quarta-feira, 1 de abril de 2009



Nefertiti: uma deusa no comando
por Cláudia de Castro Lima


Provável rosto de Nefertiti

Ela se tornou sacerdotisa de uma nova religião e foi adorada como deusa. No fim da vida, governou sozinha o maior império de seu tempo.Poucas vezes nos quase 10 mil anos da história da humanidade a pessoa mais poderosa do mundo foi uma mulher. No Egito, no entanto, uma bela rainha liderou o maior império do século 14 a.C.
Era uma época de prosperidade e riqueza, graças às relações comerciais com os vizinhos da Mesopotâmia e da Ásia Menor. Era também um tempo de paz, quando a diplomacia egípcia evoluiu a ponto de surgirem inacreditáveis alianças com povos que antes só queriam saber de guerra, como o reino Mitani.

Mas por trás de toda essa calmaria uma tempestade estava se formando.

Aos 16 anos de idade, Amenhotep IV assumiu a co-regência ao lado do pai, Amenhotep III, que já estava no 28º ano de reinado. Em 1352 a.C., com a morte do velho, o rapaz herdou o poder sozinho. Quatro anos depois, sem maiores explicações, o novo faraó pirou. Mandou substituir o culto ao deus Amon-Rá, o mais importante da época, pela adoração ao deus-sol Aton, representado pelo círculo solar. Trocou seu nome para Akhenaton (que significa “a glória de Aton”) e espalhou que ele era o enviado do novo deus à Terra. Ordenou a construção da cidade sagrada de Akhetaton (“o horizonte de Aton”, conhecida hoje como Tell El-Amarna). E para lá transferiu a capital do Egito, para desespero dos sacerdotes e desentendimento geral da nação. Ao anunciar todo esse pacote de mudanças, avisou: “Ninguém, nem mesmo minha esposa, me fará mudar de idéia”.

QUEM É ESSA MULHER



A influente esposa citada nos discursos do faraó – fato raríssimo para a época e que mostra a importância da rainha – era Nefertiti. Não se sabe exatamente quando nem onde Nefertiti nasceu.

Nefertiti (que significa “é chegada a bela”) só passou a existir oficialmente após seu casamento com Amenhotep IV. Ela tinha 14 anos. Foi quando começou a aparecer nas inscrições em estelas e talatats, pequenos blocos de pedra na base das construções egípcias. São comuns estelas nas quais Nefertiti aparece ao lado do marido com suas filhas (eram seis ao todo). Cenas inéditas de carinho e intimidade familiar são mostradas.

O jovem faraó tinha duas esposas, mas a principal, a que possuía o título de Grande Esposa Real, era Nefertiti. Ao longo do tempo, sua influência só foi aumentando. “Na implementação da nova religião, Nefertiti teve um papel fundamental”, diz a historiadora Anna Cristina Ferreira de Souza, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Esse crescimento pode ser visto nas imagens da rainha gravadas nas paredes dos templos em Amarna – que fica a 590 quilômetros do Cairo. No começo, Nefertiti aparece bem menor que Akhenaton. Com o passar dos anos, ela vai ficando cada vez maior, até alcançar o tamanho do marido – uma indicação de que seu status também foi aumentando.

O crescimento atípico da rainha é normalmente associado ao seu papel na nova religião criada pelo marido. Pela primeira vez, o deus egípcio era único. Até então, a religião do Egito era baseada no culto a diversos deuses, cujos representantes na Terra eram os próprios faraós. A origem da crença remonta à Pré-História, quando tribos locais adoravam deuses e animais. Vários deuses eram cultuados, mas um de cada vez – o que era conhecido como monolatria.


Nefertiti e Akhenaton


Quando ainda se chamava Amenhontep IV, o faraó já dava indícios de sua nova fé: começou a levantar templos para Aton na cidade de Karnak, lugar de adoração de Amon-Rá. Até que oficializou o culto ao disco solar e ordenou o abandono do antigo deus. No quinto ano de seu reinado, começou a construção da nova capital, Akhetaton, que ficou pronta três anos depois. A relação com os outros deuses, a partir de então, estava rompida. Seria como se alguém hoje proibisse os católicos de adorar seus santos.

“Nefertiti contava com grande empatia e carisma entre a população, dando alguma popularidade ao culto de Aton, combatido pelos poderosos sacerdotes egípcios, que preferiam os deuses tradicionais”, afirma a historiadora Deborah Vess, da Universidade de Geórgia, nos Estados Unidos. “Sua beleza, combinada com o poder que ela adquiriu, tornou-a uma das mulheres mais importantes da história”, diz. As outras rainhas foram simplesmente rainhas. Nefertiti não: ela virou uma deusa encarnada.


PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA



Nefertiti, Akhenaton e seus filhos


Akhenaton promoveu a si mesmo e sua esposa à posição de deuses vivos. No início, o deus-sol Aton era representado com corpo humano e cabeça de falcão. Com o passar do tempo, essa representação foi substituída por imagens da família real, que estava sempre recebendo sagradas emanações do disco solar. “Houve uma simplificação na hierarquia dos deuses do Egito: só subsistiram as figuras de Aton e do rei, que era o único meio de acesso à esfera divina”, afirma Anna Cristina. “Os cultos passaram a ser direcionados à família real, pois só ela conhecia e podia cultuar o deus.” Nessa nova liturgia, Nefertiti encarnava todas as divindades femininas que os egípcios estavam acostumados a cultuar.

Tudo isso, porém, teve também uma motivação política. O poder do Egito, um reino em que religião e política se misturavam, antes era concentrado nas mãos dos sacerdotes de Amon. Na nova religião, passou a ser exclusivo do casal real. Desde o início, as mudanças atraíram a oposição dos poderosos sacerdotes. “Quem foi esperto e mudou de religião teve seu emprego garantido”, diz o egiptólogo Antônio Brancaglion Júnior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Quem não o fez acabou perseguido, preso e banido.”

A insatisfação chegou à nobreza, incomodada pela extrema concentração de poder do faraó e de sua família, e finalmente ao povo, afetado pela construção da nova cidade – o que levou ao aumento de impostos e inflacionou os preços.
Além disso, o faraó não tinha a menor vocação para a guerra ou a política. Durante seu reinado, o Egito perdeu seus territórios na Ásia para os hititas, o que diminuiu a coleta de ouro e de impostos. Diante das críticas, Akhenaton reagiu com mais perseguição religiosa e enviou mensageiros a Tebas e Mênfis para destruir qualquer menção a outros deuses.

VIÚVA E PODEROSA


Esse era o clima em 1336 a.C., quando Akhenaton morreu, provavelmente de causas naturais, aos 34 anos – a média de vida dos egípcios, mesmo entre a elite, era de apenas 35 anos. Nessa época, as imagens de Nefertiti mostram-na usando paramentos típicos de faraó, como coroa e bastões. Para a maioria dos especialistas, o fato sugere que ela teria assumido o trono do Egito – primeiro ao lado do marido e, depois da morte de Akhenaton, como sua sucessora. “Embora o assunto permaneça controverso, atualmente a opinião de que ela tenha governado como rainha única é cada vez mais aceita”, diz Brancaglion.
Gravações em pedra encontradas em escavações no século 19 em Amarna mostram que, após a morte de Akhenaton, o Egito foi governado por um (ou uma) faraó de nome Nefernefruaton – que seria, na verdade, Nefertiti.

Para Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades Egípcias, não restam dúvidas sobre o poder acumulado por Nefertiti após a morte do marido. “As imagens de Amarna mostram a rainha sozinha, liderando procissões religiosas e até à frente de exércitos, posições reservadas exclusivamente aos faraós”, diz Zahi.
Críticos dessa tese chamam a atenção para o fato de que o sucessor de Akhenaton revogou quase tudo que o faraó fez durante seu reinado – o culto a Aton foi extinto e os antigos deuses foram retomados menos de cinco anos após sua morte. Por que Nefertiti abandonaria a religião do marido?



Anna Cristina tem algumas hipóteses. “Akhenaton deixou o Egito em crise. Após sua morte, vários setores da sociedade se revoltaram contra o trono. O retorno ao culto a Amon-Rá deve ter sido uma forma que a nova faraó encontrou para contar com o apoio do maior número possível de pessoas e pacificar o país”, diz. Isso justificaria o fato de Nefertiti ter trocado seu nome e tentado romper os vínculos com o antigo regime. “Foi uma decisão importante, tomada por uma mulher que tinha exata noção de seu papel na política do Estado.” Brancaglion concorda que a motivação de Nefertiti deve ter sido política. “Ela provavelmente percebeu que a nova religião estava levando o Egito ao colapso”, afirma.

Apesar disso, Nefertiti não conseguiu deter a crise religiosa e social que levou o Egito a um período de instabilidade política. Depois de apenas três anos de poder, ela teria morrido em situação nunca esclarecida. O Egito passou a ser governado pelo jovem Tutancâmon, que assumiu com cerca de 9 anos e morreu aos 19 anos.
Para quem acredita que Nefertiti terminou seus dias como a poderosa rainha do Egito, é difícil aceitar que seu corpo jamais tenha sido localizado – embora uma especialista americana tenha afirmado, em 2003, que achara seus restos mortais. Durante o governo de Tutancâmon, Amarna – provável local do sepultamento da rainha – foi abandonada. Os crentes de Aton foram perseguidos e a maioria dos templos construídos por Akhenaton e Nefertiti foram depredados. Os rostos dos soberanos foram raspados das imagens esculpidas em pedra. É possível que, nessa época, a tumba da rainha tenha sido violada.

Crescendo e aparecendo

Gravações em amarna indicam que a importância de Nefertiti aumentou com o passar do tempo.

À SOMBRA DO REI

No início do reinado do marido, ela aparece em tamanho desproporcional ao dele – o que era comum, pela maior importância política e religiosa do faraó. A arte tinha uma gama limitada de cores: vermelho, amarelo, azul, verde, preto e branco eram as únicas que os egípcios conseguiam obter.

OMBRO A OMBRO

Com o tempo, a imagem de Nefertiti aumenta até ficar da mesma altura que a do marido, sinal de que sua importância atingiu um patamar igual ao dele. Com Akhenaton, as linhas curvas passaram a ser valorizadas para lembrar o círculo solar do rei Aton.

1. DISCO SOLAR


As imagens de Amarna mostram o deus Aton representado pelo círculo solar. Ele geralmente fica no centro do desenho, irradiando raios luminosos sobre as cabeças do casal real. Os cultos se davam em lugares abertos, à luz do dia. A nova religião também era mais branda com os fiéis: quando morriam, eles se livravam automaticamente dos pecados, coisa que não acontecia nos outros cultos.

2. NEFERTITI

A rainha foi retratada inúmeras vezes em situações de família ou em rituais ao lado do rei. Também aparece – mais vezes do que o próprio faraó – oficiando rituais a Aton sozinha. Há na arte de Amarna ainda relevos que mostram seu papel importante na política: Nefertiti aparece golpeando inimigos ou na presença de cativos, atitudes que até então eram relacionadas apenas ao faraó.

3. AKHENATON

Era comumente retratado com cintura de mulher, coxas grossas e seios, enquanto Nefertiti por vezes aparecia com feições masculinas – figuras bem andróginas. Isso intrigava os pesquisadores, que achavam que o faraó tinha a síndrome de Frölich, uma disfunção glandular que deixa o portador infértil. Só depois percebeu-se que, como seres masculinos e femininos, o casal real se assemelhava ao deus-sol.
4. CRIANÇASPela primeira vez na história do Egito – e talvez na de todo o mundo antigo – cenas cotidianas e íntimas da família real foram expostas. O casal de soberanos aparece se beijando em frente às filhas, pegando-as no colo, dando comida a elas, fazendo-lhes carinho. As crianças aparecem brincando ou chacoalhando instrumentos musicais em cultos a Aton.

Rosto mutilado

Povo não perdoou a traição a seus deuses.

Anos após a morte do casal real, a população decidiu se vingar. Destruiu a antiga cidade de Akhetaton e quase todas as imagens do casal. Acusada de heresia por renegado os antigos deuses, Nefertiti teve os olhos de suas imagens riscados – para que não pudesse enxergar o paraíso depois da morte.

Para saber mais

• Deuses, Faraós e o Poder, Julio Gralha, Barroso Produções Editoriais, 2002 - Ajuda a entender a nova religião proposta por Akhenaton• Nefertiti, Egypt’s Sun Queen, Joyce Tyldesley, Penguin, 2000 - Com base em documentos e imagens, a autora recria a corte de Amarna nesta biografia da rainha.

A bela era homem

Pesquisadora disse ter achado a múmia que sumiu.

Um dos maiores mistérios da vida de Nefertiti é o paradeiro de sua múmia. Uma egiptóloga americana, Joann Fletcher, especialista em perucas egípcias (elas são uma forma de identificar as múmias, já que resistem bem à decomposição), fez o maior barulho em 2003 ao afirmar que tinha encontrado a rainha. Com uma equipe do canal Discovery, Joann foi até uma tumba do Vale dos Reis identificada como KV35. Uma peruca parecida com as usadas pelas mulheres da realeza foi achada ao lado de uma múmia mutilada. A mutilação de Nefertiti seria vingança dos seguidores de Amon-Rá. A comunidade mundial de egiptólogos se manifestou prontamente. O resultado de um teste de DNA feito na múmia em 2005 foi devastador. O corpo mutilado da KV35 era de um homem. Foi um vexame.

Fonte: Revista Aventura na História

Fotos: Internet

http://historia.abril.com.br/


Texto: Cláudia Castro Lima

(Na foto, é a 3a. da esquerda para direita)

segunda-feira, 30 de março de 2009

LONGE DAQUI
* Luíz Horácio Rodrigues



Paciente leitor. Quantas vezes você já se deparou com a história de personagem que empreende determinada jornada, pouco importa o motivo, e nessa caminhada encontra uma miríade de tipos esquisitos, exóticos, estranhos, bizarros? Quantas? Tudo isso! Não, cinema não vale, fiquemos apenas com a literatura. Pois é, mesmo assim é uma fartura e tanto.

Longe daqui, livro da americana Amy Bloom, grosso modo, é isso. Ao examinarmos detidamente duvido que você, criterioso leitor, não chegue a essa mesma conclusão.
Cenário: Estados Unidos, década de 1920.



Trama:Lilian Leyb, abandona a Rússia depois de ver sua família-pai, marido e filha- massacrada. Parte em direção a América, de onde sempre lhe chegaram histórias livres de miséria, desembarca em Nova York e percebe que a realidade não tem muito a ver com o que escutara. O paraíso ainda estava um pouco além. Afora as dificuldades para conseguir emprego decente e os obstáculos da estranheza da língua, Lilian era constantemente atormentada pelas lembranças da filha Sophie. Até o dia em que recebe a visita da prima Raisele trazendo a notícia que sua filha não está morta. Fora salva por um casal vizinho e levada para a Sibéria. Lilian decidi partir ao encontro de Sophie. Reencontra a realidade de sofrimentos, com a qual já tinha considerável intimidade.

O paraíso mudara de endereço, Sibéria.


Antes de iniciar a viagem de volta Lilian passa por situações trágicas, patéticas,engraçadas, experimenta de tudo. Tais episódios são na verdade protagonizados pelos coadjuvantes que no transcorrer da trama invertem os papéis e o leitor, avesso a monotonia, aguarda a aparição dos personagens “esquisitos” que manterão o insistente Morpheu longe de sua poltrona, persistente leitor.

A cena inicial lembra o início de um sem números de filmes de faroeste onde malfeitores atacam a propriedade, o rancho, de pacato cidadão, antes de matar sua mulher e filha, abusam sexualmente de ambas, em seguida queimam tudo. Quando o homem retorna, geralmente ele está consertando uma cerca, se depara com a desgraceira. Pronto; nasce um justiceiro. Sai então à caça dos facínoras.
Pois bem, cinéfilo leitor, Longe daqui é o mais puro de já-vu, literário, cinematográfico, o que preferirem.

Trata-se de uma singela literatura popular e não há nada de nobre nisso, nós que costumamos massacrar Paulo Coelho, devíamos prestar a devida atenção ao que nos chega de além oceano.“E perdida ali, uma pena dourada numa terra muito, muito estrangeira. Sempre foi assim: os melhores grupos são constituídos por pessoas cheias de problemas.” Você acabou de ler a abertura de Longe daqui. Pena dourada!!!!!!!! Nem nosso mago mor alcançou tamanho requinte. Além de não acrescentar a mais módica pitada de consistência ao nosso panorama literário ainda impedem a edição de autores tupiniquins. É de chorar.

Mas não desanime, caro leitor, pegue seu exemplar e continue em busca de argumentos que “me derrubem.” Tentarei dar uma mão.

Voltando à trama. Lilian chega a Nova York, traz algumas frases decoradas, em inglês, que utiliza conforme a situação. “Muito bem, obrigada”, em caso de a pergunta contemplar sua saúde. Ao perceber na indagação as palavras costurar, traje ou trabalho; a resposta memorizada será “Sou costureira -meu pai era alfaiate”. Em situações onde não entenda o questionamento apelar para “Frequento a escola à noite.”



Sem muito esforço, Lilian consegue a vaga.Passa a trabalhar como costureira num pequeno teatro. Acaba se envolvendo com o ator principal da companhia, Meyer Burstein.O rapaz, no entanto, se amarra em rapazes e costuma frequentar ambientes pouco recomendáveis onde deixa fluir seus anseios homossexuais; “buracos” entre bancos e arbustos de parques são os cenários preferidos. Lilian também divide sua cama com o pai de Meyer, o senhor Reuben.


Mas permitam voltar à fila do emprego, antes de Lilian conseguir o trabalho de costureira.

A autora descreve o ambiente e uma gama de personagens “estranhos” que se você, detalhista leitor, antever um circo não se condene. Lilian sorri para umas crianças e ao passar pelas mulheres que as acompanham sente que “elas fedem a azar.”
A seguir, de enrubescer o nosso mago. “Lilian tem sorte.Foi o que seu pai lhe disse; disse isso a todo mundo, depois que ela caiu no Pripiat duas vezes e não se afogou nem morreu de pneumonia. Disse que ser inteligente era bom (e Lilian era inteligente, afirmou ele), que ser bonita era útil (e Lilian era bastante bonita), mas ter sorte era melhor do que as duas coisas juntas. Esperava que ela tivesse sorte a vida inteira, e ela vinha tendo, até então. Ele também disse, você cria a sua própria sorte, e Lilian pega a mão de Judith, a única moça que conhece, abre caminho bem no meio da multidão e vai até a frente.”

Não estou a defender Paulo Coelho, mas a vilania deve ser devidamente fatiada.
Pois bem, enquanto o tempo de Lílian é dividido entre máquinas de costura e a cama que a acolhe os Burstein, ora o papai, ora o filho; e alguns pesadelos com a filha Sophie.

Transcorria nessa toada a vida da “sortuda” Lilian até que um belo dia, sem avisar, sua prima Raisele aparece trazendo a noticia de que Sophie vive.

Amy Bloom carrega a mão na descrição, a mesma mão pesada preenche com tintas graves os contornos do sentimentalismo; não bastasse o fato de colocar o leitor diante de uma mãe em desesperado ir e vir, num primeiro momento a procura de um sentido para refazer sua vida e a na seqüência a partida na tentativa de reencontrar a filha.

Pai e filho não dão a mínima importância a sua decisão, apenas Yaakov Shimmelman, ator e dramaturgo que acumula a função de alfaiate lhe concede ajuda. Ela costureira, ele alfaiate, se unem, costuram, psicanalistas, o prato está cheio.
Frase de Yaakov, sua mulher e seus filhos estão mortos: “- Antes - diz ele -, quando estava vivo, eu era um idiota.Agora sou o belo cadáver.Sou o cadáver que valsa.Você sabe.”

Ajudar Lilian será a última boa ação de Yaakov. “Depois que ela parte, ele pára de cantar no Royale, pára de cantar de implicar com Reuben, pára de debochar de Meyer. O cansaço de Reuben é o seu próprio, as mentiras de Meyer são as suas próprias, os crimes e os erros de julgamento do mundo são os seus próprios também. Ele estende toalhas na beirada da banheira, para o caso de espalhar água. Empurra a poltrona pesada , imprensando-a contra a porta da frente.Entra na banheira quente, tudo arrumado no tapete ao seu lado, e desta vez não há Reuben algum para pescá-lo dali.”
Atento leitor, está lembrado que falei de certos coadjuvantes que roubavam a cena?
Desse modo, sempre com bastante espaço ao melodrama, Lilian vai de trem até Chicago, com direito ao mundo cão de Seattle até alcançar o Alasca. Percebe-se a partir desse momento resquícios de tensão psicológica nesse vaudeville travestido de drama. Mas não se entusiasme, desgraças outras virão à tona, Amy exagera, torna a viagem de Lilian um pesadelo para o leitor. Recomenda-se não ler em viagens aéreas, aqueles saquinhos plásticos não darão conta do enjôo causado.

E Sophie ( que jamais saberá que foi adotada que sempre vai se lembrar de Lilian como a prima sorridente de cabelos escuros que lhe deu um cachecol de lã azul)estava lá.

Sophie é o coração da vida de Rivka Pinsky; ela é a jóia de sua mãe, escondida e imerecida.Cresce como Tatiana Bugayenko, uma atéia, uma Pioneira Vermelha.....
Paciente leitor, você tem em mãos Longe daqui uma salada russa temperada com homossexualismo, desgraça, judaísmo, ateísmo, perseverança, uma personalidade opaca, sonhos, pesadelos. Decida-se pelo tema, ande até sua estante, escolha um outro livro.
Aproveite seu tempo.

TRECHO

TODOS OS PECADOS COMEÇAM COM O MEDO, e Raisele está doente de medo; talvez tenha errado os cálculos, sua esplêndida aventura talvez termine antes mesmo de começar, talvez acabe apenas com uma fração daquilo que veio buscar. Raisele cai de joelhos, puxando para si a mão livre de Lilian.
-Sophie está viva - diz Raisele. - Ela está viva.
E depois desmaia.
Lilian põe Raisele na cama e esvazia a banheira.Não importa que Meyer ou Reuben venham esta noite, ou quando, ou qual dos dois, ou se vierem ao mesmo tempo, cara ou coroa, podem tê-la aos turnos no chão da cozinha.
Lilian se deita na cama ao lado de Raisele, que jogou a camisola no chão e dorme nua, enroscada do seu lado, os braços cruzados sobre o peito. Está quente como um forno. Lilian respira fundo para se acalmar, e sente o cheiro de sua mãe ao seu lado, suor e cebolas verdes e o odor queimado, lembrando nozes, de grãos de trigo sarraceno sendo jogado de um lado a outro da frigideira num arco marrom perfeito e indiferente. A cama subitamente se enche dos mortos de Lilian, e Raisele rola para o meio deles, e coloca as mãos nos ombros de Lilian. Diz em seu iídiche leve e ceceado, “Devo contar?” e conta, sem esperar.
Em sua maioria, as famílias fugiram para oeste, à exceção dos Pinsky. Os Pinsky cortaram caminho pelo quintal dos Krimberg, encaminhando-se para a estrada a leste (o que Raisele não diz é que deviam estar procurando por qualquer coisa que pudesse ter sido deixada para trás, procurando levar da casa de seus vizinhos quaisquer sobras que as outras pessoas não tivessem podido carregar). Encontraram um pequeno monte enlameado perto da casa de Lilian, junto aos degraus do galinheiro. O monte era Sophie, sangue e sujeira na barra da camisola, os pés salpicados de cascalho, e Mrs. Pinsky, que tinha enterrado três bebês, disse a Mr. Pinsky que os Leyb estavam todos mortos, que eles tinham que levar a criança consigo para a Sibéria e que não ia ouvir uma negativa. Kachikov, o policial, me contou tudo isso, diz Raisele.

AUTORA

Amy Bloom é autora de dois romances e dois livros de contos. Foi indicada ao National Book Award e ao National Book Critic Award e teve contos publicados em diversas antologias. Colaborou com revistas como a New York Times Magazine e a Atlantic Monthly,entre outras. Vive em Connecticut e leciona na Universidade de Yale.

* RESENHISTA
Luíz Horácio Pinto Rodrigues nasceu em 19 de maio de 1957, em Quaraí, RS. O pai, Alvorino Machado Rodrigues, de Dom Pedrito, e a mãe, Doralina Pinto Rodrigues, vinda do Uruguai, são influências constantes em sua memória e gratidão. Pai de três filhos, Pablo, Thamara e Luísa, e avô de Yago. Luíz Horácio morou por 16 anos no Rio de Janeiro, retornando a Porto Alegre em 2008. Professor de Literatura, escritor, autor dos romances "Perciliana e o pássaro com alma de cão"-ed.Conex e "Nenhum pássaro no céu"-Ed. Fábrica de Leitura, Coordenador do curso de Pós-Graduação latu-sensu Literatura-Produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.

sábado, 28 de março de 2009

Dom Hélder Câmara





Durante alguns anos cruzei com Dom Hélder Câmara, no bairro do Parque Amorim, no Recife. Nunca soube de onde vinha nem para onde ia. Era sempre nos finais de tarde. Ele usava uma batina surrada, de cor clara, pois não aderira à nova moda dos padres se vestirem à paisana. Eu o cumprimentava e ele me sorria, erguendo a mão. Acho que repetia um gesto de abençoar as pessoas.

Dom Hélder não me conhecia, mas tínhamos em comum a mesma origem cearense, o destino de buscar o Recife. Eu o conhecia muito e o admirava. Vê-lo caminhando sozinho e destemido pelas ruas, me enchia de esperança e coragem. Vivíamos tempos difíceis da ditadura militar e o arcebispo de Olinda e Recife dedicava sua vida a lutar pela justiça, pelos pobres e oprimidos. Aqueles também eram novos tempos de Evangelho, de prática da Teologia da Libertação.







Quando assassinaram o Padre Henrique, Dom Hélder escreveu uma homilia que circulou e foi lida nas igrejas, um discurso poético e de ousada coragem. Nos seus programas da Rádio Olinda, além de pregar a fé na Virgem Maria, sua grande devoção, ele falava de temas concretos, desse mundo real em que vivemos.

A residência oficial dos arcebispos de Olinda e Recife é no Palácio dos Manguinhos, no bairro das Graças. Dom Hélder preferia morar numa casinha minúscula, nos fundos da Igreja das Fronteiras, no Derby. Vivia sozinho, ou melhor, na companhia de Deus e da Virgem Maria. Foi na porta dessa casa que nos encontramos certa manhã e tivemos uma conversa ligeira, que me marcou profundamente.

Meu primeiro filho havia nascido e embora eu estivesse fora da Igreja Católica desde os dezesseis anos de idade, achei que devia batizá-lo. Eu só conhecia um modo de dar nome ao filho: o mesmo modo como me deram um nome no batismo. Qual o significado dessa escolha se eu me afastara voluntariamente da Igreja e de qualquer religião? Acho que ainda carregava fantasmas infantis, terrores de que se um bebê morre pagão, vai para o limbo, um lugar escuro e insalubre, triste e sem esperanças. A psicanálise e a ciência não me tinham curado.



Bati na porta de Dom Hélder. Ele mesmo me atendeu, a fisionomia cansada, os olhos de quem passou horas lendo. Tinha um livro na mão e marcava a página com os dedos. Convidou-me para entrar, mas agradeci, disse que não desejava incomodá-lo, que a conversa seria breve. De tanto vê-lo e ouvi-lo, me parecia próximo, quase íntimo. Senti vontade de pedir a bênção, pois sempre o julguei com o direito de abençoar. Esse gosto antigo eu não perdera ainda.


- Meu primeiro filho nasceu e estou pensando em batizá-lo - falei sem qualquer preâmbulo.

Ele esfregou os olhos e me encarou.


- Pensei em fazer o batismo aqui na sua igreja - completei no mesmo tom e pressa.

Dom Hélder sorriu e perguntou se eu era católico, se praticava o evangelho e se vivia no seio da comunidade religiosa. Respondi que não. Ele me disse que então não havia motivo para batizar a criança, que só se batiza um filho quando se deseja iniciá-lo na vida cristã. Senti-me um hipócrita, um fariseu. Falei que precisava de um ritual para dar o nome à criança. Ele me respondeu que o batismo não é uma celebração social e sim um compromisso de educar o filho nos princípios cristãos. Senti-me pior que um fariseu, um demônio logrado.

Compadecido de minha ignorância e perplexidade, sugeriu-me procurar a paróquia do bairro e batizar o menino no meio de todos os outros, num ritual comunitário. Eu havia corrido atrás de uma celebração particular, um batismo separado. Em suma, um equívoco.

Desculpei-me. Ele insistiu comigo para entrar na casa. Agradeci o conselho, fiz uma reverência e fui embora. Sempre acho que deveria ter pedido a bênção antes de me despedir.

Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro no Ceará e mora em Recife. É médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco. Desenvolveu pesquisas e escreveu diversos textos sobre literatura oral e brinquedos de tradição popular, além de ter sido escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley, no ano de 2007. Escreveu os livros de contos As Noites e os Dias (1997), editado pela Bagaço, Faca (2003), Livro dos Homens (2005), e a novela infanto-juvenil O Pavão Misterioso (2004), todos publicados pela Cosac Naify.Dramaturgo, é autor das peças Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim. Lançou recentemente, seu primeiro romance Galileia (2008) pela editora Alfaguara. Escreveu durante sete anos para a coluna Entremez, da revista Continente Multicultural, e atualmente assina uma coluna semanal na revista Terra Magazine.

Fonte: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3641005-EI6788,00-Dom+Helder+Camara.html

quinta-feira, 12 de março de 2009

MINÚSCULOS ASSASSINATOS E ALGUNS COPOS DE LEITE




Parece mentira, mas não é difícil encontrar quem coloque a literatura na estante das coisas sublimes. Daí para definir que só pode merecer o título de escritor aquele ser que escreve nas madrugadas em companhia de álcool e fumo, é um passo; ou um parágrafo. O tal escritor tem que, acima de tudo, demonstrar que sofre, se acrescentar humor em seu texto não merecerá crédito. Será mais um metido a engraçadinho. E literatura, segundo a crescente horda que ainda pensa desse modo, não é cenário para humor. Pois bem, diante disso não é de espantar o preconceito com escritores oriundos dos blogs, afinal de contas esse pessoal costuma esbanjar bom humor.
Também não vou negar que, fruto dos blogs ou não, 99% do que é publicado não vale nada.


Dito isso vamos ao que de fato interessa, o livro de Fal Azevedo - minúsculos assassinatos e alguns copos de leite - convém lembrar que a autora mantém um dos mais visitados blogs. Como diria minha filha, preconceituoso leitor, "nada a ver." Nada a ver no que diz respeito a ser bom ou não, mas tudo a ver no que concerne à prática da escrita. Não importa onde "neguinho" pratique, se no blog, no papel, ou na areia do mar,mas preconceito está sempre na ordem do dia e narizes se torcerão ao saber que uma grande editora, a Rocco,apostou no talento da Fal. Ficha catalográfica:indicação editorial e preparação de originais Anna Buarque. Não sei se a Rocco quis lavar as mãos transferindo a responsabilidade ou se foi tamanha a certeza na qualidade que levou Anna a assumir essa aposta. Seja lá o que isso signifique parabéns ao olho "mágico" de Anna Buarque.

É isso mesmo, o livro é surpreendente, de fácil leitura, sem que isso signifique superficialidade, muito pelo contrário, o conteúdo é corrosivo, e pasme, você novamente preconceituoso leitor, conduz à reflexão. Esse é um dos tópicos a se avaliar a boa literatura, se conduz ou não à reflexão.

Alma, 44 anos, artista plástica, é a narradora de minúsculos assassinatos e alguns copos de leite; esbanja sensibilidade e humor para tratar, acima de tudo, da morte. A morte além de uma presença; uma tentação. E essa relação da palavra com a morte é um dos aspectos mais valiosos nesse livro de Fal Azevedo. Alma perde a irmã, o pai,o padrasto, a filha, porém mais importante e significativo que a morte é o período seguinte, aquele que nos faz ansiar por uma volta no tempo. Ouça Alma, paciente leitor: "Quando minha filha nasceu , eu não gostava dela. Eu tinha 32 anos e não gostava de ninguém. Ela era feia e enrugada e chorava. Deus, como ela chorava. Eu não sabia o que fazer com ela nem como fazê-la parar de chorar. Eu não sabia como amá-la. Eu não a queria no meu colo.

Filha enterrada, novamente Alma com a palavra: "Se eu fui uma boa mãe? Eu fui a mãe que pude ser, que soube ser, não a que ela merecia, como todas as mães que conheço,quer elas admitam ou não. Não fiz o suficiente. Nunca. Eu poderia tê-la beijado mais, sido mais paciente, acordado mais cedo, lido mais histórias e brincado mais de casinha. Eu deveria ter sorrido mais e dado mais colo, ao invés de ter as minhas ressacas mal-humoradas todas as manhãs. Era minha obrigação fazer daquela menina uma menina feliz. Era minha obrigação fazer seu mundo mais seguro. E eu falhei."






O que nos resta após um sepultamento? No mais das vezes, a culpa.
Morte e culpa, convenhamos, não são ingredientes dos mais festivos. Não estivessem sob o talento de Fal Azevedo o produto na certa traria o perfume da amargura.
Alma é torturada pelas lembranças e a dualidade romanticonaturalista se faz notar ante as reflexões da narradora que deixa transparecer estar ciente de que a visão do ser humano há de ser sempre uma visão da crise. Sabe também que tanto causa como efeito de todas as tragédias dependem da ação do homem. E a lâmina dessa certeza fustiga Alma do inicio ao fim de minúsculos assassinatos e alguns copos de leite.

A obra de Fal Azevedo permite refletir sobre variado conjunto de temas, estes vão do literário até o político;da valorização sensível e critica das coisas de um modo geral até uma consciência delicada e complexa a respeito da condição humana, constantemente a mercê da paixão.

Densa, bem humorada, tensa e sombria, sem que isso signifique depressiva, a narrativa de Fal Azevedo. A leitura de minúsculos assassinatos e alguns copos de leite é um passeio em noite de lua cheia com alguns relâmpagos, como os que seguem, onde pensamento e prosa se unem e beiram o aforismo.

"Meu pai se sentia tão desprotegido quanto um lobo sozinho. Freud teria adorado a família toda, isso sim."

"Vi o bebê no berçário, tive uma crise de choro, e disse que não queria morar com ela."

"Chorei até esquecer por que eu chorava.E daí, comecei a chorar de novo."
"Um dia eu vou fazer sentido."


"Os bárbaros não queriam destruir Roma, meu Deus do céu. Eles queriam ser romanos. E isso muda tudo."

Fal ouviu Pound: "sugerir o máximo dizendo o mínimo."


Impossível o leitor não se deixar invadir pela tristeza, uma tristeza de história em quadrinhos, uma tristeza inevitável, mas que na página seguinte poderá se transformar, não arrisco em alegria, mas em mansidão sem dúvida. A tristeza que Fal apresenta ao leitor não é de assustar, é nossa tristeza do dia a dia, a inevitável, desde que não se trate de um idiota ou quem sabe um débil mental.

Não se percebe o onírico na narrativa de Fal, mas a denúncia, a fantasia, a inquietação, as turbulências advindas do risco de tentar combater as situações comuns do nosso dia a dia. Fal Azevedo afronta o senso comum, se exige o riso, não tolera o riso excessivo nessa nossa interminável morte que é o viver.

A escritora paulista Fal Azevedo acaba de lançar novo livro, o romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite (Rocco, 2008), onde nos apresenta Alma, uma artista na casa dos quarenta anos que, imersa em correspondências, reconstrói momentos marcantes de seu passado. Blogueira, sempre ligada na rede, a também tradutora, professora e fã de bichos de estimação Fal Azevedo gentilmente abriu espaço em sua caixa postal para umas poucas perguntas do Amálgama sobre seus livros e influências, a internet e os caminhos para um escritor iniciante.



Resenha: Luíz Horácio - Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o pássaro com alma de cão", ed. Conex e "Nenhum pássaro no céu"-ed. Fábrica de Leitura. Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.


sábado, 7 de março de 2009

HERANÇAS


Certos livros nos obrigam a lê-los camada a camada, pense numa cebola, imaginativo leitor. Outros nos forçam ao papel de taxidermista e aproveitamos apenas o invólucro.
Heranças, a obra mais recente de Silviano Santiago encerra as duas possibilidades acima.


Novamente a cebola, pele 1- velhice, pele 2-ambição,pele 3 -Machado de Assis, pele 4- cenas de uma Belo Horizonte provinciana, pele 5- cartão postal do Rio de Janeiro, pele 6-Shakespeare, pele 7-modernismo, pele 8-diário de um especulador, pele 9...
Walter, o cínico narrador de Heranças, vive num apartamento na avenida Vieira Souto no Rio de Janeiro e já preparou detalhe por detalhe o seu sepultamento em Botafogo, no cemitério São João Batista.

“Elegi a cidade, escolhi o cemitério.Decidi passar os últimos anos de vida no Rio de Janeiro e ser enterrado no S. João Batista.”

Assim tem início Heranças, e esse início já daria pano para muitas mangas, querem ver?

Seria o Rio de Janeiro uma cidade adequada para velhos? Ou quem sabe, o cemitério do Brasil? Inclua no rol das camadas listadas acima, por favor.

De frente pro mar, antes a tela do computador, e de costas pro Brasil Walter,ora Quincas Borba, ora Dom Casmurro, apresenta ao leitor suas façanhas, resultado de um caráter pra lá de duvidoso.

Trata-se de um romance naturalista onde o autor parece fugir de seu passado de escritor. Nada a ver com Uma história de família, onde desejo e morte não dispensam o tom sentimental, ou o brilhantismo do inusitado em Stella Manhattan .

A cafajestice de Walter faz de Heranças uma ode ao reacionarismo. Sim, condescendente leitor, este aprendiz está ciente do risco de ser taxado de reacionário ao afirmar que o livro reacionário é reacionário.


Importante ressaltar que em tempos de predomínio da estética da favela, da marginalia, do operário sofrido, quer no cinema, quer na literatura, Silviano opta por um representante do topo da classificação social. Sim,paciente leitor, nossa terra tem palmeira, mas também tem a turma que acumula riquezas, nem todos são da linhagem de caráter do Walter, mas, em sua maioria, carregam farta parcela de culpa pela miséria crescente em qualquer cantão desse país.

Mas quem é Walter? Walter é parente de Jean Sibelius, personagem de um conto de Julian Barnes no livro Um toque de limão, dos velhos canalhas sedutores, personagens de Juan Claudio Lechin em seu abominável A gula do beija-flor.No trabalho de Lechin as maiores semelhanças com as atitudes de Walter onde o desprezo pela mulher se faz notar. Se no livro do boliviano a apologia do sexo livre de sentimentos é a tônica e se Santiago não chega a esse extremo, pois quando Walter abre a guarda é enganado; a ausência de escrúpulos induz abortos e a morte de uma mulher grávida.

O personagem de Silviano Santiago também tem um parentesco com o anão Gregório(também atende por Goyo, Goyto ou Gregori)de Maldita Morte- obra indispensável de Fernando Royuela, preste atenção. Assim como Walter, Goyo aguarda a morte.
Walter: “Confesso.Estive metido de maneira em nada circunstancial no acidente com o Chevrolet. Até a presente data, não tinha conseguido expressar por escrito o envolvimento. À noite, confiei raríssimas vezes palavras de culpa às paredes do quarto.” Sobre a morte da irmã.


Gregório: “Ao longo da minha vida, conheci múltiplos filhos-da-puta e a nenhum desejei uma morte ruim.Meu irmão Tranquilino, no entanto, teve-a. Um trem de carga levou-lhe pela frente a primogenitura.”

Sobre a morte do irmão.
Em Heranças, a figura feminina é sinônimo de obstáculo. No entanto essa resistência não chega a influir no andamento dos planos de Walter, visto que dura pouco, a eliminação desse elemento complicador é uma questão de tempo. Pouco tempo.
Mas vamos a trama.


Walter está em eu apartamento na Vieira Souto, frente pro mar, na companhia de empregados e o indefectível uísque. Em seu computador escreve a sua história, misto de autobiografia e conversa com o leitor. Descreve suas façanhas, as do empresário bem sucedido e as do don Juan inescrupuloso. Lembram das camadas lá em cima? Pois bem, curioso leitor, você também ficará sabendo de detalhes sobre uma Belo Horizonte antiga, será apresentado a alguns pontos turísticos cariocas e sobretudo fará contato com um ser extremamente inescrupuloso, capaz de varrer a própria irmã da sua caminhada rumo a herança.

Sedutor , inescrupuloso, Walter gastou sua vida em marcha veloz rumo a seus objetivos. A velocidade não diminui jamais, não importa se com morte de pai, assassinato de irmã, abortos, Walter quer “chegar lá.” E chega. Utilizando métodos pouco ortodoxos, mas isso não passa de uma insignificância a esse canalha desprovido de charme e simpatia.

Com a morte do pai, a irmã herda o Armarinhos S. José , logo Walter trata de despachá-la, torna-se comerciante, na seqüência envereda pelos meandros da construção civil e para especular na bolsa de valores é um passo curto. Soube moldar-se às exigências dos anos JK, não encontrou dificuldades de adaptação ao período ditatorial e muito menos ao mercado de ações. Ser extremamente adaptável, termina a vida utilizando o computador para realizar seus investimentos e escrever a sua história. Excetuando-se o lucro, tudo o mais seria irrelevante. Inclusive os seres humanos que porventura significassem qualquer tipo de obstáculo nessa corrida rumo ao enriquecimento.

Inescrupuloso é o adjetivo que melhor se adapta a Walter, jovem freqüenta os prostíbulos de Belo Horizonte, no entanto não limita a profissionais suas incursões sexuais, empregadas domésticas em leitos pouco convencionais, os matagais, também engrossam sua lista de conquistas.

Também conserva o hábito de desvirginar moças, não tão recatadas, da sociedade mineira. Rico, sobram-lhe argumentos para demover todas reações a seu comportamento.

E assim caminha o humanismo de Walter, o milionário sedutor.
Infelizmente ele não está sozinho nessa cruzada que leva ao clube dos “bem sucedidos profissionalmente”, primorosamente Silviano Santiago faz uma critica corrosiva à sociedade e à economia em nosso país no período compreendido entre a batuta de JK e o pandeiro desafinado de Lula.


Se Maldita Morte é um romance desprovido de amor, o máximo que se pode identificar seria a sua intenção, no mais, eflúvios do desejo carnal e piedade, em Heranças o amor está presente, embora um amor maltratado.

Walter se apaixona três vezes e a tragédia acompanha o amor. A arquiteta Denise é abandonada. Marta, a guerrilheira, aproveita um vacilo de Walter e usa o “esperto” como instrumento para fugir à prisão e inevitável tortura. Logo mantém um romance com a advogada e milionária Graci. Esta não o inclui em seu inventário. Nem tudo foi exitoso nas tramas incansavelmente urdidas por Walter.

Das mulheres sofisticadas Walter suga-lhes o requinte e a cultura; a contrapartida se dá em forma de viagens. Rio de Janeiro na década de 60 , daí em diante Europa.
Numa de suas viagens, México, encontra a enfermeira Carmen, apaixona-se e como se diz “sossega o facho.” Para não quebrar a regra, chega o dia em que Carmen também é abandonada.


Uma questão sobressai. É aqui que entra Shakespeare, na necessidade de definir o herdeiro. Do mesmo modo que em Rei Lear, a escolha do herdeiro, quais critérios Walter utilizaria para definir o beneficiário, ele que conquistara dinheiro e mulheres? Como não tem descendentes a escolha recairá, de forma inusitada aparentando uma tentativa do autor de redimir personagem tão abjeta, sobre alguém sem laços sanguineos, mas que já “rondara” a família. Estamos diante do desfecho do livro e aí falou mais alto o moralismo, a mea culpa de Walter. Desandou.

Culto leitor, não ingresse no rol dos taxidermistas, é sempre uma possibilidade, ao tratar de Heranças, enverede pelas camadas, vista a pele de Walter e retire pele por pele conforme ele faz com as vestes de suas vitimas sexuais.Mas ao contrário dele, o faça com bastante amor.

TRECHO

A amizade é sempre pasto de velhas e novas carências. Quando os sentimentos familiares, amorosos e profissionais entram em dieta afetiva, o boi-memória se alimenta do capim-gordura no pasto das antigas camaradagens. Como aqueles sentimentos foram parcos na vida de homem solitário, notívago, mulherengo, globetrotter e milionário, os velhos amigos são mais do que o capim-gordura, que sacia a fome do boi-memória. Proporcionam a recuperação de energia vital pelos sete estômagos dos afetos, que ruminam as saudades dos tempos de menino e rapaz na cidade de Belo Horizonte, que cresce anarquicamente. São a força que me impeliu a imaginar - para nela querer acreditar - a inapelável existência da solidariedade no planeta Terra. Se quiser reconhecer a sim para além do espelho fixado nos azulejos coloridos acima do lavabo, o ser humano não pode renegar os olhos dos coleginhas de infância. Não são eles que lhe proporcionaram, e continuam a proporcionar a boa imagem de fora pra dentro?
Se os renegar, acabará por pedir socorro à religião. Levantará os olhos do espelho em direção a um deus todo-poderoso, esculpido em barro ou madeira, em letra impressa ou idéias.
- Vade retro!
Desde que optei pela solidão acompanhada, invoco com freqüência essa deusa demasiadamente humana, a que chamo de Amizade. Aos pés de seu altar, onde impera o rosto esculpido em legitima hematita mineira, ajoelho e rezo nos momentos sorumbáticos do dia ou da noite. A Amizade é uma espécie de pólo catalisador da sensação concreta e extraterrena de fraternidade.

O AUTOR
Silviano Santiago é escritor e critico literário. Por quatro vezes recebeu o Prêmio Jabuti nas categorias de romance e conto. Entre seus livros de ficção destacam-se Em liberdade, Stella Manhattan, Uma história de família, De cócoras, O falso mentiroso, os livros de contos Keith Jarrett no Blue Note e Histórias mal contadas, os ensaios Uma literatura nos trópicos, Nas malhas da letra e As raízes e o labirinto da América Latina.





Resenha: Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o pássaro com
alma de cão", ed. Conex e "Nenhum pássaro no céu"-ed. Fábrica de Leitura. Professor de Literatura, coordenador do curso de pós-graduação latu-sensu Literatura-produção literária, das Faculdades Monteiro Lobato-FATO-Porto Alegre.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Lenço no pescoço, samba no bolso
Wilson Batista X Noel Rosa


Adepto da malandragem, Wilson Batista inscreveu seu nome no samba com muitas composições e uma famosa polêmica

Valdemar Valente Júnior


“Samba é como meretriz: de quem pagar mais”. Wilson Batista definia sua atividade sem meias palavras, admitindo a venda da autoria de seus sambas quando a situação apertava e ele ficava sem nenhum. E embora tenha sido um dos mais produtivos compositores do país, com mais de 700 canções, o pagamento nunca esteve à altura de sua arte. Viveu para a malandragem e morreu sem nada.

Desde pequeno, em Campos, sua cidade natal, no norte fluminense, Wilson já demonstrava versatilidade musical: compunha, tocava triângulo na banda Lira de Apolo e criava paródias de músicas conhecidas para o Bando Corbeille de Flores, do qual também era integrante. Tinha 16 anos quando se mudou com a família para o Rio de Janeiro, em 1929. Sua vida mudaria rapidamente.

Pouco dado ao trabalho e aos estudos, resolveu morar sozinho perto do bairro da Lapa, reduto de músicos e boêmios, passando a freqüentar as rodas nos bares e cafés do Largo da Lapa e da Praça Tiradentes. O teatro de revista era a principal vitrine musical de uma época em que o rádio ainda não tinha se firmado como canal de comunicação urbana, e para se aproximar do meio artístico, Wilson arranjou bicos como contra-regra e iluminador dos espetáculos. Foi assim que fez chegar à cantora Araci Cortes (1904-1985) o primeiro samba que compôs, “Na estrada da vida”. Era ainda 1929 quando ela apresentou ao público os versos “Todo homem carrega a sua cruz/ Na estrada da vida que é longa e sem luz”.

Da estreia no teatro de revista decorreu a gravação, em 1932, de "por favor, vá embora" (parceria com Benedito Lacerda), cantada por Patrício Teixeira. No ano seguinte, Wilson Batista entrou numa polêmica que se tornou histórica, envolvendo outro grande nome da música: Noel Rosa.


No samba "Lenço no pescoço", gravado por Sílvio Caldas, Wilson axalta a condição de malandro: "Eu tenho orgulho/ em ser tão vadio/ sei que eles falam/ deste meu proceder/ eu vejo quem trabalha/ andar no miserê". Em resposta, Noel Rosa compõe "Rapaz folgado": "Malandro é palavra derrotista/ que só serve para tirar/ todo o valor do sambista". A tréplica veio com "Mocinho da Vila", uma clara referência ao desafeto: "Você é mocinho da Vila (...) injusto é seu comentário/ fala de malandro/ quem é otário".


Daí se seguiu uma aparente trégua entre os compositores, mas ela só durou até 1935, quando "Feitiço da Vila" reacendeu na questão. Não pela letra original, um dos muitos sambas a exaltar um bairro da cidade, mas pelas provocações de Noel durante improvisos feitos no "Programa Casé", veiculado pela rádio Philips. O samba original ganhou os seguintes versos: "A zona mais traquila/ é a nossa Vila/ o berço dos folgados/ não há um cadeado no portão/ porque na Vila/ não há ladrão". A paródia teria a ver com a vida pessoal de Wilson, que havia sido preso várias vezes por furto e por vadiagem. Comenta-se no meio musical que Noel preparava uma série de novos sambas pondo lenha na fogueira. O revide de Wilson Batista veio no ato, com "Conversa fiada": "É conversa fiada/ dizerem que samba/ na Vila tem feitiço (...) antes de irem dormir/ deem duas voltas no cadeado".
A irritação de Noel não tardou a se manifestar. Em 1936, Araci de Almeida gravou seu bombástico "Palpite infeliz": "Pra que ligar a quem não sabe/ aonde tem o seu nariz?/ quem é você que não sabe o que diz?" Wilson ainda compôs dois sambas que ficaram sem resposta. Em "Frankenstein da Vila", referia-se ao defeito físico de Noel, uma deformação no queixo provocada no parto: "Boa impressão nunca se tem/ quando se encontra um certo alguém/ que até parece o Frankenstein".

E em "Terra de cego" ironizava a melhor condição social do "Poeta da Vila": "Perde a mania de bamba/ todos sabem qual é/ o tem diploma no samba".

Algum tempo depois, no restaurante O Leitão, na Lapa, os dois fizeram as pazes. Como era de se esperar, o encontro também deu um samba: Noel pôs letra nova na melodia de "Terra de cego", que passou a se chamar "Deixa de ser convencida".

Vítima de tuberculose, Noel morreu em maio de 1937, meses antes da entrada em vigor do Estado Novo de Getúlio Vargas. O regime promoveu uma intensa propaganda do trabalhismo, investindo na formação de um proletariado ordeiro e tutelado, numa espécie de imagem digna da pobreza. As referências à malandragem, até então vistas com certa tolerância, passam a ser censuradas com rigor. Nesta situação, por questões de sobrevivência, o malandro provisoriamente "se regenera".

Até mesmo Wilson Batista, defensor convicto da malandragem, se rende ao ambiente da época e, em samba, ressalta a importância do trabalho. Em 1941 ele compõe, com Ataulfo Alves, "O bonde São Januário", sucesso de carnaval: "Quem trabalha é que trem razão/ eu digo e não tenho medo de errar/ o bonde São Januário/ leva mais um operário/ sou eu que vou trabalhar".

Os valores tradicionais da família também passaram a ser louvados pelo agora bem-comportado mundo do samba. O maior sucesso de Wilson Batista até então trata exatamente disso: em "Oh, seu Oscar" (1940) um marido abandonado se lamenta: "Fiz tudo para ver seu bem-estar/ até no cais do porto eu fui parar/ martirizando meu corpo noite e dia". E a figura do chefe de família responsável aparecerá em várias outras composições, como "Ganha-se pouco, mas é divertido" (1941), "Boa companheira" e "Emília", ambos de 1942;

Os anos difíceis da Segunda Guerra Mundial - especialmente com a entrada do Brasil no conflito em 1944 - deram origem a sambas primorosos. A figura do sambista Laurindo, personagem fictício que aparece pela primeira vez no samba "Triste cuíca", de Noel Rosa e Hervê Cordovil, é recuperada como herói de guerra em "Lá em Mangueira", "Comício em Mangueira" e "Cabo Laurindo": "Laurindo voltou coberto de glória/ trazendo garboso no peito/ a cruz da vitória".

O malandro torna-se "chefe de família" em 1945, ao casar-se com Marina. Era uma jovem baiana que ele conhecera num baile de carnaval. Desde o namoro, a musa inspiradora já lhe rendia belos sambas, como "Lealdade" - "Serei , serei leal contigo/ quado eu cansar dos teus beijos, te digo" - e "E o 56 não veio" - "Será que ela não veio porque se zangou?/ ou o bonde Alegria descarilou?" O nome do bonde não era licença poética. Quando os namorados brigavam, Marina deixava de ir ao seu encontro na Central do Brasil e pegava uma condução que passava pelo cais do porto, percurso diferente do Alegria, linha 56. Os quatro anos de casamento coinscidiram com algumas da melhores composições de Wilson, como "Louco" (ela é seu mundo) e "Vulto".

A parceria com o compositor e caricaturista Nássara (1910-1996) foi outra fonte de sucesso. Emplacaram as marchas "Balzaquina" (1950) e "Sereia de Copacabana" (1951) e o samba "Mundo de zinco" (1952). Quando o cantor Francisco Alves morreu num acidente de carro em 1952, recebeu da dupla uma homenagem comovente - em "Chico Viola", Wilson aproveita para mostrar que seu antigo desafeto, Noel Rosa, também tinha lugar de honra na memória do samba: "Na voz do plangente violão/ ele deixou seu coração/ partiu, disse adeus/ foi pro céu/ foi fazer, foi fazer/ companhia a Noel".

Com a chegada da Bossa Nova e, mais tarde, da Jovem Guarda, Wilson Batista tornou-se um compositor fora de moda. Para piorar, sua saúde era precária. Com problemas cardíacos e uma infiltração pulmonar, era uma pálida lembrança do homem elegante de outros tempos, sempre vestido de terno azul-marinho ou branco e camisa de seda.O consumo de drogas agravava ainda mais seu estado. A aparência dizia tudo: olheiras profundas, rosto magro e barba por fazer.

Viveu seus últimos anos na mais absoluta miséria. Quem o conhecia se cansara de "levar mordidas" de dinheiro emprestado que nunca voltava. Wilson vendia seus sambas por qualquer preço, especialmente para Jorge de Castro, contraventor do jogo de bicho. Foi despejado do apartamento onde morava, na Rua Senador Dantas, por falta de pagamento.

Wilson Batista morreu numa enfermaria coletiva do Hospital Souza Aguiar no dia 07 de julho de 1968, quatro dias depois de completar 55 anos. A seu pedido, foi providenciado um smocking, pois queria ir para o outro mundo em traje de gala. Seu corpo foi enterrado ao anoitecer, em homenagem a quem amou a noite.

Deixou um sofá, uma geladeira, uma vitrola, um gravador, um caderno com letras de músicas e alguns troféus. Mas seu maior legado não tem preço: as composições e a malandragem que ele eternizou no imaginário carioca.

(* Publicado na Revista de "História da Biblioteca Nacional', Ano 4/ No. 41/Fevereiro de 2009).

Sobre o autor:


Valdemar Ferreira Valente Junior


  1. . Doutor e Mestre em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Bacharel em Letras pela UFRJ;

. Professor do Curso de Graduação em Letras da Centro Universitário da Cidade - UniverCidade/RJ;

. Professor do Curso de Graduação em Letras da Universidade Castelo Branco/RJ.

Outras publicações:



O livro de Cultura Luso-brasileira apresenta as origens da nossa colonização, do século XVI até metade do século XX. O objetivo do livro é oferecer condições básicas para o aluno sobre a formação do Brasil, ampliando sua visão sobre os aspectos socioculturais de nosso país. O livro está dividido em 12 capítulos, contemplando a grandeza do barroco, a independência política, a república de cartolina, as visões do arcaico e do moderno, os efeitos da crise de 1930 até a chegada do século XX e a visão dos visitantes estrangeiros sobre o Brasil.

Livro e 2 DVDs incluem os temas:
:: Origens da história cultural brasileira;
:: A grandeza do Barroco e a riqueza da colônia;
:: Independência política e nacionalismo cultural;
:: A república de cartolina;
:: Visões do arcaico e do moderno;
:: 1922 e o século XX;
:: 1930 e os efeitos da crise;
:: Da casa-grande às raízes do Brasil.



Onde comprar:


Editora:IESDE

http://www.videolivraria.com.br/iesde/dept.asp?partner_id=&old_template_id=74&tu=b2c&dept_id=620&template_id=74
ISBN:978-85-7638-880-7
Ano:2008
Edição:1
Número de páginas:120
Acabamento: Brochura
Formato: Grande
Quant. DVDs: 2
Número de videoaulas: 12
Tempo aprox. de videoaulas: 04 h 40 min.




Tempo de amar (Resenha)



Romance de transição, Tempo de amar situa-se como marco divisório, sendo que, com seu aparecimento, Autran Dourado consolida-se como um dos mais expressivos e inovadores autores da ficção brasileira contemporânea. O modelo de sociedade patriarcal mineira e o descompasso de vida de Ismael, o menino e o homem, são o pano de fundo responsável pela tensão narrativa de Tempo de amar, de Autran Dourado, romance publicado em 1952, reeditado pela Rocco, em 2004. O retorno do convento, para onde fora ainda criança, coincide com a dificuldade do rapaz culto em lidar com o mundo do trabalho, representado pela frustração de Bento, seu pai, comerciante sem horizontes, que vê no filho a realização do que não fora.A opressão do pai, aliada à memória de um passado de medo e conformismo, reforça em Ismael, o jovem alheio, ao lado de Paula, a namorada triste e sonhadora, o desejo de fugir de Cercado Velho, para bem longe construírem um mundo de liberdade. Narrado em terceira pessoa, Tempo de amar oscila entre o presente e a memória. A figura autoritária do avô Elpídio, o retorno da tia Evangelina, a submissão da avó Ritota e a morte da irmã Ursulina pertencem a um passado que se junta ao presente da doença de Celeste, sua mãe, e das discussões com o pai, contrário ao desejo do filho em seguir um caminho original ante a vida restrita em Cercado Velho. A família, a casa, tudo enfim, são para Ismael a representação de uma morte lenta e anunciada. A realidade grotesca não tem qualquer semelhança com os sonhos que cultiva desde a infância. Depois de claudicar por momentos, acaba por aceitar o emprego no cartório e reelabora o plano de fugir com Paula. Por fim, entre o assassinato de seu Tinoco por Gonçalo, o amor da prima Tarsila e a gravidez de Paula, que deixa Cercado Velho, Ismael desiste de partir, acomodando-se ao emprego no cartório e às limitações da vida provinciana.

http://www.univercidade.edu/uc/ci/dicaslivros/l_tempo_amar.htm

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

AS CONFISSÕES DO HOMEM INVISÍVEL

As confissões do homem invisível corre o sério risco de servir de manual para outras leituras dada a quantidade de referências ali contidas. Este atrevido aprendiz não pretende buscar outras, mas sugere ao leitor um confronto pacífico com Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Invisibilidade e cegueira ,onde se aproximam, onde se afastam. Nos enredos abordados, até que ponto influem na condição humana?
A história de Alexandre Plosk tem início quando o protagonista descobre, numa fábrica de espelhos, que sua imagem não afeta mais esse objeto. Daí em diante tudo na vida do personagem leva à confusão e daí a tristeza basta um sopro. É o que acontece quando nos falta coragem para olhar para o fundo do poço escuro de nossa alma. Forçado a mergulhos inevitáveis e geralmente trágicos no seu passado guiado pelo oxigênio da lucidez, perceber que não soube amar. Vem daí o grande combustível para a tristeza e a confusão mental. Até...desaparecer! Então tenta voltar, refazer o caminho para a dor doer menos. Esquece que na ânsia de voltar pode se perder definitivamente. Uma amiga já morta dizia: “ quando decidimos voltar é por que estamos perdidos.”
A relação mal resolvida com Alice, que também se torna invisível e esconde um segredo, dá a entender que certos amores não reclamam soluções, necessitam de solidões. Exigem que permaneçam unidos, na dor. Na aflição da alma. A angústia que faz inventar. Outros homens, outras mulheres, outros dias. E assim a vida ergue seus prédios, seus monumentos, permitindo a possibilidade de que ali naquela próxima esquina venha a encontrar outras dúvidas.Quem sabe, tenha morrido? Alice, o irmão, teria morrido por sua (do protagonista) culpa, ou por acaso.De qualquer sorte, a morte será sempre um retrato. Quem sabe um espelho a refletir a ausência? Nada mais que um instante paralisado da vida dos que restaram. Morte não se resume a dor, tristeza, é falta de costume.





O protagonista não guarda saudades, alimenta a amargura fruto da incerteza; não sente vontade de saber de ninguém, o passado é um ladrão egoísta que lhe deu às costas. Também não chega a ser daqueles tipos sorumbáticos que perambulam por aí sob o peso das cicatrizes do sofrimento.
Assim como para Alice, também para ele o que conferia um significado especial à vida não era o visível mas sim o sentido. Nunca conseguiriam a união.
E por falar em espelhos ,sua incansável apropriação pela literatura e a anteriormente citada quantidade de referências me obrigo a pensar na indigência intelectual que grassa em nosso país, a começar pelo bizarro presidente que supostamente nos comanda, e uma questão se impõem. O potencial criativo do escritor e o interpretativo do leitor. Até que ponto a formação, a intensidade e sutileza interpretativa, bem como a complexidade estética de ambos deve ter mais ou menos extensão semelhante? Do contrário a arte, no caso a literária, pode virar enigma, ou então refletir o território bizarro onde um Tarso ou um Genro ditará as regras. Creio que aí se justifique a presença da crítica, com uma atuação isenta que ajude a ordenar as emoções. Nunca esquecendo que a critica é plenamente dispensável, a obra de arte não precisa dela para existir, a obra de arte permite inferir uma realidade criadora e um leitor que se relaciona com ela também de maneira criativa.
As confissões do homem invisível é uma arriscada investida do autor, homem de cinema, pelas veredas literárias. Se atualmente o que mais se vê é autor escrevendo na expectativa de adaptação para o cinema, Alexandre Plosk parece fazer o caminho inverso. As confissões do homem invisível não é um romance linear, muda o tempo, muda o narrador, muda o cenário,e se o roteirista foi por demais criativo, ao montador faltou talento e expôs o leitor/espectador a uma enxurrada de informações e caso não disponha dos coletes salva vidas nas cores, filosofia, cinema, literatura, mais precisamente Kafka, Lewis Carol, Joyce, na certa entregará os pontos e deixará se hipnotizar por Morfeu.
Fica um travo de trabalho acadêmico com orientador preguiçoso; várias possibilidades e nenhuma aproveitada em sua totalidade . Uma pena, pois Alexandre abriu várias frentes, todas riquíssimas, não precisava abarcar todas, a história principal não carece de tamanho labirinto. Ficou parecido com a série de TV, O homem invisível. O lúdico superou o literário. Importante ressaltar que aqui nesse espaço tratamos de literatura, as virtudes cinematográficas, se por ventura existirem, serão sempre secundárias. Não entendo como mérito dizer que o livro A é bom porque daria um bom filme, no universo precário deste aprendiz o livro é bom ou tem qualidades porque é bom ou tem qualidades como livro. E basta. Do mesmo modo que um livro ruim nas mãos de um grande realizador pode resultar num grande filme. O que não podemos fazer durante a análise de um livro é projetarmos seu futuro numa outra forma de expressão. Pretensão descabida. Feita a observação mais que necessária voltemos em busca do fio da meada. Pois bem, se na obra o autor cria uma realidade soberana, essa mesma realidade também é frágil. Está a mercê das carências, veleidades e opiniões daqueles que se acercam dela.
Como convencer determinado leitor da importância de tal obra se a opção estética da mesma não faz parte de seu mundo?
Certa vez um poeta jovem afirmou a respeito de Paul Celan, Lezama Lima e Ezra Poud, que “ para desfrutar dos malabarismos, dos contorcionismos e os triplos saltos mortais, prefiro ir ao circo.”




Sem concordar com o jovem poeta, a frase serve como alerta: nenhuma obra está fora de perigo, nem sempre a qualidade se impõem por si , dependerá sempre do gosto e da formação do leitor. E aí que As confissões do homem invisível começam a correr perigo.
Contra as limitações do gosto individual nada se pode fazer, no entanto quanto a formação do leitor se pode debater, estudar, comentar, quem sabe criando novos paradigmas e movimentos estéticos. Talvez resida aí a grande contribuição de Alexandre Plosk, fazer um contraponto da figura do escritor culto,observador, atento a tudo que o cerca, com concepção intuitiva do trabalho literário.
O autor parece querer recuperar, ou quem sabe fundar uma harmonia existencial; unir a consciência ao Todo. Plosk aspira, com As confissões do homem invisível, a reconciliar-se com o mundo; mistura cultura judaica coma teoria do caos,a diluir a dor, a entender a distância e o vazio, a inventar uma maneira de fruir a plenitude onde convivam o desejo e a solidão, a frustração e as lembranças, os sonhos e a justiça. No entanto tamanho engenho acabará por deparar-se frente ao muro sólido da realidade. Então o Eu fragmentado assumirá o papel de Sisifo, e na busca da sua reconstrução renasce em seu sofrimento infindável, embora por vezes acredite tê-lo derrotado. No entanto, a vida não é feita só de alegrias, essa lição todos nós aprendemos muito cedo.Encontrar tristezas! Esse é o problema, encontrar o que não se procura, ninguém sabe onde pesquisar , mas também não é motivo para preocupação...ela vem...é uma coisa beirando a perfeição, a tristeza. Mas podia ser a pazA paz está distante , muito distante da perfeição, para haver paz é necessário que exista um derrotado. A tristeza vem, você não inventa. Depois da tristeza e sofrimento o indivíduo só almeja uma coisa: liberdade. E liberdade implica em perder algumas coisas. Perder, exatamente isso, perder, é o que consegue o protagonista de As confissões do homem invisível. Detalhe importante; caberá a você, visível leitor, decidir se ele encontrou a felicidade.
As confissões do homem invisível não tem por objetivo a articulação lógica, a trama nasce exatamente na desarticulação lógica do protagonista; no entanto se aproxima da tentativa de causar impacto emocional quando um certo viés onírico atua como coadjuvante dos humores da consciência ou dos horrores e dos desejos.
Para concluir: As confissões do homem invisível é a imagem, no espelho de cada um, da luta entre o Eu fragmentado e a unidade, o impulso desde a dor até a eclosão de um novo tempo, sem trevas. A fragmentação existencial do protagonista gera a fragmentação da narrativa - a cisão entre o Eu e o Todo.
Não, não é uma leitura fácil, caso você, preguiçoso leitor, pretender ultrapassar os véus do lúdico que revestem a narrativa. No entanto, se eu fosse você, abandonaria o comodismo pois não se arrependerá, por que
“viver é muito diferente de obstaculizar a morte e no amanhecer dos meus sapatos solitários escuto os passos de alguém igual a mim. Num outro país.”

TRECHO

Enquanto ele fala e fala, cada vez mais banhistas vêm acompanhar a conversa.Eles o incentivam, como se fosse um pastor. Dizem “amém”, “Deus seja louvado” a cada uma de suas brilhantes idéias. O mais incrível é que um grupo de animais vem pouco a pouco se aproximando. Primeiro um coelho, depois um burro, uma tartaruga, um gato, um cachorro...Todos eles parecem escutar suas palavras. Logicamente foram acostumados a isso.Imagino que, ao final, alguém lhes dê algo de comer.
Tio Charles tem um carinho especial pelo coelho. Ele o pega nos braços sem perder o ritmo.O coelho é engraçado.Ele me olha de vez em quando. Parece notar o quanto estou perdido diante de tantos conhecimentos.Tenho a nítida impressão de que está prendendo o riso por minha causa.
E por aí a coisa vai fluindo com Tio Charles encantando sua enorme platéia. Puro/Não-Puro. Rituais que tentam estabelecer diferenças.Deus. Homem. Eu. Outro. Imortalidade.Mortalidade. Construção de sentidos, enfim.
-Muito bem! Então, você entende o que é a Lógica. Ela faz sentido para você, não faz? Então, se a Lógica existe, isso só pode provar que existe também a sua contrapartida, certo?
Agora as coisas poderiam ficar complicadas.
-Lógica, Não-Lógica.Ah! Escolha o nome que quiser!
Consciente, Inconsciente, o que seja! Vamos, isso é moleza, rapaz!
Sigamos juntos: a Não-Lógica pressupõe a ausência total de Lógica, certo?
-Certo.
-Errado! A Não-Lógica é definida como “não-lógica” justamente porque neste universo não-lógico não cabe qualquer comparação com a Lógica. Portanto, a Não-Lógica jamais pode ser entendida através de uma mente lógica.


O AUTOR
Alexandre Plosk nasceu no Rio de Janeiro em 1968. Cursou publicidade e cinema.Além da literatura, trabalha com roteiro de cinema e televisão.Assinou a direção de curtas-metragens e escreveu o roteiro do longa Bellini e a Esfinge, prêmio de melhor filme do Festival do Rio. Em 2004, estreou na literatura com o romance Livro zero, As confissões do homem invisível é sua segunda obra literária.Atualmente, Plosk é roteirista da TV Globo.

Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed.Conex e Nenhum pássaro no céu, ed. Fábrica de Leitura, professor de Lingua Portuguesa e Literatura, mestrando em Letras.