terça-feira, 20 de janeiro de 2009

AS CONFISSÕES DO HOMEM INVISÍVEL

As confissões do homem invisível corre o sério risco de servir de manual para outras leituras dada a quantidade de referências ali contidas. Este atrevido aprendiz não pretende buscar outras, mas sugere ao leitor um confronto pacífico com Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Invisibilidade e cegueira ,onde se aproximam, onde se afastam. Nos enredos abordados, até que ponto influem na condição humana?
A história de Alexandre Plosk tem início quando o protagonista descobre, numa fábrica de espelhos, que sua imagem não afeta mais esse objeto. Daí em diante tudo na vida do personagem leva à confusão e daí a tristeza basta um sopro. É o que acontece quando nos falta coragem para olhar para o fundo do poço escuro de nossa alma. Forçado a mergulhos inevitáveis e geralmente trágicos no seu passado guiado pelo oxigênio da lucidez, perceber que não soube amar. Vem daí o grande combustível para a tristeza e a confusão mental. Até...desaparecer! Então tenta voltar, refazer o caminho para a dor doer menos. Esquece que na ânsia de voltar pode se perder definitivamente. Uma amiga já morta dizia: “ quando decidimos voltar é por que estamos perdidos.”
A relação mal resolvida com Alice, que também se torna invisível e esconde um segredo, dá a entender que certos amores não reclamam soluções, necessitam de solidões. Exigem que permaneçam unidos, na dor. Na aflição da alma. A angústia que faz inventar. Outros homens, outras mulheres, outros dias. E assim a vida ergue seus prédios, seus monumentos, permitindo a possibilidade de que ali naquela próxima esquina venha a encontrar outras dúvidas.Quem sabe, tenha morrido? Alice, o irmão, teria morrido por sua (do protagonista) culpa, ou por acaso.De qualquer sorte, a morte será sempre um retrato. Quem sabe um espelho a refletir a ausência? Nada mais que um instante paralisado da vida dos que restaram. Morte não se resume a dor, tristeza, é falta de costume.





O protagonista não guarda saudades, alimenta a amargura fruto da incerteza; não sente vontade de saber de ninguém, o passado é um ladrão egoísta que lhe deu às costas. Também não chega a ser daqueles tipos sorumbáticos que perambulam por aí sob o peso das cicatrizes do sofrimento.
Assim como para Alice, também para ele o que conferia um significado especial à vida não era o visível mas sim o sentido. Nunca conseguiriam a união.
E por falar em espelhos ,sua incansável apropriação pela literatura e a anteriormente citada quantidade de referências me obrigo a pensar na indigência intelectual que grassa em nosso país, a começar pelo bizarro presidente que supostamente nos comanda, e uma questão se impõem. O potencial criativo do escritor e o interpretativo do leitor. Até que ponto a formação, a intensidade e sutileza interpretativa, bem como a complexidade estética de ambos deve ter mais ou menos extensão semelhante? Do contrário a arte, no caso a literária, pode virar enigma, ou então refletir o território bizarro onde um Tarso ou um Genro ditará as regras. Creio que aí se justifique a presença da crítica, com uma atuação isenta que ajude a ordenar as emoções. Nunca esquecendo que a critica é plenamente dispensável, a obra de arte não precisa dela para existir, a obra de arte permite inferir uma realidade criadora e um leitor que se relaciona com ela também de maneira criativa.
As confissões do homem invisível é uma arriscada investida do autor, homem de cinema, pelas veredas literárias. Se atualmente o que mais se vê é autor escrevendo na expectativa de adaptação para o cinema, Alexandre Plosk parece fazer o caminho inverso. As confissões do homem invisível não é um romance linear, muda o tempo, muda o narrador, muda o cenário,e se o roteirista foi por demais criativo, ao montador faltou talento e expôs o leitor/espectador a uma enxurrada de informações e caso não disponha dos coletes salva vidas nas cores, filosofia, cinema, literatura, mais precisamente Kafka, Lewis Carol, Joyce, na certa entregará os pontos e deixará se hipnotizar por Morfeu.
Fica um travo de trabalho acadêmico com orientador preguiçoso; várias possibilidades e nenhuma aproveitada em sua totalidade . Uma pena, pois Alexandre abriu várias frentes, todas riquíssimas, não precisava abarcar todas, a história principal não carece de tamanho labirinto. Ficou parecido com a série de TV, O homem invisível. O lúdico superou o literário. Importante ressaltar que aqui nesse espaço tratamos de literatura, as virtudes cinematográficas, se por ventura existirem, serão sempre secundárias. Não entendo como mérito dizer que o livro A é bom porque daria um bom filme, no universo precário deste aprendiz o livro é bom ou tem qualidades porque é bom ou tem qualidades como livro. E basta. Do mesmo modo que um livro ruim nas mãos de um grande realizador pode resultar num grande filme. O que não podemos fazer durante a análise de um livro é projetarmos seu futuro numa outra forma de expressão. Pretensão descabida. Feita a observação mais que necessária voltemos em busca do fio da meada. Pois bem, se na obra o autor cria uma realidade soberana, essa mesma realidade também é frágil. Está a mercê das carências, veleidades e opiniões daqueles que se acercam dela.
Como convencer determinado leitor da importância de tal obra se a opção estética da mesma não faz parte de seu mundo?
Certa vez um poeta jovem afirmou a respeito de Paul Celan, Lezama Lima e Ezra Poud, que “ para desfrutar dos malabarismos, dos contorcionismos e os triplos saltos mortais, prefiro ir ao circo.”




Sem concordar com o jovem poeta, a frase serve como alerta: nenhuma obra está fora de perigo, nem sempre a qualidade se impõem por si , dependerá sempre do gosto e da formação do leitor. E aí que As confissões do homem invisível começam a correr perigo.
Contra as limitações do gosto individual nada se pode fazer, no entanto quanto a formação do leitor se pode debater, estudar, comentar, quem sabe criando novos paradigmas e movimentos estéticos. Talvez resida aí a grande contribuição de Alexandre Plosk, fazer um contraponto da figura do escritor culto,observador, atento a tudo que o cerca, com concepção intuitiva do trabalho literário.
O autor parece querer recuperar, ou quem sabe fundar uma harmonia existencial; unir a consciência ao Todo. Plosk aspira, com As confissões do homem invisível, a reconciliar-se com o mundo; mistura cultura judaica coma teoria do caos,a diluir a dor, a entender a distância e o vazio, a inventar uma maneira de fruir a plenitude onde convivam o desejo e a solidão, a frustração e as lembranças, os sonhos e a justiça. No entanto tamanho engenho acabará por deparar-se frente ao muro sólido da realidade. Então o Eu fragmentado assumirá o papel de Sisifo, e na busca da sua reconstrução renasce em seu sofrimento infindável, embora por vezes acredite tê-lo derrotado. No entanto, a vida não é feita só de alegrias, essa lição todos nós aprendemos muito cedo.Encontrar tristezas! Esse é o problema, encontrar o que não se procura, ninguém sabe onde pesquisar , mas também não é motivo para preocupação...ela vem...é uma coisa beirando a perfeição, a tristeza. Mas podia ser a pazA paz está distante , muito distante da perfeição, para haver paz é necessário que exista um derrotado. A tristeza vem, você não inventa. Depois da tristeza e sofrimento o indivíduo só almeja uma coisa: liberdade. E liberdade implica em perder algumas coisas. Perder, exatamente isso, perder, é o que consegue o protagonista de As confissões do homem invisível. Detalhe importante; caberá a você, visível leitor, decidir se ele encontrou a felicidade.
As confissões do homem invisível não tem por objetivo a articulação lógica, a trama nasce exatamente na desarticulação lógica do protagonista; no entanto se aproxima da tentativa de causar impacto emocional quando um certo viés onírico atua como coadjuvante dos humores da consciência ou dos horrores e dos desejos.
Para concluir: As confissões do homem invisível é a imagem, no espelho de cada um, da luta entre o Eu fragmentado e a unidade, o impulso desde a dor até a eclosão de um novo tempo, sem trevas. A fragmentação existencial do protagonista gera a fragmentação da narrativa - a cisão entre o Eu e o Todo.
Não, não é uma leitura fácil, caso você, preguiçoso leitor, pretender ultrapassar os véus do lúdico que revestem a narrativa. No entanto, se eu fosse você, abandonaria o comodismo pois não se arrependerá, por que
“viver é muito diferente de obstaculizar a morte e no amanhecer dos meus sapatos solitários escuto os passos de alguém igual a mim. Num outro país.”

TRECHO

Enquanto ele fala e fala, cada vez mais banhistas vêm acompanhar a conversa.Eles o incentivam, como se fosse um pastor. Dizem “amém”, “Deus seja louvado” a cada uma de suas brilhantes idéias. O mais incrível é que um grupo de animais vem pouco a pouco se aproximando. Primeiro um coelho, depois um burro, uma tartaruga, um gato, um cachorro...Todos eles parecem escutar suas palavras. Logicamente foram acostumados a isso.Imagino que, ao final, alguém lhes dê algo de comer.
Tio Charles tem um carinho especial pelo coelho. Ele o pega nos braços sem perder o ritmo.O coelho é engraçado.Ele me olha de vez em quando. Parece notar o quanto estou perdido diante de tantos conhecimentos.Tenho a nítida impressão de que está prendendo o riso por minha causa.
E por aí a coisa vai fluindo com Tio Charles encantando sua enorme platéia. Puro/Não-Puro. Rituais que tentam estabelecer diferenças.Deus. Homem. Eu. Outro. Imortalidade.Mortalidade. Construção de sentidos, enfim.
-Muito bem! Então, você entende o que é a Lógica. Ela faz sentido para você, não faz? Então, se a Lógica existe, isso só pode provar que existe também a sua contrapartida, certo?
Agora as coisas poderiam ficar complicadas.
-Lógica, Não-Lógica.Ah! Escolha o nome que quiser!
Consciente, Inconsciente, o que seja! Vamos, isso é moleza, rapaz!
Sigamos juntos: a Não-Lógica pressupõe a ausência total de Lógica, certo?
-Certo.
-Errado! A Não-Lógica é definida como “não-lógica” justamente porque neste universo não-lógico não cabe qualquer comparação com a Lógica. Portanto, a Não-Lógica jamais pode ser entendida através de uma mente lógica.


O AUTOR
Alexandre Plosk nasceu no Rio de Janeiro em 1968. Cursou publicidade e cinema.Além da literatura, trabalha com roteiro de cinema e televisão.Assinou a direção de curtas-metragens e escreveu o roteiro do longa Bellini e a Esfinge, prêmio de melhor filme do Festival do Rio. Em 2004, estreou na literatura com o romance Livro zero, As confissões do homem invisível é sua segunda obra literária.Atualmente, Plosk é roteirista da TV Globo.

Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed.Conex e Nenhum pássaro no céu, ed. Fábrica de Leitura, professor de Lingua Portuguesa e Literatura, mestrando em Letras.





sábado, 10 de janeiro de 2009



NOS PENHASCOS DE MÁRMORE

Vamos começar pelo aspecto imutável, Ernst Jünger foi militarista, apoiou , e não foi sem querer , a ascensão do nazismo, (participou da primeira e da segunda guerra mundial como militar e também tomou parte na ocupação de Paris pelos nazistas) mais tarde abraçaria um niilismo até certo ponto sofisticado. Importante lembrarmos sempre disso, não é o fato de escrever bem que o exime de culpa. Nazista regenerado talvez seja mais perigoso que nazista condenado. Não foi por acaso que no período em que Hitler esteve no poder quase todos escritores, atualmente de importância reconhecida, foram perseguidos. Exceto quem? Quem? Ernst Jünger.Não, ingênuo leitor, eu não entregaria meu cachorrinho para o Jünger dar uma volta com ele pelo quarteirão. Pois bem, Jünger é considerado gênio por muitos, de nós e dos outros. Andam lendo pouco, ou mal, o Graciliano Ramos, o Guimarães Rosa, o Erico Verissimo, o Campos de Carvalho, o Mário Araújo, o Luís Rufatto, por exemplo. E por falar em ingenuidade e genialidade, lembremos o que disse seu compatriota( dele Jünger) Schiler: "Todo gênio verdadeiro deve ser ingênuo. Somente sua ingenuidade o converte em gênio." É óbvio que a ingenuidade somente não faz um gênio, mas que o Jünger não tinha o menor traço de ingenuidade é indiscutível. Não desconheço o que disse Freud sobre a personalidade genial. Diz que o gênio vive sempre sob tensão e quando a tensão se torna exageradamente forte, quase insuportável, essa tensão migra para a obra. Entre vida e obra de Jünger percebo as contradições, e não consigo tomar partido a favor dos atenuantes. Se Nos penhascos de mármore é quase poesia, é quase fábula, é quase infanto-juvenil, é quase....Temos um menino que alimenta serpentes, ele bate no prato e elas se juntam a ele para beber leite, as mesmas serpentes se põem na vertical numa atitude pouco amistosa frente a inimigos. Como se pode notar, é quase infantil, mas certamente você, semiótico leitor, fará uma leitura extremamente culta do signo serpente e enviará para este tosco aprendiz o que isso quer dizer.Aguardo ansioso. Enfim, quase...
E como todo quase,não chega a impressionar.
Mas passemos a obra.
Nos penhascos de mármoreé uma de suas novelas mais conhecidas e serve também de emblema da contradição que orientou sua vida. De soldado de Hitler à suspeita de um catolicismo dado às imagens que pululam nessa narrativa, Ernst Jünger é a confirmação da tese que afirma ser o homem a causa e o efeito de todas as tragédias da história e alimentar a ira nacionalista como uma virtude é um equívoco vergonhoso. Uma obra literária por melhor que seja não terá poderes para limpar tamanha mancha. Nos penhascos de mármore é uma bela novela, como tantas que tantos escritores brasileiros escreveram e escrevem, embora isso não seja pouco também não vamos classificá-la como algo na ordem das obras excepcionais.Longe disso. Caso o leitor atento não se disponha a fazer inúmeras analogias e forçar a barra na intenção de ver o nazismo aqui e ali, Nos penhascos de mármore poderá ser encarado como uma competente literatura infanto-juvenil, sem esquecer a gama de valores arquetípicos representados pela variedade de personagens que pululam pelo convento de Padre Lampros, sem esquecer as lições de botânica e um longo esclarecimento sobre o comportamento das víboras, sem esquecer a fantasia, o fantástico, o maravilhoso...
Mas falta algo....



O protagonista (anônimo) da novela vive junto com o irmão, Otho num país próspero onde reina a felicidade. Da localidade que habitam vislumbram Marina, um lugar onde natureza, arte e ciência convivem em harmonia. A difícil combinação ideal do amor com o conhecimento. Mas é sempre assim; se está tudo bem não tardará a entrar em cena o vilão. E nesse caso, vem da Mauritânia o cruel ditador (alguns dizem ser a representação de Hitler, mas pode ser qualquer exemplar do autoritarismo ) determinado a por um fim em tamanha felicidade e estabelecer seu reinado de violência. Como disse acima, muitos viram nisso uma denúncia do regime nazista. Se olharmos para o protagonista, um ser que transborda virtudes, sejam individuais, sejam coletivas; e creditarmos ao autor tais qualidades, ou admiração por tais aspectos, aí sim, com certa forçadinha de barra, pode-se dizer que se trata de uma demonstração de repúdio ao nazismo. Seguindo nessa linha temos um outro personagem, é praticamente dele o cap.14,um monge cristão, o padre Lampros, e ainda na esteira do pode-se dizer que tal afirmarmos que esse episódio representa o primeiro contato do autor com a igreja católica? E não foi dos mais amistosos como podemos ver no trecho que segue. " Quando nos aproximamos dele, fomos tomados por certa inquietação, pois a face e as mãos desse monge pareciam-nos insólitas e sinistrar.Se assim posso me expressar, elas pareciam pertencer a um cadáver, e era difícil acreditar que nelas circulassem o sangue e a vida.

O sombrio Padre Lampros,( ...Mas a alegria também não lhe era estranha) é a chave do enigma Nos penhascos de mármore. Padre Lampros é um personagem que diz mais com seus silêncios que com suas palavras, seja em questões corriqueiras seja no campo cientifico, onde é respeitadíssimo, sábio evita tomar partido em debates entre escolas de diferentes orientações. Lampros guardava seu passado a sete chaves, restava-lhe um anel onde se via a asa de um grifo e as palavras "tem motivo a minha paciência". Numa edição espanhola lida por este aprendiz há décadas lia-se "espero en paz", me agrada bem mais. Como diz o narrador daí se explicam duas características de Lampros; orgulho e modéstia. Defendia o princípio de que "cada teoria significava na história natural uma contribuição à gênese das coisas, porque em cada época o espírito humano conceberia a criação de uma nova maneira, e em cada interpretação não existiria mais verdade do que na folha de uma planta, a qual se desenvolve para logo fenecer." Por essa razão nomeou a si mesmo Filóbio, "o que vive nas folhas." Deixando à mostra, novamente, as duas características; orgulho e modéstia.
O padre vivia recluso em seu mosteiro,voltado aos estudos, às orações e a atenção aos peregrinos; mesmo assim do mundo tudo sabia, era querido e respeitado não só por católicos, mas por todos, inclusive aqueles que elegiam deuses outros. Quando o perigo se ensaiava não disfarçava certa alegria e regozijo. "Ele, que vivia como em sonho atrás dos muros do mosteiro, era talvez o único dentre nós que enxergava a realidade por inteiro."

Longe de ser egoísta chegava a descuidar da própria segurança, no entanto não negligenciava quando se tratava da tranqüilidade do seu povo.

Mas falta algo...
Aspecto que não pode ser esquecido é o tom fabular de Nos penhascos de mármore capaz de alinhá-lo entre os grandes títulos do gênero, fazer analogias inclusive Pedro e o Lobo, Chapéuzinho Vermelho e Bambi, permitem. Inclusive sobre Harry Potter há um estudo relacionando com o período e práticas nazistas. Como diz o meu papagaio; "neguinho delira, neguinho delira."




Continuando com Lampros, seu mosteiro, seu vasto conhecimento e bom senso, permitem ao leitor desconfiar de uma certa cumplicidade entre ele o autor. Percebem-se no monge os valores defendidos por Jünger como o conhecimento, orgulho, autocontrole e a defesa de certos princípios como o dito aqui anteriormente. Pairam suspeitas de que Lampros seja fruto de algum contato do autor com o catolicismo. E pelo visto agradou.
Dizem também que a vida só tem transcendência quando somos capazes de salvar-nos como homens. Não sei se Jünger chegou lá.




Mas falta algo...
O narrador é um ser estranho, enigmático. Não se pode dizer que seja alguém que tenha uma relação com o mundo que o rodeia que vá além da observação de supostas leis. Sua moral não é das mais claras, talvez a que suscita o momento. Ao leitor fica a desconfiança de estar diante de alguém que ama a aventura, no entanto vários medos o impedem de vive-la em sua totalidade. Falta-lhe uma dose de Dom Quixote.
Mas falta algo a Nos penhascos de mármore.O quê?


-Faltam duendes, castelos e fadas.

TRECHO

Quando estamos felizes, as mais modestas dádivas deste mundo satisfazem os nossos sentidos.Desde sempre eu venerei o reino vegetal e, em muitos anos de peregrinação, investiguei os seus prodígios.Era-me familiar o momento em que o coração palpita, ao se pressentirem os segredos que cada grão de semente abriga em seu desenvolvimento. Contudo, o esplendor do crescimento nunca me fora algo tão próximo quanto o era nesse chão que exalava um cheiro de verde há muito fenecido.
Antes de me deitar eu perambulava um instante no estreito corredor central. Naquelas meias-noites eu pensava amiúde que jamais observara as plantas tão reluzentes e admiráveis. Sentia de longe o aroma dos vales espinhosos e constelados de brancura, que na primavera eu fruíra na Arabia Deserta, e o cheiro de baunilha que refresca o caminhante no calor sem sombras dos bosques de araucárias. Então, como páginas de um velho livro, emergiam novamente as lembranças de certas horas de indescritível abundância - de pântanos quentes nos quais floresce a vitória-régia e de vegetações marinhas que de longe se vêem arder, ao meio-dia, sobre suas pálidas pernas-de-pau, defronte a costas de palmeiras. Faltava-me, porém, o medo que nos assalta sempre que vislumbramos o crescimento demasiado, o qual, de modo semelhante à imagem divina, com mil braços nos atrai. Eu sentia como, por meio de nossos estudos, novas forças despontavam para resistir aos ardentes poderes anímicos e domá-luz, assim como os cavalos são conduzidos pela rédea.

Sobre o autor


Ernst Jünger (Heidelberg, 29 de março de 1895Riedlingen, 17 de fevereiro de 1998) exaltado na França como grand écrivain e posto lado a lado dos grandes autores europeus do século XX, Ernst Jünger permaneceu um tabu para grande parte dos leitores na Alemanha, seu país natal, sobretudo pela exaltação da guerra que fez durante a ascensão de Hitler e por sua atuação como oficial da Wehrmacht, as forças armadas, até 1944, na Paris ocupada. Sua premiação com o Goethe, o mais importante prêmio literário de seu país, em 1982, também despertou polêmica na intelectualidade alemã. Ainda hoje o autor divide a crítica, que, mesmo celebrando a beleza de sua prosa, não deixa de apontar seus pendores aristocráticos, nem as contradições de uma biografia tão contraditória quanto o próprio século XX.


Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed. Conex e Nenhum pássaro no céu-ed. Fábrica de Leitura. Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Luis Vaz de Camões



Amor é fogo que arde sem se ver



Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.


É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.


É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.


Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Verdes são os campos




I


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

II

Campo, que te estendes

Com verdura bela;

Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

III




Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


Alma minha gentil, que te partiste


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.


E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,


Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.



LUIS VAZ DE CAMÕES


Luís Vaz de Camões foi um dos vultos maiores da literatura da Renascença. Nascido em 04 de fevereiro de 1524, em local incerto (Lisboa ou Coimbra), filho de uma família da pequena nobreza, não se pode aceitar que não tenha tido uma educação formal de qualidade, tendo em vista a universalidade do conhecimento de sua obra, particularmente da épica.


Freqüentou a corte e a boêmia lisboeta, onde o gênio forte e aventureiro o marcaram e conseguiram o cognome de "o trinca-ferros" com que passou a ser conhecido. Envolvido em brigas e confusões, acabou embarcado para o serviço militar nas índias.
Em Goa ficou até 1567, quando regressou a Portugal com escala em Moçambique, onde se demorou alguns anos e onde Diogo do Couto, seu grande admirador, o foi encontrar tão pobre que "comia de amigos". Depois desse longo desterro, voltou a Lisboa, por obra e graça do acaso e da ajuda de amigos, em 1569 ou 1570. Dois anos mais tarde publicou Os Lusíadas, que por si só vale por uma literatura inteira. Dom Sebastião, a quem é o poema dedicado, galardou-o por três anos com uma tença anual de 15.000 réis. Mas o poeta morreu na miséria, num leito de hospital.


Sepultura de Camões


À parte Os Lusíadas, quase toda a produção camoniana foi publicada postumamente: numerosos sonetos, canções, odes, elegias, éclogas, cartas e os três autos - Anfitriões (1587), Filodemo (1587), El-rei Seleuco (1645). Edição crítica de sua lírica de Leodegário de Azevedo Filho, em 7 vol. Quatro deles já foram publicados pela Imprensa Nacional de Lisboa.

Fontes:http://www.unificado.com.br/calendario/02/camoes.htm

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

SÃO SEBASTIÃO “Padroeiro de Rio de Janeiro”



Diz a história que, quando Sebastião era ainda pequeno, sua família mudou-se para a cidade de Milão, bem mais próxima de Roma, que era a capital do Império. Ali morreu o seu pai, ficando o menino entregue aos cuidados maternos. A sua mãe era cristã, e isto não era tão comum naquela época, lá pelo ano 284. Os cristãos eram perseguidos como inimigos do Estado pelo fato de não adorarem aos deuses pagãos. Todos os que adotassem essa nova religião seriam aprisionados e lhes eram confiscados os seus bens.
Daí então, a mãe de Sebastião, sendo cristã, transmitiu ao filho o dom da fé cristã. Fé vivia e verdadeira que nos compromete em tudo e sempre. Assim começa a história de um santo, início de uma vida como de qualquer vida.


A PERSEGUIÇÃO



Faz muito tempo que Sebastião viveu; tantos séculos atrás, no alvorecer da era cristã. Por causa de sua vida, em conflito com a dos demais, em Roma, os cristãos começaram a ser perseguidos e Sebastião tomou uma decisão importante: iria para Roma e tentaria ajudar os cristãos de lá, confiando na sua fé e no prestígio que gozava como soldado fiel e corajoso.
Agora é que começa a segunda parte da vida do jovem oficial do império. Estamos no ano 303. Desde o ano 63, quando Nero era imperador romano, os cristãos foram quase, ininterruptamente, perseguidos. De tempos em tempos, um imperador declarava o extermínio sumário dos cristãos. Cada um deles decretava uma perseguição mais feroz do que outra. A perseguição, a que nos referimos, iniciou-se precisamente no dia 23 de fevereiro de 303 e foi ordenada pelo imperador Diocleciano com o seguinte decreto:

[Caio Aurélio Valério Diocleciano (em latim: Gaius Aurelius Valerius Diocletianus, 22 de dezembro de 244 –03 dezembro de311) foi um imperador romano durante cujo longo reinado, o Império Romano saiu da fase desastrosa da história de Roma conhecida como Crise Imperial (235-284). Seu governo de 21 anos caracterizou-se pela capacidade administrativa sustentada num carácter e numa personalidade carismáticas. Foi responsável por estabelecer as bases para a segunda fase do Império Romano, que é conhecida como a Tetrarquia, ou Império Romano Tardio ou o Império Bizantino . As suas reformas permitiram a sobrevivência do Império Romano do Oriente por mais de 1000 anos.]

"Sejam invadidas e demolidas todas as Igrejas! Sejam aprisionados todos os cristãos! Corte-se a cabeça de quem se reunir para celebrar o culto! Sejam torturados os suspeitos de serem cristãos! Queimem-se os livros sagrados em praça pública! Os bens da Igreja sejam confiscados e vendidos em leilão!"

Por três anos e meio correu muito sangue e não houve paz para os inocentes cristãos!
Sebastião, logo que chegou a Roma, foi promovido a oficial. O imperador cativado pela fibra e personalidade deste jovem o nomeou comandante dos pretorianos, seus guardas-pessoais.

Um alto cargo, sem dúvida. Cargo de confiança e de influência. No exercício deste ofício, porém, Sebastião estava exposto aos perigos da corte. Sua vida talvez não corresse perigo, mas sua fé poderia ser abalada e suas convicções transformadas.
A corte era um resumo de todos os vícios e depravações existentes no Império. O próprio imperador Diocleciano, filho de escravos, conseguiu o poder às custas de assassinatos. Era de uma avareza que se tornou proverbial. Os tributos, que explorando o povo, o levaram, em pouco tempo, à extrema miséria.


Termas de Diocleciano

Durante esse tempo de perseguição, Sebastião trabalhava na corte. Ocultava com muito cuidado sua fé cristã, não com medo de morrer, mas para cumprir melhor o seu papel: encorajar seus irmãos na fé e na perseverança, especialmente os mais tímidos e vacilantes, merecendo, com isso, o título de "auxílio dos cristãos".

Assim sendo, muitos cristãos aprisionados e temerosos de sua morte, após ouvirem Sebastião, sentiam-se revigorados e destemidos, prontos a enfrentar a tortura e a morte por amor a Cristo. Não mais os amedrontava o cárcere e a crueldade nos suplícios.


Entretanto, havia uma razão para explicar a força que sustentava os cristãos em suas provações e essa força era o amor, seguido do desprendimento, a fé e a esperança em Cristo ressuscitado. Sebastião sabia perfeitamente de tudo isso e por esse motivo passava de cárcere em cárcere, visitando e animando os irmãos a se manterem firmes na fé, mostrando que na vida, os sofrimentos são passageiros e que o prêmio reservado aos perseverantes na fé é eterno.


Conta-se que enquanto Sebastião falava, Zoe, que era muda, começou a falar. Diante desse fato, ficaram maravilhados, o carcereiro e todos os presentes e logo se dispuseram a aceitar a fé cristã, professada por Sebastião. Os cristãos estavam presos, mas não a Palavra de Deus. A Palavra do Senhor, de fato, não está acorrentada. Ela é Caminho, Verdade e Vida para todos nós!

O caminho do cárcere era escuro, mas o cristão o alumiava com a sua fé; o lugar era frio, mas ele o aquecia com suas preces fervorosas e cantos inspirados. Apesar das correntes, estava, pelo poder de Deus, livre para Ele. Na pressão esperava a sentença de um juiz, contudo sabia que estava com Deus e Ele julgaria os mesmos juízes.

Mas enquanto alguns resolvem iniciar seu processo de conversão, outros continuam tramando o mal. De fato, a perseguição sistemática do imperador Diocleciano torna-se cada vez mais violenta, exigindo dos cristãos, muita coragem e heroísmo.

Aqui acontece um fato que vem amenizar a vida dos perseguidos. O Prefeito da cidade de Roma, Cromáceo, convertido ao cristianismo, demitiu-se do cargo e começou a reunir, ocultamente, em sua casa, os recém-convertidos e, desta forma, estes não eram molestados. Ele sabia que muitos não resistiriam ao martírio, caso fossem presos. Então sugeriu que todos aqueles fossem para longe de Roma. Ali estariam protegidos da feroz perseguição. Seguiam, assim, o que Jesus havia sugerido no Evangelho:
"Se vos perseguirem numa cidade, fugí para outra!"

À medida que aumentava a perseguição, os companheiros que Sebastião tinha instruído e convertido à fé cristã, iam sendo descobertos, presos e mortos. A primeira foi Zoe, esposa do carcereiro. Foi surpreendida e presa quando rezava no túmulo dos Apóstolos Pedro e Paulo. Recusando prestar culto aos deuses romanos, foi queimada e suas cinzas foram jogadas no rio Tibre, em Roma.

O sacerdote Tranquilino, por sua vez, foi apedrejado e seu corpo exposto ao ludíbrio popular. Ao resgatar os corpos dos mártires, vários amigos de Sebastião foram descobertos e presos. Entre eles se achavam: Cláudio, Nicostrato, Castor, Vitoriano e Sinforiano. Durante dias, os inimigos da fé cristã pelejaram com eles para que renegassem a fé, mas nada conseguiram. Por fim, o imperador ordenou que fossem atirados ao mar.



Sebastião já não podia continuar ocultando sua fé, por ter se tornado luz que ilumina a todos. E um dia alguém o denunciou ao prefeito, por ser cristão. O imperador também foi cientificado e recebeu todas as informações. Deixar Sebastião em liberdade representava um grave "perigo" para a cidade inteira. Então, mandou que o chamassem para ouvir dele próprio a confirmação.

O imperador ordenou que amarrassem o soldado cristão a uma árvore, num bosque dedicado ao deus Apolo. Que o crivassem de flechas, mas não atingissem seus órgãos vitais, para que morresse lentamente. Assim foi feito! Com a perda de sangue e a quantidade de feridas, Sebastião desmaiou, já era tarde! Julgando-o morto, os flecheiros retiraram-se.

À noite, a esposa do mártir Castulo, Irene, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar do local seu corpo e dar-lhe sepultura. Assustadas, comprovaram que Sebastião ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene o escondeu em sua casa, cuidando de suas feridas.


Chegou o dia 20 de janeiro. Era o dia consagrado à divindade do imperador. Este saiu em grande cortejo de seu palácio e dirigiu-se ao templo do deus Hércules, onde seriam oferecidos os sacrifícios de costume. Estando coroado pelos sacerdotes pagãos e pelos homens mais nobres do império, foi concedida uma audiência pública. Quem desejasse pedir alguma graça ou apresentar alguma queixa, poderia faze-lo nesta ocasião, diante do soberano.

Sebastião, com toda a dignidade que sempre o distinguiu e cheio do Espírito Santo, apresentou-se diante do imperador e, destemidamente, reprovou-lhe o comportamento em relação à Igreja. Reprovou-lhe as injustiças, a falta de liberdade e a perseguição aos cristãos. O imperador ficou estarrecido ao reconhecer naquela pálida figura, a pessoa de seu antigo oficial que o julgava morto. Tomado de ódio, ordenou aos guardas que o executassem ali, em sua presença e na presença de todos. Ele mesmo queria ter a certeza de sua morte.


Imediatamente, os guardas investiram contra ele, e o moeram de pancadas com cassetetes e com os cabos de ferro de suas lanças, até que Sebastião não deu mais sinal de vida. O imperador ordenou, então, que o cadáver do oficial traidor fosse jogado no esgoto da cidade e, assim, seria apagado, para sempre, a sua memória.





A peste

Entre os antigos, as flechas, eram símbolos da peste pelas feridas cancerosas que provocavam. Assim sendo, a piedade cristã, sabendo que em seu primeiro martírio Sebastião havia sido sufocado por uma saraivada de flechas, escolheu-o para ser protetor contra o flagelo da peste, epidemia arrasadora, especialmente nos tempos passados, mas que ainda hoje é bastante temível.

Naquela ocasião, uma terrível peste assolava Roma, vitimando muitas pessoas. Entretanto, tal epidemia simplesmente desapareceu a partir do momento da transladação dos restos mortais desse mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra. As cidades de Milão, em 1575 e Lisboa, em 1599, acometidas por pestes epidêmicas, se viram livres desses males, após atos públicos suplicando a intercessão deste grande santo. Desde
então, São Sebastião passou a ser invocado contra a peste e suas irmãs a fome e a guerra.

São Sebastião é também muito venerado em todo o Brasil, onde muitas cidades o tem como padroeiro, entre elas, o Rio de Janeiro, que dia 20 de janeiro se enfeita para homenagear esse santo tão popular.



Procissão na Tijuca (RJ)



Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro


Oração a São Sebastião

Deus onipotente, que conheceis a nossa enfermidade, fraqueza, agonia ,ânsia e tribulações desta vida, fazei que a todos nos valha a intercessão de São Sebastião seu glorioso mártir e protetor dos cristãos.
São Sebastião, meu intercessor ,vós que sofrestes os ferimentos e recebestes no corpo as flechas da indiferença e da vingança ,sofrendo vil e infamante processo, pela gloria de Nosso Senhor Jesus Cristo, dignai-vos a interceder para que possa obter do Altíssimo a graça de (citar aqui a graça desejada), e ainda a graça da salvação da minha alma para vossa maior gloria.
Honra e gloria vos renderei em todos os dias de minha vida Amém.

Oração a São Sebastião II

(Contra peste e contágio de doenças)

Onipotente e eterno Deus, que pelos merecimentos de São Sebastião ,vosso glorioso mártir, livrastes os vossos fieis de doenças contagiosas, atendei as minhas súplicas para que, recorrendo agora da nossa necessidade a vós , afim de alcançar semelhante favor ,mereçamos , por sua valiosa intercessão , sermos livres do flagelo da peste e de toda moléstia do corpo e da alma.
Por Jesus Cristo, Senhor Nosso, Amem.

Fontes.: http://saosebastiao.natal.itgo.com/biografia_de_sao_sebastiao.html
http://www.cademeusanto.com.br/oracao_sao_sebastiao.htm

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

OSCAR WILDE - Brilhante, polêmico e arrogante


16/10/1854 , Dublin, Irlanda - 30/11/1900, Paris, França


Escritor dotado de grande talento, usa como tema central de seus livros, o ambiente social em que vivia. Fala do efêmero, dos prazeres mundanos, da aristocracia decadente, do belo, do fútil, dos gastos desmedidos com festas e saraus, e da volúpia. Era um *dândi (*Janota, almofadinha), usava longos cabelos, roupas espalhafatosas com paletós ornados de flores.Oriundo de família de classe média alta, desde cedo teve acesso à cultura e a companhia de artistas e intelectuais. Ao chegar em Londres, conhece Constance Mary Holland, de família tradicional irlandesa, moderna, culta, poliglota, que além desses atributos, também era rica o que o levou a casar-se em 1884, por interesse . Tiveram dois filhos, Cyrill (1885) e Vyvyan (1886), nesse ano, resolve assumir abertamente sua relação homossexual com Robert Ross, seu hóspede. Esse seu comportamento libertino em plena era Vitoriana, custou-lhe muito caro.
Com os constantes escândalos sobre sua vida de luxúria, homossexualidade e libidinagem, perde a tutela dos filhos e tem seus bens penhorados para pagamento das custas processuais. Vê tudo ruir à sua volta, sua credibilidade, sua imagem de escritor, esposo e pai. Seu declínio profissional e moral, culminaram com o abandono e a solidão que o acompanharam até sua morte aos 46 anos, num hotel barato de Paris, contaminado pela sífilis, o alcoolismo e a meningite, resultado da vida orgiástica que vivia.
Foi enterrado em uma sepultura simples paga por seu ex-amante Lord Alfred Douglas, e em 1909 seus restos foram transferidos para o cemitério de Père Lachaise.




Oscar Fingall O'Flahertie Wills Wilde, um dos maiores escritores de língua inglesa do século 19, tornou-se célebre pela sua obra e pela sua personalidade. Sofisticado, inteligente, adepto do esteticismo (da "arte pela arte"), escreveu contos ("O Crime de Lord Arthur Saville"), teatro ("O Leque de Lady Windermere"), ensaios ("A alma do homem sob o socialismo"), e romances ("O Retrato de Dorian Gray").Oscar Wilde era filho de um médico, Sir William Wilde e de uma escritora, Jane Francesca Elgee, defensora do movimento da Independência Irlandesa. Desde criança Oscar Wilde esteve sempre rodeado por grandes intelectuais. Criado no protestantismo, destacou-se nos estudos das obras clássicas gregas e no conhecimento dos idiomas.Em 1882, foi convidado para ir aos Estados Unidos para falar sobre o seu recém criado Movimento Estético, com as idéias de renovação moral. Defendia o "belo" como única solução contra tudo o que considerava denegrir a sociedade.



Esse movimento visava transformar o tradicionalismo na época Vitoriana, dando um tom de vanguarda às artes.No ano seguinte foi para Paris, e, n contato com o mundo literário francês, seu movimento acabou por enfraquecer-se. Em seguida, retornou para a Inglaterra, onde se casou com Constance Lloyd e foi morar em Chelsea, um bairro de artistas. O casal teve dois filhos, mas mesmo após o casamento, Oscar continuou freqüentando todas as rodas literárias, espalhando glamour e comentários nos eventos sociais em que comparecia, sempre elegante e extravagante.Em 1880 lançou "Vera", um texto teatral bem sucedido. Chegou a ter três peças em cartaz simultaneamente nos teatros ingleses.Em seguida publicou uma coletânea de poemas. Em 1887 e 1888, seu período mais produtivo, lançou vários contos e novelas, como "O Príncipe Feliz", "O Fantasma de Canterville" e outras histórias.Em 1891, lançou sua obra prima, "O Retrato de Dorian Gray", que retrata a decadência moral humana. No entanto, no seu apogeu literário, começaram a surgir os problemas pessoais. O que antes eram boatos quanto a uma suposta vida irregular, passaram a se concretizar, dando início á decadência pessoal do escritor.

Apareceram rumores sobre seu homossexualismo, (severamente condenado por lei na Inglaterra), que não puderam mais serem negados. Oscar se envolveu com Lord Alfred Douglas (ou Bosie), filho do Marquês de Queensberry, que sabendo do relacionamento, enviou uma carta a Oscar Wilde, no Albermale Club, onde o ofendia e recriminava já no sobrescrito: "A Oscar Wilde, conhecido Sodomita".O escritor decidiu processar o Marquês por difamação. Depois tentou desistir do processo, mas era tarde demais e as provas da sua vida sexual desregrada começam a aparecer. Um novo processo contra ele foi instaurado. Sua fama começou a desmoronar. Suas obras e livros foram recolhidos e suas comédias retiradas de cartaz. O que lhe restava foi leiloado para as despesas do processo judicial. Acabou passando dois anos na prisão, que lhe renderam obras comoventes como "A Balada do Cárcere de Reading" (1898) e "De Profundis", uma longa carta ao Lord Douglas. Ao sair da prisão, retirou-se para Paris, onde adotou o pseudônimo de Sebastian Melmouth e onde passou o resto dos seus dias, em hotéis baratos, embriagando-se com absinto.Após seu envolvimento com Bosie e sua prisão, suas obras são recolhidas das livrarias e suas peças retiradas de cartaz. Os bens que lhe restam são leiloados para cobrir despesas do processo judicial. Neste momento, finda seu período literário mais produtivo, que ocorreu entre 1887 e 1895.



Entre os anos de 1887 e 1888, várias obras foram publicadas, entretanto, neste momento, apesar de trazem uma certa carga de amargura pessoal, suas obras foram consideradas excessivamente fantasiosas, sendo até mesmo comparadas com "contos de fadas". Até 1889, atua como editor no "The woman's world".
No entanto, ao mesmo tempo em que conquistou respeito e notoriedade literária, além de uma situação financeira confortável, também surgiram sérios problemas pessoais. Até aquele momento, Oscar era apenas uma personalidade audaciosa da sociedade aristocrática britânica. Havia diversos rumores sobre sua conduta pessoal, inclusive sobre uma suposta homossexualidade, envolvendo-se com garotos de programa, que era considerada crime e severamente punida pelos tribunais.

Cyril Holland, filho de Oscar Wilde, e sua mãe Constance Holland


Oscar era o preso C-33 no presídio de Reading. Na madrugada de 3 de fevereiro de 1896, no período que estava cumprindo a sentença, alegou ter tido uma visão de sua mãe. "Eu a convidei para sentar, mas ela só balançou a cabeça", disse o escritor. Na manhã seguinte, recebe a notícia do falecimento de sua mãe.
Após ser libertado em 19 de maio de 1897, vai para a França e adota o pseudônimo Sebastian Melmouth. Este nome foi utilizado para abrir o registro no Hotel d’Alsace, local onde passou a maior parte de seus últimos dias. Ainda, mantém um contato distante com Lord Alfred Douglas. Porém, a mãe do Lord ameaça interromper sua mesada caso não afastasse-se do autor. Lord Alfred aceita sob a condição de que sua mãe continue enviando dinheiro a Oscar.
Após esse período conturbando, envolvendo as acusações, processos jurídicos, condenação e declínio moral e financeiro, Oscar conhece a face mais rude da pobreza. Passa a maior parte do tempo em quartos de hotéis baratos destruindo-se através do absinto. Envergonhados pelo destino do pai, os filhos de Oscar, os quais nunca mais os veria, chegam a trocar de nome. Sua esposa morre em 1899.



Sepultura de Wilde no cemitério Père Lachaise

Na manhã do dia 30 de novembro de 1900, às 9h50, em um quarto chulo de um hotel parisiense, falece vítima de um ataque de meningite (agravado pelo álcool e pela sífilis) e de uma infecção no ouvido conhecida por cholesteotoma. Inicialmente, seu corpo foi sepultado num pequeno cemitério de Bagneux. Em seu enterro, compareceram apenas o amigo pessoal Robert Boss, que chegou a fazer divulgação dos manuscritos do autor, e Lord Alfred Douglas, que arcou com as despesas do funeral. Posteriormente, o corpo de Oscar Wilde foi transferido para o cemitério Père Lachaise, onde repousa até hoje.

Após a morte de Oscar, Lord Alfred Douglas aparentou muito sofrimento, mas converteu-se ao catolicismo e casou-se. Este matrimônio, apesar de render um filho, não durou muito tempo e, devido à vida pregressa com Oscar, Alfred não pôde manter a guarda dos filhos. Em seu livro de memórias, Without Apology (Sem desculpas), escrito em 1938, fica evidente que Lord não esqueceu do escritor. Em 1945, falece Lord Alfred Douglas. Neste mesmo ano, O Retrato de Doryan Gray, ganha uma versão cinematográfica nos Estados Unidos, sob a direção de Albert Lewin. Amado por uns e repudiado por outros, a figura e a obra de Oscar Wilde são realmente dignas de admiração. Durante sua vida, rumores criados em torno da suposta vida irregular, atribuiu à sua imagem um encantamento e atração ainda maiores. Até mesmo a data de seu nascimento é alvo de controvérsia. Há historiadores que afirmam que o dia do nascimento seria realmente em 15 de outubro de 1855 ou 1856. De qualquer forma, a data do nascimento de Oscar Wilde é irrelevante perante sua obra.
Pode-se supor que a má fama prejudicou sua carreira literária. Mas seus admiradores afirmam o contrário: Oscar Wilde trazia a perfeita combinação de petulância e doçura. Em seus 46 anos de vida, o escritor rompeu as fronteiras do óbvio e tornou-se uma das maiores referências da literatura e do intelectualismo do século XIX. Autor de célebres aforismos e dono de pensamentos além de seu tempo, Oscar chegou a ter três peças em cartaz simultaneamente nos teatros ingleses; fato raro até os dias de hoje.
Além da inteligência, seu destaque também era obtido devido à personalidade forte, altiva, por vezes arrogante e anticonvencional; considerando-se, principalmente, o rigor da conduta moral da sociedade do século XIX.

Mesmo condenado, Wilde não abaixaria sua cabeça e declararia á todos que quisessem ouvir, o que se passava dentro de si:
"O amor que não ousa dizer o nome' nesse século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem como aquela que houve entre Davi e Jonatas, é aquele amor que Platão tornou a base de sua filosofia, é o amor que você pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. É aquela afeição profunda, espiritual que é tão pura quanto perfeita. Ele dita e preenche grandes obras de arte como as de Shakespeare e Michelangelo, e aquelas minhas duas cartas, tal como são. Esse amor é mal entendido nesse século, tão mal entendido que pode ser descrito como o `Amor que não ousa dizer o nome' e por causa disso estou onde estou agora. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frente. Que as coisas deveriam ser assim o mundo não entende. O mundo zomba desse amor e às vezes expõe alguém ao ridículo por causa dele."

Essas foram as palavras do literato em seu primeiro julgamento, em 26 de abril de 1895.

"O egoísmo não consiste em vivermos conforme os nossos desejos, mas sim em exigirmos que os outros vivam da forma que nós gostaríamos. O altruísmo consiste em deixarmos todo o mundo viver do jeito que bem quiser."

"A felicidade de um homem casado depende das mulheres com as quais não se casou."

"O maior castigo que o destino aplica ao homem casado é ver que sua mulher sempre acaba por se parecer com sua sogra."

"Para entendermos os outros, precisamos fortalecer a nossa própria personalidade."

"A única coisa de que podemos ter certeza acerca da natureza humana é que ela muda."

Resumo de O Retrato de Dorian Gray

Dorian Gray era um jovem de 20 anos pertencente à alta burguesia inglesa, de uma beleza física inimaginável, e foi retratado pelo pintor Basil Hallward, que se apaixonou pelo rapaz. Lorde Wotton era um homem extremamente inteligente, perspicaz, irônico e com grande vivência nos relacionamentos humanos, capaz de exercer forte influência sobre as demais pessoas. Este era amigo de Basil e tornou-se muito próximo de Dorian, passando a instigá-lo e a estudá-lo em suas reações e atitudes. Quando Dorian Gray deparou-se com a obra pronta (seu retrato) disse: "Que tristeza!" murmurou Dorian. "Que tristeza!" repetiu, com os olhos cravados na sua efígie. "Eu irei ficando velho, feio horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho... se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar a troca. Daria até a alma!". A partir daí, temos o desenrolar da história. Dorian apaixona-se por uma jovem artista, Sibyl Vane, que se apresentava num pequeno teatro. Então lhe fala em casamento. A moça, muito humilde, fica lisonjeada. Sua mãe e irmão, que estaria ingressando na Marinha, ficam preocupados. Dorian convida seus dois amigos, Basil e Lorde Wotton, para assistir a uma das apresentações da moça. Nessa noite, a moça representa muito mal. Dorian fica consternado. Seus amigos vão embora dando-lhe palavras de estímulo, enaltecendo a beleza da moça. Dorian vai até o camarim. Sibyl está feliz, e diz-lhe que, de agora em diante só viverá para o amor de Dorian. Toda a energia vital de Sibyl estava dirigida ao representar; assim que se apaixonou, sua energia foi dirigida para o objeto amado e apresentou-se como uma artista medíocre. Isto levou Dorian a desapaixonar-se. Então, ele a humilhou e desprezou. Virou lhe as costas para nunca mais voltar. Ao chegar a casa, Dorian, dirigiu-se a seu quarto e, ao olhar seu retrato, quase ensandeceu, ao perceber que o quadro havia se alterado. Seu sorriso não era mais o mesmo. Caracteriza-se pelo cinismo e maldade. Refletiu e percebeu que o quadro refletia sua alma. Portanto, deveria desculpar-se com Sibyl, assim o quadro voltaria ao normal. Entretanto, era tarde demais, Sibyl havia cometido suicídio. A partir de então, Dorian passou a viver tudo que lhe era ou não permitido. Passou a ter uma conduta fria e interesseira com todos à sua volta. Induziu pessoas a atos vulgares e criminosos, sempre impune. Assassinou seu amigo Basil, à facadas, quando este descobre o que está acontecendo. Leva outro amigo, um químico, ao suicídio após induzi-lo a desfazer-se do cadáver de Basil. Apenas o quadro se alterava, transformando-se numa figura monstruosa sendo que das mãos da imagem gotejava sangue. Dorian já contava com 40 anos, quando pensou em curar sua alma. Pensou em levar uma vida pura, sem magoar quem quer que fosse. E por isso não se aproveitou de uma camponesa. Ele se dá conta de que sua soberba o levou a esta vida de pecados. Amaldiçoou sua beleza e mocidade e pensou que sem elas sua vida seria pura. O que mais lhe doía era a morte, em vida, da sua alma. Dorian havia escondido o quadro num quarto desocupado, que fora de seu avô. Sobe até o quarto, olha o quadro e grita de terror. Apesar de suas boas ações, o quadro não se alterara para melhor como supunha, continuava a gotejar sangue ainda mais vivo e estava mais horrendo. Então Dorian percebe claramente a verdade: por vaidade, ele poupara a camponesa e a hipocrisia pusera-lhe no rosto a máscara da bondade. A única prova de seu mau caráter, de sua consciência, era o quadro. Então, resolveu destruí-lo. E, com a mesma faca com que matou Basil, trespassou o retrato. Ouviu-se um grito. Os criados acudiram. E, quando conseguiram adentrar ao quarto, viram na parede o magnífico retrato, e, no chão, jazia o corpo de Dorian, com a faca cravada no peito, que só pôde ser reconhecido pelos anéis em seus dedos.

http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u528.jhtm
http://www.spectrumgothic.com.br/literatura/autores/wilde.htm
http://www.paralerepensar.com.br/o_wilde.htm http://luceliaaziza.blogspot.com/2008_11_01_archive.html

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

OS TRÊS REIS MAGOS



Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal.
Das figuras bíblicas mais intimamente ligadas à tradição religiosa do povo destacam-se os Reis Magos, ou melhor, os Santos Reis uma vez que a hagiologia romana considera-os bem aventurados.
O simbolismo dos Reis Magos é amplo e emprestam-lhes os exegetas as mais diversas interpretações. Estão ligados intimamente às festas do Natal e deles nasceu, praticamente, a tradição do Papai Noel, pois os presentes dados nessa ocasião reproduzem que os magos do Oriente, depois de cumprida a rota que lhes indicava a estrela de Belém, prestaram a Jesus na gruta onde ele nascera.




As referências bíblicas são vagas e o episódio quase passa despercebido dos evangelistas, mas as contribuições da tradição patriática são muitas e, como elas têm força de fé e verdade, nelas devemos buscar grande parte das coisas que se contam dos santos Belchior, Gaspar e Baltazar já referidos pelos profetas do Velho Testamento, que vaticinavam a homenagem dos Reis ao humilde filho de Davi que deveria nascer em Belém.
De onde vieram e o que buscavam, pouca gente sabe. Vinham do Oriente e Baltazar, o mago negro talvez viesse de Sabá (terra misteriosa que seria o sul da Península Arábica ou, como querem os etíopes, a Abissínia). Simbolizam também as três unicas raças bíblicas, isso é, os semitas, jafetitas e camitas. Uma homenagem, pois, de todos os homens da Terra ao Rei dos Reis.




Eram magos, isto é, astrólogos e não feiticeiros. Naquele tempo a palavra mago tinha esse sentido, confundindo-se também com os termos sábio e filósofo. Eles prescrutavam o firmamento e sentiram-se chocados com a presença de um novo astro e, cada um deles, deixando suas terras depois de consultar seus pergaminhos e papiros cheios de palavras mágicas e fórmulas secretas, teve a revelação de que havia nascido o novo Rei de Judá e, que ele, como soberano, deveria, também, prestar seu preito ao menino que seria o monarca de todos os povos, embora o seu Reino não fosse deste mundo.


O simbolismo dos presentes



Conta ainda a tradição que, ao chegar a Canaã, indagaram os Magos onde havia nascido o novo Rei de Judá. Essa pergunta preocupou Herodes, o Grande, que hoje seria considerado um profissional a serviço dos romanos, e que reinava na Judéia.
Os representantes do Império preocupavam-se com o aparecimento de um novo lider do povo de Israel. A revolta dos macabeus ainda não fora esquecida e o povo oprimido esperava, ansioso, pela vinda do Messias que iria libertar o Povo de Deus e cumprir a palavra do salmista:
"Disse o Senhor ao meu Senhor — senta-te à minha direita até que ponho os teus amigos como escarbelo aos teus pés".
Os magos procuram — conforme conselho de Herodes — o novo Rei para render-lhe homenagem e para informar o representante romano do lugar onde nascera o Messias a fim de, com falso preito, sequestrá-lo.
No presépio encontramos apenas os animais e os pastores e, inspirados pelo Espírito Santo, curvaram-se diante do filho do carpinteiro de Nazaré e depositaram, ao pé da mangedoura que lhe servia de berço, os presentes: ouro, incenso e mirra, isto é prendas que simbolizavam a realeza, a divindade e a imortalidade do novo Rei, e grão de areia que cresceria e derrubaria o ídolo de pés de barro (simbolo das grandes potências que se sucederam no domínio do mundo), do sonho de Nabucodonosor decifrado pelo profeta Daniel.


Símbolos da humildade



Na tradição cristã os três Reis Magos simbolizavam os poderosos que deveriam curvar-se diante dos humildes na repetição real do canto da Virgem Maria à sua prima Isabel, e "Magnificat", pois sua alma rejubilava-se no Senhor, que exaltaria os pequenos de Israel e humilharia os poderosos.
A igreja cultua os Reis Magos dentro desse simbolismo. Representam os tronos, os potentados, os senhores da Terra que se curvara diante de Cristo, reconhecendo-lhe a divina realeza. É a busca dos poderosos que vêem em Belchior, Gaspar e Baltazar o exemplo de submissão aos designios de Deus e que devem, como os magos, despojar-se de seus bens e depositá-los aos pés dos demais seres humanos, partilhando sua fortuna como dignos despenseiros de Deus.
Os presentes de Natal também têm esse sentido. São as ofertas dos adultos à criança que com a sua pureza representa Jesus. Alguns, dão a essas festas um sentido mitológico pagão, buscando nas cerimônias dos druidas, dos germânicos ou saturnais romanas a pompa das festas natalinas que culminam com a Epifania.


A Bifana

A palavra epifania, usada também como nome de mulher, deu origem a uma corruptela dialetal do sul da Itália, levada depois a Portugal e Espanha, a Bifana. A Bifana, segundo a lenda, era uma velha que, no dia de Reis, saía pelas ruas da cidades a entregar presentes aos meninos que tivessem sido bons durante o ano que findara. Estava intimamente ligada às tradições dos povos mediterrâneos e mais próxima do significado litúrgico das festas natalícias. Os presentes eram somente dados no dia 6 de janeiro e nunca antes. Tanto assim é, que nós mesmos, no Brasil, na nossa infância, recebíamos os presentes nesse dia. Depois, com a influência francesa e inglesa em nossas tradições a Epifania ou Bifana foi substituída pelo Papai Noel, a quem muitos estudiosos atribuem uma origem pagã e outros, para disfarçar o sentido comercial da sua presença no dia de Natal, confundem com São Nicolau.
Hoje, o Santos Reis já não são lembrados. O presépio praticamente não existe e só neles é que podemos ver os Magos de Oriente apresentados. A árvore de Natal, pinheiro que os druidas e os feutos enfeitavam para agradar o terrível deus do inverno Hell, substituíria a representação do nascimento de Jesus, introduzida no costume dos povos por São Francisco de Assis. A festa da Epifania, dia de guarda no calendário litúrgico, já não mais é respeitada e com ela desaparecerem outras tradições da nossa gente, trazidas da Peninsula Ibérica pelos nossos antepassados, como a folia de Reis, Reizados e tantos outros autos folclóricos, cultuados em poucas regiões do país.


Gimenez, Armando. "Reis Magos, santos esquecidos dentro das tradições do Natal". Diário de São Paulo, São Paulo, 5 de janeiro 1958

Assista ao vídeo dos Reis Magos: http://video.msn.com/?mkt=pt-br&vid=60284425-8f41-440f-9741-dd45250c5408&playlist=videoByTag:tag:natal:ns:public:mk:pt-br:sf:ActiveStartDate:sd:-1:vs:0&from=PTBR_DiscoveryChannel&tab=s1222456332560

HERODES, O GRANDE


Herodes, o Grande

A maior parte do que conhecemos sobre sua vida nos é narrada pelo historiador judeu Flávio Josefo (historiador e apologista judaico-romano) que nos diz que, por ser um idumeu, a legitimidade de seu reinado era contestada pelos judeus. Numa tentativa de obter essa legitimidade, ele casou-se com Mariana, uma hasmoniana filha do alto sacerdote do Templo. Ainda assim, ele vivia temeroso de uma revolta popular, razão pela qual teria construído, como refúgio, afortaleza de Masada. Rei da Judéia e de toda a Palestina na altura do nascimento de Jesus. Era o segundo filho do edomeu Antipater, e assim um descendente dos antigos edomitas, mas era judeu de cidadania e profissão religiosa. Herodes foi um grande construtor e fundador de várias cidades magníficas, que foram construídas no estilo helenístico e esplendor. Estas incluíam duas cidades nomeadas em homenagem ao imperador Augusto: Samaria, à qual ele chamou Sebaste (grego que significa "Augusta"), e a Cesaréia em homenagem a César, que mais tarde se tornou a sua capital. Outras cidades ou fortalezas construídas por ele eram Masada, perto da margem ocidental do Mar Morto, Gaba na Galiléia , e Esbon (antiga Hesbon) na Pereia.



Cesaréia



Templo de Herodes-Jerusalém

A cidade de Jerusalém também recebeu a sua atenção. Começando em c. 20 B.C. ele reconstruiu o templo de Zorobabel, que estava praticamente em ruinas, e começou a erigir edificios magníficos dentro e à volta do templo. Construiu também um palácio real em Jerusalém, uma torre do qual ainda é parcialmente visível na secção inferior da denominada "Torre de David" na citadela. Herodes construiu também um teatro e um anfiteatro. Os judeus odiavam-no porque ele era edomeu e amigo dos romanos, e devido à sua vida privada escandalosa. Eles guardavam rancor da sua extrema crueldade e da sua imposição de impostos pesados a fim de suportar as suas construções.


O massacre dos inocentes (ilust.: Gustave Doré)

Herodes o Grande aparece na Bíblia no Novo Testamento como referência à data da altura em Lc 1:5, e na narrativa dos "homens sábios do oriente" relatado em Mt 2:1-18. Depois de ter ouvido que um descendente de David tinha nascido em Belém de acordo com uma profecia antiga, o rei deu ordens para matar todas as crianças daquela cidade. Este ato cruel não está registado na história secular. Herodes morreu no seu 34º ano de reinado com a idade de 69 anos em 4/3 D.C. muito provavelmente na primavera de 4 D.C.

Fontes: Enciclopédia Bíblica
Cortesia do site Jangada Brasil - www.jangadabrasil.com.br
http://pt.wikipedia.org/wiki/Folia_de_Reis