semelhanças com as atitudes de Walter onde o desprezo pela mulher se faz notar. Se no livro do boliviano a apologia do sexo livre de sentimentos é a tônica e se Santiago não chega a esse extremo, pois quando Walter abre a guarda é enganado; a ausência de escrúpulos induz abortos e a morte de uma mulher grávida.

O personagem de Silviano Santiago também tem um parentesco com o anão Gregório(também atende por Goyo, Goyto ou Gregori)de Maldita Morte- obra indispensável de Fernando Royuela, preste atenção. Assim como Walter, Goyo aguarda a morte.
Walter: “Confesso.Estive metido de maneira em nada circunstancial no acidente com o Chevrolet. Até a presente data, não tinha conseguido expressar por escrito o envolvimento. À noite, confiei raríssimas vezes palavras de culpa às paredes do quarto.” Sobre a morte da irmã.


Gregório: “Ao longo da minha vida, conheci múltiplos filhos-da-puta e a nenhum desejei uma morte ruim.Meu irmão Tranquilino, no entanto, teve-a. Um trem de carga levou-lhe pela frente a primogenitura.”

Sobre a morte do irmão.
Em Heranças, a figura feminina é sinônimo de obstáculo. No entanto essa resistência não chega a influir no andamento dos planos de Walter, visto que dura pouco, a eliminação desse elemento complicador é uma questão de tempo. Pouco tempo.
Mas vamos a trama.


Walter está em eu apartamento na Vieira Souto, frente pro mar, na companhia de empregados e o indefectível uísque. Em seu computador escreve a sua história, misto de autobiografia e conversa com o leitor. Descreve suas façanhas, as do empresário bem sucedido e as do don Juan inescrupuloso. Lembram das camadas lá em cima? Pois bem, curioso leitor, você também ficará sabendo de detalhes sobre uma Belo Horizonte antiga, será apresentado a alguns pontos turísticos cariocas e sobretudo fará contato com um ser extremamente inescrupuloso, capaz de varrer a própria irmã da sua caminhada rumo a herança.

Sedutor , inescrupuloso, Walter gastou sua vida em marcha veloz rumo a seus objetivos. A velocidade não diminui jamais, não importa se com morte de pai, assassinato de irmã, abortos, Walter quer “chegar lá.” E chega. Utilizando métodos pouco ortodoxos, mas isso não passa de uma insignificância a esse canalha desprovido de charme e simpatia.

Com a morte do pai, a irmã herda o Armarinhos S. José , logo Walter trata de despachá-la, torna-se comerciante, na seqüência envereda pelos meandros da construção civil e para especular na bolsa de valores é um passo curto. Soube moldar-se às exigências dos anos JK, não encontrou dificuldades de adaptação ao período ditatorial e muito menos ao mercado de ações. Ser extremamente adaptável, termina a vida utilizando o computador para realizar seus investimentos e escrever a sua história. Excetuando-se o lucro, tudo o mais seria irrelevante. Inclusive os seres humanos que porventura significassem qualquer tipo de obstáculo nessa corrida rumo ao enriquecimento.

Inescrupuloso é o adjetivo que melhor se adapta a Walter, jovem freqüenta os prostíbulos de Belo Horizonte, no entanto não limita a profissionais suas incursões sexuais, empregadas domésticas em leitos pouco convencionais, os matagais, também engrossam sua lista de conquistas.

Também conserva o hábito de desvirginar moças, não tão recatadas, da sociedade mineira. Rico, sobram-lhe argumentos para demover todas reações a seu comportamento.

E assim caminha o humanismo de Walter, o milionário sedutor.
Infelizmente ele não está sozinho nessa cruzada que leva ao clube dos “bem sucedidos profissionalmente”, primorosamente Silviano Santiago faz uma critica corrosiva à sociedade e à economia em nosso país no período compreendido entre a batuta de JK e o pandeiro desafinado de Lula.


Se Maldita Morte é um romance desprovido de amor, o máximo que se pode identificar seria a sua intenção, no mais, eflúvios do desejo carnal e piedade, em Heranças o amor está presente, embora um amor maltratado.

Walter se apaixona três vezes e a tragédia acompanha o amor. A arquiteta Denise é abandonada. Marta, a guerrilheira, aproveita um vacilo de Walter e usa o “esperto” como instrumento para fugir à prisão e inevitável tortura. Logo mantém um romance com a advogada e milionária Graci. Esta não o inclui em seu inventário. Nem tudo foi exitoso nas tramas incansavelmente urdidas por Walter.

Das mulheres sofisticadas Walter suga-lhes o requinte e a cultura; a contrapartida se dá em forma de viagens. Rio de Janeiro na década de 60 , daí em diante Europa.
Numa de suas viagens, México, encontra a enfermeira Carmen, apaixona-se e como se diz “sossega o facho.” Para não quebrar a regra, chega o dia em que Carmen também é abandonada.


Uma questão sobressai. É aqui que entra Shakespeare, na necessidade de definir o herdeiro. Do mesmo modo que em Rei Lear, a escolha do herdeiro, quais critérios Walter utilizaria para definir o beneficiário, ele que conquistara dinheiro e mulheres? Como não tem descendentes a escolha recairá, de forma inusitada aparentando uma tentativa do autor de redimir personagem tão abjeta, sobre alguém sem laços sanguineos, mas que já “rondara” a família. Estamos diante do desfecho do livro e aí falou mais alto o moralismo, a mea culpa de Walter. Desandou.

Culto leitor, não ingresse no rol dos taxidermistas, é sempre uma possibilidade, ao tratar de Heranças, enverede pelas camadas, vista a pele de Walter e retire pele por pele conforme ele faz com as vestes de suas vitimas sexuais.Mas ao contrário dele, o faça com bastante amor.

TRECHO

A amizade é sempre pasto de velhas e novas carências. Quando os sentimentos familiares, amorosos e profissionais entram em dieta afetiva, o boi-memória se alimenta do capim-gordura no pasto das antigas camaradagens. Como aqueles sentimentos foram parcos na vida de homem solitário, notívago, mulherengo, globetrotter e milionário, os velhos amigos são mais do que o capim-gordura, que sacia a fome do boi-memória. Proporcionam a recuperação de energia vital pelos sete estômagos dos afetos, que ruminam as saudades dos tempos de menino e rapaz na cidade de Belo Horizonte, que cresce anarquicamente. São a força que me impeliu a imaginar - para nela querer acreditar - a inapelável existência da solidariedade no planeta Terra. Se quiser reconhecer a sim para além do espelho fixado nos azulejos coloridos acima do lavabo, o ser humano não pode renegar os olhos dos coleginhas de infância. Não são eles que lhe proporcionaram, e continuam a proporcionar a boa imagem de fora pra dentro?
Se os renegar, acabará por pedir socorro à religião. Levantará os olhos do espelho em direção a um deus todo-poderoso, esculpido em barro ou madeira, em letra impressa ou idéias.
- Vade retro!
Desde que optei pela solidão acompanhada, invoco com freqüência essa deusa demasiadamente humana, a que chamo de Amizade. Aos pés de seu altar, onde impera o rosto esculpido em legitima hematita mineira, ajoelho e rezo nos momentos sorumbáticos do dia ou da noite. A Amizade é uma espécie de pólo catalisador da sensação concreta e extraterrena de fraternidade.

O AUTOR
Silviano Santiago é escritor e critico literário. Por quatro vezes recebeu o Prêmio Jabuti nas categorias de romance e conto. Entre seus livros de ficção destacam-se Em liberdade, Stella Manhattan, Uma história de família, De cócoras, O falso mentiroso, os livros de contos Keith Jarrett no Blue Note e Histórias mal contadas, os ensaios Uma literatura nos trópicos, Nas malhas da letra e As raízes e o labirinto da América Latina.





Resenha: Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o pássaro com
alma de cão", ed. Conex e "Nenhum pássaro no céu"-ed. Fábrica de Leitura. Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Lenço no pescoço, samba no bolso
Wilson Batista X Noel Rosa


Adepto da malandragem, Wilson Batista inscreveu seu nome no samba com muitas composições e uma famosa polêmica

Valdemar Valente Júnior


“Samba é como meretriz: de quem pagar mais”. Wilson Batista definia sua atividade sem meias palavras, admitindo a venda da autoria de seus sambas quando a situação apertava e ele ficava sem nenhum. E embora tenha sido um dos mais produtivos compositores do país, com mais de 700 canções, o pagamento nunca esteve à altura de sua arte. Viveu para a malandragem e morreu sem nada.

Desde pequeno, em Campos, sua cidade natal, no norte fluminense, Wilson já demonstrava versatilidade musical: compunha, tocava triângulo na banda Lira de Apolo e criava paródias de músicas conhecidas para o Bando Corbeille de Flores, do qual também era integrante. Tinha 16 anos quando se mudou com a família para o Rio de Janeiro, em 1929. Sua vida mudaria rapidamente.

Pouco dado ao trabalho e aos estudos, resolveu morar sozinho perto do bairro da Lapa, reduto de músicos e boêmios, passando a freqüentar as rodas nos bares e cafés do Largo da Lapa e da Praça Tiradentes. O teatro de revista era a principal vitrine musical de uma época em que o rádio ainda não tinha se firmado como canal de comunicação urbana, e para se aproximar do meio artístico, Wilson arranjou bicos como contra-regra e iluminador dos espetáculos. Foi assim que fez chegar à cantora Araci Cortes (1904-1985) o primeiro samba que compôs, “Na estrada da vida”. Era ainda 1929 quando ela apresentou ao público os versos “Todo homem carrega a sua cruz/ Na estrada da vida que é longa e sem luz”.

Da estreia no teatro de revista decorreu a gravação, em 1932, de "por favor, vá embora" (parceria com Benedito Lacerda), cantada por Patrício Teixeira. No ano seguinte, Wilson Batista entrou numa polêmica que se tornou histórica, envolvendo outro grande nome da música: Noel Rosa.


No samba "Lenço no pescoço", gravado por Sílvio Caldas, Wilson axalta a condição de malandro: "Eu tenho orgulho/ em ser tão vadio/ sei que eles falam/ deste meu proceder/ eu vejo quem trabalha/ andar no miserê". Em resposta, Noel Rosa compõe "Rapaz folgado": "Malandro é palavra derrotista/ que só serve para tirar/ todo o valor do sambista". A tréplica veio com "Mocinho da Vila", uma clara referência ao desafeto: "Você é mocinho da Vila (...) injusto é seu comentário/ fala de malandro/ quem é otário".


Daí se seguiu uma aparente trégua entre os compositores, mas ela só durou até 1935, quando "Feitiço da Vila" reacendeu na questão. Não pela letra original, um dos muitos sambas a exaltar um bairro da cidade, mas pelas provocações de Noel durante improvisos feitos no "Programa Casé", veiculado pela rádio Philips. O samba original ganhou os seguintes versos: "A zona mais traquila/ é a nossa Vila/ o berço dos folgados/ não há um cadeado no portão/ porque na Vila/ não há ladrão". A paródia teria a ver com a vida pessoal de Wilson, que havia sido preso várias vezes por furto e por vadiagem. Comenta-se no meio musical que Noel preparava uma série de novos sambas pondo lenha na fogueira. O revide de Wilson Batista veio no ato, com "Conversa fiada": "É conversa fiada/ dizerem que samba/ na Vila tem feitiço (...) antes de irem dormir/ deem duas voltas no cadeado".
A irritação de Noel não tardou a se manifestar. Em 1936, Araci de Almeida gravou seu bombástico "Palpite infeliz": "Pra que ligar a quem não sabe/ aonde tem o seu nariz?/ quem é você que não sabe o que diz?" Wilson ainda compôs dois sambas que ficaram sem resposta. Em "Frankenstein da Vila", referia-se ao defeito físico de Noel, uma deformação no queixo provocada no parto: "Boa impressão nunca se tem/ quando se encontra um certo alguém/ que até parece o Frankenstein".

E em "Terra de cego" ironizava a melhor condição social do "Poeta da Vila": "Perde a mania de bamba/ todos sabem qual é/ o tem diploma no samba".

Algum tempo depois, no restaurante O Leitão, na Lapa, os dois fizeram as pazes. Como era de se esperar, o encontro também deu um samba: Noel pôs letra nova na melodia de "Terra de cego", que passou a se chamar "Deixa de ser convencida".

Vítima de tuberculose, Noel morreu em maio de 1937, meses antes da entrada em vigor do Estado Novo de Getúlio Vargas. O regime promoveu uma intensa propaganda do trabalhismo, investindo na formação de um proletariado ordeiro e tutelado, numa espécie de imagem digna da pobreza. As referências à malandragem, até então vistas com certa tolerância, passam a ser censuradas com rigor. Nesta situação, por questões de sobrevivência, o malandro provisoriamente "se regenera".

Até mesmo Wilson Batista, defensor convicto da malandragem, se rende ao ambiente da época e, em samba, ressalta a importância do trabalho. Em 1941 ele compõe, com Ataulfo Alves, "O bonde São Januário", sucesso de carnaval: "Quem trabalha é que trem razão/ eu digo e não tenho medo de errar/ o bonde São Januário/ leva mais um operário/ sou eu que vou trabalhar".

Os valores tradicionais da família também passaram a ser louvados pelo agora bem-comportado mundo do samba. O maior sucesso de Wilson Batista até então trata exatamente disso: em "Oh, seu Oscar" (1940) um marido abandonado se lamenta: "Fiz tudo para ver seu bem-estar/ até no cais do porto eu fui parar/ martirizando meu corpo noite e dia". E a figura do chefe de família responsável aparecerá em várias outras composições, como "Ganha-se pouco, mas é divertido" (1941), "Boa companheira" e "Emília", ambos de 1942;

Os anos difíceis da Segunda Guerra Mundial - especialmente com a entrada do Brasil no conflito em 1944 - deram origem a sambas primorosos. A figura do sambista Laurindo, personagem fictício que aparece pela primeira vez no samba "Triste cuíca", de Noel Rosa e Hervê Cordovil, é recuperada como herói de guerra em "Lá em Mangueira", "Comício em Mangueira" e "Cabo Laurindo": "Laurindo voltou coberto de glória/ trazendo garboso no peito/ a cruz da vitória".

O malandro torna-se "chefe de família" em 1945, ao casar-se com Marina. Era uma jovem baiana que ele conhecera num baile de carnaval. Desde o namoro, a musa inspiradora já lhe rendia belos sambas, como "Lealdade" - "Serei , serei leal contigo/ quado eu cansar dos teus beijos, te digo" - e "E o 56 não veio" - "Será que ela não veio porque se zangou?/ ou o bonde Alegria descarilou?" O nome do bonde não era licença poética. Quando os namorados brigavam, Marina deixava de ir ao seu encontro na Central do Brasil e pegava uma condução que passava pelo cais do porto, percurso diferente do Alegria, linha 56. Os quatro anos de casamento coinscidiram com algumas da melhores composições de Wilson, como "Louco" (ela é seu mundo) e "Vulto".

A parceria com o compositor e caricaturista Nássara (1910-1996) foi outra fonte de sucesso. Emplacaram as marchas "Balzaquina" (1950) e "Sereia de Copacabana" (1951) e o samba "Mundo de zinco" (1952). Quando o cantor Francisco Alves morreu num acidente de carro em 1952, recebeu da dupla uma homenagem comovente - em "Chico Viola", Wilson aproveita para mostrar que seu antigo desafeto, Noel Rosa, também tinha lugar de honra na memória do samba: "Na voz do plangente violão/ ele deixou seu coração/ partiu, disse adeus/ foi pro céu/ foi fazer, foi fazer/ companhia a Noel".

Com a chegada da Bossa Nova e, mais tarde, da Jovem Guarda, Wilson Batista tornou-se um compositor fora de moda. Para piorar, sua saúde era precária. Com problemas cardíacos e uma infiltração pulmonar, era uma pálida lembrança do homem elegante de outros tempos, sempre vestido de terno azul-marinho ou branco e camisa de seda.O consumo de drogas agravava ainda mais seu estado. A aparência dizia tudo: olheiras profundas, rosto magro e barba por fazer.

Viveu seus últimos anos na mais absoluta miséria. Quem o conhecia se cansara de "levar mordidas" de dinheiro emprestado que nunca voltava. Wilson vendia seus sambas por qualquer preço, especialmente para Jorge de Castro, contraventor do jogo de bicho. Foi despejado do apartamento onde morava, na Rua Senador Dantas, por falta de pagamento.

Wilson Batista morreu numa enfermaria coletiva do Hospital Souza Aguiar no dia 07 de julho de 1968, quatro dias depois de completar 55 anos. A seu pedido, foi providenciado um smocking, pois queria ir para o outro mundo em traje de gala. Seu corpo foi enterrado ao anoitecer, em homenagem a quem amou a noite.

Deixou um sofá, uma geladeira, uma vitrola, um gravador, um caderno com letras de músicas e alguns troféus. Mas seu maior legado não tem preço: as composições e a malandragem que ele eternizou no imaginário carioca.

(* Publicado na Revista de "História da Biblioteca Nacional', Ano 4/ No. 41/Fevereiro de 2009).

Sobre o autor:


Valdemar Ferreira Valente Junior


  1. . Doutor e Mestre em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Bacharel em Letras pela UFRJ;

. Professor do Curso de Graduação em Letras da Centro Universitário da Cidade - UniverCidade/RJ;

. Professor do Curso de Graduação em Letras da Universidade Castelo Branco/RJ.

Outras publicações:



O livro de Cultura Luso-brasileira apresenta as origens da nossa colonização, do século XVI até metade do século XX. O objetivo do livro é oferecer condições básicas para o aluno sobre a formação do Brasil, ampliando sua visão sobre os aspectos socioculturais de nosso país. O livro está dividido em 12 capítulos, contemplando a grandeza do barroco, a independência política, a república de cartolina, as visões do arcaico e do moderno, os efeitos da crise de 1930 até a chegada do século XX e a visão dos visitantes estrangeiros sobre o Brasil.

Livro e 2 DVDs incluem os temas:
:: Origens da história cultural brasileira;
:: A grandeza do Barroco e a riqueza da colônia;
:: Independência política e nacionalismo cultural;
:: A república de cartolina;
:: Visões do arcaico e do moderno;
:: 1922 e o século XX;
:: 1930 e os efeitos da crise;
:: Da casa-grande às raízes do Brasil.



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Editora:IESDE

http://www.videolivraria.com.br/iesde/dept.asp?partner_id=&old_template_id=74&tu=b2c&dept_id=620&template_id=74
ISBN:978-85-7638-880-7
Ano:2008
Edição:1
Número de páginas:120
Acabamento: Brochura
Formato: Grande
Quant. DVDs: 2
Número de videoaulas: 12
Tempo aprox. de videoaulas: 04 h 40 min.




Tempo de amar (Resenha)



Romance de transição, Tempo de amar situa-se como marco divisório, sendo que, com seu aparecimento, Autran Dourado consolida-se como um dos mais expressivos e inovadores autores da ficção brasileira contemporânea. O modelo de sociedade patriarcal mineira e o descompasso de vida de Ismael, o menino e o homem, são o pano de fundo responsável pela tensão narrativa de Tempo de amar, de Autran Dourado, romance publicado em 1952, reeditado pela Rocco, em 2004. O retorno do convento, para onde fora ainda criança, coincide com a dificuldade do rapaz culto em lidar com o mundo do trabalho, representado pela frustração de Bento, seu pai, comerciante sem horizontes, que vê no filho a realização do que não fora.A opressão do pai, aliada à memória de um passado de medo e conformismo, reforça em Ismael, o jovem alheio, ao lado de Paula, a namorada triste e sonhadora, o desejo de fugir de Cercado Velho, para bem longe construírem um mundo de liberdade. Narrado em terceira pessoa, Tempo de amar oscila entre o presente e a memória. A figura autoritária do avô Elpídio, o retorno da tia Evangelina, a submissão da avó Ritota e a morte da irmã Ursulina pertencem a um passado que se junta ao presente da doença de Celeste, sua mãe, e das discussões com o pai, contrário ao desejo do filho em seguir um caminho original ante a vida restrita em Cercado Velho. A família, a casa, tudo enfim, são para Ismael a representação de uma morte lenta e anunciada. A realidade grotesca não tem qualquer semelhança com os sonhos que cultiva desde a infância. Depois de claudicar por momentos, acaba por aceitar o emprego no cartório e reelabora o plano de fugir com Paula. Por fim, entre o assassinato de seu Tinoco por Gonçalo, o amor da prima Tarsila e a gravidez de Paula, que deixa Cercado Velho, Ismael desiste de partir, acomodando-se ao emprego no cartório e às limitações da vida provinciana.

http://www.univercidade.edu/uc/ci/dicaslivros/l_tempo_amar.htm

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

AS CONFISSÕES DO HOMEM INVISÍVEL

As confissões do homem invisível corre o sério risco de servir de manual para outras leituras dada a quantidade de referências ali contidas. Este atrevido aprendiz não pretende buscar outras, mas sugere ao leitor um confronto pacífico com Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Invisibilidade e cegueira ,onde se aproximam, onde se afastam. Nos enredos abordados, até que ponto influem na condição humana?
A história de Alexandre Plosk tem início quando o protagonista descobre, numa fábrica de espelhos, que sua imagem não afeta mais esse objeto. Daí em diante tudo na vida do personagem leva à confusão e daí a tristeza basta um sopro. É o que acontece quando nos falta coragem para olhar para o fundo do poço escuro de nossa alma. Forçado a mergulhos inevitáveis e geralmente trágicos no seu passado guiado pelo oxigênio da lucidez, perceber que não soube amar. Vem daí o grande combustível para a tristeza e a confusão mental. Até...desaparecer! Então tenta voltar, refazer o caminho para a dor doer menos. Esquece que na ânsia de voltar pode se perder definitivamente. Uma amiga já morta dizia: “ quando decidimos voltar é por que estamos perdidos.”
A relação mal resolvida com Alice, que também se torna invisível e esconde um segredo, dá a entender que certos amores não reclamam soluções, necessitam de solidões. Exigem que permaneçam unidos, na dor. Na aflição da alma. A angústia que faz inventar. Outros homens, outras mulheres, outros dias. E assim a vida ergue seus prédios, seus monumentos, permitindo a possibilidade de que ali naquela próxima esquina venha a encontrar outras dúvidas.Quem sabe, tenha morrido? Alice, o irmão, teria morrido por sua (do protagonista) culpa, ou por acaso.De qualquer sorte, a morte será sempre um retrato. Quem sabe um espelho a refletir a ausência? Nada mais que um instante paralisado da vida dos que restaram. Morte não se resume a dor, tristeza, é falta de costume.





O protagonista não guarda saudades, alimenta a amargura fruto da incerteza; não sente vontade de saber de ninguém, o passado é um ladrão egoísta que lhe deu às costas. Também não chega a ser daqueles tipos sorumbáticos que perambulam por aí sob o peso das cicatrizes do sofrimento.
Assim como para Alice, também para ele o que conferia um significado especial à vida não era o visível mas sim o sentido. Nunca conseguiriam a união.
E por falar em espelhos ,sua incansável apropriação pela literatura e a anteriormente citada quantidade de referências me obrigo a pensar na indigência intelectual que grassa em nosso país, a começar pelo bizarro presidente que supostamente nos comanda, e uma questão se impõem. O potencial criativo do escritor e o interpretativo do leitor. Até que ponto a formação, a intensidade e sutileza interpretativa, bem como a complexidade estética de ambos deve ter mais ou menos extensão semelhante? Do contrário a arte, no caso a literária, pode virar enigma, ou então refletir o território bizarro onde um Tarso ou um Genro ditará as regras. Creio que aí se justifique a presença da crítica, com uma atuação isenta que ajude a ordenar as emoções. Nunca esquecendo que a critica é plenamente dispensável, a obra de arte não precisa dela para existir, a obra de arte permite inferir uma realidade criadora e um leitor que se relaciona com ela também de maneira criativa.
As confissões do homem invisível é uma arriscada investida do autor, homem de cinema, pelas veredas literárias. Se atualmente o que mais se vê é autor escrevendo na expectativa de adaptação para o cinema, Alexandre Plosk parece fazer o caminho inverso. As confissões do homem invisível não é um romance linear, muda o tempo, muda o narrador, muda o cenário,e se o roteirista foi por demais criativo, ao montador faltou talento e expôs o leitor/espectador a uma enxurrada de informações e caso não disponha dos coletes salva vidas nas cores, filosofia, cinema, literatura, mais precisamente Kafka, Lewis Carol, Joyce, na certa entregará os pontos e deixará se hipnotizar por Morfeu.
Fica um travo de trabalho acadêmico com orientador preguiçoso; várias possibilidades e nenhuma aproveitada em sua totalidade . Uma pena, pois Alexandre abriu várias frentes, todas riquíssimas, não precisava abarcar todas, a história principal não carece de tamanho labirinto. Ficou parecido com a série de TV, O homem invisível. O lúdico superou o literário. Importante ressaltar que aqui nesse espaço tratamos de literatura, as virtudes cinematográficas, se por ventura existirem, serão sempre secundárias. Não entendo como mérito dizer que o livro A é bom porque daria um bom filme, no universo precário deste aprendiz o livro é bom ou tem qualidades porque é bom ou tem qualidades como livro. E basta. Do mesmo modo que um livro ruim nas mãos de um grande realizador pode resultar num grande filme. O que não podemos fazer durante a análise de um livro é projetarmos seu futuro numa outra forma de expressão. Pretensão descabida. Feita a observação mais que necessária voltemos em busca do fio da meada. Pois bem, se na obra o autor cria uma realidade soberana, essa mesma realidade também é frágil. Está a mercê das carências, veleidades e opiniões daqueles que se acercam dela.
Como convencer determinado leitor da importância de tal obra se a opção estética da mesma não faz parte de seu mundo?
Certa vez um poeta jovem afirmou a respeito de Paul Celan, Lezama Lima e Ezra Poud, que “ para desfrutar dos malabarismos, dos contorcionismos e os triplos saltos mortais, prefiro ir ao circo.”




Sem concordar com o jovem poeta, a frase serve como alerta: nenhuma obra está fora de perigo, nem sempre a qualidade se impõem por si , dependerá sempre do gosto e da formação do leitor. E aí que As confissões do homem invisível começam a correr perigo.
Contra as limitações do gosto individual nada se pode fazer, no entanto quanto a formação do leitor se pode debater, estudar, comentar, quem sabe criando novos paradigmas e movimentos estéticos. Talvez resida aí a grande contribuição de Alexandre Plosk, fazer um contraponto da figura do escritor culto,observador, atento a tudo que o cerca, com concepção intuitiva do trabalho literário.
O autor parece querer recuperar, ou quem sabe fundar uma harmonia existencial; unir a consciência ao Todo. Plosk aspira, com As confissões do homem invisível, a reconciliar-se com o mundo; mistura cultura judaica coma teoria do caos,a diluir a dor, a entender a distância e o vazio, a inventar uma maneira de fruir a plenitude onde convivam o desejo e a solidão, a frustração e as lembranças, os sonhos e a justiça. No entanto tamanho engenho acabará por deparar-se frente ao muro sólido da realidade. Então o Eu fragmentado assumirá o papel de Sisifo, e na busca da sua reconstrução renasce em seu sofrimento infindável, embora por vezes acredite tê-lo derrotado. No entanto, a vida não é feita só de alegrias, essa lição todos nós aprendemos muito cedo.Encontrar tristezas! Esse é o problema, encontrar o que não se procura, ninguém sabe onde pesquisar , mas também não é motivo para preocupação...ela vem...é uma coisa beirando a perfeição, a tristeza. Mas podia ser a pazA paz está distante , muito distante da perfeição, para haver paz é necessário que exista um derrotado. A tristeza vem, você não inventa. Depois da tristeza e sofrimento o indivíduo só almeja uma coisa: liberdade. E liberdade implica em perder algumas coisas. Perder, exatamente isso, perder, é o que consegue o protagonista de As confissões do homem invisível. Detalhe importante; caberá a você, visível leitor, decidir se ele encontrou a felicidade.
As confissões do homem invisível não tem por objetivo a articulação lógica, a trama nasce exatamente na desarticulação lógica do protagonista; no entanto se aproxima da tentativa de causar impacto emocional quando um certo viés onírico atua como coadjuvante dos humores da consciência ou dos horrores e dos desejos.
Para concluir: As confissões do homem invisível é a imagem, no espelho de cada um, da luta entre o Eu fragmentado e a unidade, o impulso desde a dor até a eclosão de um novo tempo, sem trevas. A fragmentação existencial do protagonista gera a fragmentação da narrativa - a cisão entre o Eu e o Todo.
Não, não é uma leitura fácil, caso você, preguiçoso leitor, pretender ultrapassar os véus do lúdico que revestem a narrativa. No entanto, se eu fosse você, abandonaria o comodismo pois não se arrependerá, por que
“viver é muito diferente de obstaculizar a morte e no amanhecer dos meus sapatos solitários escuto os passos de alguém igual a mim. Num outro país.”

TRECHO

Enquanto ele fala e fala, cada vez mais banhistas vêm acompanhar a conversa.Eles o incentivam, como se fosse um pastor. Dizem “amém”, “Deus seja louvado” a cada uma de suas brilhantes idéias. O mais incrível é que um grupo de animais vem pouco a pouco se aproximando. Primeiro um coelho, depois um burro, uma tartaruga, um gato, um cachorro...Todos eles parecem escutar suas palavras. Logicamente foram acostumados a isso.Imagino que, ao final, alguém lhes dê algo de comer.
Tio Charles tem um carinho especial pelo coelho. Ele o pega nos braços sem perder o ritmo.O coelho é engraçado.Ele me olha de vez em quando. Parece notar o quanto estou perdido diante de tantos conhecimentos.Tenho a nítida impressão de que está prendendo o riso por minha causa.
E por aí a coisa vai fluindo com Tio Charles encantando sua enorme platéia. Puro/Não-Puro. Rituais que tentam estabelecer diferenças.Deus. Homem. Eu. Outro. Imortalidade.Mortalidade. Construção de sentidos, enfim.
-Muito bem! Então, você entende o que é a Lógica. Ela faz sentido para você, não faz? Então, se a Lógica existe, isso só pode provar que existe também a sua contrapartida, certo?
Agora as coisas poderiam ficar complicadas.
-Lógica, Não-Lógica.Ah! Escolha o nome que quiser!
Consciente, Inconsciente, o que seja! Vamos, isso é moleza, rapaz!
Sigamos juntos: a Não-Lógica pressupõe a ausência total de Lógica, certo?
-Certo.
-Errado! A Não-Lógica é definida como “não-lógica” justamente porque neste universo não-lógico não cabe qualquer comparação com a Lógica. Portanto, a Não-Lógica jamais pode ser entendida através de uma mente lógica.


O AUTOR
Alexandre Plosk nasceu no Rio de Janeiro em 1968. Cursou publicidade e cinema.Além da literatura, trabalha com roteiro de cinema e televisão.Assinou a direção de curtas-metragens e escreveu o roteiro do longa Bellini e a Esfinge, prêmio de melhor filme do Festival do Rio. Em 2004, estreou na literatura com o romance Livro zero, As confissões do homem invisível é sua segunda obra literária.Atualmente, Plosk é roteirista da TV Globo.

Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed.Conex e Nenhum pássaro no céu, ed. Fábrica de Leitura, professor de Lingua Portuguesa e Literatura, mestrando em Letras.





sábado, 10 de janeiro de 2009



NOS PENHASCOS DE MÁRMORE

Vamos começar pelo aspecto imutável, Ernst Jünger foi militarista, apoiou , e não foi sem querer , a ascensão do nazismo, (participou da primeira e da segunda guerra mundial como militar e também tomou parte na ocupação de Paris pelos nazistas) mais tarde abraçaria um niilismo até certo ponto sofisticado. Importante lembrarmos sempre disso, não é o fato de escrever bem que o exime de culpa. Nazista regenerado talvez seja mais perigoso que nazista condenado. Não foi por acaso que no período em que Hitler esteve no poder quase todos escritores, atualmente de importância reconhecida, foram perseguidos. Exceto quem? Quem? Ernst Jünger.Não, ingênuo leitor, eu não entregaria meu cachorrinho para o Jünger dar uma volta com ele pelo quarteirão. Pois bem, Jünger é considerado gênio por muitos, de nós e dos outros. Andam lendo pouco, ou mal, o Graciliano Ramos, o Guimarães Rosa, o Erico Verissimo, o Campos de Carvalho, o Mário Araújo, o Luís Rufatto, por exemplo. E por falar em ingenuidade e genialidade, lembremos o que disse seu compatriota( dele Jünger) Schiler: "Todo gênio verdadeiro deve ser ingênuo. Somente sua ingenuidade o converte em gênio." É óbvio que a ingenuidade somente não faz um gênio, mas que o Jünger não tinha o menor traço de ingenuidade é indiscutível. Não desconheço o que disse Freud sobre a personalidade genial. Diz que o gênio vive sempre sob tensão e quando a tensão se torna exageradamente forte, quase insuportável, essa tensão migra para a obra. Entre vida e obra de Jünger percebo as contradições, e não consigo tomar partido a favor dos atenuantes. Se Nos penhascos de mármore é quase poesia, é quase fábula, é quase infanto-juvenil, é quase....Temos um menino que alimenta serpentes, ele bate no prato e elas se juntam a ele para beber leite, as mesmas serpentes se põem na vertical numa atitude pouco amistosa frente a inimigos. Como se pode notar, é quase infantil, mas certamente você, semiótico leitor, fará uma leitura extremamente culta do signo serpente e enviará para este tosco aprendiz o que isso quer dizer.Aguardo ansioso. Enfim, quase...
E como todo quase,não chega a impressionar.
Mas passemos a obra.
Nos penhascos de mármoreé uma de suas novelas mais conhecidas e serve também de emblema da contradição que orientou sua vida. De soldado de Hitler à suspeita de um catolicismo dado às imagens que pululam nessa narrativa, Ernst Jünger é a confirmação da tese que afirma ser o homem a causa e o efeito de todas as tragédias da história e alimentar a ira nacionalista como uma virtude é um equívoco vergonhoso. Uma obra literária por melhor que seja não terá poderes para limpar tamanha mancha. Nos penhascos de mármore é uma bela novela, como tantas que tantos escritores brasileiros escreveram e escrevem, embora isso não seja pouco também não vamos classificá-la como algo na ordem das obras excepcionais.Longe disso. Caso o leitor atento não se disponha a fazer inúmeras analogias e forçar a barra na intenção de ver o nazismo aqui e ali, Nos penhascos de mármore poderá ser encarado como uma competente literatura infanto-juvenil, sem esquecer a gama de valores arquetípicos representados pela variedade de personagens que pululam pelo convento de Padre Lampros, sem esquecer as lições de botânica e um longo esclarecimento sobre o comportamento das víboras, sem esquecer a fantasia, o fantástico, o maravilhoso...
Mas falta algo....



O protagonista (anônimo) da novela vive junto com o irmão, Otho num país próspero onde reina a felicidade. Da localidade que habitam vislumbram Marina, um lugar onde natureza, arte e ciência convivem em harmonia. A difícil combinação ideal do amor com o conhecimento. Mas é sempre assim; se está tudo bem não tardará a entrar em cena o vilão. E nesse caso, vem da Mauritânia o cruel ditador (alguns dizem ser a representação de Hitler, mas pode ser qualquer exemplar do autoritarismo ) determinado a por um fim em tamanha felicidade e estabelecer seu reinado de violência. Como disse acima, muitos viram nisso uma denúncia do regime nazista. Se olharmos para o protagonista, um ser que transborda virtudes, sejam individuais, sejam coletivas; e creditarmos ao autor tais qualidades, ou admiração por tais aspectos, aí sim, com certa forçadinha de barra, pode-se dizer que se trata de uma demonstração de repúdio ao nazismo. Seguindo nessa linha temos um outro personagem, é praticamente dele o cap.14,um monge cristão, o padre Lampros, e ainda na esteira do pode-se dizer que tal afirmarmos que esse episódio representa o primeiro contato do autor com a igreja católica? E não foi dos mais amistosos como podemos ver no trecho que segue. " Quando nos aproximamos dele, fomos tomados por certa inquietação, pois a face e as mãos desse monge pareciam-nos insólitas e sinistrar.Se assim posso me expressar, elas pareciam pertencer a um cadáver, e era difícil acreditar que nelas circulassem o sangue e a vida.

O sombrio Padre Lampros,( ...Mas a alegria também não lhe era estranha) é a chave do enigma Nos penhascos de mármore. Padre Lampros é um personagem que diz mais com seus silêncios que com suas palavras, seja em questões corriqueiras seja no campo cientifico, onde é respeitadíssimo, sábio evita tomar partido em debates entre escolas de diferentes orientações. Lampros guardava seu passado a sete chaves, restava-lhe um anel onde se via a asa de um grifo e as palavras "tem motivo a minha paciência". Numa edição espanhola lida por este aprendiz há décadas lia-se "espero en paz", me agrada bem mais. Como diz o narrador daí se explicam duas características de Lampros; orgulho e modéstia. Defendia o princípio de que "cada teoria significava na história natural uma contribuição à gênese das coisas, porque em cada época o espírito humano conceberia a criação de uma nova maneira, e em cada interpretação não existiria mais verdade do que na folha de uma planta, a qual se desenvolve para logo fenecer." Por essa razão nomeou a si mesmo Filóbio, "o que vive nas folhas." Deixando à mostra, novamente, as duas características; orgulho e modéstia.
O padre vivia recluso em seu mosteiro,voltado aos estudos, às orações e a atenção aos peregrinos; mesmo assim do mundo tudo sabia, era querido e respeitado não só por católicos, mas por todos, inclusive aqueles que elegiam deuses outros. Quando o perigo se ensaiava não disfarçava certa alegria e regozijo. "Ele, que vivia como em sonho atrás dos muros do mosteiro, era talvez o único dentre nós que enxergava a realidade por inteiro."

Longe de ser egoísta chegava a descuidar da própria segurança, no entanto não negligenciava quando se tratava da tranqüilidade do seu povo.

Mas falta algo...
Aspecto que não pode ser esquecido é o tom fabular de Nos penhascos de mármore capaz de alinhá-lo entre os grandes títulos do gênero, fazer analogias inclusive Pedro e o Lobo, Chapéuzinho Vermelho e Bambi, permitem. Inclusive sobre Harry Potter há um estudo relacionando com o período e práticas nazistas. Como diz o meu papagaio; "neguinho delira, neguinho delira."




Continuando com Lampros, seu mosteiro, seu vasto conhecimento e bom senso, permitem ao leitor desconfiar de uma certa cumplicidade entre ele o autor. Percebem-se no monge os valores defendidos por Jünger como o conhecimento, orgulho, autocontrole e a defesa de certos princípios como o dito aqui anteriormente. Pairam suspeitas de que Lampros seja fruto de algum contato do autor com o catolicismo. E pelo visto agradou.
Dizem também que a vida só tem transcendência quando somos capazes de salvar-nos como homens. Não sei se Jünger chegou lá.




Mas falta algo...
O narrador é um ser estranho, enigmático. Não se pode dizer que seja alguém que tenha uma relação com o mundo que o rodeia que vá além da observação de supostas leis. Sua moral não é das mais claras, talvez a que suscita o momento. Ao leitor fica a desconfiança de estar diante de alguém que ama a aventura, no entanto vários medos o impedem de vive-la em sua totalidade. Falta-lhe uma dose de Dom Quixote.
Mas falta algo a Nos penhascos de mármore.O quê?


-Faltam duendes, castelos e fadas.

TRECHO

Quando estamos felizes, as mais modestas dádivas deste mundo satisfazem os nossos sentidos.Desde sempre eu venerei o reino vegetal e, em muitos anos de peregrinação, investiguei os seus prodígios.Era-me familiar o momento em que o coração palpita, ao se pressentirem os segredos que cada grão de semente abriga em seu desenvolvimento. Contudo, o esplendor do crescimento nunca me fora algo tão próximo quanto o era nesse chão que exalava um cheiro de verde há muito fenecido.
Antes de me deitar eu perambulava um instante no estreito corredor central. Naquelas meias-noites eu pensava amiúde que jamais observara as plantas tão reluzentes e admiráveis. Sentia de longe o aroma dos vales espinhosos e constelados de brancura, que na primavera eu fruíra na Arabia Deserta, e o cheiro de baunilha que refresca o caminhante no calor sem sombras dos bosques de araucárias. Então, como páginas de um velho livro, emergiam novamente as lembranças de certas horas de indescritível abundância - de pântanos quentes nos quais floresce a vitória-régia e de vegetações marinhas que de longe se vêem arder, ao meio-dia, sobre suas pálidas pernas-de-pau, defronte a costas de palmeiras. Faltava-me, porém, o medo que nos assalta sempre que vislumbramos o crescimento demasiado, o qual, de modo semelhante à imagem divina, com mil braços nos atrai. Eu sentia como, por meio de nossos estudos, novas forças despontavam para resistir aos ardentes poderes anímicos e domá-luz, assim como os cavalos são conduzidos pela rédea.

Sobre o autor


Ernst Jünger (Heidelberg, 29 de março de 1895Riedlingen, 17 de fevereiro de 1998) exaltado na França como grand écrivain e posto lado a lado dos grandes autores europeus do século XX, Ernst Jünger permaneceu um tabu para grande parte dos leitores na Alemanha, seu país natal, sobretudo pela exaltação da guerra que fez durante a ascensão de Hitler e por sua atuação como oficial da Wehrmacht, as forças armadas, até 1944, na Paris ocupada. Sua premiação com o Goethe, o mais importante prêmio literário de seu país, em 1982, também despertou polêmica na intelectualidade alemã. Ainda hoje o autor divide a crítica, que, mesmo celebrando a beleza de sua prosa, não deixa de apontar seus pendores aristocráticos, nem as contradições de uma biografia tão contraditória quanto o próprio século XX.


Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed. Conex e Nenhum pássaro no céu-ed. Fábrica de Leitura. Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Luis Vaz de Camões



Amor é fogo que arde sem se ver



Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Verdes são os campos




I


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

II

Campo, que te estendes

Com verdura bela;

Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

III




Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


Alma minha gentil, que te partiste


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.



LUIS VAZ DE CAMÕES


Luís Vaz de Camões foi um dos vultos maiores da literatura da Renascença. Nascido em 04 de fevereiro de 1524, em local incerto (Lisboa ou Coimbra), filho de uma família da pequena nobreza, não se pode aceitar que não tenha tido uma educação formal de qualidade, tendo em vista a universalidade do conhecimento de sua obra, particularmente da épica.


Freqüentou a corte e a boêmia lisboeta, onde o gênio forte e aventureiro o marcaram e conseguiram o cognome de "o trinca-ferros" com que passou a ser conhecido. Envolvido em brigas e confusões, acabou embarcado para o serviço militar nas índias.
Em Goa ficou até 1567, quando regressou a Portugal com escala em Moçambique, onde se demorou alguns anos e onde Diogo do Couto, seu grande admirador, o foi encontrar tão pobre que "comia de amigos". Depois desse longo desterro, voltou a Lisboa, por obra e graça do acaso e da ajuda de amigos, em 1569 ou 1570. Dois anos mais tarde publicou Os Lusíadas, que por si só vale por uma literatura inteira. Dom Sebastião, a quem é o poema dedicado, galardou-o por três anos com uma tença anual de 15.000 réis. Mas o poeta morreu na miséria, num leito de hospital.


Sepultura de Camões


À parte Os Lusíadas, quase toda a produção camoniana foi publicada postumamente: numerosos sonetos, canções, odes, elegias, éclogas, cartas e os três autos - Anfitriões (1587), Filodemo (1587), El-rei Seleuco (1645). Edição crítica de sua lírica de Leodegário de Azevedo Filho, em 7 vol. Quatro deles já foram publicados pela Imprensa Nacional de Lisboa.

Fontes:http://www.unificado.com.br/calendario/02/camoes.htm

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

SÃO SEBASTIÃO “Padroeiro de Rio de Janeiro”



Diz a história que, quando Sebastião era ainda pequeno, sua família mudou-se para a cidade de Milão, bem mais próxima de Roma, que era a capital do Império. Ali morreu o seu pai, ficando o menino entregue aos cuidados maternos. A sua mãe era cristã, e isto não era tão comum naquela época, lá pelo ano 284. Os cristãos eram perseguidos como inimigos do Estado pelo fato de não adorarem aos deuses pagãos. Todos os que adotassem essa nova religião seriam aprisionados e lhes eram confiscados os seus bens.
Daí então, a mãe de Sebastião, sendo cristã, transmitiu ao filho o dom da fé cristã. Fé vivia e verdadeira que nos compromete em tudo e sempre. Assim começa a história de um santo, início de uma vida como de qualquer vida.


A PERSEGUIÇÃO



Faz muito tempo que Sebastião viveu; tantos séculos atrás, no alvorecer da era cristã. Por causa de sua vida, em conflito com a dos demais, em Roma, os cristãos começaram a ser perseguidos e Sebastião tomou uma decisão importante: iria para Roma e tentaria ajudar os cristãos de lá, confiando na sua fé e no prestígio que gozava como soldado fiel e corajoso.
Agora é que começa a segunda parte da vida do jovem oficial do império. Estamos no ano 303. Desde o ano 63, quando Nero era imperador romano, os cristãos foram quase, ininterruptamente, perseguidos. De tempos em tempos, um imperador declarava o extermínio sumário dos cristãos. Cada um deles decretava uma perseguição mais feroz do que outra. A perseguição, a que nos referimos, iniciou-se precisamente no dia 23 de fevereiro de 303 e foi ordenada pelo imperador Diocleciano com o seguinte decreto:

[Caio Aurélio Valério Diocleciano (em latim: Gaius Aurelius Valerius Diocletianus, 22 de dezembro de 244 –03 dezembro de311) foi um imperador romano durante cujo longo reinado, o Império Romano saiu da fase desastrosa da história de Roma conhecida como Crise Imperial (235-284). Seu governo de 21 anos caracterizou-se pela capacidade administrativa sustentada num carácter e numa personalidade carismáticas. Foi responsável por estabelecer as bases para a segunda fase do Império Romano, que é conhecida como a Tetrarquia, ou Império Romano Tardio ou o Império Bizantino . As suas reformas permitiram a sobrevivência do Império Romano do Oriente por mais de 1000 anos.]

"Sejam invadidas e demolidas todas as Igrejas! Sejam aprisionados todos os cristãos! Corte-se a cabeça de quem se reunir para celebrar o culto! Sejam torturados os suspeitos de serem cristãos! Queimem-se os livros sagrados em praça pública! Os bens da Igreja sejam confiscados e vendidos em leilão!"

Por três anos e meio correu muito sangue e não houve paz para os inocentes cristãos!
Sebastião, logo que chegou a Roma, foi promovido a oficial. O imperador cativado pela fibra e personalidade deste jovem o nomeou comandante dos pretorianos, seus guardas-pessoais.

Um alto cargo, sem dúvida. Cargo de confiança e de influência. No exercício deste ofício, porém, Sebastião estava exposto aos perigos da corte. Sua vida talvez não corresse perigo, mas sua fé poderia ser abalada e suas convicções transformadas.
A corte era um resumo de todos os vícios e depravações existentes no Império. O próprio imperador Diocleciano, filho de escravos, conseguiu o poder às custas de assassinatos. Era de uma avareza que se tornou proverbial. Os tributos, que explorando o povo, o levaram, em pouco tempo, à extrema miséria.


Termas de Diocleciano

Durante esse tempo de perseguição, Sebastião trabalhava na corte. Ocultava com muito cuidado sua fé cristã, não com medo de morrer, mas para cumprir melhor o seu papel: encorajar seus irmãos na fé e na perseverança, especialmente os mais tímidos e vacilantes, merecendo, com isso, o título de "auxílio dos cristãos".

Assim sendo, muitos cristãos aprisionados e temerosos de sua morte, após ouvirem Sebastião, sentiam-se revigorados e destemidos, prontos a enfrentar a tortura e a morte por amor a Cristo. Não mais os amedrontava o cárcere e a crueldade nos suplícios.


Entretanto, havia uma razão para explicar a força que sustentava os cristãos em suas provações e essa força era o amor, seguido do desprendimento, a fé e a esperança em Cristo ressuscitado. Sebastião sabia perfeitamente de tudo isso e por esse motivo passava de cárcere em cárcere, visitando e animando os irmãos a se manterem firmes na fé, mostrando que na vida, os sofrimentos são passageiros e que o prêmio reservado aos perseverantes na fé é eterno.


Conta-se que enquanto Sebastião falava, Zoe, que era muda, começou a falar. Diante desse fato, ficaram maravilhados, o carcereiro e todos os presentes e logo se dispuseram a aceitar a fé cristã, professada por Sebastião. Os cristãos estavam presos, mas não a Palavra de Deus. A Palavra do Senhor, de fato, não está acorrentada. Ela é Caminho, Verdade e Vida para todos nós!

O caminho do cárcere era escuro, mas o cristão o alumiava com a sua fé; o lugar era frio, mas ele o aquecia com suas preces fervorosas e cantos inspirados. Apesar das correntes, estava, pelo poder de Deus, livre para Ele. Na pressão esperava a sentença de um juiz, contudo sabia que estava com Deus e Ele julgaria os mesmos juízes.

Mas enquanto alguns resolvem iniciar seu processo de conversão, outros continuam tramando o mal. De fato, a perseguição sistemática do imperador Diocleciano torna-se cada vez mais violenta, exigindo dos cristãos, muita coragem e heroísmo.

Aqui acontece um fato que vem amenizar a vida dos perseguidos. O Prefeito da cidade de Roma, Cromáceo, convertido ao cristianismo, demitiu-se do cargo e começou a reunir, ocultamente, em sua casa, os recém-convertidos e, desta forma, estes não eram molestados. Ele sabia que muitos não resistiriam ao martírio, caso fossem presos. Então sugeriu que todos aqueles fossem para longe de Roma. Ali estariam protegidos da feroz perseguição. Seguiam, assim, o que Jesus havia sugerido no Evangelho:
"Se vos perseguirem numa cidade, fugí para outra!"

À medida que aumentava a perseguição, os companheiros que Sebastião tinha instruído e convertido à fé cristã, iam sendo descobertos, presos e mortos. A primeira foi Zoe, esposa do carcereiro. Foi surpreendida e presa quando rezava no túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo. Recusando prestar culto aos deuses romanos, foi queimada e suas cinzas foram jogadas no rio Tibre, em Roma.

O sacerdote Tranquilino, por sua vez, foi apedrejado e seu corpo exposto ao ludíbrio popular. Ao resgatar os corpos dos mártires, vários amigos de Sebastião foram descobertos e presos. Entre eles se achavam: Cláudio, Nicostrato, Castor, Vitoriano e Sinforiano. Durante dias, os inimigos da fé cristã pelejaram com eles para que renegassem a fé, mas nada conseguiram. Por fim, o imperador ordenou que fossem atirados ao mar.



Sebastião já não podia continuar ocultando sua fé, por ter se tornado luz que ilumina a todos. E um dia alguém o denunciou ao prefeito, por ser cristão. O imperador também foi cientificado e recebeu todas as informações. Deixar Sebastião em liberdade representava um grave "perigo" para a cidade inteira. Então, mandou que o chamassem para ouvir dele próprio a confirmação.

O imperador ordenou que amarrassem o soldado cristão a uma árvore, num bosque dedicado ao deus Apolo. Que o crivassem de flechas, mas não atingissem seus órgãos vitais, para que morresse lentamente. Assim foi feito! Com a perda de sangue e a quantidade de feridas, Sebastião desmaiou, já era tarde! Julgando-o morto, os flecheiros retiraram-se.

À noite, a esposa do mártir Castulo, Irene, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar do local seu corpo e dar-lhe sepultura. Assustadas, comprovaram que Sebastião ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene o escondeu em sua casa, cuidando de suas feridas.


Chegou o dia 20 de janeiro. Era o dia consagrado à divindade do imperador. Este saiu em grande cortejo de seu palácio e dirigiu-se ao templo do deus Hércules, onde seriam oferecidos os sacrifícios de costume. Estando coroado pelos sacerdotes pagãos e pelos homens mais nobres do império, foi concedida uma audiência pública. Quem desejasse pedir alguma graça ou apresentar alguma queixa, poderia faze-lo nesta ocasião, diante do soberano.

Sebastião, com toda a dignidade que sempre o distinguiu e cheio do Espírito Santo, apresentou-se diante do imperador e, destemidamente, reprovou-lhe o comportamento em relação à Igreja. Reprovou-lhe as injustiças, a falta de liberdade e a perseguição aos cristãos. O imperador ficou estarrecido ao reconhecer naquela pálida figura, a pessoa de seu antigo oficial que o julgava morto. Tomado de ódio, ordenou aos guardas que o executassem ali, em sua presença e na presença de todos. Ele mesmo queria ter a certeza de sua morte.


Imediatamente, os guardas investiram contra ele, e o moeram de pancadas com cassetetes e com os cabos de ferro de suas lanças, até que Sebastião não deu mais sinal de vida. O imperador ordenou, então, que o cadáver do oficial traidor fosse jogado no esgoto da cidade e, assim, seria apagado, para sempre, a sua memória.





A peste

Entre os antigos, as flechas, eram símbolos da peste pelas feridas cancerosas que provocavam. Assim sendo, a piedade cristã, sabendo que em seu primeiro martírio Sebastião havia sido sufocado por uma saraivada de flechas, escolheu-o para ser protetor contra o flagelo da peste, epidemia arrasadora, especialmente nos tempos passados, mas que ainda hoje é bastante temível.

Naquela ocasião, uma terrível peste assolava Roma, vitimando muitas pessoas. Entretanto, tal epidemia simplesmente desapareceu a partir do momento da transladação dos restos mortais desse mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra. As cidades de Milão, em 1575 e Lisboa, em 1599, acometidas por pestes epidêmicas, se viram livres desses males, após atos públicos suplicando a intercessão deste grande santo. Desde
então, São Sebastião passou a ser invocado contra a peste e suas irmãs a fome e a guerra.

São Sebastião é também muito venerado em todo o Brasil, onde muitas cidades o tem como padroeiro, entre elas, o Rio de Janeiro, que dia 20 de janeiro se enfeita para homenagear esse santo tão popular.



Procissão na Tijuca (RJ)



Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro


Oração a São Sebastião

Deus onipotente, que conheceis a nossa enfermidade, fraqueza, agonia ,ânsia e tribulações desta vida, fazei que a todos nos valha a intercessão de São Sebastião seu glorioso mártir e protetor dos cristãos.
São Sebastião, meu intercessor ,vós que sofrestes os ferimentos e recebestes no corpo as flechas da indiferença e da vingança ,sofrendo vil e infamante processo, pela gloria de Nosso Senhor Jesus Cristo, dignai-vos a interceder para que possa obter do Altíssimo a graça de (citar aqui a graça desejada), e ainda a graça da salvação da minha alma para vossa maior gloria.
Honra e gloria vos renderei em todos os dias de minha vida Amém.

Oração a São Sebastião II

(Contra peste e contágio de doenças)

Onipotente e eterno Deus, que pelos merecimentos de São Sebastião ,vosso glorioso mártir, livrastes os vossos fieis de doenças contagiosas, atendei as minhas súplicas para que, recorrendo agora da nossa necessidade a vós , afim de alcançar semelhante favor ,mereçamos , por sua valiosa intercessão , sermos livres do flagelo da peste e de toda moléstia do corpo e da alma.
Por Jesus Cristo, Senhor Nosso, Amem.

Fontes.: http://saosebastiao.natal.itgo.com/biografia_de_sao_sebastiao.html
http://www.cademeusanto.com.br/oracao_sao_sebastiao.htm