segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

VISITEM OS BLOGS QUE EU ACOMPANHO

Ângela Lopes

Quem sou eu
Uma pessoa transparente, que gosta de ouvir e de ser ouvida, sincera, amiga, verdadeira, que é calma e às vezes nervosa, sentimental e às vezes firme...


http://www.omundodeangelalopes.blogspot.com/

Geraldo D'Almeida Alves

Quem sou eu
Escritor, pesquisador e palestrante de Filosofia




http://alvesgeraldo2.blogspot.com/;



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

APENAS OS IDIOTAS CONSEGUEM EXPLICAR O AMOR
para Rejane


Quando ele veio trouxe uma mala velha cheia de livros. Naquele mesmo dia enfiou-a embaixo da nossa cama. Todas as manhãs colocava a mala em cima da cama e ficava a olhar e chorar em meio às páginas dos livros. Um dia tomei coragem e perguntei a razão daquilo e ele respondeu que chorava pelas pessoas tristes que assim eram porque não tinham coragem de chorar. E chorou ainda mais, dia após dia, depois daquele dia.
Quando ele veio, também trouxe consigo uma outra mala, não tão velha, cheia de CDS. Tinha de quase tudo, de jazz a bossa nova passando por MPB, samba e rock. Alguns ele costumava ouvir no carro, mas a maioria escutava em casa quando me mostrava e se entristecia por eu não gostar. Com a música ele não chorava, mas não parava de fazer anotações a cada disco que escutava. Dizia que as músicas acordavam lembranças e que tudo que escrevia resultava dessas recordações, por isso anotava.
Ele gostava de rir, agora eu sei que ele ria para encobrir a tristeza. E ele era triste por tantas coisas, um dia, a garrafa de vinho pela metade, me confessou que tudo o entristecia e que por isso pensava seriamente em se matar. Sei que foi feliz comigo, que foi feliz com o que eu podia lhe dar; não posso almejar mais do que isso. Em primeiro lugar, porque ele não me permitia outras ações, em segundo; porque ele era assim e mais tarde entendi o porquê de ele viver dizendo que as pessoas não mudam. Ele bem que tentava, mas não conseguia mudar.
Uma vez uma amiga o aconselhou a rezar e ele disse que não acreditava em rezas e tampouco em Deus.Como crer em alguém capaz de prometer uma vida eterna à uma criança e logo permitir que ela morra com pouco mais de dois meses de vida.


Anteontem, no começo da noite ele ligou o computador e me chamou.
-Sim.
-Gostaria que você lesse e me desse sua opinião.

Ele tinha acabado de escrever mais um de seus livros. Antes de ler tomamos uma garrafa de vinho.Depois, vim para o computador, ele sentou no sofá e mais uma vez começou a ler o Dom Quixote. Por volta das quatro da manhã terminei de ler o livro. Não sabia o que dizer. Ele dormia no sofá em minha frente, acordei-o.

-Leu?
-Li.
-Está bem escrito?
-Está.
-E da história, você gostou?
-Primeiro quero saber se você gostou? Você gosta das histórias que cria?
-Gostei, gosto.
-Mesmo com tanta dor, tanta morte?
-A morte é o apogeu da dor. Mas dói, escrever me dói tanto, meu amor, me faz sofrer tanto,eu me vingo de mim, eu me vingo... Vivo a me perguntar: será que um dia conseguirei me consertar?, às vezes me canso de mim...queria tanto ser mais útil para aqueles que precisam de mim, principalmente meus filhos. Preciso escrever um livro sem defeitos. E afinal, você gostou?
-Preciso ler de novo.
Mas saiba que essa insatisfação não é sua apenas. Eu poderia fazer muito mais se não fosse tão desorganizada e até certo ponto "irresponsável". Por certo, poderia dar uma condição de estabilidade futura muito melhor a meu filho, uma qualidade e vida melhor a meu pai e mais tranqüilidade a todos que me cercam.
Não seja tão duro com você.
Sofra, porque isso é inevitável, sempre podemos fazer melhor. Sinal de consciência, mas não tanto que aniquile com sua felicidade. Por favor!Por que eu dependo dela.
Seja um pouco mais modesto. Aliás, não. Quem sabe possa escrever o tal livro perfeito, afinal você é você.

-Se você vai precisar ler de novo é sinal que está ruim, um livro bom não precisa de mais de uma leitura para ser entendido.

Levantou e saiu. Fui dormir.
Quando acordei ele estava escrevendo.
-Deixa eu ler de novo?
-Deletei.
-Você está brincando! Tinha umas frases tão bonitas, pena que não anotei.
-Agora é tarde.Estou escrevendo outro.
-Sobre o que é?
-É a história de um homem que tinha dois medos; de amar e de morrer.


Eu sabia que se tratava da história dele. Afinal de contas um homem que se separa cinco vezes é porque tem medo de amar. Se bem que às vezes fico em dúvida. Talvez ele não tenha medo de amar, o que ele faz é assustar com seu jeito de amar.
Lembro do dia em que ele me revelou que se descobrira apaixonado por outra mulher, mas isso não significava que precisasse deixar de me amar. Pedi que explicasse e ele contou que uma antiga colega de faculdade tinha revelado que sempre prestara atenção nele, tinha um interesse especial. Ele estava comigo e me amava, nunca tive dúvida, mas ouvir ele dizer que a ex-colega também lhe despertava interesse, não me fez muito bem. Tentei deixar pra lá, afinal de contas desde o começo de nossa relação me convenci que o que ele mais precisava era de amor e atenção.Nunca vi alguém tão carente e solitário quanto ele. Impressionante! Ele precisava de amor e atenção das pessoas que ele escolhia, não era o amor de quem precisava amá-lo. Coisa de enlouquecer. Não, não foi nem uma nem duas vezes que cheguei a pensar que ele estava ficando louco. Ao mesmo tempo me perguntava como um louco conseguia ser um amante quase perfeito. Louco ou quase louco não importava, eu o queria ao meu lado. Mas eu sofria.
-Querido, vou te amar pra sempre, no que depender de mim essa relação nunca terá fim.
-Deixar de te amar...só se eu enlouquecer.
-Mesmo assim, continuarei a te amar, te amarei feito uma louca.



Ficamos juntos um longo tempo e agora tenho que admitir que foi um erro. A pior escolha que uma mulher pode fazer é essa, viver com um escritor; estão sempre insatisfeitos. A ele tudo incomodava, nunca entendi a facilidade com que chorava, para que serve um escritor, por que não escrevem coisas só para a gente se distrair, por quê? Ele precisava da tristeza, da dor, para escrever.
Quando ele veio me trouxe um medo: que a cada mulher inteligente e culta que conhecesse, seria capaz de amar, afinal de contas tinha me dito que entendia ser amor sinônimo de liberdade. E de vez em quando se punha a falar das ex-mulheres;o que incomodava não eram as lembranças das fartas frustrações de seus relacionamentos e sim a lembrança/saudade dos momentos bons vividos com aquelas mulheres.Por que não as esquecia por completo? É assim, as coisas ruins existem para nos fazer lembrar das coisas boas, eu não suportava, embora ele estivesse aqui, comigo.Sempre muito carinhoso. De tanto sentir medo escrevi um livro de poesia, todas sobre o mesmo tema. Uma é esta.
Acho que é impossível mascarar o medo
...o medo é uma merda...mas
De todos os medos que me castigam
Tem um que é especial
Ele se fantasia
Com as cores da crueldade e da compaixão
É mais triste que o medo da morte
Mais frio que o medo da noite
Ou mais alienante que o sonho da sorte
É o medo louco de não ser ninguém
de virar mendiga
Patética criatura do chão
Onde só fotógrafos sádicos
Conseguem focalizar poesia
Em tamanha degradação

Quando ele veio trouxe um vazio imenso que conseguimos amenizar, tinha dias que ao vê-lo tão triste me dava vontade de queimar aquela mala, parecia que as dores que o castigavam estavam todas ali. E ele fazia questão de renová-las.
Hoje pela manhã ele se foi.
-Por quê?
-Só tenho repetições a lhe oferecer, você merece mais.
-Mas que pretensioso, quem você pensa que é para dizer do que preciso ou deixo de precisar?
-Não sei de mais nada, tenho uma certeza apenas; tudo é muito triste. Em certos dias quase tive certeza do meu amor por você.
-E agora, agora...que dia é hoje? Dia da incerteza? Então quem sabe amanhã você tornará a me amar?

- Não estou brincando. Faz tempo que o amor é só mais um pedaço do meu sofrimento, cansei.
-Porra, mas que merda de amor é esse que opta pela separação?
-Esse é o meu amor, um jeito de amar que me desagrada, mas basta!, apenas os idiotas conseguem explicar o amor.
Hoje pela manhã ele se foi, não levou a mala.
Quando ele voltar...............


Luíz Horácio Rodrigues nasceu em 1957, em Quaraí (RS). É professor de língua portuguesa e literatura, e coordena o curso de pós-graduação Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato, de Porto Alegre. Colabora com os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho e revistas. É também roteirista, documentarista e autor teatral. Escreveu os livros Perciliana e pássaro com alma de cão - ed. Conex e Nenhum pássaro no céu - ed. Fábrica de Leitura.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

REISADO: PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO



O reconhecimento do reisado como patrimônio brasileiro, foi reinvindicado em seminário no IV Encontro Mestresdo Mundo, encerrado no último sábado 06/12/08. Segundo o pesquisador cearense Oswald Barroso, "O reisado é um folguedo que se desenvolve no Brasil inteiro, com uma variedade imensa e uma importância enorme para as diversas artes. Mapear essa manifestação, para esse processo de registro seria um desafio enorme, dada a sua complexidade e diversidade". Juntamente com a capoeira, agora teremos a certeza que essa bela festa popular, será preservada para o deleite de gerações futuras.

REISADO



O Reisado é uma das pantomimas folclóricas mais ricas e mais apreciadas, principalmente no Nordeste. Faz parte do repertório das Festas Jesuínas, e é apresentado de 24 de dezembro a 6 de janeiro, isto é, pelo Natal, Ano Bom e Reis. O Reisado é formado por um grupo de foliões, de pastores e pastoras que se reúnem numa espécie de rancho, com o fim de visitar as casas das pessoas mais gradas e hospitaleiras da região, a cantar e a dançar. O reisado apresenta diversas modalidades e compõe-se de várias partes: a) abrição da porta; b) entrada; c) louvação ao Divino; d) chamadas do rei; e) peças de sala; f) danças; g) a guerra; h) as sortes; i) encerramento da função. Tem como principais personagens: o rei, o mestre, o contramestre, Mateus, Catarina, figuras e moleques.

Indumentária:


Rei - culote até os joelhos, terminado por franjas, blusa de cetim de cor diferente com mangas compridas; no peito, espelhinhos; manto de cetim dourado que cai até os joelhos; coroa de ouro, cetro.

Mestre - chapéu de palha, forrado de cetim, de aba dobrada na testa (como usam os cangaceiros) adornado com muitos espelhinhos, bordados dourados e flores artificiais; da parte não dobrada da aba pendem fitas compridas de cores variadas, saiote de cetineta até a altura dos joelhos, de cores vivas, com grega de galões largos; por baixo saia branca, com dois ou três babados; blusa, peitoral e capa. Contramestre - idêntica à do Mestre, porém menos pomposa.

Mateus -
paletó e calça de brim com placas de remendos, alpercatas de couro cru, chapéu de palha enfeitado com espelhinhos e franjas, penduricalhos ao peito, como se fossem medalhas, cantil e bornal a tiracolo; pandeiro, espingarda de bambu.




Catarina/Catirina (palhaça) - roupa de tecido xadrez, de maneira a lembrar um palhaço.

Figuras - trajes idênticos ao do mestre, porém mais pobres e mais simples.
Inicia-se o folguedo com o rei seguido do mestre e do contramestre e acompanhado de meninos que trazem grandes candeias de querosene, conduzindo o reisado. Atrás seguem os dançadores de entremeios, com baús cheios de máscaras e trajes. Entoam marchas ao som de violas, harmônicas, maracás, rabeca, pandeiros e vão em demanda das casas onde celebram sua função.

Abrição da porta:

O mestre dirige a evolução do episódio por meio de apitos. Canta-se e dança-se com volteios altivos e elegantes. O reluzir dos espelhos e das lantejoulas produz grande efeito pictórico. Mateus vai aboiando dando uma nota de comicidade à função. Terminam pedindo licença para entrar.













Entrada:
Entram os tocadores, criando animação, seguidos do rei, do mestre, do contra-mestre e das figuras, portando-se todos com garbo e imponência. Cantam a peça da entrada e fazem elogios ao dono da casa. Executam marchas e contramarchas em ritmo ligeiro e com passos arrastados.

Louvação ao Divino:

O reisado dirige-se ao presépio ou à capela da casa visitada. Ajoelham.
Cantam em louvação ao Divino, ao som da música, mas os maracás são abafados com as mãos para produzir um som surdo. Voltam à sala. O rei ocupa o trono. As figuras colocam-se em duas filas. Realizam-se, então, os entremeios, os episódios de guerra e as embaixadas. O mestre dirige a peça.

Chamadas do rei:

Ao fim de uma peça, ou de um entremeio, o rei levanta-se do trono, chama o mestre e com ele cruza sua espada, em ressoantes entrechoques, enquanto estabelece com ele uma série de embaixadas.

Peças de sala:

Antes e depois das embaixadas, são cantadas e dançadas as peças de sala. Estas são críticas, comentários, sátiras sobre fatos ou acontecimentos ligados à vida de pessoas ou do povo da região.

Danças:

As danças são numerosas e variadas, como, por exemplo, a dança do gingá com o entremeio da mamãe velha.

A Guerra:

O mestre apita e o primeiro embaixador atende. Cruza espadas e inicia embaixadas de guerra, primeiro com o mestre, depois com o rei. Quando chega a vez do segundo embaixador, as embaixadas já se tornam cansativas, repetindo-se as batidas de espadas. Por fim, todos os figurantes, inclusive o rei e o mestre se empenham na luta e o combate se torna geral.

As sortes:

Todos os figurantes, até o próprio rei, atiram seus lenços aos donos da casa e à assistência. Estes os devolvem com dinheiro dentro. Recolhidas as sortes, o mestre apita e as filas de dançarinos se afastam para os lados. Então começam os entremeios. Estes são composições teatrais, jocosas, burlescas, como o bumba-meu-boi, o cavalo-marinho, etc.
Encerrados os entremeios, voltam as danças e cantorias de peças, sucedem-se as embaixadas até que sejam apresentados novos entremeios. Note-se, de passagem, que os personagens dos entremeios não tomam parte nas danças das embaixadas.
São os entremeios que dão maior brilho a esta dança dramática e são tão apreciados que alguns são apresentados mesmo fora de sua época como, por exemplo, (o famoso bumba-meu-boi, o boi simboliza o do presépio) que, inicialmente, era o principal entremeio do reisado e é levado agora também nas Festas Juninas.



Muitos destes entremeios, deliciosos quadros independentes, revelam um espirito chistoso, outros se inspiram em motivos míticos ou totêmicos, como o Zabelê.

Folharal:

Nesta dança, o personagem oculta a cabeça sob uma cabaça donde pendem longas folhas de samambaia, traja um camisolão coberto de folhas e capim. Aumenta seu fantástico aspecto quando os longos cabelos de samambaia esvoaçam nos continues rodopios dados pelo bailarino.
Zabelê: O dançarino, disfarçado num saco pintado, usando máscara com bico, dança e assobia, imitando o pássaro jacu.

Curiabá:
O dançarino imita o macaco, se coça dançando e faz mil trejeitos engraçados.


Sapo Cururu:

Agachado no chão, o dançarino coaxa e dá estranhos pulos.




Alma, Diabo e Miguel:


É um entremeio que deixa a assistência suspensa e trêmula de medo. A alma, envolta em lençol branco, desfiando um rosário, gemendo, aparece. Foge do Diabo que, todo vestido de vermelho com rabo e garras afiadas, a persegue. Agarra-a mas quando já a arrasta para o inferno, interpõe-se no seu caminho o anjo São Miguel, geralmente representado por uma moça, de asas brancas e espada em riste. Trava-se uma luta entre ele e o Diabo que é vencido. Há um forte estouro de pólvora na sala e o Diabo aproveita a oportunidade para desaparecer da cena. Suspiros de alívio na assistência.
Entre inúmeros outros, podem-se ainda citar o
Lobisomem, o Matuto e o Fantasma, o Capitão de Campo, o Pescador e a Sereia.


E assim, os artistas que representam os entremeios aproveitam cada embaixada para correrem aos baús por eles trazidos no cortejo, de onde tiram febrilmente suas fantasias inesgotáveis.
Data de registro: meados do século XX (~1950)

Para assistir a festa do Reisado (luta de espadas) , acesse os links: http://br.youtube.com/watch?v=ENSR4NfdjRc; http://br.youtube.com/watch?v=ym4Hbj_vqSI

REISADO NA VISÃO DE LUÍS DA CÂMARA CASCUDO


Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do folclore brasileiro, diz que Reisado é a denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e Dia de Reis.
O Reisado chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses, que ainda conservam a tradição em suas pequenas aldeias, celebrando o nascimento do Menino Jesus. Em Portugal é conhecido como Reisada ou Reseiro.



No Brasil é uma espécie de revista popular, recheada de histórias folclóricas, mas sua essência continua a mesma, com uma mistura de temas sacros e profanos.
O Reisado é formado por um grupo de músicos, cantores e dançarinos que percorrem as ruas das cidades e até propriedades rurais, de porta em porta, anunciando a chegada do Messias, pedindo prendas e fazendo louvações aos donos das casas por onde passam.
A denominação de Reisado persiste ainda em Alagoas, Sergipe e Bahia. Em diversas outras regiões o folguedo é chamado de
Bumba-meu-boi, Boi de Reis, Boi-Bumbá ou simplesmente, Boi. Em São Paulo é conhecido como Folia de Reis, onde a festa é composta de apresentações de grupos de músicos e cantores, todos com roupas coloridas, entoando versos sobre o nascimento de Jesus Cristo,liderados por um mestre.
Fazem parte do espetáculo os “entremeios” (corruptela de entremezes), pequenas encenações dramáticas que são intercaladas com a execução de peças, embaixadas e batalhas. Os personagens são tipos humanos ou animais e seres fantásticos humanizados, cheios de energia e determinação.
O folguedo do ciclo natalino é comemorado em várias regiões brasileiras, principalmente no Norte e Nordeste
, onde ganhou cores, formas e sons regionais. Em Alagoas, constitui-se numa representação dramática, normalmente curta e pobre de enredo, acompanhada e precedida de canto.

Em Sergipe, é apresentado em qualquer época do ano e não apenas nas festas de Natal e Reis. Os temas de seu enredo variam de acordo com o lugar e o período em que são encenados: amor, guerra, religião, entre outros.

O Reisado apresenta diversas modalidades e é composto de várias partes: a abertura ou abrição de porta; entrada; louvação ao Divino; chamadas do rei; peças de sala; danças; guerra; as sortes; encerramento da função.

A música no Reisado está sempre presente. O Mestre é o solista, sendo respondido pelo coro a duas vozes. Os instrumentos utilizados alternadamente são: a sanfona, o tambor, a zabumba, a viola, a rebeca ou violão, o ganzá, pandeiros, pífanos e os “maracás”, chocalhos feitos de lata, enfeitados com fitas coloridas.

Há uma grande variedade de passos nas danças do Reisado, entre os quais pode-se destacar: do Gingá, onde os figurantes de cócoras se balançam e gingam; da Maquila, um pulo pequeno com as pernas cruzadas e balanços alternados do corpo para os lados, passo também exibido pelos
caboclinhos; Corrupio, movimento de pião com o calcanhar esquerdo; Encruzado, cruzando-se as pernas ora a direita à frente da esquerda, ora ao contrário.

Tem como personagens principais o Mestre, o Rei e a Rainha, o Contramestre, os Mateus, a Catirina, figuras e moleques.

O Mestre é o regente do espetáculo. Utilizando apitos, gestos e ordens, comanda a entrada e saída de peças e o andamento das execuções musicais. Usa um chapéu forrado de cetim, de aba dobrada na testa (como o dos cangaceiros), adornado com muitos espelhinhos, bordados dourados e flores artificiais, de onde pendem fitas compridas de várias cores; saiote de cetim ou cetineta de cores vivas, até a altura dos joelhos, enfeitado com gregas e galões, tendo por baixo saia branca, com babados; blusa, peitoral e capa.

O traje do Rei deve ser mais bonito e enfeitado. Veste saiote ou calção e blusa de mangas compridas de cores iguais, peitoral, manto de cores diferentes em tecido brilhante (cetim ou laquê);calça sapato tênis (tipo conga), meiões coloridos e na cabeça uma coroa feita nos moldes das dos reis ocidentais, semelhante a das outras figuras, porém encimada por uma cruz; levam nas mãos uma espada e, às vezes, também um cetro. Durante o cortejo os Reis vêm na frente, logo atrás do Mestre e do Contramestre. A Rainha é representada por uma menina, com vestido “de festa”, branco ou rosa, uma coroa na cabeça e um ramalhete de flores nas mãos.




O Contramestre é o responsável pelo Reisado na ausência do Mestre. Seu traje é semelhante ao daquele, só que menos pomposo.

Os Mateus, que sempre aparecem em dupla, usam trajes diferentes dos outros figurantes: vestem paletós e calças de tecido xadrez, usam um grande chapéu afunilado que chamam de cafuringa, com espelhos e fitas coloridas, óculos escuros, rosto pintado de preto, geralmente com tisna de panela ou vaselina e levam nas mãos os pandeiros. São os personagens cômicos do Reisado, junto com a Catirina.

Conhecida antigamente como Lica, a Catirina é a noiva do Mateus. Veste-se de preto, traz um pano amarrado na cabeça, o rosto pintado de preto e um chicote nas mãos, com o qual corre atrás das moças e crianças.

As outras figuras formam o coro do Reisado, que participam ativamente apenas nas batalhas, nas danças e no canto, quando respondem ao solo do Mestre. Formam duas fileiras simétricas, organizadas hierarquicamente e posicionadas uma do lado direito outra do lado esquerdo do Mestre.
É uma das tradições populares mais ricas e apreciadas do folclore brasileiro, principalmente na região Nordeste.

FONTES CONSULTADAS:
.BARROSO, Oswald. Reis de Congo. Fortaleza: Museu da Imagem e do Som, 1996.
.RIBEIRO, José. Brasil no folclore. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Aurora, 1970.
.DALWTON MOURA-
http://diariodonordeste.globo.com;
http://www.terrabrasileira.net/folclore/regioes/6ritos/reisado.html; http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=316&textCode=5772&date=currentDate

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

E já estamos perto do Natal

Aqueles que acompanham esse blog, sabem do meu apreço pelos escritores e compositores talentosos que tive o privilégio de conhecer nesses últimos anos. São tantos, que chego a pensar que é um presente de Deus por eu estar dedicando-me com mais afinco à literatura. Entre aqueles mais próximos de mim estão: Álvaro Marins ("Machado e Lima Da Ironia à Sátira"; "Páginas esquecidas: uma antologia diferente de contos machadianos"- lançado recentemente; "Melhores poemas de Paulo Leminsk" junto com Fred Góes), Valdemar Valente Junior ("Cultura Luso-brasileira" - apresenta as origens da nossa colonização, do século XVI até metade do século XX), André Gardel ("Teoria da Literatura: Fundamentos" (2006) e "Teoria da Literatura: tradições e Rupturas" (2007), além de vários poemas, e como cantor, vários CDs, "Vôo da cidade" é o mais recente), Ricardo Vigna lançou o CD "Clima Verde" em parceria com Geraldo Martins), Érico Braga Barbosa Lima lançou "Novíssima Gramática do velho Português" e os estimados Luíz Horácio e Ronaldo Correia de Brito, que são habitués nesse espaço, com textos de excelente qualidade. O texto abaixo, é uma reminiscência bem-humorada, das aventuras infantis do Ronaldo com Maria Luiza, que o aproximou da cultura popular e do folclore, que mais tarde passaram a influenciar todas as suas obras teatrais, cinematográficas e literárias. Bem, vamos a ele.

E já que estamos perto do Natal


Numa noite de um mês de dezembro fui levado para ver a Lapinha pela empregada de nossa casa. Maria Luiza me puxava pela mão, enquanto subíamos a Ladeira do Seminário, assim chamada porque lá no alto ficava o seminário dos padres, um edifício imenso, pintado de amarelo e cercado de pés de eucalipto.

No final da tarde, os urubus se recolhiam aos galhos mais altos das árvores. Eram tantos que formavam uma mancha preta contra o céu. Quando os padres sentavam na calçada para a leitura dos breviários, as aves faziam cocô nas páginas abertas dos livros. A anedota corria solta pela cidade do Crato, lá no sul do Ceará, e era uma nota profana e engraçada naquele mundo sombrio de procissões e missas rezadas em latim.

O dono da brincadeira de lapinha, que eu assisti deslumbrado, era o pai de Maria Luiza, um cabo de polícia moreno e gordo. Mesmo sendo criança, eu estranhava um homem armado de revólver e cassetete se ocupar de um teatrinho feminino e delicado. Apenas as meninas representavam o auto da lapinha, com suas cantigas medievais portuguesas, adaptadas pelos padres à catequese dos pobres brasileiros.



As pastoras formavam dois cordões, um vermelho e um azul, representativos de mouros e cristãos. Esmaecidas pela singeleza da brincadeira, as cores ficaram na minha lembrança como rosa e azul claro. Havia muitos personagens: sol, lua, estrela, anjo, borboleta, beija-flor, menina da cesta, ciganas, Maria, José, Reis Magos e, o mais maravilhoso de tudo, caboclinhos de aldeia. Esses indiozinhos de presépio foram certamente botados na cena da adoração por jesuítas como o Padre Anchieta, na intenção de converter ao cristianismo os primeiros habitantes do Brasil.

Os caboclinhos cantavam os versos mais surpreendentes desse auto em louvor ao Menino Deus. Numa estrofe de quatro versos eles explicavam como se deu a Encarnação, aquele mistério da Igreja Católica segundo o qual Maria concebeu sendo virgem.

Passa o sol pela vidraça
Já passou sem tocar nela
Assim foi a Virgem
Levou luz ficou donzela.
Quem terá sido o poeta anônimo a criar esses versos? Ele quis nos dizer que assim como o sol atravessa a vidraça sem parti-la, a Virgem Maria, igualmente, recebeu uma luz e concebeu sem perder a virgindade. Ah, esses gênios populares! Tudo isso acabou em pouco tempo. De cultura viva se transformou em folclore ou espetáculo para turistas.

Eu desejava brincar na lapinha, mas era brinquedo de meninas e de gente pobre, de uma condição social diferente da minha. O máximo que consegui foi que Maria Luiza me desse as asas do anjo e as da borboleta. Mesmo esse presente foi proibido por meu pai e eu tive de escondê-las num quarto dos fundos de nossa casa, penduradas nos caibros do telhado. De vez em quando eu olhava aquelas invenções aladas e sonhava meus vôos. Até que o tempo cobriu-as de poeira e fuligem e ficaram esquecidas.



A mesma Maria Luiza me levou para ver um preso enforcado no porão da penitenciária do Crato. Uma cena horrível, que ainda me assombra. Não lembro se ao subir a ladeira do Seminário eu segurava a mão direita ou a mão esquerda dessa mulher que me apresentou o mundo. Sei que o mundo está cheio de alegrias e tristezas, tanto à direita como à esquerda. E que viver é a difícil arte de escolher caminhos.

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify. Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, Arlequim, e o romance Galiléia pela Alfaguara. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Uma vez mais, o escritor Luíz Horácio nos brinda com uma deliciosa resenha, que nos estimula a lermos "Aqui nos encontramos". Esse livro possui elementos que aguçam a nossa curiosidade; fala de frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte. Eu já estou providenciando o meu exemplar para curtir nas férias.


AQUI NOS ENCONTRAMOS - John Peter Berger

Paciente leitor, aqui me tens de regresso, mais uma vez com a morte embaixo do braço. Antes permitam uma inconfidência: 02 de maio de 2006 , noite, sala da casa de Fausto Wolff , Rio de Janeiro e mostrava a mim, ao editor Alberto Quartim, e ao jornalista Marcelo Carota, o Pirata, uma mesa onde, sob um vidro, estavam fotos daqueles que haviam feito, nos dizeres de FW, a sua cabeça. Uma homenagem aos mortos.

É assim, infelizmente, cultivamos o hábito de homenagear os mortos. Dos vivos, esquecemos com facilidade. Homenagem é coisa para morto. É? Se você responder afirmativamente saiba que não concordo. Não sei por que, mas me agrada muito mais gente viva. Digo isso porque nunca deixei de dizer ao Fausto o quanto o amava, e quando brigamos ele também ficou sabendo o motivo. O escritor e professor Prado Veppo a quem dedico um de meus livros também soube de meu amor enquanto vivia. Dos citados acima, o Quartim e o Pirata, desejo-lhes mais cem anos entre nós, de preferência em minha companhia, e assim desse jeito meio tosco vou agradecendo aos meus amigos, forma modesta de homenageá-los.















Fausto Wolff e Prado Veppo

Em Aqui nos encontramos, John Berger homenageia pessoas que fizeram parte de sua trajetória de 82 anos e também discorre, sempre com o auxílio dos mortos, sobre algumas frutas, cujos sabores e aromas são relembrados, sexo, literatura e principalmente sobre a morte.


"Aquilo que você deveria saber é o seguinte: os mortos não ficam onde estão enterrados."

A frase acima é o tiro de partida a esse passeio empreendido pelo autor na companhia da saudade. A frase é dita pela mãe do protagonista, morta há 15 anos, num encontro em Lisboa. O protagonista é o próprio autor deste misto de romance e ensaio biográfico.

Partindo de Lisboa, John passa alguns países europeus numa longa viagem arquetípica onde são testados os limites entre o real e o imaginário, entre o passado e o presente, entre a individualidade e a necessidade do outro. Numa leitura mais simples podemos dizer que é um reencontro com a capacidade de se emocionar.

"Aqui nos encontramos"
é um olhar para o passado, nesse relato de 208 páginas o leitor perceberá a literatura como o motivo central das preocupações de John, logo em seguida poderá eleger Lisboa como outro de seus amores, a Europa viria a seguir; mas também perceberá que ele amava ainda mais a conquista de uma liberdade que lhe permitiria ver-se tal como era, sem exemplos históricos, muito menos religiosos.

O leitor sente-se despojado de uma carga histórica nem sempre confiável e nos mais das vezes infantil, quase boba, desse modo estará livre para contemplar-se em meio às ruínas emocionais. Assim tanto leitor quanto autor poderão compreender a importância das perdas a que lhes obrigaram a vida e sua falta de lógica.

Muitas vezes nos aconselham que o melhor modo para nos ressarcirmos moralmente de nossas perdas materiais e afetivas, é a prática do mergulho interior, encerrar-se em si mesmo e organizar uma grande força centrípeta para logo adiante transformá-la em força centrífuga. John volta essa força para a Europa, volta com seu sentido criador e harmonizador de emoções. Os sentimentos estão no comando dessa viagem, mas o navegador é o espírito crítico. Por vezes vestindo o uniforme do criticismo histórico. É nesse momento que a narrativa passa a atuar na consciência e no espírito de seus compatriotas, John atua como um terrorista das idéias. John Berger é inglês e a Inglaterra tem mais que o dobro da população que é capaz de alimentar com recursos próprios.

O número de vidas que entram em nossa vida é incalculável.

O resultado disso, o mais evidente é a saudade. Embora o autor se refira apenas aos que entram, por outro lado esses mesmos costumam sair sem nos avisar, alguns retornam, a outros a morte não dá essa permissão.


Aqui nos encontramos é a homenagem solicitada por Miriam, a mãe de Jonh, em seu encontro em Lisboa:
"Apenas escreva o que descobrir (...) e faça o gesto de cortesia de nos observar"
De observar mortos; sua mãe, Borges, Ken, o jornalista, professor de dança, gigolô, em sua viagem as lembranças deflagram comentários sobre frutas, os mortos estimulam essas recordações, encontra sua filha Kátia , funcionária do Grand Théâtre de Genebra.

Os personagens de Berger constituem uma amostra da substância humana - e por conseguinte claro escura -da história, resultam daí, símbolos, imagens emblemáticas das limitações e também da crueldade sem fim que se faz inerente ao homem.

Em verdade, John Berger e todos os demais escritores, escrevem apenas um vasto livro onde cada diferença aponta uma semelhança e cada desvio implica um novo intento de nos aproximarmos de nosso centro. Todos invocam a sintaxe da alma, como escreveu Manuel Álvarez Ortega, todos querem unir realidade com suas obsessões individuais, ao mesmo tempo em que todos caminham para a morte.

Talvez o leitor de Aqui nos encontramos conclua a leitura sem saber muito bem de que se trata, se um ensaio, uma autobiografia, um relato de viagem; ainda que comovido por uma terna melancolia arrisque encarar o texto como um diálogo entre amigos e que o tema dominante sejam as recordações a permitir sinuosidades e invadir meandros sensíveis. Desse modo os ecos dessas recordações assumem dimensões orgânicas.

Concordo com Miriam, os mortos não ficam onde estão enterrados. Não me refiro às pessoas mortas, visto que a morte é o fim, essa balela de vida após a morte só vai me convencer depois de morto. E ponto.

Porém ficam as lembranças e é aí que os mortos mudam de lugar embora não deixem jamais de ser concessões de nossas permanentes carências. E já que John falou de Miriam, sua mãe e de viagens, me permita, sensível leitor, falar de Doralina, minha mãe e um pouco do significado de viajar. Melhor, me permita falar de algumas lembranças que ela deixou.

As viagens têm a propriedade de operar mudanças nas pessoas, e eu gostava de observá-los, pai e mãe, quando retornavam após alguns dias fora de casa. Queria saber por quanto tempo eles permaneceriam diferentes.Nunca durou o tempo que eu esperava.

Viajar para minha mãe representava um soluço de liberdade enquanto o cotidiano lhe emprestava os grilhões que ela não conseguia disfarçar. Tolerá-los apressou o desenlace trágico.
As mães de meus filhos, todas, têm um pouco de minha mãe, é triste, muito triste.


Assustado, fugi pra solidão, pro silêncio, esconderijo dos covardes, dos egoístas, daqueles que não conseguem sequer se ajudar. Perdoem, meus medos são fortes demais para se unirem a outros, eu não suportaria.


No silêncio consigo não fugir de mim, é quando choro e me aplaudo, é quando corto os pulsos e não sangro, é quando rio e não me humilho, é quando escrevo e não corrijo, é quando morro e acordo.

Meu pai me deu o silêncio que preencho com palavras silenciosas que minha mãe me ensinou a escrever. Mas o vazio quase insuportável, ah o vazio, não há pai, mãe, mulheres ou filhos que consiga aplacar!

É no silêncio que me sinto bem, é do silêncio que acredito ainda venha a ouvir minha mãe, me fascinam as mãos, os pés e os olhares, os carinhos mais sinceros. Assisti a morte de uma filha e o nascimento de outra. À primeira só pude oferecer meu olhar, dois meses de vida, olhos fechados, máscara de oxigênio, madrugada, de repente levantou o braço em minha direção, dei-lhe a mão, ela abriu os olhos e em seguida guardou-os para sempre. A segunda, logo a tive em meus braços, só me perceberia bem mais tarde.

A morte é o silêncio privado do olhar. A mais genuína traição.

Eu vivo olhando para as minhas mãos. Não pretendo ultrajá-las secando mais lágrimas.
Caro leitor Aqui nos encontramos é daqueles livros que dignifica a arte de escrever, capaz de provocar em leitores e escritores a ânsia de aprender cada vez mais, sobretudo aprender a amar e fazer desse amor a homenagem maior, aos vivos sempre, porque homenagear morto, posso garantir, é uma grande sacanagem. Até hoje não sei de nenhum que tenha agradecido.


O AUTOR

John Peter Berger nasceu em Londres, em 5 de novembro de 1926. Aos 15 anos, era anarquista. Depois da Segunda Guerra Mundial, quando já era escritor, passou a ser duramente criticado por sua simpatia ao marxismo.Ele é famoso por suas obras de ficção - romance e contos - e não-ficção, em especial livros de critica de arte. Destaque para Modos de ver, de 1972, referência para toda uma geração de historiadores da arte, ao refletir sobre a relação entre o que vemos e o que sabemos ou acreditamos. Escrito em parceria com mais quatro autores, o livro é baseado no popular programa homônimo, veiculado pela BBC de Londres no início dos anos 70.

TRECHO

Todos os meus livros têm sido a respeito de você, digo subitamente.
Que bobagem! Talvez você os tenha escrito de modo que eu estivesse lá, fazendo-lhe companhia.E eu estava. Contudo, eles eram a respeito de tudo no mundo, menos de mim!Tive de esperar até agora, até você ser um velho em Lisboa, para estar escrevendo esta história muito curta sobre mim.
Livros também dizem respeito à linguagem, e linguagem para mim é inseparável de sua voz.
Você está tentando ser esperto.Não faça isso. Apenas pense em mim.Então você aprenderá a persistência em face do sofrimento. Algo que só pode ser aprendido com uma mulher, nunca com um homem.
Scott na Antártida?
Pense na mulher de Scott.O nome dela era Kathleen. "Eu não lamento", disse Kathlenn, "Não lamento nada senão o sofrimento dele."
Por que você nunca leu nenhum de meus livros?
Eu gostava de livros que me levavam para outra vida. Era por isso que lia os livros que lia.Muitos. Cada um era sobre a vida real, mas não sobre o que estava acontecendo comigo quando encontrava meu marcador de livros e continuava a ler. Quando eu lia, perdia por completo o sentido do tempo. Mulheres sempre conjecturam a respeito de outras vidas, a maioria dos homens é ambiciosa demais para compreender isso. Outras vidas, outras vidas que você viveu antes ou que poderia ter vivido. E seus livros, eu esperava, eram a respeito de outra vida que eu só queria imaginar, não viver, imaginar por mim mesma sozinha, sem quaisquer palavras. De modo que foi melhor que eu não os lesse. Eu podia vê-luz através do vidro da porta da estante. Isso era suficiente para mim.
Eu corro o risco de escrever absurdos hoje em dia.
Você escreve alguma coisa e não sabe imediatamente o que é.
Sempre foi assim, diz ela. Tudo o que você precisa saber é se está mentindo ou se está tentando contar a verdade, você já não pode mais se dar ao luxo de cometer um erro quanto a esta distinção.


Luíz Horácio Rodrigues nasceu em 1957, em Quaraí (RS). É professor de língua portuguesa e literatura, e coordena o curso de pós-graduação Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato, de Porto Alegre. Colabora com os jornais O Globo, Jornal do Brasil, Rascunho e revistas. É também roteirista, documentarista e autor teatral. Escreveu os livros Perciliana e pássaro com alma de cão - ed. Conex e Nenhum pássaro no céu - ed. Fábrica de Leitura.

sábado, 22 de novembro de 2008

Gibran Khalil Gibran
( جبران خليل جبران ) nasceu em 6 de dezembro de 1883, na cidade de Bisharri, no sopé da Montanha do Cedro, no norte do Líbano. O pai, um coletor de impostos, bebia e jogava, mas vinha de uma linhagem de intelectuais e de religiosos maronitas pelo lado da mãe. Khalil não teve uma educação formal, mas aprendeu inglês, francês e árabe ao mesmo tempo, além de revelar-se uma promessa precoce como artista, desenvolvendo uma paixão por Leonardo da Vinci aos seis anos de idade. Aos onze anos, toda a família, com exceção do pai, emigrou para a América e estabeleceu-se em uma comunidade de imigrantes libaneses no bairro chinês de Boston. A mãe trabalhava como costureira, e o irmão mais velho, Boutros, abriu um armazém. Gibran freqüentou a escola, onde seu nome começou a ser escrito como Khalil. Foi mandado para aulas de desenho e em seguida foi apresentado ao fotógrafo Fred Holland Day, que o usou como modelo e lhe encomendava desenhos.
Em 1898, Gibran foi mandado para casa para freqüentar a escola Al Hikma, em Beirute. Estudou literatura francesa romântica e árabe. Em 1902, voltou para a família via Paris. Uma das irmãs, Sultana, morreu de tuberculose antes da sua chegada, e foi logo seguida pelo irmão, Boutros. Dentro de apenas algumas semanas, a mãe morreu de câncer, deixando-o com a irmã caçula, Mariama. Gibran vendeu o armazém e passou a ganhar a vida como pintor. Mais tarde, teve um romance com a jornalista Josephine Peabody, que o apresentou a Mary Haskell, uma professora que viria a ser sua patrocinadora e colaboradora. Sua carreira como escritor estabeleceu-se quando começou a escrever para o jornal Mohajer, de emigrantes árabes.
Em 1905, o primeiro livro, AI-Musiqah, foi publicado. Seguiram-se mais artigos e livros, a maioria criticando o Estado e a Igreja e, em 1908, seu livro de poemas em prosa, Ai-Arwah ai Mutamarridah, foi proibido pelo governo sírio e ele foi excomungado pela Igreja Sida. Mary Haskell patrocinou-lhe então uma estada de dois anos em Paris, onde Gibran estudou pintura na École des Beaux-Arts e na Académie Julien, onde fez uma exposição em 1910.
De volta aos Estados Unidos, depois de Mary Haskell ter recusado seu pedido de casamento, mudou-se para Nova lorque e trabalhou como pintor de retratos. Fazia exposições regularmente, e um livro com seus desenhos foi publicado. Em 1912, a publicação de sua novela Broken Wings rendeu-lhe uma correspondência permanente com May Ziadah, uma jovem libanesa que vivia no Cairo. Mary Haskell encorajou-o a escrever em inglês e, em 1915, apareceu um poema, Pie Perfect World, seguido do primeiro livro em inglês, Pie Madman, em 1918. Durante este tempo, continuou a escrever em árabe e a trabalhar como artista.
Em 1920, Gibran tomou-se um dos fundadores de uma sociedade literária chamada Arrabitali ou O Laço da Pena. Sua carreira como pintor e escritor florescia, mas estava com problemas cardíacos e começou a beber muito para mitigar as dores no coração. Era convidado com frequência a discursar para congregações de igrejas liberais.
Em 1922, foi inaugurada uma exposição de seus desenhos a bico de pena e aquarelas e, em 1923, foi publicada sua obra-prima, O Profeta. Foi um sucesso imediato e as vendas nunca caíram. Publicou vários outros trabalhos em inglês e em árabe, sendo o mais notável Jesus, Filho do Homem (1928), antes de morrer, em Nova York, de insuficiência hepática e tuberculose incipiente em 10 de abril de 1931. Gibran nunca perdeu a paixão pelo Líbano, sua terra natal, onde foi enterrado e onde é considerado uma lenda.


ALGUNS TRECHOS DE SUA VASTA OBRA

A PRECE

"Vós orais na aflição e na necessidade; também devieis orar na alegria e nos tempos de abundância.
Pois o que é a oração senão a expansão de vós no ar vivo?
E se vos dá consolo largar vossa escuridão no espaço, também vos deve dar felicidade lançar o vosso coração à aurora.
E se só conseguirdes chorar quando a vossa alma vos chamar à oração, ela vos estimulará até que, ainda a chorar, vos comeceis a rir.
Quando rezais encontrais no ar aqueles que rezam à mesma hora e que, se não fosse na oração, nunca encontrarieis.
Por isso deixai que a vossa visita a esse templo invisível não seja senão para o êxtase e doce comunhão.
Pois não deveis entrar no templo com outro objectivo que não seja o de pedir aquilo que não recebereis:
E se lá entrardes com humildade assim permanecereis:
Ou mesmo se lá entrardes para pedir favores para os outros não sereis ouvidos.

É suficiente que entreis invisíveis no templo.
Não vos posso ensinar a orar por palavras.
Deus não ouve as vossas palavras a não ser quando ele próprio as murmura através dos vossos lábios.
E não vos posso ensinar a oração dos mares e das florestas e das montanhas.
Mas vós que nascestes nas montanhas e nas florestas e nos mares, encontrareis a oração nos vossos corações, e se escutardes na quietude da noite, ouvi-los-eis dizer em silêncio:
"Nosso Deus, que sois o nosso eu alado, é a vossa vontade em nós que quer.
E o vosso desejo em nós que é desejado.
É a vossa vontade para que tornemos as nossas noites que são vossas, em dias
que são igualmente vossos.
Não vos podemos pedir, pois conheceis os nossos desejos antes de nós
próprios nascermos, vós sois o nosso desejo, e em dar-nos mais de vós, dais-vos todo."
(Para ouvir o texto original, acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=udvrO_Ef7ZE ).


A Tempestade

O Pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam o
coração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.



Entre as Colinas

Entre as colinas,quando vos sentardes à sombra frescados álamos brancos,partilhando da paz e da serenidade dos campose dos prados distantes,então que vosso coração diga em silêncio:"Deus repousa na Razão".E quando bramir a tempestade,e o vento poderoso sacudir a floresta,e o trovão e o relâmpago proclamarema majestade do céu,então que vosso coração digacom temor e respeito:"Deus age na Paixão".E já que sois um sopro na esfera de Deuse uma folha na floresta de Deus,também devereisdescansar na razão e agir na paixão.



TRECHO DO PROFETA

Sete vezes desprezei minha alma:
Quando a vi disfarçar-se com a humildade para alcançar a grandeza;
Quando a vi coxear na presença dos coxos;
Quanto lhe deram a escolher entre o fácil e o difícil, e escolheu o fácil;
Quando cometeu um mal e consolou-se com a idéia de que outros cometem o mal também;
Quando aceitou a humilhação por covardia e atribuiu sua paciência à fortaleza;
Quando desprezou a fealdade de uma face que não era, na realidade, senão uma de suas próprias máscaras;
Quando considerou uma virtude elogiar e glorificar.


Fontes:
http://www.paralerepensar.com.br/gibran.htm
http://www.vidaempoesia.com.br/gibrankhalilgibran.htm

sexta-feira, 21 de novembro de 2008



A LOUCURA EM SHAKESPEARE E FREUD


Quem é o paciente psicótico? (Freud: O Caso Schreber)
Questão impossível de ser respondida sem incorrer em uma certa redução que toda generalização acarreta, se levarmos em conta que as pessoas são sempre mais ricas e multifacetadas do que as conceituações que fazemos sobre elas, ou a partir delas. (...) Um psicótico é uma pessoa que teve, em algum momento da vida, uma situação tal que o obrigou a romper relações: com os outros, com o mundo, com a realidade. Podemos pensar que tratou-se de um evento traumático que teve como conseqüência um retraimento, um fechamento em si mesmo (...), quando seu psiquismo puser-se a construir alguma tentativa de restabelecer-se, de retomar a vida. Nesse momento, surgem formações como os delírios para tentar dar conta de tal reconstrução.
Há algo no psicótico que, se não é generalizável, é ao menos um ponto de apoio a partir do qual é possível falar, intervir e, mais ainda, compreender um pouco daquele sofrimento que a pessoa apresenta: o delírio. Nem todos os pacientes deliram mas, os que assim o fazem permitem o estabelecimento de um certo tipo de relação com o analista(...). A histeria, a obsessão e a psicose alucinatória partem de um mesmo princípio: a tentativa de esquecimento de algo indesejado e se desdobram de formas diferentes a fazer algo com o afeto que sobra. A psicose faz alucinações e delírios. Ao escrever sobre Schreber, Freud traz a idéia de que a formação dos sintomas – conversões, ideações obsessivas, alucinações, delírios – parte de um compromisso qualquer entre instâncias em prol de uma defesa. Entendo todas essas produções como sintomas, jogos de forças entre recalcante e recalcado, censor e censurado. Trata-se de produções que são o aparente que remete a outros desdobramentos, resultado do que se anuncia e do que se busca suprimir e, portanto, de um conflito de forças. Na psicose alucinatória a defesa é a rejeição da representação incompatível juntamente com o afeto, o que faz Freud afirmar que essa seria a defesa melhor sucedida de todas. No entanto, ao romper com a representação incompatível que está associada a alguma parcela da realidade, rompe-se também com essa realidade de maneira parcial ou total
. Fonte: Alessandra Ribeiro

LEAR: Tu me chamas de bobo, rapaz?
BOBO: Abandonaste todos os teus outros títulos, mas esse nasceste com ele."
Shakespeare: Rei Lear. (Ato I, 4).
“A formação delirante que julgamos ser uma produção patológica é, na verdade, uma tentativa de cura, um processo de econstrução.” Freud: O Caso Schreber.
O problema da loucura recebeu uma iluminação diferente a partir de Freud, que foi o primeiro a ver a personalidade como um continuum que vai da sanidade à loucura. A doença mental vista por Freud como regressão inclui, sempre, aspectos de desorganização assim como tentativas no sentido de dar nova estrutura à personalidade. Mesmo na esquizofrenia é sempre possível encontrar aspectos sadios e mecanismos neuróticos misturados com os aspectos delirantes e alucinatórios. Ainda no delírio Freud via a primeira tentativa dos pacientes de restaurar o sentido de vida perdido na enfermidade. Por outro lado, procurava ver conflitos subjacentes nas pessoas ditas normais, que permanentemente ameaçam de desorganização a qualquer de nós. A idéia central da psicanálise é a de um estruturalismo genético que faz com que formas e conteúdos aparentemente incompreensíveis, tais como sonhos, delírios, alucinações e atos falhos possam ser compreendidos dentro de uma estrutura maior que alcance os planos conscientes e inconscientes de cada pessoa e cuja origem possa ser seguida desde o nascimento.

Em Shakespeare, também, os problemas da loucura são considerados em sua íntima conexão com a sanidade e mesmo com a sabedoria. Vamos considerar, para efeito de exposição, os três tipos de loucura que aparecem em suas peças: a loucura dos Bobos, a loucura fingida e a loucura verdadeira.
1)
Os Bobos
Os Bobos funcionam mais ou menos como os coros das tragédias gregas, pois têm também este sentido de promover o aprendizado do herói. O Bobo não é propriamente uma pessoa e sim uma função exercida nas cortes medievais. Tal função caracteriza-se por uma licença especial para poder dizer certas verdades, mesmo que desagradáveis ao rei ou a outras personagens da corte – “Licensed fools”. Por esta razão, os sentimentos dos personagens da corte em relação ao Bobo são sempre ambivalentes. Ele é tolerado e até mesmo amado, mas é também maltratado em inúmeras circunstâncias. Em nenhuma outra peça, esta função do Bobo aparece com tamanha nitidez quanto no Rei Lear. Referindo-se aos maus-tratos que Lear recebe das filhas, após dividir seu reino entre as duas, o Bobo comenta:
...
“Dá-me um ovo, tio, que darei duas coroas.
LEAR –
Que duas coroas seriam essas?
BOBO –
Bem, partido o ovo em duas metades e comidas as substâncias, as duas coroas do próprio ovo. Quando partiste tua coroa ao meio e deste ambas as partes, carregaste teu burro nas costas através do lamaçal. Tinhas pouco sizo debaixo de tua coroa calva, quando
abdicaste tua coroa de ouro. Se falo como Bobo, seja açoitado o primeiro que isto notar.”
O Bobo representa o modo mais expressivo da sabedoria na loucura. Em suas falas, aparentemente sem sentido (nonsense), eles atingem a profunda ambigüidade característica do ser humano. Tanto que, no Rei Lear, ele funciona como um verdadeiro intérprete do rei, exercendo um papel psicoterápico fundamental para a recuperação de Lear. Quando Lear reencontra Cordélia, o Bobo simplesmente desaparece da peça. Cordélia que passa a ocupar-se de restaurar a saúde mental do rei, entra no lugar do Bobo. Shakespeare explicita esta relação fazendo Lear chamar Cordélia de Boba na última cena da peça. (Ato V, Cena 3.)
LEAR – “E minha pobre boba foi enforcada. Não, não tem vida. Porque um cão, um cavalo, um rato estão vivos e tu, sem um simples sopro sequer!Não voltarás nunca mais, nunca,
nunca.”
Segundo Harold Jenkins, todo Bobo tem a função de desfazer idealizações, e exemplifica este modo de conceber o Bobo com o Touchstone de Como Gostais. Touchstone representa o contraponto da idealização da vida na floresta de Arden, bucólica, exaltada como mais natural e despreocupada do que a vida protocolar da corte. Touchstone está sempre a nos lembrar dos confortos da vida doméstica. É ele quem nos fala do cansaço físico, quem se lembra da necessidade de “almoço, jantar e horas de dormir”. Touchstone é quem sabe das horas, pois é o único a possuir uma espécie de relógio. Em plena floresta, ele é capaz de dizer: “São dez horas”. E de fazer este comentário realista acerca do tempo:
“E, assim, de hora em hora, nós amadurecemos e amadurecemos e depois, de hora em hora, apodrecemos e apodrecemos”.
O Bobo é uma das duas personagens a lembrar a decadência e a morte, dentro da vida idealizada da floresta de Arden. O outro é Jacques, um “melancólico” seguidor do rei que exerce também uma função de Bobo, denunciando a poluição da floresta pelos homens e nos lembrando a decadência humana, em sua conhecida fala sobre as sete idades do homem.
JACQUES –
O mundo inteiro é um palco, todos os homens e mulheres não passam de atores. Têm suas entradas e saídas e um homem em seu tempo representa muitos papéis e sete idades têm seus atos. Primeiro, é o infante que dá vagidos e vomita nos braços da ama; depois, é o escolar chorão com a pasta e a reluzente cara de aurora que, semelhante a um caracol, se arrasta de má vontade para a escola. Em seguida, é o apaixonado, suspirando como um forno, como uma balada triste composta para as sobrancelhas de sua amada. Depois, é um soldado,
cheio de estranhos juramentos e barbado como um leopardo, zeloso pela própria honra, pronto e atrevido na querela, procurando a bolha de ar de reputação até na boca dos canhões. Mais tarde, é o juiz, com o belo ventre arredondado, repleto com um bom capão, os olhos reveros e a barba formalista, cheio de frases graves e de lugares-comuns. E, assim, representa seu papel. A sexta nos transforma no personagem do magro e ardiloso Pantalhão, com óculos no nariz e a bolsa do lado. As calças de sua juventude, que conservou cuidadosamente, seriam um mundo largo demais para as magras canelas e a forte voz viril,
convertida novamente em falsete infantil, emite agora sons agudos e assoviados. Finalmente, a cena derradeira, a que termina esta estranha história cheia de acontecimentos, é a segunda infância e o total esquecimento, sem dentes, sem olhos, sem paladar, sem coisa alguma.”
2) A loucura fingida


Alguns personagens de Shakespeare vão fingir-se de loucos a fim de conseguir um determinado objetivo. O caso mais conhecido é o da falsa loucura de Hamlet, através da qual ele visava obter dados que incriminassem o rei seu padrasto na morte de seu pai, ficando, ele próprio, livre de qualquer suspeita. Logo no Ato I, Hamlet vai anunciar a Horácio sua intenção de fingir-se de louco e fazê-lo jurar que não irá denunciá-lo. Seu intuito está ligado à visão do fantasma do pai. (Ato I, 5).
... “por muito rara e extravagante que seja minha conduta, visto que, talvez, no futuro julgue oportuno afetar maneiras estranhas, jurai que, ao ver-me em semelhantes situações, nunca dareis a entender... que sabeis alguma coisa a meu respeito”.
Sendo a loucura fingida uma loucura com uma finalidade, ela é, necessariamente também, uma loucura com método. No Hamlet, é Polônio quem vai perceber esta característica no Interrogatório a que submete o príncipe para descobrir as “causas” de seu estado. Após ouvir de Hamlet várias respostas aparentemente sem sentido, porém cheias de insinuações, Polônio conclui:
POLÔNIO (à parte) –
Embora seja pura loucura, há método nela... Não desejais abrigar-se do ar, meu senhor?
HAMLET –
Em meu túmulo?
POLÔNIO –
É claro, lá ficamos ao abrigo do ar. (À parte) Como são, às vezes, engenhosas as respostas dele! Felicidade que só acontece com a loucura e que nem a mais sã razão e lucidez não poderiam atingir com tanta sorte.
Outro caso de loucura fingida ocorre em Rei Lear. Edgar, filho de Gloster, um nobre amigo de Lear, pretende esconder sua posição, para escapar da fúria de seu pai que se voltara contra ele, instigado por seu meio-irmão, Edmundo. Para isto, o método adequado é disfarçar-se de mendigo louco e ocultar-se numa pobre choupana na floresta. Uma das cenas mais curiosas da tragédia é a do encontro de Lear, o louco verdadeiro, com Edgar, o falso-louco. Este vai ser considerado por Lear como um sábio, capaz de aconselhá-lo em seus problemas. (Cena 6.)
“LEAR - ... Tu é a própria coisa. O homem, sem as comodidades da civilização, não passa de um pobre animal nu e bifurcado como tu és. Fora, fora coisas emprestadas! Vamos, desabotoemo-nos aqui. (Rasgando as próprias roupas.)”
“GLOSTER –
Entrai comigo. Meu dever não saberia curvar-se em tudo às duras ordens de vossas filhas. Por mais que me hajam ordenado que fechasse as portas de minha casa e deixasse que ficásseis à mercê desta noite tirânica, arrisquei-me a vir procurar-vos, a fim de conduzir-vos para onde encontrareis pronto fogo e alimento.
LEAR –
Deixe-me falar primeiro com este filósofo. Qual é a causa do trovão?
KENT –
Meu bom senhor, aceitei-lhe o oferecimento, entrai na casa.
LEAR –
Quero trocar uma palavra com este letrado tebano. Em que te aplicas?
EDGAR –
Em evitar o demônio e matar piolhos.”
3) A loucura verdadeira
São numerosos os loucos que aparecem nas peças de Shakespeare. Loucos de todos os tipos, revelando seu grande conhecimento dos meandros da loucura. Um dos casos mais bem caracterizados é o da Ofélia de Hamlet. Trata-se de uma psicose típica, desenvolvida pela trama das mensagens contraditórias em que ela se vê envolvida pelo irmão, pelo pai e pelo próprio Hamlet. Ofélia, que cedo perdera a mãe, fica fragilizada diante dos homens. O pai e o irmão a proíbem explicitamente de aceitar a corte que lhe faz o príncipe Hamlet. Por outro lado, o pai atribui a loucura de Hamlet à rejeição por Ofélia, portanto à obediência da filha aos seus conselhos. Hamlet, que a princípio mostrara-se amoroso, por sua vez passa a maltratar Ofélia quando decide fingirse de louco. No Ato III, vemos como Ofélia é confundida pela contradição do príncipe.
“HAMLET - ... Amei-te, antes...
OFÉLIA – Foi na verdade, meu senhor, o que me fizeste acreditar.
HAMLET –
Não deverias ter acreditado em mim, pois a virtude não pode ser inoculada em nosso velho tronco sem que nos fique algum mau ressaibo. Eu não te amava.
OFÉLIA – Tanto maior foi minha decepção.
HAMLET –
Entra para um convento. Por que desejas ser mãe de pecadores? Quanto a mim, sou relativamente honesto e, contudo, de tais coisas poderia acusar-me, que melhor seria que minha mãe não me tivesse posto neste mundo. Sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso,
com mais pecados na cabeça do que pensamentos para concebê-los, fantasia para dar-lhes forma ou tempo para executá-los. Por que hão de existir pessoas como eu para se arrastarem entre o céu e a terra? Todos nós somos consumados canalhas; não te fies em nenhum de nós. Segue teu caminho para o convento. Onde está teu pai?

OFÉLIA –
Em casa, meu senhor.
HAMLET – Fecha bem as portas, para que somente em casa represente ele o papel de bobo. Adeus!
OFÉLIA – Ó céus clementes, ajudai-o!” A loucura de Ofélia é tão bem definida que chega a mostrar um quadro de dissociação mental típica:
“REI –
Como estais passando, bela dama?
OFÉLIA –
Bem, Deus vos ajude! Dizem que a coruja é filha do padeiro. Senhor, sabemos o que somos, mas não sabemos o que possamos ser. Deus abençoe vossa mesa!
REI –
Está pensando no pai?
OFÉLIA –
Por favor, nem uma palavra disto; mas quando perguntarem o que significa, dizei o seguinte: (Canta.)
É dia amanhã de São Valentim.
Bem cedo estarei à tua janela,
Donzela que sou, pra ser Valentina.
Ergue-se ele então, sua roupa veste,
Abre-lhe a porta de seu dormitório.
Donzela ela entrou, mas quando saiu
não mais era como ali tinha entrado.

O significado claramente sexual dessa fala tem aspectos que lembram a teoria freudiana da etiologia das doenças mentais. A casta Ofélia sonha com perder sua virgindade. Mesmo em seu delírio, vemos os temas da sexualidade e do luto pela morte do pai expressos de modo dissociado. Além da pulsão sexual na base da doença mental, vemos, em outro caso, a loucura originada pela pulsão de morte. É o que ocorre com Lady Macbeth pelo incentivo dado ao esposo para cometer o assassinato do rei Duncan, a fim de que ele próprio se torne rei. A relação entre a culpa e a loucura fica nítida no Ato V, 1. Aí, vemos um exemplo gritante do postulado de Freud de que certos doentes “preferem” inconscientemente adoecer a sentirem-se culpados por suas ações.

“MÉDICO – Que está fazendo agora? Olhai como esfrega as mãos.
DAMA DE COMPANHIA –
Costuma fazer isso: fingir que está lavando as mãos. Vi-a persistir nesse gesto durante bem um quarto de hora.
LADY MACBETH –
Por mais que eu faça, esta mancha não sai.
MÉDICO –
Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser para guardar lembrança mais viva.
LADY MACBETH –
Vai-te, mancha maldita! Vai-te digo!
- Uma, duas: é tempo de pôr mãos à obra. – Como é lôbrego o Inferno!
-
Por quem sois, meu senhor, que vergonha! Um soldado com medo? – Por que havemos de recear que alguém saiba, se ninguém nos pode pedir contas? – Mas quem poderia ter imaginado que o velho tivesse tanto sangue nas veias?
MÉDICO –
Ouviste bem o que ela disse?
LADY MACBETH –
O Tane de Fife tem esposa: onde está ela? – Que coisa! Estas mãos nunca ficarão limpas? – Parai com isto, meu senhor, parai com isto: esses vossos sobressaltos podem pôr tudo a perder.
MÉDICO –
Vamos embora, vamos embora: ouvimos o que não deveríamos ter ouvido.”
O médico que passara observando a doente durante longo tempo acaba por concluir que Lady Macbeth precisava mais dos serviços de um “padre do que de um médico”. No início da cena, é dito que Macbeth estava ausente. Ora, o que percebemos através da peça é uma inversão de papéis dentro do casal de criminosos. No início, é Lady Macbeth a figura forte que incentiva o marido a assassinar Duncan e, quando ele fraqueja, é ela quem lhe diz que ele deve ser homem e não temer. Agora, é ele quem dá forças à mulher. Portanto, sua ausência contribui para desencadear o surto psicótico. Outro fato notável é que, embora se atribua a Lady Macbeth sonambulismo, na cena, como nota o médico, ela está de “olhos abertos” ao que a aia responde que “seus sentidos estão fechados”. Bion nota que o psicótico é alguém que não está dormindo mas também não está acordado, pois dentro do delírio e das alucinações tudo se passa como se ele estivesse vivendo na realidade interna, apenas prestando pouca atenção aos estímulos externos. Esse é. Aliás, o caso de todos os loucos. Em Rei Lear, vemos como na cena da loucura na tempestade o rei está tão ocupado dentro de sua luta interna contra “as filhas pelicanas” que aparentemente não sente frio nem medo. A loucura de Lear é desencadeada pela perda da fantasia onipotente de distribuir seu reino entre as filhas e continuar com as vantagens do poder. A filha que havia sido desprezada por não entrar no jogo de adulação do pai é expulsa do reino. Mais tarde, no reencontro com Cordélia, esta filha vai marcar a aceitação dos limites, inclusive do limite maior que é a própria morte. Então Lear, que enlouquece por não suportar limites, vai aprender com Cordélia toda a extensão de sua impotência. Assim que desperta da sonoterapia a que o submetera o médico, Lear, pela primeira vez na tragédia, revela a sua idade: “Oitenta e tantos anos, nem uma hora a mais nem a menos”. Ao aceitar, relutante, a morte de Cordélia, na última cena da peça, o rei está pronto para morrer também. Em suma, vimos nos três exemplos deste capítulo como Shakespeare compreendia a loucura em sua gênese sexual e agressiva. Intui também a fantasia de onipotência característica de todos os loucos.
(Extraído de Freud e Shakespeare, de E. Portella Nunes e C. H. Portella Nunes. Imago Editora, 1989).

http://www.sedes.org.br/Departamentos/Psicanalise/em_obras_alessandra_ribeiro.htm
http://www.bernardojablonski.com/pdfs/graduacao/loucura_shakespeare_freud.pdf